Monthly Archives: Novembro 2016

as vozes podem chorar, mas não se choram

O anúncio da morte de um grande músico não me comove mais que a morte do marceneiro que tinha umas mãos de ouro para recuperar os móveis de família. Claro que fico triste, pois com eles esvai-se a possibilidade de amanhã me sentar num outro cadeirão recuperado a escutar mais uma belíssima canção inédita. Como ficarei triste por saber que falecem aqueles que com a sua acção contribuíram directa ou indirectamente para o meu mundo. Mas emocionado, de lágrimas suspensas, a escrever em jornais públicos que “chorei como se tivesse morrido alguém da minha família”? Como posso sentir-me assim com alguém que não conheço, assim como se fosse alguém da minha família?

Esses estados guardo-os fervorosamente na minha intimidade para as perdas dos que me são próximos, daqueles que verdadeiramente conheci e amei e de cuja presença passarei a estar privado. Posso chorar pela ausência desses, que me foram perto, que me faltarão, que nunca mais me repetirão, posso chorar pelas tantas tragédias humanas que se passam por esse mundo fora ou pela dor alheia, aqui mais perto ou longe, mas nunca por uma música que não chegará a existir ou um braço de cadeira que ficará por arranjar. Posso chorar por outros, mas nunca pelo que eles deixaram de me dar por terem morrido. Assim como nunca chorarei por homens que nunca conheci e que morreram algures aos 82 anos. E acho mesmo que isso iria desarranjar a minha caixa de emoções onde carrego as memórias daqueles que verdadeiramente chorei e que quero guardar. Essas memórias que de vez em quando gosto de ir desembrulhando ao som  de uma melodia percorrida pela voz assombrosa do Leonard Cohen, por exemplo.

Entretanto ainda bem que existiu gente que deixou legados como este que, na sua condição perpétua, não precisam das nossas lágrimas para nada:

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