um medronho no alpendre

O carro rola agora vagarosamente, hesitante, rebocando uma nuvem de pó luminoso debaixo do luar.

Quinze minutos antes estavam respaldados sobre a melhor vista do mundo. O socalco da quinta em primeiro plano a fazer de balcão para diante, na distância mais larga o quadriculado das salinas agora transformadas em viveiros, depois a ria, a dividir-se em dois, e por trás dela a barra a abrir garganta pelo mar adentro. Terra e água pinceladas com o prateado daquela noite de lua cheia e o silêncio dos coaxares, assobios, sibilos e outros sons entrelaçados que só ali, na noite algarvia, longe do ruído das luzes dos aglomerados turísticos, acontecem assim.

Agora, à medida que avançam pelo vale, ziguezagueando por entre as esquinas quadradas que definem os viveiros de capota rebaixada, vão levemente tomando a noção que, ainda que sem gravidade desmesurada, se encaminham para um pequeno acto criminoso. E vão sorrindo, os dois, ainda que nem precisem de olhar um para o outro para saberem que partilham do mesmo estado de espírito. A noite é morna, tão morna como a languidez com que seguem caminho.

Da varanda de onde partiram, a coberto da pérgula e tendo por diante a noite e o mar, a conversa foi escorrendo horas a fio, sem trajectória, apenas acontecendo, sem os acanhamentos que por vezes nos condicionam e nos levam a quebrar o seu acontecer com receio de contradições ou confissões desmesuradas. Quando dois homens se sentam ali, naquelas noites, há mais de 30 e tantos anos, já nada disso faz sentido, nada há que não saibam ou queiram esconder um do outro. As palavras lançam-se, soltam-se e volteiam para voltarem a cair e com elas se brinca e com elas se sorri. Quando dois homens se conhecem assim as palavras não têm dono, alguém as lança e quando caem são dos dois. Nem sempre isso é assim, a vida não é assim, mas naquela varanda, do fundo daqueles anos todos, naquelas noites de verão algarvio, entre eles, as coisas são sempre assim.

O João reduzia agora a velocidade, recomendava-lhe o Zé, para que a nuvem de pó pousasse e a presença deles se tornasse menos conspícua. Lentamente iam olhando em redor à medida que o carro avançava pelos dois trilhos lavrados pelos rodados dos tractores. Desconfiavam ter encontrado a leste o destino daquela incursão. Calmamente trocavam impressões: se aqueles dois focos lá no alto dos postes poderiam ser o seu alvo, ou se estariam a confundi-los com outros mais adiante. E nisto paravam, olhavam para trás, a procurar a varanda lá longe de onde há pouco tinham partido, para lhe tirarem o azimute e acordarem na distância.

Não saberiam certamente precisar como aquilo tinha começado. Às tantas a conversa levou-os ali, enquanto reabasteciam os copos com o delicioso medronho que só a quinta de Monchique produz no mundo. Um casual trocar de palavras, como aliás sempre acontecia, acabou por dar mote a uma nova linha de conversação que, sem que o pretendessem ou disso se importassem, acabou por estimular o que pouco tempo depois haveria de ganhar o volume de uma enorme indignação. Era já noite muito avançada, tanto que já só os dois lhe tinham sobrevivido, quando por fim um deles proferiu em jeito de remate: “que filhos da mãe! para que eram precisos aqueles holofotes enormes ali? já nem a ria se consegue ver!”

Eram aqueles, só poderiam ser aqueles. O João seguiu por diante com o carro, procurando encontrar sítio para inverter a marcha do carro naquela estreita azinhaga, que por prudência seria de ficar apontado por onde tinham vindo. O Zé lançou-se a caminhar ao longo da cerca, procurando-lhe uma falha. Com algum custo, pois que em nada era ajudado pela óbvia tropeguidão, lá descortinou uma zona mais expugnável, por onde se fez desaparecer para o interior da propriedade. Sabia exactamente onde se dirigir, embora se recomendasse de cautela, que local tão iluminado poderia bem ser vigiado ou até mesmo ter cães de guarda. A casinhota das máquinas era de alvenaria, mas a porta estava descuidadamente aberta. Na parede do fundo avistou a instalação, depois encontrou a caixa dos disjuntores e daí seguiu o caminho dos cabos cuidadosamente. Não havia razão para estragar mais do que aquilo que a placidez da ria obrigava. Uma coisa era um acto de sabotagem outro era vandalismo que não assentava bem a quem era pai de filhos. Olhou para os interruptores e depois para os cabos grossos,  rodeou estes com as duas mãos e deu-lhes um vigoroso puxão. A noite voltou.

Quando se voltaram a aninhar no alpendre, as pernas estendidas sobre o murete, o céu começava a ganhar os matizes eléctricos que aproximam a madrugada. Encheram mais um pequeno copo de medronho, lançaram a vista em frente, esticaram-na para um e outro lado. As salinas, a ria e o mar estavam formidáveis e em redor nada os incomodava. A noite tinha voltado a estar desaprisionada.  Sorriram, tilintaram os cálices, beberam um último trago e foram deitar-se sem mais alguma palavra.

do alpendre

Todas as noites, a seguir ao jantar, é no alpendre que a numerosa família se entrega às noites lânguidas e luminosas que só o Algarve sabe trazer. No esvoaçar da conversa, os mais novos, filhos e sobrinhos, comentavam entre si a lisura da noite e a sorte de com tanto empreendimento à volta ter a vista pela frente salva de entulho, cimento e luzes, no que a avó assentia, que pois que era uma sorte, que a quinta quase parecia ser um santuário da família. Os dois sorriram, concordaram e cada um à sua vez se despediu para a deita que a noite anterior tinha sido longa.

Nota do Autor: Esta história é ficcionada; Já não há medronho como aquele, nem nunca existirá alpendre que assim se vire ao mundo. Além disso ainda se admite que dois amigos se possam compreender o suficiente para usarem de meias palavras mesmo que para arquitectarem maliciosos estratagemas, mas é evidente que com quase 50 anos e bem formados nunca se meteriam em vilanagens e a saltar cercas.

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