Category Archives: Anotações

desses estranhos dias que o futuro dirá se nos fizeram diferentes

(para arquivo pessoal numa das gavetas desta caixinha de memórias)

2020-07_rev-industria-124


a morte inerte que virou cadáver

Quatro anos e quatro meses depois, hoje, as consultas médicas de acompanhamento são tidas por telefone. Do lado de lá o médico não consegue esconder uma voz exaltada. Atropela o protocolo habitual, nem ouve o que lhe digo, faz pergunta em cima de pergunta para assim o cumprir e ignora o que eu tenha para dizer. Noto-lhe um fito, uma emergência na conversa, a necessidade de chegar rapidamente a algum lado, e ponho-me em escuta. Calculo que esteja com a TAC da semana passada aberta no computador e deixo-o que me interrompa, que se interrompa, que interrompa tudo “- Não sei o que você fez, mas isto finalmente acabou. Ficaram umas cicatrizes nos pulmões e alguns resíduos, mas o maior nódulo já não tem mais de 4 ou 5 milímetros”.

Aprendi-me a desprezar o bicho. Ninguém é capaz de sobreviver na incerteza. Fomos preparados para reagir aos sobressaltos da vida, à notícia súbita, mas o nosso organismo não está preparado para a incerteza prolongada, tanto assim. Ninguém trata bem dos impostos, da família e do supermercado, dos risos e das lágrimas, vivendo na sombra de uma morte inerte. Ele também não, pelos vistos, mesmo que fosse a minha. Ouvia-lhe crescer a exaltação na voz, talvez por se aliviar na responsabilidade clínica deste caso tão obtuso, talvez apenas pela urgência em dar-me a notícia de que era só bom mensageiro.

E foi assim, numa consulta por telefone, que a minha morte, tantos anos depois, já apodrecida, sem ninguém que lhe ligasse ou coisa que a confirmasse, afinal, virou cadáver.

 

Adenda:  E fica aqui, para minha memória futura, o essencial desta viagem

O Renato partiu sem mim

O sítio certo


da natureza

A primeira casa que habitámos tinha um terraço virado a poente com vista sobre a ‘mãe-d’água’. Era o melhor espaço do mundo para pousar o fim da tarde. Aí, num canteiro abandonado, sobreviviam um hibisco e uns pés de beldroegas. O hibisco perdurou por mais três lares e 28 anos depois ainda medra no meu pátio. As beldroegas consumimo-las em deliciosas sopas.

É assim, nem tudo pode ser mera poesia. Há coisas que fazem mesmo falta.


façanhas entre paredes-meias

A 27 de Março, já desgastado com tanto recolhimento e tele-trabalho, ensaiei bater umas bolas de padel no meu pátio.

A coisa não correu bem. Em pouco menos de meia-hora tive de reconhecer que o recinto não estava devidamente adaptado às minhas capacidades.

A explicação vem com a mensagem que enviei aos meus vizinhos, por whatsapp:

 

As respostas, de ambos os logradouros chegaram prestes e agradáveis. Mas antes é importante fazer notar que, a partir do meu recinto, tinha dois muros pela frente, sem visibilidade abaixo dos 3 metros e que o local de ‘encestamento’ distava pelo menos uns 10 metros…

 

 

Para quem não perceba o alcance de tal façanha diria que, se mesmo por uma misteriosa alquimia de ADN’s inventassem um misto de Nadal e do Cristiano R., nem ainda assim essa espécie de super-andróide alcançaria tal feito. Fique por isso registado para os tempos que hão-de vir.

Para aqueles, ainda assim, cépticos sobre esta capacidade ingénita de alcançar feitos atléticos verdadeiramente extraordinários e que ainda possam ser induzidos na torpe ideia de que isto é pura vaidade derramada ao vivo, não me contenho de referir que, algures nos confins deste blogue, por altura do Euro 2004, quase igualei a velocidade de chuto do Roberto Carlos – então o terror dos guarda-redes e de quem até se contava ter sangue a escorrer das unhas quando descalçava as chuteiras, tal era o impacto na bola. E assim dizimei também todos os records daquela barraca da “Funzone” e deixei os fadistas de queixada caída, a mesma que antes do meu arremesso gania um “olha o velho, olha o velho”. E mesmo que isso, também isso e apesar disso, não vos importe muito, importa-me a mim que durante pelo menos uns 2 dias fui o super-herói dos meus filhos.

Podem querer continuar nessa vossa vidinha pacata de cidadão comum, mas ao menos concedam o mérito a quem o merece e sabe fazer diferente apenas com um balde de zinco e uma bola de padel. E chega. Basta-me apenas a vossa vénia.


o mundo de amanhã

Da minha experiência de teletrabalho, no final da 1ª semana.

Os métodos de trabalho com a minha equipa, em cima de tecnologias cooperativas que nunca tínhamos precisado explorar tão intensamente na internet, revelaram-me dois aspectos:

  • O primeiro é que é possível manter proximidade, retirar uma enorme rentabilidade, comunicar melhor e gerar um clima de proactividade e concretização como nunca tinha sentido até hoje. Enquanto pivot desse processo estou exausto e entusiasmado.
  • O segundo aspecto que recolho dessa experiência tem um âmbito mais vasto e … mais perturbante.

Todos já percebemos que nunca mais regressaremos ao mundo de onde viemos, há 1 mês. Todos sabemos que iremos atravessar a maior crise económica e social que alguma vez a humanidade experimentou e estou certo que nisto não há exagero. E nesse contexto de disrupção total, por entre um aparente caos e certamente com muitas consequências trágicas, o mundo continuará, como sempre, a adaptar-se.

Será um processo fracturante, onde irão emergir novos modelos de negócio e de trabalho. E esses modelos não parecem vir para ser inclusivos, pelo menos para todos. Primeiro, já hoje e a cada novo dia que se vira, iremos confrontar-nos com a perda de trabalho e de salários. Depois, quem sabe quando, iremos fazer o caminho de regresso. E iremos fazê-lo em situação de desespero, à procura de novo do trabalho. Mas o trabalho que iremos procurar já não existe, nem no conteúdo profissional que o sustentava, nem no modelo social com que hoje compreendemos o trabalho.

(Continuando nesta minha elaboração pós-apocalíptica).

A internet está neste momento a integrar um número exorbitante de modelos de negócio e já não os irá largar mais. Isto significa que no vindouro clima de renascimento da economia e dos seus processos de trabalho, um número significativo de actividades económicas e os empregos que até agora agregavam, terão desaparecido definitivamente.

Esses negócios, com novas vestes, passarão permanentemente para o lado da web. As tão simpáticas tascas que até hoje nos acolhiam todos os dias, após vários meses de paralisação, foram empurradas para a extinção. Quando reabrirem, eventualmente, estarão transformadas em pequenas cozinhas, que provirão a clientes que encomendarão as suas suculentas iscas através de motores e agregadores que provavelmente terão escritório num paquistão algures. Sim, isso hoje já era em parte assim, bem sei, mas amanhã é assim que será. E note-se a nuance semântica.

Tudo o que for passível de ser desmaterializado, se-lo-á, definitivamente. Basta para isso manter o lugar que já está ocupando, induzido pelos dias que agora vivemos. Podíamos ir divagando por aí fora, sobre o que serão amanhã as agências de viagens, o turismo e a mobilidade, a formação e o ensino, os serviços públicos, muitas fábricas e todas as unidades de tecnologia intensiva que fecharam e que nunca mais reabrirão por culpa de pesadas heranças com investimento,  mas deixo isso à imaginação de cada um.

Aquilo que se vinha anunciando e testemunhando como uma entusiasmante revolução digital transformou-se, abruptamente, por força das circunstâncias, numa voraz máquina trituradora dos empregos actuais e da forma como se organizava a nossa sociedade. Os chavões com que vínhamos anunciando, placidamente, vivermos uma época de mudança continua, tornaram-se obsoletos. Já não há uma mudança a que nós, com mais ou menos resiliência, nos proporemos adaptar e acompanhar. Zás, de súbito, por causa de um morcego, julga-se, abriu-se uma fractura, o futuro ficou rachado ao meio, o caminho foi interrompido e ainda não sabemos o que iremos encontrar do outro lado quando voltarmos a pôr a cabeça de fora.

Mas podemos inventar cenários. O que me parece o mais presumível é o da estratificação da sociedade em duas camadas. Não, não estou a falar da nossa organização social com as seus diversos estratos sócio-económicos, mas que convivem, apesar das imperfeições que lhe reconhecemos. Essa provavelmente já não existirá da mesma forma daqui a poucos anos. Estou a falar, objectivamente, de duas camadas populacionais, sobrepostas, duas comunidades que vivem em patamares físicos e tecnológicos distintos e que tendencialmente só interagem para as óbvias interacções económicas. Aqueles que vivem no novo mundo, para onde foram catapultadas as competências digitais e as capacidades empreendedoras, fruto da janela de oportunidades que a situação presente potenciou, esses os “mais aptos”, e depois os outros. Os que ficaram algures neste nosso velho mundo e que continuarão a assegurar os víveres e a produção de bens físicos em através das necessárias mas agora subalternizadas actividades primárias e secundárias.

É trágico. E agora poderia continuar a escrever divagando sobre isto, em modo infindável. Talvez resultasse num excitante livro de ficção científica. Mas fico-me por aqui. Apenas repetindo o que todos os dias venho dizendo, até com vaidade profética:

O mundo amanhã vai ser constituído por duas camadas de homens. Os que viveram à espera que o COVID passasse e aqueles que todos esses dias se investiram e recriaram com capacidades para enfrentar melhor o mundo que haverá de (re)acontecer depois dele.

Por favor, não fiquem à espera que o COVID passe.  Se for o caso, saiam desse fim de semana prolongado para onde se lamentam terem sido empurrados. Isso não é verdade. Ninguém nos empurrou para ele. E ninguém, para além de nós, nos fará sair dele.

Protejam-se … mas preparem-se também. Fiquem em casa mas saiam da casca.


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