Monthly Archives: Julho 2020

Por entre as folhas

(revisão de texto de 18 maio de 2010)

Olhou pela janela, absorto no horizonte, deixando vaguear por lá a falta de inspiração. Pressionou duas vezes o “enter” num tique hesitante de quem ainda procura  o texto de partida.  Desta vez, a pequena faísca que deveria fazer correr agitadamente os dedos pelo teclado tardava. O seu olhar alternava, irrequieto, entre o ecrã em branco e a capa encerada do livro sobre a mesa que olhava com especial atenção. Por fim, ainda vacilante, num ritmo lento e batucado, como se quisesse ver nascer na tela cada caractére, um por um, como se cada letra merecesse uma atenção solene, deixou, lacónico, um  f…i…c…o…a…q…u…i

Lá ao fundo, na assoalhada que confinava com a sala onde acabara de fechar a tampa do portátil, a sua família debruçava-se entusiasticamente sobre um qualquer afazer que tinha espraiado sobre a mesa de jantar. Deixou-se enlear por breves instantes num enternecimento de lágrimas. Não era assim que queria sentir-se e por isso interrompeu-se,  marcial para consigo, erguendo-se e ajeitando a roupa em redor da cintura. Com as duas mãos – era um tomo pesado – agarrou por fim o Dom Quixote ” que tinha à sua frente. Abriu-o pelo meio e começou a desfolhá-lo com agitação. Sabia exactamente em qual dos seus 126 capítulos encontraria o parágrafo que escolhera e apesar da generosa espessura daquela obra não demorou a descobri-lo.

A frase que, depois de aturada pesquisa, meses a fio, havia escolhido, estava agora diante dos seus olhos. Sabia-a de cor, naturalmente. Não apenas as palavras e o sentido que estas lhe davam, mas também os ritmos e os sons soletrados e era tudo isso que o fizera tomar este trecho para seu pardieiro. Como que a ancorá-la, fincava-a com o indicador enquanto voltava a levantar o olhar. Sorriu-lhes, aos seus, uma última vez, de lá do fundo e depois mergulhou exactamente antes do ponto final do parágrafo que escolhera para o acolher! O livro fechou-se com estrondo, por impulso da sua vontade, mas até isso passou despercebido à família. Há muito que se haviam habituado a conceder-lhe a quase imaterialidade em que vivia mergulhado nesse  mundo paralelo da escrita e qualquer sinal da sua presença tornara-se inconspícuo. Mais tarde, quando o procurassem e encontrassem as suas roupas caídas no chão e apesar do insólito de as verem pigmentadas das letras soltas que se haviam desprendido do texto quando nele entrara, nem então achariam isso demasiado estranho, nesse inverosímil a que os habituara.

Um dia alguém iria voltar a desembainhar a obra de Cervantes e, rolando-lhe apressadamente o espesso das páginas com os dedos lambidos, quiçá acabaria por passar pelo parágrafo remoto para onde se exilara. Teria assim a oportunidade para um breve vislumbre, suficiente, do mundo cá fora, para sentir a mornidão do sol sobre a folha onde agora vivia – nenhum outro material absorve mais tépida e suavemente o sol que um bom papel gramado, assim achava ele. Um momento de interregno certamente tão saboroso como aqueles em que, quando ainda vivia aprisionado num corpo inútil,  chegava a casa, desprendia a gravata e viajava pelas suas leituras. Ainda que agora ele fosse o livro e por isso essa comoção deixasse de fazer sentido.

Não fora de ânimo leve que decidira transladar-se para esse universo que acabara de escolher (*) e isso tão mais determinante e irrevogável que simplesmente morrer. Mas não lhe sobravam já dúvidas sobre essa forma de eternidade que escolhera. Jazeria nessa soberba planície literária, caminharia eternamente pelas terras de La Mancha e desfrutaria infinitamente de cada pedaço mágico da mais notável inspiração humana. Sim – assentia de novo para consigo, encostado à vírgula do terceiro parágrafo onde encontrava a doce Dulcineia em vias de se entregar ao seu Cavaleiro da Triste Figura  – ali poderia finalmente respirar a perenidade da sua solidão.

(*) Cervantes deu a seguinte definição à sua própria obra: “orden desordenada (…) de manera que el arte, imitando à la Naturaleza, parece que allí la vence”


desses estranhos dias que o futuro dirá se nos fizeram diferentes

(para arquivo pessoal numa das gavetas desta caixinha de memórias)

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a morte inerte que virou cadáver

Quatro anos e quatro meses depois, hoje, as consultas médicas de acompanhamento são tidas por telefone. Do lado de lá o médico não consegue esconder uma voz exaltada. Atropela o protocolo habitual, nem ouve o que lhe digo, faz pergunta em cima de pergunta para assim o cumprir e ignora o que eu tenha para dizer. Noto-lhe um fito, uma emergência na conversa, a necessidade de chegar rapidamente a algum lado, e ponho-me em escuta. Calculo que esteja com a TAC da semana passada aberta no computador e deixo-o que me interrompa, que se interrompa, que interrompa tudo “- Não sei o que você fez, mas isto finalmente acabou. Ficaram umas cicatrizes nos pulmões e alguns resíduos, mas o maior nódulo já não tem mais de 4 ou 5 milímetros”.

Aprendi-me a desprezar o bicho. Ninguém é capaz de sobreviver na incerteza. Fomos preparados para reagir aos sobressaltos da vida, à notícia súbita, mas o nosso organismo não está preparado para a incerteza prolongada, tanto assim. Ninguém trata bem dos impostos, da família e do supermercado, dos risos e das lágrimas, vivendo na sombra de uma morte inerte. Ele também não, pelos vistos, mesmo que fosse a minha. Ouvia-lhe crescer a exaltação na voz, talvez por se aliviar na responsabilidade clínica deste caso tão obtuso, talvez apenas pela urgência em dar-me a notícia de que era só bom mensageiro.

E foi assim, numa consulta por telefone, que a minha morte, tantos anos depois, já apodrecida, sem ninguém que lhe ligasse ou coisa que a confirmasse, afinal, virou cadáver.

 

Adenda:  E fica aqui, para minha memória futura, o essencial desta viagem

O Renato partiu sem mim

O sítio certo


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