o sítio certo

Sempre tive dificuldade em lidar com o súbito e a voracidade do cancro, quando ele aconteceu próximo de mim. Senti-me sempre desajeitado, sem saber o que poderia fazer para ajudar nessa dor de alguém. Acho que o meu maior receio foi sempre ser intrusivo, achando que ao aproximar-me poderia não estar a ajudar mas sim a invadir um território de guerra, onde em vez de me pôr à frente das balas estaria a obstruir a zona de tiro. Quase sempre a minha posição acabou por manter uma proximidade vigilante, pronto a responder a uma ordem de chamada, mas dando distância. Como é óbvio nunca ninguém me chamou e eu acabei por ser uma presença indiferente num processo que nunca soube ocupar.  Na verdade, com excepção de um único caso (o único que me chamou e que por isso me afastou do arrepio da inconveniência), sempre me comportei como o primeiro de dois estereótipos que sempre considerei nestas situações.

Há então os que olham para o chão, como eu. Sem saber o que fazer, sentem-se primeiro inúteis e depois desconfortáveis. É um comportamento de fuga e por mais que queiramos interiorizar que o temos por um sinal de respeito e para garantir que não estamos a mais num momento tão crítico para alguém, a verdade é que disso resulta não estar e nada fazer. O segundo comportamento é contudo bem pior, é o daqueles que de imediato nos começam a encharcar de conselhos, desde o médico que devemos consultar até às recomendações sobre o estado de espírito que precisamos manter. O pior é que as pessoas que o praticam são difíceis de afastar e isso por uma razão muito simples, sobrestimam-se. É óbvio que alguém que pensa poder desempenhar esse papel, mesmo que com a melhor das boas vontades, já não está centrada em nós, mas nela mesmo e na sua dor, mesmo que essa derive da nossa própria condição.

Tudo é diferente quando se está do lado de cá. Aqui já não podemos adoptar comportamentos alternativos. Anunciar que temos o bicho cá dentro junto daqueles que nos são próximos não é uma opção é, mais tarde ou mais cedo (isso do ‘quando’ é outra história), uma inevitabilidade. O anúncio do cancro, junto dos meus filhos, da Ana e da minha mãe, foi-me mais doloroso que interiorizá-lo em mim. E se com os meus filhos e a Ana ocorreu com uma surpreendente serenidade, ainda que com um evidente sentimento de negação que era aliás compreensível dado que nada do que era dado como certo estava objectivamente diagnosticado, junto da minha mãe, quando tudo corria para que assim fosse também, talvez porque deixei de ser pai para ser filho, perdi o controlo. Esta foi a única vez que não consegui dar a notícia com os olhos escorridos. Na verdade descobri que retratar o meu incidente o mais factualmente possível, seguindo escrupulosamente a sua cronologia, não só me permitia manter sob controlo, como trazia aos outros um efeito de choque mais moderado e implicava-os numa reacção idêntica à minha. Isso foi muito importante para mim. Admito que haja quem precise de explosões de afecto nessas alturas e que neles possa de alguma forma derramar e aliviar o seu desespero, mas no meu caso, por natureza, sempre sucedeu o contrário. Nada me incomoda mais que isso. Gosto dos gestos de emoção lentos e pensados, que carregam consigo significados bem construídos. Gosto que a emoção me seja trazida como uma linguagem, que mesmo os impulsos sejam sentidos como algo propositado, com significados, sustentado numa vontade expressa em declará-los. Não me sinto cómodo com explosões fátuas de emotividade, de fogos de artifício de lágrimas e risos avulso.

Ao trazer aos outros a notícia da minha condição, desta forma, quase em modo de narrativa, sei-o agora, preparei o clima desejado para a partir daí podermos reagir melhor, ultrapassado o impacto inicial e desviar-me de situações emotivamente descontroladas. Por outro lado preparei melhor o clima da surpresa e da dor súbita, onde normalmente acabam por eclodir os dois comportamentos opostos que referi antes.  Talvez por isso, e para felicidade minha, descobri também que há quem tenha qualidades humanas tão suficientemente reforçadas, que conseguem posicionar-se no sítio certo. E por sorte descobri que vivo rodeado dessas pessoas que trazem consigo, ao mesmo tempo, uma enorme dose de coragem e a sensatez de dosearem comportamentos que se evitam tornar irritantemente intrusivos. Claro que não há um ‘sítio certo’, o que há é um espaço onde se estabelece uma nova relação com quem nos rodeia. Nos dois comportamentos anteriores isso não acontece. No primeiro caso as pessoas que ‘baixam os olhos’ simplesmente se demitem de ocupar esse ‘sítio’ e no segundo caso as pessoas do ‘deves fazer isto’ ocupam-nos tão totalmente que passam a fazer parte do nosso território da doença. Nesta altura da minha vida descobri que sou um afortunado. A maior parte das pessoas que me são próximas trazem consigo uma tal sensibilidade que perceberam que o que eu precisava é que pudéssemos construir um ‘sítio’ novo nesta fase da minha vida. Com alguns um sítio de silêncio e de pequenos mas significantes gestos, para outras um sítio de serenidade e reflexão, para outros as oportunidades dos desabafos alegres com um copo na mão, mas nenhum, até hoje, baixou os olhos ou me deu conselhos.

Hoje percebo na carne quando dizem que é nas más notícias que melhor se descobre a amizade e a generosidade dos outros. E no meio disto tudo sou um homem feliz. Ninguém sabe quando morrerá – nem eu, embora possa ter uma ideia mais aproximada – mas certamente todos quererão, enquanto cá andarem, poderem fazê-lo da melhor maneira. E eu descobri que, seja por dois dias, dois meses ou dois anos, estou no ‘sítio certo’, o sítio onde se quer estar para viver os últimos dias !

13 Maio de 2016

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