Monthly Archives: Julho 2018

o último

Fez ontem um ano. Desde esse dia nunca mais aqui escrevi uma linha. Sequei. Abro e fecho o editor deste blogue, sem que nunca, até hoje, mais alguma vez, tenha tido ensejo de voltar a escrever. Não sei porque comecei a escrever, mas sei o que me levou a deixar de o conseguir de fazer. Fiquei com gente a mais dentro de mim.

Nasci com este fado de crescer a vê-los partir de modo destravado e cruel. Contava-os, um por um, e continuo a contá-los quase todos os dias. Já não me cabem numa mão. Ninguém tem tanta gente assim tão próxima que não seja capaz de os juntar nos dedos de uma única mão, mas eu tive, eu tive essa sorte. E muito menos alguém pode ter essa absurda infelicidade de contar assim tantos como já partidos, mas eu tive, eu tive essa malvada infelicidade.

Terá sido por isso que inventei esta estranha alquimia de os querer escrever, a prendê-los, como se tivesse medo que partissem de vez. Mas também aqui ninguém o consegue fazer de modo perpétuo, tão pouco por um, muito menos por tantos, por já tantos. Quem faço eu sobreviver hoje? Este? Aquele? O que agora ainda sinto, (d)escrevendo-o, como pode isso fazê-lo tão perto do que ele me foi? Se o escrevo, tão menos do que foi, ele passa a ser isso assim, menos, e isso torna-se irreversível. Foi este o que mais me custou de todos. Outros foram tão importantes quanto ele, não mais nem menos, que não há escala nisso, há um batente apenas, o batente de incredulidade. Mas o João foi o que me secou. Tenho medo de o escrever, de ao fazê-lo estar a redesenhar as memórias que tenho dele e, depois disso, a reinventar um outro João que já não este, e a perdê-lo, de vez. Tenho medo de o escrever. Tenho medo de escrever. Tenho medo.

Tantas vezes aventei que isso de trazer para aqui era trazê-los para diante, tratar deles, mantê-los junto de mim. Que profunda mentira. Isso só parece acontecer quando eles já não estão assim tanto dentro de nós. É preciso deixar correr o tempo. Que o tempo é mentiroso. Nós também, quando precisamos de nos fazer crer de algo que nos é muito importante. Depois, iludidos de que ainda guardamos os seus gestos, as suas interjeições, os seus risos dentro de nós, desatamos a escrevê-los. Não são eles. São personagens que construímos para julgarmos que são eles. E esse é o momento em que os perdemos de vez. Quando os imaginamos e os mentimos.

Fez ontem um ano. Aqui não mais escrevi uma linha. Sequei-me. Eu não quero recordar-me do João e dos meus outros a partir de personagens inventadas. Figuras fantasmagóricas com risos desenhados em letras a fingirem-se de memórias. É inevitável que esquecerei muitas partes do que eles foram na minha vida. Mas é perverso juntar-lhes texto para redesenhar o que já esqueci. Fico assim. Ficam assim. Eles a irem aos poucos, devagarinho. Todos os dias um pouco mais que esquecerei. Até ao dia em que eu partir. Nesse dia ainda terei algo que os recorda. Será pouco, Mas serão eles. Não será esta fantasia de fim-de-tarde acompanhada de violinos e palavras arredondadas. Não. Será o silêncio disso, onde eles moram dentro de mim, em palavras que nunca existirão.

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