Monthly Archives: Julho 2017

“Na morte de um homem quantos homens morrem?”

Marcelo Duarte Mathias


amizades de conveniência

Ao João conheci-o por conveniência, há mais de 40 anos, a ele e ao Chico. Tinha 13 anos, estava apaixonado por uma miúda loura, era muito tímido e eles eram os seus irmãos mais novos. Enfim, eram a oportunidade de cruzar o seu horizonte.

Depois os anos passaram, a paixão juvenil também, mas eles não. Ao João mantive-o sempre por muito perto. Há pessoas que não se podem perder com risco de nos perdermos a nós também. Ao João habituei-me a prendê-lo com amarras de amizade.

Fiquei tão preso dele que foi ele quem fui buscar, talvez há uns 5 anos atrás, para me ajudar a não deixar partir essa mesma miúda loura por quem me tinha apaixonado em miúdo. João, tens de vir. E ficava lá fora, a vê-lo chegar a meio da madrugada, vestido à pressa e depois ao vulto dos dois na janela, a abraçarem-se. E ficava lá fora a vê-lo fazer de mim.

Ao longo da minha vida chamei-o muitas vezes. Chamei-o sempre que precisava fazer de mim e não sabia como o fazer. O João foi sempre uma amizade por conveniência.


porque raio haverias de me passar à frente na fila ?!

Hoje vou finalmente dizer-te umas coisas que tu precisas de ouvir Joni B.

Quantas vezes te disse que não podes ser assim, assim tanto, assim para tantos. Quantas vezes te disse que ninguém pode ser sempre assim, que ninguém é infinito, mesmo que tu o possas parecer. Mas tu nunca acreditaste nisso, pois não, que não podemos estar em todo o lado de cada vez que um de nós te chama, que isso cansa, e muitos e muitas vezes cansa demasiado.

Agora alguns de nós andamos a procurar conforto na religião, como se essa pudesse servir para explicar os desígnios que nós não conseguimos aceitar. Outros vasculhamos a justiça no mundo, como se o mundo com todo aquele mar que sempre nos aprisionou pudesse dar-nos mais respostas do que apenas ser belo. Mas a maior parte de nós remete para as explicações mais prosaicas e tentamos refugiar-nos na ciência para fingirmos compreender o que é ainda inverosímil, como se tudo isto se tivesse resumido a um incidente clínico.

Mas sabes, eu tenho quase a certeza que não foi nada disto. Não foi porque Deus quisesse ou andasse distraído, não foi pelo acaso implacável da nossa condição humana e muito menos foi por enfarte como nos querem fazer crer. Tu morreste pelo coração, sim, mas não morreste do coração. Eu não percebo como tanta gente não sabe ver a diferença nisso, mas sei que num serão bem esgalhado nós os dois seríamos capazes de convencer o mundo inteiro de que eu tenho razão. Ora ouve, que a minha ‘mecânica’ é como a tua ‘música clássica’, irrefutável. Aprendi tanto contigo a escutá-la para não mais a questionar que agora te peço que me escutes tu a mim.

Todas essas merdices extremamente importantes com que te procurava, tantas e tantas vezes, onde é que elas ficavam quando delas me aliviavas? Quando te deixava, às vezes já alvorada, julgas que não sei onde guardavas as coisas de que me tinhas desafogado? E julgas que não sei quantas vezes isso se repetia com tantos outros? Que peito aguenta um coração que precisa de ir sempre guardando bocados de pessoas? Até que tamanho pode um coração crescer dentro dele? Não, tu não morreste do coração, tu morreste pelo coração.

Tudo estaria bem e tu estarias cá se no fim tudo não se resumisse a uma membrana, uma fina película incapaz de suster o quanto tu tiveste de guardar dentro dela, por nós. E quantas vezes te disse isso, caramba. Mas não ligavas e sorrias com aquele jeito que desarma qualquer razão, na tua maneira especial de dizer “não inventes Boné”.

E agora puto, na parte de mim que ia ter contigo quando eu não sabia estar comigo, o que faço com isso? onde ouvirei agora o que não sou capaz de dizer a mim mesmo? em que abraço sereno, em que silêncio, me sentirei tão compreendido?

E agora João, quando precisar de ti, como faço?


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