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o mundo de amanhã

Da minha experiência de teletrabalho, no final da 1ª semana.

Os métodos de trabalho com a minha equipa, em cima de tecnologias cooperativas que nunca tínhamos precisado explorar tão intensamente na internet, revelaram-me dois aspectos:

  • O primeiro é que é possível manter proximidade, retirar uma enorme rentabilidade, comunicar melhor e gerar um clima de proactividade e concretização como nunca tinha sentido até hoje. Enquanto pivot desse processo estou exausto e entusiasmado.
  • O segundo aspecto que recolho dessa experiência tem um âmbito mais vasto e … mais perturbante.

Todos já percebemos que nunca mais regressaremos ao mundo de onde viemos, há 1 mês. Todos sabemos que iremos atravessar a maior crise económica e social que alguma vez a humanidade experimentou e estou certo que nisto não há exagero. E nesse contexto de disrupção total, por entre um aparente caos e certamente com muitas consequências trágicas, o mundo continuará, como sempre, a adaptar-se.

Será um processo fracturante, onde irão emergir novos modelos de negócio e de trabalho. E esses modelos não parecem vir para ser inclusivos, pelo menos para todos. Primeiro, já hoje e a cada novo dia que se vira, iremos confrontar-nos com a perda de trabalho e de salários. Depois, quem sabe quando, iremos fazer o caminho de regresso. E iremos fazê-lo em situação de desespero, à procura de novo do trabalho. Mas o trabalho que iremos procurar já não existe, nem no conteúdo profissional que o sustentava, nem no modelo social com que hoje compreendemos o trabalho.

(Continuando nesta minha elaboração pós-apocalíptica).

A internet está neste momento a integrar um número exorbitante de modelos de negócio e já não os irá largar mais. Isto significa que no vindouro clima de renascimento da economia e dos seus processos de trabalho, um número significativo de actividades económicas e os empregos que até agora agregavam, terão desaparecido definitivamente.

Esses negócios, com novas vestes, passarão permanentemente para o lado da web. As tão simpáticas tascas que até hoje nos acolhiam todos os dias, após vários meses de paralisação, foram empurradas para a extinção. Quando reabrirem, eventualmente, estarão transformadas em pequenas cozinhas, que provirão a clientes que encomendarão as suas suculentas iscas através de motores e agregadores que provavelmente terão escritório num paquistão algures. Sim, isso hoje já era em parte assim, bem sei, mas amanhã é assim que será. E note-se a nuance semântica.

Tudo o que for passível de ser desmaterializado, se-lo-á, definitivamente. Basta para isso manter o lugar que já está ocupando, induzido pelos dias que agora vivemos. Podíamos ir divagando por aí fora, sobre o que serão amanhã as agências de viagens, o turismo e a mobilidade, a formação e o ensino, os serviços públicos, muitas fábricas e todas as unidades de tecnologia intensiva que fecharam e que nunca mais reabrirão por culpa de pesadas heranças com investimento,  mas deixo isso à imaginação de cada um.

Aquilo que se vinha anunciando e testemunhando como uma entusiasmante revolução digital transformou-se, abruptamente, por força das circunstâncias, numa voraz máquina trituradora dos empregos actuais e da forma como se organizava a nossa sociedade. Os chavões com que vínhamos anunciando, placidamente, vivermos uma época de mudança continua, tornaram-se obsoletos. Já não há uma mudança a que nós, com mais ou menos resiliência, nos proporemos adaptar e acompanhar. Zás, de súbito, por causa de um morcego, julga-se, abriu-se uma fractura, o futuro ficou rachado ao meio, o caminho foi interrompido e ainda não sabemos o que iremos encontrar do outro lado quando voltarmos a pôr a cabeça de fora.

Mas podemos inventar cenários. O que me parece o mais presumível é o da estratificação da sociedade em duas camadas. Não, não estou a falar da nossa organização social com as seus diversos estratos sócio-económicos, mas que convivem, apesar das imperfeições que lhe reconhecemos. Essa provavelmente já não existirá da mesma forma daqui a poucos anos. Estou a falar, objectivamente, de duas camadas populacionais, sobrepostas, duas comunidades que vivem em patamares físicos e tecnológicos distintos e que tendencialmente só interagem para as óbvias interacções económicas. Aqueles que vivem no novo mundo, para onde foram catapultadas as competências digitais e as capacidades empreendedoras, fruto da janela de oportunidades que a situação presente potenciou, esses os “mais aptos”, e depois os outros. Os que ficaram algures neste nosso velho mundo e que continuarão a assegurar os víveres e a produção de bens físicos em obsoletas actividades primárias e secundárias.

É trágico. E agora poderia continuar a escrever divagando sobre isto, em modo infindável. Talvez resultasse num excitante livro de ficção científica. Mas fico-me por aqui. Apenas repetindo o que todos os dias venho dizendo, até com vaidade profética:

O mundo amanhã vai ser constituído por duas camadas de homens. Os que viveram à espera que o COVID passasse e aqueles que todos esses dias se investiram e recriaram com capacidades para enfrentar melhor o mundo que haverá de (re)acontecer depois dele.

Por favor, não fiquem à espera que o COVID passe.  Se for o caso, saiam desse fim de semana prolongado para onde se lamentam terem sido empurrados. Isso não é verdade. Ninguém nos empurrou para ele. E ninguém, para além de nós, nos fará sair dele.

Protejam-se … mas preparem-se também. Fiquem em casa mas saiam da casca.


O cómico e o burlesco estão escondidos por todos os cantos. Mas é muito mais fácil encontrá-los no que nos aborrece do que na normalidade.


ou isso …

É importante não esquecer que a comunicação é só a película, um interface, daquilo que verdadeiramente se passa dentro de nós. E que é por isso provável que transmita até o oposto daquilo que realmente importa. Algumas vezes acerta, outras esconde-nos.

 

e ainda uma nota de rodapé que ainda é pequena mas tem potencial para crescer muito.

    • para os mais próximos, com quem porventura tenha conversado sobre esta estranha coisa e com tão pouco de imputável a um metalúrgico como eu, esta coisa do blog já quase imortal…
    • pensar um disparate, vir lançá-lo aqui, sabendo que ninguém o lê – este bizarro fetiche – e aconchegado por isso, mas com a dúvida suficiente do ” ah, pode sempre vir aí alguém” a bastar para pôr os napperons da ortografia endireitados e dar dois toques no texto, pelo sim pelo não
    • o curioso é que infalivelmente esse alguém chega. sou eu. largos anos depois, a revisitar-me. e com os napperons no lugar e o texto penteadinho reconheço, desavergonhadamente, que é uma viagem agradável.
    • afinal, fui pela mecânica – na altura o lavoisier e o lagrange pareciam-me os mais avisados – e quão esfalfado me deixou esse caminho, para descobrir que era na escrita, essa coisa do sofá, onde se podiam fabricar as máquinas do tempo.

e prontos.


… chegou demasiado súbito. Este dia em que eles jantam não porque estão cá, mas porque vêm cá para o jantar.

Então vidinha, embora aí para a terceira parte? estás preparada? ;)


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