Monthly Archives: Abril 2016

Filhos da mãe

O dia da mãe é sagrado e para não me chamarem herege antecipo-o com um texto para aqui encontrado. Não se dão flores murchas no dia da mãe. De plástico sim, que as há muitas. Ou um texto sem perfume, como este. 

“Em cada mulher há um regaço de que um homem abusa. Primeiro confundindo afectos com lanches e mochilas preparadas e camas feitas e essas pequenas coisinhas com que ainda miúdos nos vamos rodeando, disso habituando e a elas cercando. Depois, já em adultos, prosseguindo, abusando, aqui já pai dos nossos filhos, a entregar-lhe a ela aquilo que de outra recebemos antes. Não falo dos mimos, sejamos claros, falo daquilo que os homens, hipocritamente, continuam à espera que uma mãe e mais tarde, se possível, uma outra mulher, possa fazer por eles. Nada tem a ver com afectos, fertilidade ou sensibilidade. Falo desse ramerrame que nós homens fazemos por ignorar e desvalorizar, pais e filhos, para o qual as empurramos no teatro do dia-a-dia. Chamamos a nós outros papéis e chamamos a essa labuta de “amor de mãe”. A desfaçatez de uma palavra suave de vez em quando por troca de uma pequena tarefa doméstica.

Elas são as mulheres que amamos. Por isso os mais sensíveis trocam isso por flores e dão urras ao dia da mãe em troca de poesias bonitas. Parece-me bem. Não vejo mesmo o que melhor pode fazer um filho da mãe.”

Anúncios

ode da saudade

Estás longe, por onde andas?

Mas já foi, mas como foi se ainda sinto?

Ainda que o que sinto seja vago de ausência.

 

Nada dizes e se nada dizes com nada fico!

Ou estás ou não estás, ou és ou já não és!

Senão nada mais tenho, para além deste frio de espanto.

 

É um trecho de sonho que agora te traz?

Brincas fazendo copiar pequenos gestos nas mãos dos meus filhos?

É assim que me visitas, quando nada mais vejo que o estranho da dúvida?

 

Que mundo é este que me deixaste?

Uma terra estranha de ti, que ficou estrangeira para mim

Emigrado na saudade, a aprender a viver esta outra vida !

 

Mas onde as escondeste?

Às palavras, memórias, dias, lugares, desígnios …

Se de resto nada encontro, onde anda o nosso passado?

 

E eu onde passei a estar, será que estou?

O meu rosto nos teus olhos, sem eles, qual é o meu rosto?

Também fui contigo? Para onde me levaste se não te encontro?

 

Procurar-te é encontrar-te, sem o saber

Sei agora que a saudade é para isso, para não te encontrar

e para me trazer a continuar a procurar-te, dentro de mim.

 

Nesta mentira piedosa que me conto,  eu que fico

Mas que vazia e inócua seria esta, como a reviveria à vida

Se no que sigo não te trouxesse comigo?


%d bloggers like this: