o dia em que me roubei à minha mãe

Ontem passaram-se 11 dias desde aquela sexta-feira onde bebericava um vodka enquanto abria o envelope da TAC. E 10 dias se passaram depois da conversa em que, pausadamente, como quem conta uma narrativa,  falei primeiro com a Ana e depois com o Francisco e o Diogo. Senti-me forte por ver-lhes reacções tão serenas. Havia alguma falsa objectividade quando me assinalavam que o diagnóstico ainda não estava confirmado e que por enquanto eram opiniões médicas, porque era evidente que se escondia aí um sentimento de negação, mas ainda assim não deixavam de ter razão e eu dei-me por arrependido por não deixar correr esta história guardada dentro de mim por mais uns dias. Mas o que é certo é que a razão não sustenta o ímpeto das emoções e eles portaram-se como eu precisava.

Só que ontem as notícias eram mais confirmadas. Vários exames depois reforçavam as primeiras suspeitas, e estas a serem sustentadas na opinião de um fórum de especialistas, doutores da pneumologia à oncologia, a ciência a querer trazer-me à evidência, ainda sem convicções absolutas, que enfim, haverá ainda esta e aquela possibilidade. O medo do erro ou uma forma piedosa de fazer a verdade entrar lentamente na nossa vida?

Desde ontem já não senti que houvesse razão para o evitar mais. Melhor fazê-lo agora que arriscar que outros o fizessem por mim. E por isso ontem tive a conversa mais difícil da minha vida. Depois deste, outros dias virão, difíceis, muito difíceis, sei-o. Mas nenhum mais difícil que ontem. Nenhum como o de ontem, quando a fitei enquanto as palavras já treinadas me iam saindo da boca. No mundo infinito da natureza humana nenhum dia será mais difícil que esse, o de lhe ver um filho a morrer-se-lhe nos seus olhos.

30 Março

PS: Este post foi escrito na altura aqui datada e só agora publicado para ficar (propositadamente) nos meandros do blog. ( Como este muitos outros, durante 6 meses, foram escritos, talvez como processo de catarse, ficando a sua leitura em privado, só para mim). É pouco provável por isso que seja lido por alguém. Mas se isso acontecer quero que saiba que … passei de facto pela trajectória da morte mas quis o destino que a medicina se enganasse. Em resumo, continuo a ser habitáculo de imensas estrelinhas luminescentes, mas o que quer que isso seja já não aparente ser neoplásico e o que quer que isso seja não me vai deitar abaixo assim tão facilmente. Siga a carroça

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