Monthly Archives: Março 2017

da série “a viajar na maionese”

Há alguma relação entre tratar de uma casa velha, limpar o pó esquecido debaixo de uma estante, desfolhar um livro que lemos há 30 anos ou sair inopinadamente a meio de uma tarde de trabalho apenas por decretarmos que estamos cansados? Há, mas não há forma simples de a explicar. E não é importante.

As coisas que não são importantes não são simples de explicar. São apenas coisas não importantes, coisas que se passam connosco. Ninguém sabe resumir às palavras o que vai para além ou aquém delas, ainda que por vezes tenhamos essa sensação enviesada de que tudo, porque acontece, pode ser narrado. E há uns que domam as palavras tão bem que isso parece ter acontecido, mas não aconteceu. Aconteceu o que as palavras descrevem, não o que verdadeiramente aconteceu.

Porque tentar contar o que aconteceu é exactamente a prova de que não o sabemos fazer acontecer outra vez. É por isso que o que acontece connosco é coisa não importante. É apenas o que aconteceu e que não serve para mais nada, não tem nova utilidade. Cada momento morre no instante em que ocorre e as palavras, por mais hábeis que sejam, não o reconstroem com truques de alquimia.

É isso a nossa vida, essas coisas todas que acontecem, que não são importantes e que não poderão nunca ser explicadas. E não passam a ser importantes porque alguém, laboriosamente, as redesenhou no mundo das palavras. Porque isso não é a verdade, nada do que se conta é verdade, embora possa ser importante.

O que connosco vive, está para além disso, faz parte do que não é importante. Porque as coisas pouco importantes são muito mais importantes que as palavras que as tentam contar.


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