Category Archives: Circunflexões

da natureza

A primeira casa que habitámos tinha um terraço virado a poente com vista sobre a ‘mãe-d’água’. Era o melhor espaço do mundo para pousar o fim da tarde. Aí, num canteiro abandonado, sobreviviam um hibisco e uns pés de beldroegas. O hibisco perdurou por mais três lares e 28 anos depois ainda medra no meu pátio. As beldroegas consumimo-las em deliciosas sopas.

É assim, nem tudo pode ser mera poesia. Há coisas que fazem mesmo falta.


das coisas pretensiosas que acho

Descubro coisas velhas. Eu, por exemplo. Gostar de saborear lentamente o que me dá gosto, não ter paciência para o fátuo e a replicação até à exaustão do mesmo e nisso até receando estar a dissipar vida, não me apetecer explicar porquê nem achar nisso uma postura de boas maneiras quando nada de recíproco acontece ou é sequer compreendido, ter de trocar tempo de conversas, de ideias desprendidas, de simples cavaqueira, por uma interrupção do telemóvel. Enfim, há tantas coisas que me aquietam em melhores lugares. Gosto do silêncio e dos momentos que justificam interrompê-lo. Apenas esses. E estranhamente sinto-me um abençoado nisto de ir assim indo para velho, essa espécie de desconectados do que é suposto ser o importante do hoje. Cada um de nós tem o seu lugar, o seu tempo, onde quer que seja que se sente melhor. Mas, francamente, não sei se nos tempos que correm, alguns, de tão ocupados com a gritaria, não se terão esquecido de os procurar.


um dia …

Todos vivemos suspensos do dia em que arremessaremos tudo para longe sem olhar para trás, mesmo que não tenhamos uma consciência clara disso. Será sempre num ímpeto, num acto imprevisível, espontâneo e irreprimido e poderá ocorrer hoje, amanhã, algures num tempo indeterminado. Na maior parte das vezes nunca chegará a acontecer, mas isso não importa. Todos nos julgamos mais do que somos e todos acreditamos merecer mais do que temos e para isso precisamos desta inocente mentira, a que nos atira para destinos antipodais e provavelmente exóticos, para sobreviver nesta realidade que tecemos com o que somos e fizemos para merecer e, diga-se, onde na maior parte das vezes somos felizes. E acreditar que um dia ‘isso’ pode acontecer faz parte da nossa construção da felicidade, mesmo que esta aparente resultar de causas mais concretas que vamos coleccionando enquanto esperamos que um dia ‘isso’ possa mesmo acontecer.


do abrunhal

O abrunhal, lá na beira baixa, um território incontornável das férias grandes da minha infância onde recebíamos com incontido entusiasmo as indicações dos seus espalhafatosos planos, esquiçados debaixo do enorme medronheiro que vigiava a azinhaga de acesso, ficou hoje mais desabitado.

E nisto também a constatar que, dos homens do meu sangue, sobramos já quase só nós, agora os mais velhos. E o medronheiro, na sua abrigada eternidade.


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