Monthly Archives: Junho 2017

há tanto a fazer sobre isto !

 

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dos telexes, faxes e outras coisas mais modernas com que se faz a escrita

Resultado de imagem para máquinas de escrever

Gostava de ter tempo, para ao tempo o transverter para escrita. Porque a escrita imobiliza o tempo, sacode-lhe a pressa, confunde-lhe o ritmo inexorável da vida. Escrever é não deixar que a vida avance muito depressa, porque repetir as nossas percepções do que já aconteceu é vivê-las duas vezes. É viver o dobro por cada linha que se dobra.

Falta o som seco do carreto empurrado no final da linha, assim, afirmativo, para tudo se reiniciar de novo na margem esquerda da linha de baixo, à procura de cada minuto que possa voltar a ser vivido. O tempo a fingir voltar, em cada compasso, onde ainda agora aconteceu.

Mas já não há máquinas de escrever. O barulho metálico dos carretos extinguiu-se. A dactilografia, essa coisa demorada e estrídula que desafiava o tempo, sem a alavanca do final de cada linha, emudeceu com a morte das coisas mecânicas. Resta-nos o toc-toc frenético e cobardemente rectificável dos teclados. O que se escreve para poder ser apagado e corrigido não tem alma nem intenção de imortalidade. Já não há tempo nem máquinas para escrever o tempo que inventa o tempo. O decalque da tinta impressa nas folhas brancas deixou de fazer barulho e poesia, e pior que isso, deixou de ser o resultado único e indelével do ímpeto do seu operador, fosse esse um jornalista, um poeta ou um simples redactor.

Já não há tempo para escrever o tempo. Há uma parte da escrita que se extinguiu com a mortandade da mecânica. O tempo deixou de poder ser grafado a tinta. Deixou de ser perene e irreversível. Deixou de valer o tempo que o tempo merece valer na escrita.


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