Monthly Archives: Maio 2016

Lado B

A poucos importará, mas importa ao que aqui escreve registar este pequeno detalhe.

Mudei o nome para ZeB. Ainda pensei em ZeII, mas pareceu-me afectadamente aristocrático.

E o Zé, versão B, tem um tom mais digital, vai melhor com o espumoso das coisas que hoje se escrevem e do efémero que saltita à frente da nossa linha de vida.

Por falar em versão B, vou ter de voltar a escrever tudo de novo.

Tudo!

 


cúpulas

Ao todo eram meia dúzia de crianças que estabeleciam pontes entre si de acordo com os motivos, os momentos, os seus traços de personalidade e a proximidade da idade, apesar de, como em todas as alcateias, existirem alianças naturais, mesmo que estas não fossem reconhecidas de modo cognoscente. Assim, os dias entrecruzavam-se-lhes com motivos de escola, de rua, de amigos, de jogos, enfim, daquilo que preenche as vidas das crianças.

O mais novo preenchia-os fazendo desenhos, desde que gatinhava. Essa disposição foi crescendo consigo e tornou-se uma óbvia inclinação vocacional que se acentuava com o passar dos dias e dos anos e que o mantinha dedicado às suas folhas de papel. Como todas as crianças precisava de estímulo e reconhecimento, procurando assim a paga do seu esforço e o encorajamento necessário à sua dedicação. Para isso era principalmente o segundo quem ele procurava.

Acercava-se dele com aquele ar inocente da idade, hasteando uma folha rabiscada na mão, sempre com a mesma pergunta: “gostas?”. O segundo habituara-se a isso. Lançava descontraidamente breves comentários, alguns elogios ou pequenas críticas, para logo voltar ao que o ocupava antes de ser interrompido. O “gostas?” tornou-se uma rotina entre os dois. Todos os dias o mais novo voltava, ele olhava os desenhos, cada vez mais evoluídos e lançava a sua opinião que, por mais lacónica que fosse, colhia sempre uma atenção grata da parte do mais novo.

Muitos dias e desenhos se foram passando, e tantos foram que o mais novo deixou de ser pequeno e entrou pela puberdade. Cresceu e a sua arte cresceu com ele, mas esses momentos mantinham-se entre eles. Todos os dias fazia um desenho novo, cada vez mais esmerado e dotado e quase todos os dias lhe mostrava um deles. Mas um dia, simplesmente, deixou de colher da parte do segundo qualquer tipo de atenção. Talvez se tivesse habituado a ver a “paga” do seu trabalho nas apreciações mais ou menos fundamentadas do segundo e por isso mantinha-se insistente, mas o segundo, tempestivamente, passara a ignorá-lo em absoluto.

Há datas que não são determináveis e por vezes é preciso olhar muitos anos para trás para podermos associar-lhes efectivamente um acontecimento. Um dia não é datável mas a determinação desse dia, mesmo que inlocalizável, é-o. E há imagens agregadas. O segundo lembra-se de fingir não ver as costas desmaiadas do mais novo quando deixava de receber dele o que se habituara e tentava lidar com a mágoa dele com uma indiferença disfarçada. E lembra-se que nada disto foi repentino, mas sim um processo lento e carnívoro, até que as investidas do mais novo se tornaram cada vez mais esparsas e incertas até perderem o hábito de procurar o irmão.

O mais novo, porque era mais novo e porque era dotado, provavelmente não se terá mais lembrado da dependência que nesse tempo longínquo o delimitava e condicionava. O segundo talvez tenha pensado na altura que um dia lhe fosse possível explicar isso, um dia, quando ambos percebessem melhor as palavras e os significados. O dia em que o dom do mais novo se tornou maior do que a sua capacidade crítica e onde teve a clara percepção de que esse era o dia em que o que dissesse teria de deixar de ser relevante para ele. Não percebia nada de arte, mas sabia de si sobre o acto de criar, esse espaço enorme, vazio, arrepiante às vezes, que nunca poderá ser ocupado por mais ninguém que não o seu criador e as suas interrogações sem resposta.

Algures, nesse tempo indeterminado, com um gesto bruto e calado, cada um passou a seguir o seu desígnio e cada um se tornou homem nele. Hoje, o mais novo desenha enormes cúpulas em céus amarelados. Criações lindas que vão muito para além da sensibilidade que levou o segundo a fazer-se engenheiro. Se o mais novo viesse hoje ter com ele, com esses estranhos desenhos de coisas viradas ao contrário, e lhe perguntasse: “gostas?”, provavelmente o segundo não saberia o que responder. Mas o mais novo nunca lhe perguntaria isso, porque há muitos anos que deixou de precisar de perguntas. Porque há muitos anos que se dedica a inventar respostas.

… e algumas saem-lhe lindas!


a culpa foi do árbitro

Assim que entrei na sala a professora interrogou-me de imediato – “ Mas o que lhe aconteceu?”.

Ser um aluno pouco acima da mediania, a português, numa turma da área científico-tecnológica, conferia-me algum destaque, mesmo que sem grande mérito, e a verdade é que sentia uma estima especial, que era, aliás, recíproca, da parte da professora. Um dia, numa conversa distraída de final de aula, constatámos que partilhávamos o mesmo interesse pelos clássicos. De vez a vez trocávamos umas palavras sobre o que estávamos a ler e quando um dia lhe referi que estava a devorar arrebatadamente os “trabalhadores do mar” do Victor Hugo – livro que aliás foi determinante na acentuação das minhas opções vocacionais – e que ela também elegia, conforme me confessou, como uma obra suprema, desde então passei a ocupar um papel especial naquele rol de alunos desmotivantes. Assim, não sendo um aluno de excelência em Português, ocupava um lugar de interesse especial para ela naquela turma distraída e pouco dada a letras o que, reconheço, inflacionava de alguma forma as minhas notas que em nada tinham correspondência com as classificações que retirava dos testes enfadonhos para os quais era reclamado o tecnicismo da língua portuguesa que nunca me entusiasmou.

Na véspera tinha tido um jogo decisivo de rugby, não menos que a final entre nós (CDUL) e a “Agronomia” no escalão de juniores. Acontece que o jogo tinha descambado e quando demos por nós estávamos os 30 jogadores das duas equipas envolvidos numa melée, mas sem bola. O jogo era determinante e tinha sido muito mal conduzido pelo árbitro o que tinha acicatado ainda mais o nosso destempero, e já se sabe que um turbilhão de jovens de 18 anos não é propriamente uma falange disciplinada do exército. Aliás, não era assim tão incomum este tipo de cortesias que se intrometiam no jogo, por breves instantes, que logo de seguida retomava a sua normalidade. Só que daquela vez estava muito em jogo e os espíritos estavam desgovernados por uma péssima arbitragem. Acontece que, não só o pobre do árbitro não se estava a sair bem, como ainda provou não perceber nada dos protocolos do seu exercício: regra número 1 – nunca se interpor em rixas dentro do campo, 2 – manter uma distância de observação enquanto as mesmas se desenrolam e 3 – no final actuar disciplinarmente e em conformidade com os acontecimentos. Acontece que o senhor, talvez por entender que deveria ter uma intervenção pedagógica, entendeu intrometer-se entre as duas moles de jogadores que naquela altura já estavam completamente ingovernáveis. Paf, paf, para aqui e para acolá, as cores dos equipamentos a misturarem-se e a camisola amarela do árbitro a desaparecer, num ápice, por entre o emaranhado de corpos. Depois de, a custo, ter sido apaziguada a quezília, constatou-se que o senhor que estava algures por baixo do amontoado de corpos, com uma camisola vagamente amarela, não apresentava condições físicas para poder continuar a arbitragem, recomendando-se até que fosse levado a curativos. O jogo ficou suspenso, ninguém ganhou e eu voltei com um lanho na testa  e um olho ligeiramente escurecido.

Foram esses evidentes sinais de atropelamento que levaram a professora, com a simpatia que já reconheci nutrir por mim, a interessar-se sobre a razão do meu estado de saúde. Não me recordo com exactidão em que moldes me expliquei, nem qual o detalhe com que o fiz. Creio que terei sido algo lacónico, mas não o suficiente para dispensar a referência à má actuação do árbitro como razão inicial de tudo o que depois se passou. Ainda hoje me lembro dos olhos esbugalhados com que ela recebeu a minha resposta e da dureza do tom ríspido com que, para minha surpresa, terá retorquido: “uma cambada de crianças malcriadas é o que é, e agora tenho o meu marido em casa a meter gelo no nariz” e, a acentuar, ainda mais furiosamente, “e queira Deus que não tenha de ser operado ao cepto nasal”.

Desconheço se ela teria estado presente a assistir ao jogo, se foi mera associação de casos, ou se efectivamente estávamos perante uma desastrosa e infeliz coincidência mas, obviamente, nunca mais voltámos a falar de Dostoievski ou Hemingway e a classificação final em Português acabou por não ser das que contribuiu decisivamente para a minha média de entrada na universidade.

De qualquer modo, a culpa foi do árbitro.


o sítio certo

Sempre tive dificuldade em lidar com o súbito e a voracidade do cancro, quando ele aconteceu próximo de mim. Senti-me sempre desajeitado, sem saber o que poderia fazer para ajudar nessa dor de alguém. Acho que o meu maior receio foi sempre ser intrusivo, achando que ao aproximar-me poderia não estar a ajudar mas sim a invadir um território de guerra, onde em vez de me pôr à frente das balas estaria a obstruir a zona de tiro. Quase sempre a minha posição acabou por manter uma proximidade vigilante, pronto a responder a uma ordem de chamada, mas dando distância. Como é óbvio nunca ninguém me chamou e eu acabei por ser uma presença indiferente num processo que nunca soube ocupar.  Na verdade, com excepção de um único caso (o único que me chamou e que por isso me afastou do arrepio da inconveniência), sempre me comportei como o primeiro de dois estereótipos que sempre considerei nestas situações.

Há então os que olham para o chão, como eu. Sem saber o que fazer, sentem-se primeiro inúteis e depois desconfortáveis. É um comportamento de fuga e por mais que queiramos interiorizar que o temos por um sinal de respeito e para garantir que não estamos a mais num momento tão crítico para alguém, a verdade é que disso resulta não estar e nada fazer. O segundo comportamento é contudo bem pior, é o daqueles que de imediato nos começam a encharcar de conselhos, desde o médico que devemos consultar até às recomendações sobre o estado de espírito que precisamos manter. O pior é que as pessoas que o praticam são difíceis de afastar e isso por uma razão muito simples, sobrestimam-se. É óbvio que alguém que pensa poder desempenhar esse papel, mesmo que com a melhor das boas vontades, já não está centrada em nós, mas nela mesmo e na sua dor, mesmo que essa derive da nossa própria condição.

Tudo é diferente quando se está do lado de cá. Aqui já não podemos adoptar comportamentos alternativos. Anunciar que temos o bicho cá dentro junto daqueles que nos são próximos não é uma opção é, mais tarde ou mais cedo (isso do ‘quando’ é outra história), uma inevitabilidade. O anúncio do cancro, junto dos meus filhos, da Ana e da minha mãe, foi-me mais doloroso que interiorizá-lo em mim. E se com os meus filhos e a Ana ocorreu com uma surpreendente serenidade, ainda que com um evidente sentimento de negação que era aliás compreensível dado que nada do que era dado como certo estava objectivamente diagnosticado, junto da minha mãe, quando tudo corria para que assim fosse também, talvez porque deixei de ser pai para ser filho, perdi o controlo. Esta foi a única vez que não consegui dar a notícia com os olhos escorridos. Na verdade descobri que retratar o meu incidente o mais factualmente possível, seguindo escrupulosamente a sua cronologia, não só me permitia manter sob controlo, como trazia aos outros um efeito de choque mais moderado e implicava-os numa reacção idêntica à minha. Isso foi muito importante para mim. Admito que haja quem precise de explosões de afecto nessas alturas e que neles possa de alguma forma derramar e aliviar o seu desespero, mas no meu caso, por natureza, sempre sucedeu o contrário. Nada me incomoda mais que isso. Gosto dos gestos de emoção lentos e pensados, que carregam consigo significados bem construídos. Gosto que a emoção me seja trazida como uma linguagem, que mesmo os impulsos sejam sentidos como algo propositado, com significados, sustentado numa vontade expressa em declará-los. Não me sinto cómodo com explosões fátuas de emotividade, de fogos de artifício de lágrimas e risos avulso.

Ao trazer aos outros a notícia da minha condição, desta forma, quase em modo de narrativa, sei-o agora, preparei o clima desejado para a partir daí podermos reagir melhor, ultrapassado o impacto inicial e desviar-me de situações emotivamente descontroladas. Por outro lado preparei melhor o clima da surpresa e da dor súbita, onde normalmente acabam por eclodir os dois comportamentos opostos que referi antes.  Talvez por isso, e para felicidade minha, descobri também que há quem tenha qualidades humanas tão suficientemente reforçadas, que conseguem posicionar-se no sítio certo. E por sorte descobri que vivo rodeado dessas pessoas que trazem consigo, ao mesmo tempo, uma enorme dose de coragem e a sensatez de dosearem comportamentos que se evitam tornar irritantemente intrusivos. Claro que não há um ‘sítio certo’, o que há é um espaço onde se estabelece uma nova relação com quem nos rodeia. Nos dois comportamentos anteriores isso não acontece. No primeiro caso as pessoas que ‘baixam os olhos’ simplesmente se demitem de ocupar esse ‘sítio’ e no segundo caso as pessoas do ‘deves fazer isto’ ocupam-nos tão totalmente que passam a fazer parte do nosso território da doença. Nesta altura da minha vida descobri que sou um afortunado. A maior parte das pessoas que me são próximas trazem consigo uma tal sensibilidade que perceberam que o que eu precisava é que pudéssemos construir um ‘sítio’ novo nesta fase da minha vida. Com alguns um sítio de silêncio e de pequenos mas significantes gestos, para outras um sítio de serenidade e reflexão, para outros as oportunidades dos desabafos alegres com um copo na mão, mas nenhum, até hoje, baixou os olhos ou me deu conselhos.

Hoje percebo na carne quando dizem que é nas más notícias que melhor se descobre a amizade e a generosidade dos outros. E no meio disto tudo sou um homem feliz. Ninguém sabe quando morrerá – nem eu, embora possa ter uma ideia mais aproximada – mas certamente todos quererão, enquanto cá andarem, poderem fazê-lo da melhor maneira. E eu descobri que, seja por dois dias, dois meses ou dois anos, estou no ‘sítio certo’, o sítio onde se quer estar para viver os últimos dias !

13 Maio de 2016


tic tac

Sento-me. Levanto-me. Vou à cozinha. Abro e fecho a porta do frigorífico. Abro-a de novo agora para olhar o interior. Fecho-a, não vinha à procura de fome. Visito a sala. Olho para o pátio. Conto os limões no chão. registo que ainda não comprei a vassoura.Passo para a outra sala. Ligo a televisão. Olho as imagens de alguém a falar. Passam carros ao fundo. Desligo-a. Fico indeciso onde pousar o comando. Faço-me indeciso. Passo pela outra sala. Ajeito o correio. Reviro um envelope fechado. Não tenho curiosidade em abrir. Agarro no telefone. Passo-lhe o dedo. Volto a passar para o trancar. Ajeito uma cadeira pelo caminho. Sento-me outra vez na mesa do computador. Abro o blog. Fecho-o. Volto a abrir. Escrevo isto. Nem olho. Olho o relógio. Passaram 5 minutos. Não tenho fome. Não tenho de fazer já o jantar. Não tenho nada para fazer. Não sei o que fazer. Não me apetece pensar o que possa fazer. Não faço nada.

Às vezes o tempo engole-nos, outras fica engasgado connosco.


a ver se me sinto melhor agora

Se eu apanho o filho da puta que anda há dois meses a gozar comigo e que ainda tem a cobardia de se esconder atrás da lua, juro que lhe vou aos fagotes!


nós, a chuva e as palavras

Mahon (Menorca)

Mahon (Menorca)

Cada vez mais achamos dispor do destino e inventamos dizeres para o reter dentro das fronteiras ‘tecnológicas’ da nossa compreensão. Com a ciência vamos descodificando ínfimas partes do universo e com isso acentuando a ilusória noção antropocêntrica. A visão coperniciana anda cada vez mais longe de nós, a ponto de pretendermos humanizar a própria indeterminabilidade e incomensurabilidade do destino, como se tudo tivesse causa em nós. E porque nada mais temos que possa descodificar o que nos transcende, alguns rezam, mas a maioria de nós inventamos palavras.

É verdade, muitas vezes as palavras invertem o seu propósito e, ao invés de servirem para os retratar, inventam significados que nos servem apenas para serem confortáveis e ilusórios. É o caso. Depois de uns saudados dias caniculares hoje não deveria estar a chover, mas está. Porque a inexpectável chuva acontece porque se trata de um fenómeno natural e a natureza não é algo que dominemos ou antecipemos nos seus humores, e por isso a inconcebível chuva ocorre apesar de a não querermos e acharmos que ela não deveria acontecer.

O inexpectável é o que nos habituamos a achar que não acontece e o inconcebível aquilo que julgamos não estar preparados para aceitar. Nenhuma destas palavras existe verdadeiramente. Nenhuma delas traduz um significado que não o de reduzirmos a um acontecimento perdido o que não dominamos – “ah aconteceu mas era de todo inexpectável e não deixa de ser inconcebível que tenha ocorrido”. Ambas servem para se negarem a si próprias e para convivermos com o que não dominamos. São palavras mentirosas. Nunca as teríamos de usar se as ocasiões em que nos vemos obrigados a aplicá-las não tivessem de facto ocorrido.

Enfim, palavras. Servem para acomodarmos a chuva quando não a esperamos nem queremos.

E no entanto, hoje, chove.


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