Category Archives: alucinações

da série “a viajar na maionese”

Há alguma relação entre tratar de uma casa velha, limpar o pó esquecido debaixo de uma estante, desfolhar um livro que lemos há 30 anos ou sair inopinadamente a meio de uma tarde de trabalho apenas por decretarmos que estamos cansados? Há, mas não há forma simples de a explicar. E não é importante.

As coisas que não são importantes não são simples de explicar. São apenas coisas não importantes, coisas que se passam connosco. Ninguém sabe resumir às palavras o que vai para além ou aquém delas, ainda que por vezes tenhamos essa sensação enviesada de que tudo, porque acontece, pode ser narrado. E há uns que domam as palavras tão bem que isso parece ter acontecido, mas não aconteceu. Aconteceu o que as palavras descrevem, não o que verdadeiramente aconteceu.

Porque tentar contar o que aconteceu é exactamente a prova de que não o sabemos fazer acontecer outra vez. É por isso que o que acontece connosco é coisa não importante. É apenas o que aconteceu e que não serve para mais nada, não tem nova utilidade. Cada momento morre no instante em que ocorre e as palavras, por mais hábeis que sejam, não o reconstroem com truques de alquimia.

É isso a nossa vida, essas coisas todas que acontecem, que não são importantes e que não poderão nunca ser explicadas. E não passam a ser importantes porque alguém, laboriosamente, as redesenhou no mundo das palavras. Porque isso não é a verdade, nada do que se conta é verdade, embora possa ser importante.

O que connosco vive, está para além disso, faz parte do que não é importante. Porque as coisas pouco importantes são muito mais importantes que as palavras que as tentam contar.


de noite todas as velas são monstros marinhos

A meio da noite três murros secos na carlinga do barco acordam-me sobressaltado. Tinha feito o turno anterior e apesar do balançar cavalgado do barco dormia um sono profundo. Subo ao poço, noite cerrada e vejo-os aos dois, equilibrando-se das sacudidelas, debruçados sobre um mar cavado e negro. As vagas, a emergência da situação e a agitação da tarefa num instante me livraram do resto do sono que ainda trazia. Braçada a braçada tentavam recolher pelo través de estibordo uma cobra enorme, esbranquiçada, mais longa ainda que o comprido do barco. Estava um vento ruidoso mas ainda assim ouvia-lhes os berros com que tentavam coordenar-se entre si de forma a dominarem aquela enorme criatura que teimava em se debater, esgueirando-se por entre as mãos. Juntei-me a eles, distanciámo-nos uns quatro passos entre nós de forma a cobrir quase todo o bordo do barco e, sincronizadamente, lá fomos levando de vencida aquela guerra com a monstruosa serpente.
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Por fim havíamos vencido. O vento enregelado da noite, o mar que me encharcava e o esforço alvoroçado daquela violenta epopeia só no fim me haviam despertado completamente do sono e o meu discernimento permitiu-me então ver melhor o gigantesco troféu que houvéramos recolhido:   o velame, já sem vida, ainda escorrendo água do seu ventre, jazia ao longo de todo o bordo do barco. Tinha-se rasgado o punho do spi.
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Lá está este armado em Homero, já vos ouço gracejar … Pois experimentem ser raptados ao sono neste alvoroço da noite para retirar um balão de vinte metros arrastado no mar e embrulhado em toneladas d’água, e depois venham cá jurar que não andaram numa guerra com monstros marinhos.

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