Monthly Archives: Junho 2016

de noite todas as velas são monstros marinhos

A meio da noite três murros secos na carlinga do barco acordam-me sobressaltado. Tinha feito o turno anterior e apesar do balançar cavalgado do barco dormia um sono profundo. Subo ao poço, noite cerrada e vejo-os aos dois, equilibrando-se das sacudidelas, debruçados sobre um mar cavado e negro. As vagas, a emergência da situação e a agitação da tarefa num instante me livraram do resto do sono que ainda trazia. Braçada a braçada tentavam recolher pelo través de estibordo uma cobra enorme, esbranquiçada, mais longa ainda que o comprido do barco. Estava um vento ruidoso mas ainda assim ouvia-lhes os berros com que tentavam coordenar-se entre si de forma a dominarem aquela enorme criatura que teimava em se debater, esgueirando-se por entre as mãos. Juntei-me a eles, distanciámo-nos uns quatro passos entre nós de forma a cobrir quase todo o bordo do barco e, sincronizadamente, lá fomos levando de vencida aquela guerra com a monstruosa serpente.
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Por fim havíamos vencido. O vento enregelado da noite, o mar que me encharcava e o esforço alvoroçado daquela violenta epopeia só no fim me haviam despertado completamente do sono e o meu discernimento permitiu-me então ver melhor o gigantesco troféu que houvéramos recolhido:   o velame, já sem vida, ainda escorrendo água do seu ventre, jazia ao longo de todo o bordo do barco. Tinha-se rasgado o punho do spi.
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Lá está este armado em Homero, já vos ouço gracejar … Pois experimentem ser raptados ao sono neste alvoroço da noite para retirar um balão de vinte metros arrastado no mar e embrulhado em toneladas d’água, e depois venham cá jurar que não andaram numa guerra com monstros marinhos.
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