a culpa foi do árbitro

Assim que entrei na sala a professora interrogou-me de imediato – “ Mas o que lhe aconteceu?”.

Ser um aluno pouco acima da mediania, a português, numa turma da área científico-tecnológica, conferia-me algum destaque, mesmo que sem grande mérito, e a verdade é que sentia uma estima especial, que era, aliás, recíproca, da parte da professora. Um dia, numa conversa distraída de final de aula, constatámos que partilhávamos o mesmo interesse pelos clássicos. De vez a vez trocávamos umas palavras sobre o que estávamos a ler e quando um dia lhe referi que estava a devorar arrebatadamente os “trabalhadores do mar” do Victor Hugo – livro que aliás foi determinante na acentuação das minhas opções vocacionais – e que ela também elegia, conforme me confessou, como uma obra suprema, desde então passei a ocupar um papel especial naquele rol de alunos desmotivantes. Assim, não sendo um aluno de excelência em Português, ocupava um lugar de interesse especial para ela naquela turma distraída e pouco dada a letras o que, reconheço, inflacionava de alguma forma as minhas notas que em nada tinham correspondência com as classificações que retirava dos testes enfadonhos para os quais era reclamado o tecnicismo da língua portuguesa que nunca me entusiasmou.

Na véspera tinha tido um jogo decisivo de rugby, não menos que a final entre nós (CDUL) e a “Agronomia” no escalão de juniores. Acontece que o jogo tinha descambado e quando demos por nós estávamos os 30 jogadores das duas equipas envolvidos numa melée, mas sem bola. O jogo era determinante e tinha sido muito mal conduzido pelo árbitro o que tinha acicatado ainda mais o nosso destempero, e já se sabe que um turbilhão de jovens de 18 anos não é propriamente uma falange disciplinada do exército. Aliás, não era assim tão incomum este tipo de cortesias que se intrometiam no jogo, por breves instantes, que logo de seguida retomava a sua normalidade. Só que daquela vez estava muito em jogo e os espíritos estavam desgovernados por uma péssima arbitragem. Acontece que, não só o pobre do árbitro não se estava a sair bem, como ainda provou não perceber nada dos protocolos do seu exercício: regra número 1 – nunca se interpor em rixas dentro do campo, 2 – manter uma distância de observação enquanto as mesmas se desenrolam e 3 – no final actuar disciplinarmente e em conformidade com os acontecimentos. Acontece que o senhor, talvez por entender que deveria ter uma intervenção pedagógica, entendeu intrometer-se entre as duas moles de jogadores que naquela altura já estavam completamente ingovernáveis. Paf, paf, para aqui e para acolá, as cores dos equipamentos a misturarem-se e a camisola amarela do árbitro a desaparecer, num ápice, por entre o emaranhado de corpos. Depois de, a custo, ter sido apaziguada a quezília, constatou-se que o senhor que estava algures por baixo do amontoado de corpos, com uma camisola vagamente amarela, não apresentava condições físicas para poder continuar a arbitragem, recomendando-se até que fosse levado a curativos. O jogo ficou suspenso, ninguém ganhou e eu voltei com um lanho na testa  e um olho ligeiramente escurecido.

Foram esses evidentes sinais de atropelamento que levaram a professora, com a simpatia que já reconheci nutrir por mim, a interessar-se sobre a razão do meu estado de saúde. Não me recordo com exactidão em que moldes me expliquei, nem qual o detalhe com que o fiz. Creio que terei sido algo lacónico, mas não o suficiente para dispensar a referência à má actuação do árbitro como razão inicial de tudo o que depois se passou. Ainda hoje me lembro dos olhos esbugalhados com que ela recebeu a minha resposta e da dureza do tom ríspido com que, para minha surpresa, terá retorquido: “uma cambada de crianças malcriadas é o que é, e agora tenho o meu marido em casa a meter gelo no nariz” e, a acentuar, ainda mais furiosamente, “e queira Deus que não tenha de ser operado ao cepto nasal”.

Desconheço se ela teria estado presente a assistir ao jogo, se foi mera associação de casos, ou se efectivamente estávamos perante uma desastrosa e infeliz coincidência mas, obviamente, nunca mais voltámos a falar de Dostoievski ou Hemingway e a classificação final em Português acabou por não ser das que contribuiu decisivamente para a minha média de entrada na universidade.

De qualquer modo, a culpa foi do árbitro.

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