a morte inerte que virou cadáver

Quatro anos e quatro meses depois, hoje, as consultas médicas de acompanhamento são tidas por telefone. Do lado de lá o médico não consegue esconder uma voz exaltada. Atropela o protocolo habitual, nem ouve o que lhe digo, faz pergunta em cima de pergunta para assim o cumprir e ignora o que eu tenha para dizer. Noto-lhe um fito, uma emergência na conversa, a necessidade de chegar rapidamente a algum lado, e ponho-me em escuta. Calculo que esteja com a TAC da semana passada aberta no computador e deixo-o que me interrompa, que se interrompa, que interrompa tudo “- Não sei o que você fez, mas isto finalmente acabou. Ficaram umas cicatrizes nos pulmões e alguns resíduos, mas o maior nódulo já não tem mais de 4 ou 5 milímetros”.

Aprendi-me a desprezar o bicho. Ninguém é capaz de sobreviver na incerteza. Fomos preparados para reagir aos sobressaltos da vida, à notícia súbita, mas o nosso organismo não está preparado para a incerteza prolongada, tanto assim. Ninguém trata bem dos impostos, da família e do supermercado, dos risos e das lágrimas, vivendo na sombra de uma morte inerte. Ele também não, pelos vistos, mesmo que fosse a minha. Ouvia-lhe crescer a exaltação na voz, talvez por se aliviar na responsabilidade clínica deste caso tão obtuso, talvez apenas pela urgência em dar-me a notícia de que era só bom mensageiro.

E foi assim, numa consulta por telefone, que a minha morte, tantos anos depois, já apodrecida, sem ninguém que lhe ligasse ou coisa que a confirmasse, afinal, virou cadáver.

 

Adenda:  E fica aqui, para minha memória futura, o essencial desta viagem

O Renato partiu sem mim

O sítio certo


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