a cavilha

cavilha

Poderia fazer parte do diário de um sótão, mas este nunca foi escrito. Por falta dele importa aqui apenas deixar a cautela para que nunca alguém, com pleno discernimento, se comprometa a recuperar pelas suas próprias mãos um esconso espaço como esse. Sobretudo se apenas serve para ser asilo de pó e coisas escusadas há mais de 130 anos. Os trabalhos ocultos que estão por detrás do ponto de partida para o que deveria ser uma curta e planeada obra são tão insopesáveis que só depois de neles imergidos, agastados com tanta faxina por entre escombros, teias de aranha, toneladas de pó e de todo o tipo de depósitos envelhecidos, quando por fim devíamos estar prestes a iniciar a tomar a acção da obra, nos apercebemos que metade do nosso vigor já se foi. Talvez essa centelha de energia tenha sido afinal o que me faltou para que o sótão, habitável e habitado – é verdade – desde então, continue ainda assim por acabar.

O sótão. Voltemos então àqueles dias que com devota e esforçada vontade me engalfinhava nele ainda antes de poder provar ao mundo a minha mestria nos travamentos, afagamentos e outros trabalhos virtuosos de carpintaria. Decerto que trazer aquele espaço para os dias de hoje, afastar-lhe a penumbra preguiçosa, fazê-lo ser de novo parte da casa, não foi fácil, pois isso mesmo já contei ou deixei aqui por contar. Mas foi sobretudo inglório, pois que as grandes e brutas tarefas que me entregaram à sua recuperação são, no resultado final, absolutamente indiscerníveis. Uma delas foi dar conta do soalho, ou melhor, do solho que o cobria, já que falamos de um tabuado reles, de espessura laminada, que se espraiava desmazeladamente por aqueles 70 metros quadrados, e que assim escondia por baixo de si o verdadeiro soalho, velho e esburacado é certo, mas de um madeiro tão denso e generoso que assim que lhe destapei um dos cantos não mais parei até o fazer regressar à luz.

Maldita a hora desse meu ímpeto que depois de começado me aprisionou por dezenas de dias a fio nesse labor de o desaprisionar. Pode não ser compreensível e para os mais críticos até motivo de riso: como é possível alguém despender o final de tantos dias durante semanas seguidas apenas para despregar um tabuado, aventarão, mas isso porque nunca experimentaram descravar um madeirame pregado com cavilhas manuais do tamanho de um dedo, ali cravadas há tanto tempo que a sua própria ferrugem se fez cola das peças a que se fincavam. Apanhar-lhe pontas por onde pudesse arranjar uma base para alavancar, aproveitar-lhe o efeito de mola sem o quebrar, malhar-lhe à força bruta para daí só tirar ligeiras folgas por onde depois intrometesse os formões que não me davam de ganho mais que uns míseros milímetros. Enfim, todas as técnicas, das mais viris às mais desesperadas, têm nesta lida de ser consideradas e destas, nenhuma recomendo a ninguém.

Todo aquele madeirame velho e empoeirado, que sobrava à medida que ia desfraldando o soalho, ia-o amontando em pilhas a um canto do sótão, para despacho. Entremeava então o seu árduo desapegamento com o transporte furtivo dos seus restos estraçalhados para um recôndito contentor que, ainda que próximo, me obrigava a sucessivas idas e vindas com a carrinha. De cada ida lá carregava entre braços uma dúzia de tábuas com não menos de 2 metros, engatilhadas no antebraço, com as quais ia percorrendo um sinuoso percurso, primeiro pelas escadas ingremes do sótão, depois pelos corredores da casa, finalmente na dobragem de cada lanço das escadas do prédio, para finalmente as largar enraivecido e extenuado na bagageira escancarada da carrinha. Pelo caminho ia deixando um trilho de parede esboroada que de cada vez mais se acentuava. Também aqui, e tome-se atenção, também aqui esta operação se repetiu por dezenas e dezenas de vezes, como todas as outras tarefas ingratas que hoje quem olha para o sótão não terá capacidade de valorizar.

Suado e empapado no pó, de mãos escarafunchadas, amachucado com a violência do trabalho, lá chegava então à rampa inclinada, onde à sorrapa, em dias intervalados, ia descarregando aqueles cadáveres da guerra que ia travando. Mas, até aí, nesse quase só despejar, as coisas se mantinham trabalhosas, que nada nisto se dava por directo ou fácil. E assim, face ao tamanho do tabuado, tinha de o rachar pelo menos em duas partes para que as mesmas coubessem no contentor. Claro está que, face à rudeza do trabalho e ao desgaste que já me tinha levado até ali, aquilo não era para ser feito de forma esmerada e ponderada, mas sim do modo abrutalhado com que me arrastava por aquelas intermináveis operações de desmancho. E nessas coisas não se quer cabeça, mas músculo e raiva.

Resultava então que para esse processo escorava cada uma das tábuas que ia puxando do carro e que apoiava num dos topos no muro ali perto para que a mesma ficasse reclinada, com um bordo assente a meia altura e o outro na calçada. O resto do processo é fácil de imaginar: um salto para tomar impulso e no cair do peso uma sapatada de karaté a meio da velha tábua que se lascava e fragmentava o suficiente para em duas abanadelas a soltar depois em duas metades. E depois tudo voltava ao mesmo, mais uma, duas, dez vezes o percurso escada abaixo, mais um ou outro pedaço da parede a cair esboroado no chão, a irritação das pontas a prenderem-se em tudo o que era esquina ou objecto, o rolar do carro, e outra vez, crash, crash, crash. Não se censure o método: Era um processo bruto e repetitivo que eu tomava contudo como uma espécie de catarse final de um trabalho que me extenuava cada vez mais e que me permitia assim tirar alguma vingança e satisfação.

Nesse dia, o que aqui importa situar, estava um sol de amolecer até o mais intrépido trolha e eu ali a querer despachar as tábuas, pois que sendo a última fase do dia, isso significaria um banho retemperador e uma noite agradável a que já me tinha prometido como recompensa. E upa, mais uma e vai outra e toma lá. Voavam lascas de madeira por todo o lado enquanto as lançava em jeito de dardo para o interior do contentor – nisso, confesso com alguma imodéstia, ganhando-lhe uma habilidade especial: tudo era feito a três tempos, puxava-a da carrinha fazendo-a escorregar num único movimento pela calçada até esta se deixar ficar de viés, depois um pulo a ganhar suspensão e o meu o pé, qual bigorna, a cair-lhe a meia cota, a desferir o golpe fatal.

Consigo admitir agora, a esta distância em que o conto, que perto de dar por findo o trabalho, já antecipando o descanso a que haveria de me oferecer e no embrulho de tanto gesto brusco, tenha facilitado  demasiado, mais do que seria recomendável ao lidar com trabalho tão tosco e pesado. Estava então neste alvoroço de pulverizar o raio das tábuas até que, subitamente, sou interrompido naquela coreografia. Simplesmente estancado, como se contra a minha vontade me fosse vedado mexer. O pé que deveria içar-se para de seguida me deixar apanhar as duas metades não me respondia. Era como se tivesse ganho um fixe no chão. Estranhando-o, olhei então para baixo.

Uma das milhares de cavilhas com que vinha guerreando nos últimos dias saía-me pelo peito do pé, rompendo carne, sapato e o meu próprio discernimento. A imagem não tinha a correspondência do sofrimento esperado o que tornava a situação ainda mais implausível e se alguma dor sentia era tão discreta que não a conseguia associar ao que acabara de me acontecer. E recordo que não se tratava de um prego comum, mas de uma cavilha manual, daquelas facejadas às quatro faces, idêntica, atrevo-me a dizer, às que pregaram Cristo à cruz. Seja achado exagero ou não, ela ali estava, bem encastrada no meu pé, apontando provocadoramente a sua ponta bicuda para mim. Não sou homem de grandes dores e por isso não me fiz cair logo no pânico. Ou talvez, numa versão menos vaidosa, possa apenas vir confirmar aqueles que afirmam que os feridos severos só largo tempo depois se apercebem disso. Seja o que for, iludido por essa estranha ausência de dor, preparei-me para me desenroscar da tábua da maneira mais óbvia, o pé são, pisando-a atrás, o outro, vítima, pronto para se içar.

A pulsão de dor foi tão forte que me deixou prostrado no chão largo tempo, agora sim, incapaz de lidar com aquele tormento de dor que me subia pelo corpo acima. Sem nada ter conseguido e podendo agora antecipar o que me esperava para me desenrascar, ou melhor, desenroscar, daquela situação, fiquei terrificado. De pé, suando em bica, as mãos tremelicando-me de nervoso, ali estava eu pregado a uma tábua de um metro, qual esquiador crucificado, a deixar-me ir ficando, frouxo, a meio de uma rampa, a meio de uma tarde de domingo, no meio de um bairro deserto, sem ninguém que me acudisse, sem querer que ninguém sequer se atrevesse a acudir-me. Quieto não dói, pensava, quieto que daqui não saio, desesperava.

No entanto era evidente que dali só havia uma saída, a da dor inferna que ainda antes experimentara. E ao atrasá-la, a ela que era uma inevitabilidade, cada vez mais sentia a carne pulsar em redor do ferimento e depois irradiando por toda a perna que já nem ousava mexer. Não há cobardes nem corajosos, há é circunstâncias que nos deixam ser cobardes e outras que não nos deixam saída. Ai pudesse eu naquela altura ser tão filósofo e provavelmente ainda lá estaria, a fazer de estaca no bairro. Coloquei então o pé esquerdo por trás do pé trespassado, os dois em linha sobre a tábua, e   … não há palavras que a possam descrever. Posso adorná-la com toda a minha imaginação e prosa que ainda assim não há forma que chegue perto sequer de explicar aquela dor.

O pior tinha sido o facto de ter começado hesitante e aquilo que deveria ter sido um movimento súbito e decidido, foi um longo, lento e cobarde alçar do pé, como se por minha própria vontade estivesse a repuxar a carne para fora. Depois uma pulsão forte, o pé, a perna, como se todo o sofrimento estivesse agora a querer convergir na ferida que se fechava. Bem, sejamos francos, já lá vão uns anos que isto aconteceu e podia estar aqui a noite toda a ensaiar e encenar formas de expressar a dor que não chegaria mais perto da verdade e da vossa compaixão, até porque a dor física é das coisas para mim mais difíceis de pincelar com as palavras. Por isso vamos concluir por dizer que doeu como a merda, e pronto. Quanto tempo depois ali fiquei no chão, ao lado da tábua, não faço ideia. Mas recordo que a dor se aliviou com relativa rapidez e depois já quase nada, pouco mais que uma ferida que apenas me impediria de pousar confortavelmente o pé no chão. E nem um fio de sangue. Quando por fim me levantei foi como se nada se tivesse passado e a pouca dor que me restava esbateu-se no inverosímil.

No chegar a casa já só coxeava ligeiramente mas a palidez que me cobria não enganava olhares atentos. Mas que diabo me tinha caído em cima, interpunham ao meu passar. Eu baixava o olhar, não porque não me atravessasse uma certa vergonha só de antecipar o contar do sucedido, desse salto de karaté com que um homem com idade para ter juízo se deixou pregar. Mas afinal que aconteceu, insistia-se, assim vendo-me emudecido. E eu continuava a fitar o pé. Nem um fio de sangue. A carneira do sapato, dúctil, já se havia fechado sobre o pequeno furo que a trespassara. Aquela dor infernal que ainda antes experimentara não deixara mais que uma pequena mancha escura, um pingo, isso, tudo aquilo agora do tamanho de um pingo. Por qualquer razão tão absurda quanto o incidente lá devo ter achado que uma dor que nem deixa ponta que se veja não merece sequer ser contada. Espetei um prego numa tábua, nada de grave, lá balbuciei enquanto seguia disfarçando o andar, nada de grave, acentuava. Como se pode contar a dor atroz de uma ferida quem nem se deixou ficar para se mostrar. Grave era se me tivessem visto lá, feito um idiota, alquebrado pela punição de um sótão.

Mas mais grave seria deixar-me cair em detalhes. Tenho a certeza que qualquer pormenor onde me demorasse mais iria fazer largar-me em lágrimas. E acontece que eu sempre tive esta ideia absurda de que, uma dor que não se chora é uma ferida que não nos vence.

Manias e cavilhas é afinal a que tudo isto se resume.

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