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dos telexes, faxes e outras coisas mais modernas que se faz a escrita

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Gostava de ter tempo, para ao tempo o transverter para escrita. Porque a escrita imobiliza o tempo, sacode-lhe a pressa, confunde-lhe o ritmo inexorável da vida. Escrever é não deixar que a vida avance muito depressa, porque repetir as nossas percepções do que já aconteceu é vivê-las duas vezes. É viver o dobro por cada linha que se dobra.

Falta o som seco do carreto empurrado no final da linha, assim, afirmativo, para tudo se reiniciar de novo na margem esquerda da linha de baixo, à procura de cada minuto que possa voltar a ser vivido. O tempo a fingir voltar, em cada compasso, onde ainda agora aconteceu.

Mas já não há máquinas de escrever. O barulho metálico dos carretos extinguiu-se. A dactilografia, essa coisa demorada e estrídula que desafiava o tempo, sem a alavanca do final de cada linha, emudeceu com a morte das coisas mecânicas. Resta-nos o toc-toc frenético e cobardemente rectificável dos teclados. O que se escreve para poder ser apagado e corrigido não tem alma nem intenção de imortalidade. Já não há tempo nem máquinas para escrever o tempo que inventa o tempo. O decalque da tinta impressa nas folhas brancas deixou de fazer barulho e poesia, e pior que isso, deixou de ser o resultado único e indelével do ímpeto do seu operador, fosse esse um jornalista, um poeta ou um simples redactor.

Já não há tempo para escrever o tempo. Há uma parte da escrita que se extinguiu com a mortandade da mecânica. O tempo deixou de poder ser grafado a tinta. Deixou de ser perene e irreversível. Deixou de valer o tempo que o tempo merece valer na escrita.


Há inevitavelmente uma altura em que, de súbito, aquilo que fomos e julgamos poder continuar a ser, deixa de fazer sentido. O que se sucede a seguir tem duas estradas possíveis. Deixar acontecer o que afinal não mais acontecerá, ou virar numa encruzilhada qualquer e ficar a pairar sobre um vale de incertezas. A primeira, a da acomodação, leva-nos ao mundo da dormência, onde não mais seremos surpreendidos, onde viveremos entre o não muito nem pouco e sobretudo onde nos tornaremos incapazes de nos entregar à saudável ilusão da esperança. A segunda obriga-nos a esquecer tudo o que fomos, a ficarmos subitamente estrangeiros na nossa vida, o que, convenhamos, obriga a uma tenacidade que já não é para todas as idades. É sempre muito difícil aceitar a mudança, sobretudo porque a mudança, ao contrário da que inventamos, nunca surge de nós, mas sim do que vem de fora, e de imprevisto. Mesmo com o farnel feito e enquanto julgamos que essa mudança foi algo que preparámos e estimulámos, ou que pelo menos suspeitámos, ela entra-nos estridente pela vida adentro sem pré-aviso. Porque ninguém, absolutamente ninguém, gosta e está preparado para mudar.

No momento em que a enfrentamos consideramos que a mudança é algo de bom, um processo controlado que nos estimula a ousadia e a vitalidade e nos alarga trajectórias de vida. E pensamos que é algo nosso, que nos vem de dentro. Mas a verdadeira mudança não é a que preparamos mas sim a que permitimos. E isso, na maior parte dos casos, é apenas um exercício de humildade que muito provavelmente tem a ver com a necessidade de libertar os outros de nós. A mudança deve ser quase sempre isso, o momento em que precisamos saber aceitar a necessidade de liberdade dos outros, tomando-a como nossa. Como um último acto de amor.


da série “a viajar na maionese”

Há alguma relação entre tratar de uma casa velha, limpar o pó esquecido debaixo de uma estante, desfolhar um livro que lemos há 30 anos ou sair inopinadamente a meio de uma tarde de trabalho apenas por decretarmos que estamos cansados? Há, mas não há forma simples de a explicar. E não é importante.

As coisas que não são importantes não são simples de explicar. São apenas coisas não importantes, coisas que se passam connosco. Ninguém sabe resumir às palavras o que vai para além ou aquém delas, ainda que por vezes tenhamos essa sensação enviesada de que tudo, porque acontece, pode ser narrado. E há uns que domam as palavras tão bem que isso parece ter acontecido, mas não aconteceu. Aconteceu o que as palavras descrevem, não o que verdadeiramente aconteceu.

Porque tentar contar o que aconteceu é exactamente a prova de que não o sabemos fazer acontecer outra vez. É por isso que o que acontece connosco é coisa não importante. É apenas o que aconteceu e que não serve para mais nada, não tem nova utilidade. Cada momento morre no instante em que ocorre e as palavras, por mais hábeis que sejam, não o reconstroem com truques de alquimia.

É isso a nossa vida, essas coisas todas que acontecem, que não são importantes e que não poderão nunca ser explicadas. E não passam a ser importantes porque alguém, laboriosamente, as redesenhou no mundo das palavras. Porque isso não é a verdade, nada do que se conta é verdade, embora possa ser importante.

O que connosco vive, está para além disso, faz parte do que não é importante. Porque as coisas pouco importantes são muito mais importantes que as palavras que as tentam contar.


das coisas pretensiosas que acho

Descubro coisas velhas. Eu, por exemplo. Gostar de saborear lentamente o que me dá gosto, não ter paciência para o fátuo e a replicação até à exaustão do mesmo e nisso até receando estar a dissipar vida, não me apetecer explicar porquê nem achar nisso uma postura de boas maneiras quando nada de recíproco acontece ou é sequer compreendido, ter de trocar tempo de conversas, de ideias desprendidas, de simples cavaqueira, por uma interrupção do telemóvel. Enfim, há tantas coisas que me aquietam em melhores lugares. Gosto do silêncio e dos momentos que justificam interrompê-lo. Apenas esses. E estranhamente sinto-me um abençoado nisto de ir assim indo para velho, essa espécie de desconectados do que é suposto ser o importante do hoje. Cada um de nós tem o seu lugar, o seu tempo, onde quer que seja que se sente melhor. Mas, francamente, não sei se nos tempos que correm, alguns, de tão ocupados com a gritaria, não se terão esquecido de os procurar.


sobre um carneiro cabrão

Em tempos idos, antes das redes sociais, a blogosfera, com uma vasta camada de autores anónimos que se interligavam e interagiam, era o que mais se lhes assemelhava. Para se tornarem mais funcionais os blogues estabeleciam entre si hiperligações permitindo assim que através deles fossem encaminhados leitores de uns para os outros. Raro era o blogue que não tinha a sua lista de preferidos numa coluna do lado. Eram essas ligações que acabavam por estabelecer o mapa da blogosfera – era possível começar de manhã num blogue, seguir desse para outro e depois para outro e assim dar a volta a quase toda a blogosfera. Alguns bloguistas eram relativamente selectivos e apenas linkavam os blogues que verdadeiramente apreciavam e liam, mas outros casos seguiam uma regra idiota de reciprocidade, uma espécie de cortesia baseada no “tu linkas-me e eu linko-te, mandas-me leitores e eu mando-te leitores”.

O intuito óbvio era portanto fazer crescer tráfego a partir de listas de outros blogues. As audiências eram nessa altura o ‘egómetro’ dos bloguistas, mesmo que se tratassem de visitas erráticas e efémeras com visitantes que nem um título de um post perdiam tempo a ler. Eu ‘dessocializei-me’ muito cedo. Ainda habitava o meu blogue anterior – há mais de 10 anos portanto – fiz desaparecer a minha coluna de blogues preferidos e tornei-me um ermita da blogosfera. Na altura de maior fervor recolhia regularmente 1.500 visitas por dia. Uns meses depois de ter acabado com essas listas confrontei-me com a tranquilidade de pouco mais de uma centena de leitores, os que efectivamente aqui pretendiam vir, fora dos canais de tráfego.

Mas nunca deixei de linkar um texto ou um blogue, assim guardando neste meu acervo a possibilidade de no futuro o poder encontrar. Este espaço, dentro dele, tem algumas dessas ligações, mas a maior parte infelizmente já não vão dar a lado nenhum. Outras, poucas, ainda terão do lado de lá o registo da escrita que então me terá maravilhado. Esta enorme prelecção apenas para dizer que continuarei a trazer para aqui textos dos outros, sempre que estes me deliciarem. E que o continuarei a fazer com extremoso critério, sobretudo para aqueles em que receio pela sua natureza volátil, como é o caso de textos que esvoaçam vertiginosamente pelo facebook.

Hoje foi o caso. Já sabes Nuno, quando não souberes dele, é só vires aqui ter (sempre me ajudas na audiência do blogue).

Crónica duma vingança.
OS ANIMAIS

Uma vez, quando ainda era um puto, delegaram-me a responsabilidade de pastar um rebanho de lindas ovelhinhas. Mas nesse rebanho havia um carneiro meio louco que me atacou impiedosamente. Tive de fugir a sete pés. Não foi fácil, fartei-me de correr de árvore em árvore até encontrar um porto seguro.

Não pensem que nessa fuga me escondi atrás das árvores, não fui covarde a esse ponto. Normalmente, quando os carneiros marram contra uma pessoa que esteja de pé param antes e, levantando-se sobre as patas traseiras, caiem depois violentamente sobre a vítima. Foram essas coreografias guerreiras, que a fera dançou antes de cada marrada, que me permitiram encher o peito de ar e ganhar fôlego para os sprints. Esses momentos serviram-me também para me defender e de alguma forma até para retaliar. Sempre que aquelas esmagadoras centenas de quilos se ergueram no ar diante de mim, eu aproveitei para me esquivar e me pôr novamente em fuga até à árvore seguinte. Assim fui avançando prudente e metodicamente, deixando para trás o pobre animal a repetir as violentas marradas, desferidas nas cascas ásperas daquelas enormes e inabaláveis árvores encontradas pelo caminho.

À primeira vista a minha atitude pode parecer uma reacção inocente e infantil, mas garanto-vos que foram gestos conscientes e vis, de premeditada e infame vingança, aqueles que retruquei. O meu desejo era que o carneiro ficasse prostrado por terra, com o crânio rachado ao meio, a esvair-se em sangue, sozinho, em morte lenta e agonizante.

Mas, agora, quando penso nisso envergonho-me, fico mesmo exaurido de remorso. O carneiro fez apenas o que um carneiro está destinado a fazer, marrou. Por mais obtuso que o animal fosse não merecia ser humilhado e castigado daquela maneira.

Se tivesse sido hoje, teria agido de forma completamente diferente. Ao longo da minha vida fui ganhando alguma sabedoria e, com ela, passei a ter outro respeito pelos animais. Se tivesse sido hoje, eu teria pacientemente domado a besta, tosquiado o seu pêlo, feito um casaquinho quentinho com a sua lã e, a cavalo no seu dorso, teria partido alegremente à descoberta do mundo cheio de aventuras. No regresso, sacrificaria a besta com toda a solenidade e organizaria um belo churrasco para festejar em sua honra.

Às vezes pode não parecer, mas os animais também são nossos amigos. Lembro-me com amizade desse carneiro. Cabrão do Carneiro.”

Nuno Fonseca


um dia …

Todos vivemos suspensos do dia em que arremessaremos tudo para longe sem olhar para trás, mesmo que não tenhamos uma consciência clara disso. Será sempre num ímpeto, num acto imprevisível, espontâneo e irreprimido e poderá ocorrer hoje, amanhã, algures num tempo indeterminado. Na maior parte das vezes nunca chegará a acontecer, mas isso não importa. Todos nos julgamos mais do que somos e todos acreditamos merecer mais do que temos e para isso precisamos desta inocente mentira, a que nos atira para destinos antipodais e provavelmente exóticos, para sobreviver nesta realidade que tecemos com o que somos e fizemos para merecer e, diga-se, onde na maior parte das vezes somos felizes. E acreditar que um dia ‘isso’ pode acontecer faz parte da nossa construção da felicidade, mesmo que esta aparente resultar de causas mais concretas que vamos coleccionando enquanto esperamos que um dia ‘isso’ possa mesmo acontecer.


as vozes podem chorar, mas não se choram

O anúncio da morte de um grande músico não me comove mais que a morte do marceneiro que tinha umas mãos de ouro para recuperar os móveis de família. Claro que fico triste, pois com eles esvai-se a possibilidade de amanhã me sentar num outro cadeirão recuperado a escutar mais uma belíssima canção inédita. Como ficarei triste por saber que falecem aqueles que com a sua acção contribuíram directa ou indirectamente para o meu mundo. Mas emocionado, de lágrimas suspensas, a escrever em jornais públicos que “chorei como se tivesse morrido alguém da minha família”? Como posso sentir-me assim com alguém que não conheço, assim como se fosse alguém da minha família?

Esses estados guardo-os fervorosamente na minha intimidade para as perdas dos que me são próximos, daqueles que verdadeiramente conheci e amei e de cuja presença passarei a estar privado. Posso chorar pela ausência desses, que me foram perto, que me faltarão, que nunca mais me repetirão, posso chorar pelas tantas tragédias humanas que se passam por esse mundo fora ou pela dor alheia, aqui mais perto ou longe, mas nunca por uma música que não chegará a existir ou um braço de cadeira que ficará por arranjar. Posso chorar por outros, mas nunca pelo que eles deixaram de me dar por terem morrido. Assim como nunca chorarei por homens que nunca conheci e que morreram algures aos 82 anos. E acho mesmo que isso iria desarranjar a minha caixa de emoções onde carrego as memórias daqueles que verdadeiramente chorei e que quero guardar. Essas memórias que de vez em quando gosto de ir desembrulhando ao som  de uma melodia percorrida pela voz assombrosa do Leonard Cohen, por exemplo.

Entretanto ainda bem que existiu gente que deixou legados como este que, na sua condição perpétua, não precisam das nossas lágrimas para nada:


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