Category Archives: Aproximações

realmente …

Neste espaço guardaram-se muitos recortes da vida familiar. Porque relê-los na posteridade é um exercício saboroso e tantas vezes hilariante, como já o comprovei, não resisto a trazer aqui mais um, mesmo que diferido em alguns anos.

Ter-se-á passado por volta de 2010 e o Francisco teria então uns 18 anos. Já nessa altura reflectia um racional e uma tranquilidade por vezes desconcertantes e sobretudo sem qualquer inclinação genética.

 

Chega a casa já noite, as saudações habituais e remete de seguida em tom de aparente irrelevância:

– Acabaram de me roubar o telemóvel novo.

 – O quê? Como foi isso?

 – Então, estava na paragem do autocarro, para vir para casa e chega um bando daquela malta que eu contei no outro dia que anda sempre a rondar escola. Prái uns dez com granda mau aspecto. E eu foi pedir e dar, nem mugi.

 – Fizeste bem. Mas que chatice!

 – Mas julga que eles ficaram por ali? Entraram depois no autocarro e foi roubar desde a frente até à parte de trás do autocarro, velhinhas, homens, todos os que lá estavam.

 – Sabes lá tu isso …

 – Oh pai, como assim? então, eu vi!

 – Como viste tu? estavas lá com eles?

 – Claro que sim. Eu não lhe disse que estava na paragem à espera do autocarro?

 – Sim, disseste. Mas … olha lá, eles roubam-te e de seguida entras no mesmo autocarro atrás deles?

– E então, acha que eu ainda tinha alguma coisa que eles quisessem?


o último

Fez ontem um ano. Desde esse dia nunca mais aqui escrevi uma linha. Sequei. Abro e fecho o editor deste blogue, sem que nunca, até hoje, mais alguma vez, tenha tido ensejo de voltar a escrever. Não sei porque comecei a escrever, mas sei o que me levou a deixar de o conseguir de fazer. Fiquei com gente a mais dentro de mim.

Nasci com este fado de crescer a vê-los partir de modo destravado e cruel. Contava-os, um por um, e continuo a contá-los quase todos os dias. Já não me cabem numa mão. Ninguém tem tanta gente assim tão próxima que não seja capaz de os juntar nos dedos de uma única mão, mas eu tive, eu tive essa sorte. E muito menos alguém pode ter essa absurda infelicidade de contar assim tantos como já partidos, mas eu tive, eu tive essa malvada infelicidade.

Terá sido por isso que inventei esta estranha alquimia de os querer escrever, a prendê-los, como se nisso houvesse travão para que não partissem de vez. Mas também aqui ninguém o consegue fazer de modo perpétuo, tão pouco por um, muito menos por tantos, por já tantos. Quem faço eu sobreviver hoje? Este? Aquele? O que agora ainda sinto, (d)escrevendo-o, como pode isso fazê-lo tão perto do que ele me foi? Se o escrevo, tão menos do que foi, ele passa a ser isso assim, menos, e isso torna-se irreversível. Foi este o que mais me custou de todos. Outros foram tão importantes quanto ele, não mais nem menos, que não há escala nisso, há um batente apenas, o batente de incredulidade. Mas o João foi o que me secou. Tenho medo de o escrever, de ao fazê-lo estar a redesenhar as memórias que tenho dele e, depois disso, a reinventar um outro João que já não este, e a perdê-lo, de vez. Tenho medo de o escrever, assim, por isto. 

Tantas vezes aventei que isso de trazer para aqui era trazê-los para diante, tratar deles, mantê-los junto de mim. Que profunda mentira. Isso só parece acontecer quando eles já não estão assim tanto dentro de nós. É preciso deixar correr o tempo, que o tempo é mentiroso. Nós também, quando precisamos de nos fazer crer de algo que nos é muito importante. Depois, iludidos de que ainda guardamos os seus gestos, as suas interjeições, os seus risos dentro de nós, desatamos a escrevê-los. Não são eles. São personagens que construímos para julgarmos que são eles. E esse é o momento em que os perdemos de vez. Quando os imaginamos e os mentimos.

Fez ontem um ano. Aqui não mais escrevi uma linha. Sequei-me. Eu não quero recordar-me do João e dos meus outros a partir de personagens inventadas. Figuras fantasmagóricas com risos desenhados em letras a fingirem-se de memórias. É inevitável que esquecerei muitas partes do que eles foram na minha vida. Mas é perverso juntar-lhes texto para redesenhar o que já esqueci. Fico assim. Ficam assim. Eles a irem aos poucos, devagarinho. Todos os dias um pouco mais que esquecerei. Até ao dia em que eu partir. Nesse dia ainda terei algo que os recorda. Será pouco, mas serão eles. Não será esta fantasia de fim-de-tarde com palavras arredondadas ao som de violinos. Não. Será o silêncio disso, onde eles moram dentro de mim, em palavras que nunca existirão.


amizades de conveniência

Ao João conheci-o por conveniência, há mais de 40 anos, a ele e ao Chico. Tinha 13 anos, estava apaixonado por uma miúda loura, era muito tímido e eles eram os seus irmãos mais novos. Enfim, eram a oportunidade de cruzar o seu horizonte.

Depois os anos passaram, a paixão juvenil também, mas eles não. Ao João mantive-o sempre por muito perto. Há pessoas que não se podem perder com risco de nos perdermos a nós também. Ao João habituei-me a prendê-lo com amarras de amizade.

Fiquei tão preso dele que foi ele quem fui buscar, talvez há uns 5 anos atrás, para me ajudar a não deixar partir essa mesma miúda loura por quem me tinha apaixonado em miúdo. João, tens de vir. E ficava lá fora, a vê-lo chegar a meio da madrugada, vestido à pressa e depois ao vulto dos dois na janela, a abraçarem-se. E ficava lá fora a vê-lo fazer de mim.

Ao longo da minha vida chamei-o muitas vezes. Chamei-o sempre que precisava fazer de mim e não sabia como o fazer. O João foi sempre uma amizade por conveniência.


porque raio haverias de me passar à frente na fila ?!

Hoje vou finalmente dizer-te umas coisas que tu precisas de ouvir Joni B.

Quantas vezes te disse que não podes ser assim, assim tanto, assim para tantos. Quantas vezes te disse que ninguém pode ser sempre assim, que ninguém é infinito, mesmo que tu o possas parecer. Mas tu nunca acreditaste nisso, pois não, que não podemos estar em todo o lado de cada vez que um de nós te chama, que isso cansa, e muitos e muitas vezes cansa demasiado.

Agora alguns de nós andamos a procurar conforto na religião, como se essa pudesse servir para explicar os desígnios que nós não conseguimos aceitar. Outros vasculhamos a justiça no mundo, como se o mundo com todo aquele mar que sempre nos aprisionou pudesse dar-nos mais respostas do que apenas ser belo. Mas a maior parte de nós remete para as explicações mais prosaicas e tentamos refugiar-nos na ciência para fingirmos compreender o que é ainda inverosímil, como se tudo isto se tivesse resumido a um incidente clínico.

Mas sabes, eu tenho quase a certeza que não foi nada disto. Não foi porque Deus quisesse ou andasse distraído, não foi pelo acaso implacável da nossa condição humana e muito menos foi por enfarte como nos querem fazer crer. Tu morreste pelo coração, sim, mas não morreste do coração. Eu não percebo como tanta gente não sabe ver a diferença nisso, mas sei que num serão bem esgalhado nós os dois seríamos capazes de convencer o mundo inteiro de que eu tenho razão. Ora ouve, que a minha ‘mecânica’ é como a tua ‘música clássica’, irrefutável. Aprendi tanto contigo a escutá-la para não mais a questionar que agora te peço que me escutes tu a mim.

Todas essas merdices extremamente importantes com que te procurava, tantas e tantas vezes, onde é que elas ficavam quando delas me aliviavas? Quando te deixava, às vezes já alvorada, julgas que não sei onde guardavas as coisas de que me tinhas desafogado? E julgas que não sei quantas vezes isso se repetia com tantos outros? Que peito aguenta um coração que precisa de ir sempre guardando bocados de pessoas? Até que tamanho pode um coração crescer dentro dele? Não, tu não morreste do coração, tu morreste pelo coração.

Tudo estaria bem e tu estarias cá se no fim tudo não se resumisse a uma membrana, uma fina película incapaz de suster o quanto tu tiveste de guardar dentro dela, por nós. E quantas vezes te disse isso, caramba. Mas não ligavas e sorrias com aquele jeito que desarma qualquer razão, na tua maneira especial de dizer “não inventes Boné”.

E agora puto, na parte de mim que ia ter contigo quando eu não sabia estar comigo, o que faço com isso? onde ouvirei agora o que não sou capaz de dizer a mim mesmo? em que abraço sereno, em que silêncio, me sentirei tão compreendido?

E agora João, quando precisar de ti, como faço?


%d bloggers like this: