Category Archives: Aproximações

o último

Fez ontem um ano. Desde esse dia nunca mais aqui escrevi uma linha. Sequei. Abro e fecho o editor deste blogue, sem que nunca, até hoje, mais alguma vez, tenha tido ensejo de voltar a escrever. Não sei porque comecei a escrever, mas sei o que me levou a deixar de o conseguir de fazer. Fiquei com gente a mais dentro de mim.

Nasci com este fado de crescer a vê-los partir de modo destravado e cruel. Contava-os, um por um, e continuo a contá-los quase todos os dias. Já não me cabem numa mão. Ninguém tem tanta gente assim tão próxima que não seja capaz de os juntar nos dedos de uma única mão, mas eu tive, eu tive essa sorte. E muito menos alguém pode ter essa absurda infelicidade de contar assim tantos como já partidos, mas eu tive, eu tive essa malvada infelicidade.

Terá sido por isso que inventei esta estranha alquimia de os querer escrever, a prendê-los, como se tivesse medo que partissem de vez. Mas também aqui ninguém o consegue fazer de modo perpétuo, tão pouco por um, muito menos por tantos, por já tantos. Quem faço eu sobreviver hoje? Este? Aquele? O que agora ainda sinto, (d)escrevendo-o, como pode isso fazê-lo tão perto do que ele me foi? Se o escrevo, tão menos do que foi, ele passa a ser isso assim, menos, e isso torna-se irreversível. Foi este o que mais me custou de todos. Outros foram tão importantes quanto ele, não mais nem menos, que não há escala nisso, há um batente apenas, o batente de incredulidade. Mas o João foi o que me secou. Tenho medo de o escrever, de ao fazê-lo estar a redesenhar as memórias que tenho dele e, depois disso, a reinventar um outro João que já não este, e a perdê-lo, de vez. Tenho medo de o escrever. Tenho medo de escrever. Tenho medo.

Tantas vezes aventei que isso de trazer para aqui era trazê-los para diante, tratar deles, mantê-los junto de mim. Que profunda mentira. Isso só parece acontecer quando eles já não estão assim tanto dentro de nós. É preciso deixar correr o tempo. Que o tempo é mentiroso. Nós também, quando precisamos de nos fazer crer de algo que nos é muito importante. Depois, iludidos de que ainda guardamos os seus gestos, as suas interjeições, os seus risos dentro de nós, desatamos a escrevê-los. Não são eles. São personagens que construímos para julgarmos que são eles. E esse é o momento em que os perdemos de vez. Quando os imaginamos e os mentimos.

Fez ontem um ano. Aqui não mais escrevi uma linha. Sequei-me. Eu não quero recordar-me do João e dos meus outros a partir de personagens inventadas. Figuras fantasmagóricas com risos desenhados em letras a fingirem-se de memórias. É inevitável que esquecerei muitas partes do que eles foram na minha vida. Mas é perverso juntar-lhes texto para redesenhar o que já esqueci. Fico assim. Ficam assim. Eles a irem aos poucos, devagarinho. Todos os dias um pouco mais que esquecerei. Até ao dia em que eu partir. Nesse dia ainda terei algo que os recorda. Será pouco, Mas serão eles. Não será esta fantasia de fim-de-tarde acompanhada de violinos e palavras arredondadas. Não. Será o silêncio disso, onde eles moram dentro de mim, em palavras que nunca existirão.

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amizades de conveniência

Ao João conheci-o por conveniência, há mais de 40 anos, a ele e ao Chico. Tinha 13 anos, estava apaixonado por uma miúda loura, era muito tímido e eles eram os seus irmãos mais novos. Enfim, eram a oportunidade de cruzar o seu horizonte.

Depois os anos passaram, a paixão juvenil também, mas eles não. Ao João mantive-o sempre por muito perto. Há pessoas que não se podem perder com risco de nos perdermos a nós também. Ao João habituei-me a prendê-lo com amarras de amizade.

Fiquei tão preso dele que foi ele quem fui buscar, talvez há uns 5 anos atrás, para me ajudar a não deixar partir essa mesma miúda loura por quem me tinha apaixonado em miúdo. João, tens de vir. E ficava lá fora, a vê-lo chegar a meio da madrugada, vestido à pressa e depois ao vulto dos dois na janela, a abraçarem-se. E ficava lá fora a vê-lo fazer de mim.

Ao longo da minha vida chamei-o muitas vezes. Chamei-o sempre que precisava fazer de mim e não sabia como o fazer. O João foi sempre uma amizade por conveniência.


porque raio haverias de me passar à frente na fila ?!

Hoje vou finalmente dizer-te umas coisas que tu precisas de ouvir Joni B.

Quantas vezes te disse que não podes ser assim, assim tanto, assim para tantos. Quantas vezes te disse que ninguém pode ser sempre assim, que ninguém é infinito, mesmo que tu o possas parecer. Mas tu nunca acreditaste nisso, pois não, que não podemos estar em todo o lado de cada vez que um de nós te chama, que isso cansa, e muitos e muitas vezes cansa demasiado.

Agora alguns de nós andamos a procurar conforto na religião, como se essa pudesse servir para explicar os desígnios que nós não conseguimos aceitar. Outros vasculhamos a justiça no mundo, como se o mundo com todo aquele mar que sempre nos aprisionou pudesse dar-nos mais respostas do que apenas ser belo. Mas a maior parte de nós remete para as explicações mais prosaicas e tentamos refugiar-nos na ciência para fingirmos compreender o que é ainda inverosímil, como se tudo isto se tivesse resumido a um incidente clínico.

Mas sabes, eu tenho quase a certeza que não foi nada disto. Não foi porque Deus quisesse ou andasse distraído, não foi pelo acaso implacável da nossa condição humana e muito menos foi por enfarte como nos querem fazer crer. Tu morreste pelo coração, sim, mas não morreste do coração. Eu não percebo como tanta gente não sabe ver a diferença nisso, mas sei que num serão bem esgalhado nós os dois seríamos capazes de convencer o mundo inteiro de que eu tenho razão. Ora ouve, que a minha ‘mecânica’ é como a tua ‘música clássica’, irrefutável. Aprendi tanto contigo a escutá-la para não mais a questionar que agora te peço que me escutes tu a mim.

Todas essas merdices extremamente importantes com que te procurava, tantas e tantas vezes, onde é que elas ficavam quando delas me aliviavas? Quando te deixava, às vezes já alvorada, julgas que não sei onde guardavas as coisas de que me tinhas desafogado? E julgas que não sei quantas vezes isso se repetia com tantos outros? Que peito aguenta um coração que precisa de ir sempre guardando bocados de pessoas? Até que tamanho pode um coração crescer dentro dele? Não, tu não morreste do coração, tu morreste pelo coração.

Tudo estaria bem e tu estarias cá se no fim tudo não se resumisse a uma membrana, uma fina película incapaz de suster o quanto tu tiveste de guardar dentro dela, por nós. E quantas vezes te disse isso, caramba. Mas não ligavas e sorrias com aquele jeito que desarma qualquer razão, na tua maneira especial de dizer “não inventes Boné”.

E agora puto, na parte de mim que ia ter contigo quando eu não sabia estar comigo, o que faço com isso? onde ouvirei agora o que não sou capaz de dizer a mim mesmo? em que abraço sereno, em que silêncio, me sentirei tão compreendido?

E agora João, quando precisar de ti, como faço?


Há inevitavelmente uma altura em que, de súbito, aquilo que fomos e julgamos poder continuar a ser, deixa de fazer sentido. O que se sucede a seguir tem duas estradas possíveis. Deixar acontecer o que afinal não mais acontecerá, ou virar numa encruzilhada qualquer e ficar a pairar sobre um vale de incertezas. A primeira, a da acomodação, leva-nos ao mundo da dormência, onde não mais seremos surpreendidos, onde viveremos entre o não muito nem pouco e sobretudo onde nos tornaremos incapazes de nos entregar à saudável ilusão da esperança. A segunda obriga-nos a esquecer tudo o que fomos, a ficarmos subitamente estrangeiros na nossa vida, o que, convenhamos, obriga a uma tenacidade que já não é para todas as idades. É sempre muito difícil aceitar a mudança, sobretudo porque a mudança, ao contrário da que inventamos, nunca surge de nós, mas sim do que vem de fora, e de imprevisto. Mesmo com o farnel feito e enquanto julgamos que essa mudança foi algo que preparámos e estimulámos, ou que pelo menos suspeitámos, ela entra-nos estridente pela vida adentro sem pré-aviso. Porque ninguém, absolutamente ninguém, gosta e está preparado para mudar.

No momento em que a enfrentamos consideramos que a mudança é algo de bom, um processo controlado que nos estimula a ousadia e a vitalidade e nos alarga trajectórias de vida. E pensamos que é algo nosso, que nos vem de dentro. Mas a verdadeira mudança não é a que preparamos mas sim a que permitimos. E isso, na maior parte dos casos, é apenas um exercício de humildade que muito provavelmente tem a ver com a necessidade de libertar os outros de nós. A mudança deve ser quase sempre isso, o momento em que precisamos saber aceitar a necessidade de liberdade dos outros, tomando-a como nossa. Como um último acto de amor.


sobre um carneiro cabrão

Em tempos idos, antes das redes sociais, a blogosfera, com uma vasta camada de autores anónimos que se interligavam e interagiam, era o que mais se lhes assemelhava. Para se tornarem mais funcionais os blogues estabeleciam entre si hiperligações permitindo assim que através deles fossem encaminhados leitores de uns para os outros. Raro era o blogue que não tinha a sua lista de preferidos numa coluna do lado. Eram essas ligações que acabavam por estabelecer o mapa da blogosfera – era possível começar de manhã num blogue, seguir desse para outro e depois para outro e assim dar a volta a quase toda a blogosfera. Alguns bloguistas eram relativamente selectivos e apenas linkavam os blogues que verdadeiramente apreciavam e liam, mas outros casos seguiam uma regra idiota de reciprocidade, uma espécie de cortesia baseada no “tu linkas-me e eu linko-te, mandas-me leitores e eu mando-te leitores”.

O intuito óbvio era portanto fazer crescer tráfego a partir de listas de outros blogues. As audiências eram nessa altura o ‘egómetro’ dos bloguistas, mesmo que se tratassem de visitas erráticas e efémeras com visitantes que nem um título de um post perdiam tempo a ler. Eu ‘dessocializei-me’ muito cedo. Ainda habitava o meu blogue anterior – há mais de 10 anos portanto – fiz desaparecer a minha coluna de blogues preferidos e tornei-me um ermita da blogosfera. Na altura de maior fervor recolhia regularmente 1.500 visitas por dia. Uns meses depois de ter acabado com essas listas confrontei-me com a tranquilidade de pouco mais de uma centena de leitores, os que efectivamente aqui pretendiam vir, fora dos canais de tráfego.

Mas nunca deixei de linkar um texto ou um blogue, assim guardando neste meu acervo a possibilidade de no futuro o poder encontrar. Este espaço, dentro dele, tem algumas dessas ligações, mas a maior parte infelizmente já não vão dar a lado nenhum. Outras, poucas, ainda terão do lado de lá o registo da escrita que então me terá maravilhado. Esta enorme prelecção apenas para dizer que continuarei a trazer para aqui textos dos outros, sempre que estes me deliciarem. E que o continuarei a fazer com extremoso critério, sobretudo para aqueles em que receio pela sua natureza volátil, como é o caso de textos que esvoaçam vertiginosamente pelo facebook.

Hoje foi o caso. Já sabes Nuno, quando não souberes dele, é só vires aqui ter (sempre me ajudas na audiência do blogue).

Crónica duma vingança.
OS ANIMAIS

Uma vez, quando ainda era um puto, delegaram-me a responsabilidade de pastar um rebanho de lindas ovelhinhas. Mas nesse rebanho havia um carneiro meio louco que me atacou impiedosamente. Tive de fugir a sete pés. Não foi fácil, fartei-me de correr de árvore em árvore até encontrar um porto seguro.

Não pensem que nessa fuga me escondi atrás das árvores, não fui covarde a esse ponto. Normalmente, quando os carneiros marram contra uma pessoa que esteja de pé param antes e, levantando-se sobre as patas traseiras, caiem depois violentamente sobre a vítima. Foram essas coreografias guerreiras, que a fera dançou antes de cada marrada, que me permitiram encher o peito de ar e ganhar fôlego para os sprints. Esses momentos serviram-me também para me defender e de alguma forma até para retaliar. Sempre que aquelas esmagadoras centenas de quilos se ergueram no ar diante de mim, eu aproveitei para me esquivar e me pôr novamente em fuga até à árvore seguinte. Assim fui avançando prudente e metodicamente, deixando para trás o pobre animal a repetir as violentas marradas, desferidas nas cascas ásperas daquelas enormes e inabaláveis árvores encontradas pelo caminho.

À primeira vista a minha atitude pode parecer uma reacção inocente e infantil, mas garanto-vos que foram gestos conscientes e vis, de premeditada e infame vingança, aqueles que retruquei. O meu desejo era que o carneiro ficasse prostrado por terra, com o crânio rachado ao meio, a esvair-se em sangue, sozinho, em morte lenta e agonizante.

Mas, agora, quando penso nisso envergonho-me, fico mesmo exaurido de remorso. O carneiro fez apenas o que um carneiro está destinado a fazer, marrou. Por mais obtuso que o animal fosse não merecia ser humilhado e castigado daquela maneira.

Se tivesse sido hoje, teria agido de forma completamente diferente. Ao longo da minha vida fui ganhando alguma sabedoria e, com ela, passei a ter outro respeito pelos animais. Se tivesse sido hoje, eu teria pacientemente domado a besta, tosquiado o seu pêlo, feito um casaquinho quentinho com a sua lã e, a cavalo no seu dorso, teria partido alegremente à descoberta do mundo cheio de aventuras. No regresso, sacrificaria a besta com toda a solenidade e organizaria um belo churrasco para festejar em sua honra.

Às vezes pode não parecer, mas os animais também são nossos amigos. Lembro-me com amizade desse carneiro. Cabrão do Carneiro.”

Nuno Fonseca


do abrunhal

O abrunhal, lá na beira baixa, um território incontornável das férias grandes da minha infância onde recebíamos com incontido entusiasmo as indicações dos seus espalhafatosos planos, esquiçados debaixo do enorme medronheiro que vigiava a azinhaga de acesso, ficou hoje mais desabitado.

E nisto também a constatar que, dos homens do meu sangue, sobramos já quase só nós, agora os mais velhos. E o medronheiro, na sua abrigada eternidade.


25 anos, no embaraço de os saber dizer

E depois, ocasionalmente, no acaso de uma foto, tudo fica dito

Paris

Paris, Set. 2016


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