Category Archives: Circunflexões

das coisas pretensiosas que acho

Descubro coisas velhas. Eu, por exemplo. Gostar de saborear lentamente o que me dá gosto, não ter paciência para o fátuo e a replicação até à exaustão do mesmo e nisso até receando estar a dissipar vida, não me apetecer explicar porquê nem achar nisso uma postura de boas maneiras quando nada de recíproco acontece ou é sequer compreendido, ter de trocar tempo de conversas, de ideias desprendidas, de simples cavaqueira, por uma interrupção do telemóvel. Enfim, há tantas coisas que me aquietam em melhores lugares. Gosto do silêncio e dos momentos que justificam interrompê-lo. Apenas esses. E estranhamente sinto-me um abençoado nisto de ir assim indo para velho, essa espécie de desconectados do que é suposto ser o importante do hoje. Cada um de nós tem o seu lugar, o seu tempo, onde quer que seja que se sente melhor. Mas, francamente, não sei se nos tempos que correm, alguns, de tão ocupados com a gritaria, não se terão esquecido de os procurar.

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um dia …

Todos vivemos suspensos do dia em que arremessaremos tudo para longe sem olhar para trás, mesmo que não tenhamos uma consciência clara disso. Será sempre num ímpeto, num acto imprevisível, espontâneo e irreprimido e poderá ocorrer hoje, amanhã, algures num tempo indeterminado. Na maior parte das vezes nunca chegará a acontecer, mas isso não importa. Todos nos julgamos mais do que somos e todos acreditamos merecer mais do que temos e para isso precisamos desta inocente mentira, a que nos atira para destinos antipodais e provavelmente exóticos, para sobreviver nesta realidade que tecemos com o que somos e fizemos para merecer e, diga-se, onde na maior parte das vezes somos felizes. E acreditar que um dia ‘isso’ pode acontecer faz parte da nossa construção da felicidade, mesmo que esta aparente resultar de causas mais concretas que vamos coleccionando enquanto esperamos que um dia ‘isso’ possa mesmo acontecer.


do abrunhal

O abrunhal, lá na beira baixa, um território incontornável das férias grandes da minha infância onde recebíamos com incontido entusiasmo as indicações dos seus espalhafatosos planos, esquiçados debaixo do enorme medronheiro que vigiava a azinhaga de acesso, ficou hoje mais desabitado.

E nisto também a constatar que, dos homens do meu sangue, sobramos já quase só nós, agora os mais velhos. E o medronheiro, na sua abrigada eternidade.


da escrita mortal

Da minha viagem pelos blogues, que dura para mais de 12 anos, já poucos paradeiros conservo. Durante muito tempo foram breves rotinas na inauguração de todas as manhãs. Enquanto, no alvoroçado tráfego, alguns iam pousando de semáforo em semáforo, eu, livre disso, para alcançar o trabalho, pausava de blogue em blogue.

Mas hoje já não. Cansei-me, os blogues cansaram-se, muitos despareceram, acabámo-nos mutuamente. A minha lista de favoritos, por onde saltitava e de onde provinha a maior fatia da minha leitura dessa altura, resume-se hoje a visitas esporádicas a não mais de meia dúzia de blogues. Sei que nunca me libertarei desse impulso, esse clique de curiosidade que me leva ocasionalmente a revisitar um ou outro, mas já quase nunca repito esse hábito de forma consistente, que acabou assim por se transformar em espaçados impulsos, meio involuntários, meio erráticos.

É no entanto um clique de mãos que sei que nunca me abandonará. Descobri nesta experiência que gosto da escrita anónima, aberta, não condicionada à exposição do seu autor ou a um propósito ou argumento de fundo. Uma escrita livre que não encontro em mais nenhum lugar quando a consumo na forma publicada, seja em livros, brochuras publicitárias ou notícias. E nestes incluo também os blogues com missões informativas ou políticas porque esses, hoje, estão mais do lado dos ‘instrumentos media’ do que dos projectos de escrita pessoal que eu ainda reconheço e que aqui destaco.

Os blogues (esses que não os instrumentos media que acima refiro, esses que são os ‘meus blogues’) acomodam a liberdade da escrita pública: todos os podem escrever e todos os podem ler. Por isso muitas vezes são vulgares e carrascos da arte da escrita. Conciliar a multitude e a qualidade, simultaneamente, como em tudo, também na escrita é algo improvável. Mas, e porque são imensos, há-os de todas as naturezas, o que inclui também aqueles que contradizem qualquer juízo ou consideração que sobre os mesmos, de uma forma global, se queira arriscar.

E aqui chegamos ao que aqui me prendeu, nisto dos blogues e ao que aqui me fará voltar sempre, ainda que esparsamente: ‘esses’ blogues! São poucos já os que visito e são poucas as vezes em que o faço, como já disse, mas quando calha mergulhar num deles volto a recuperar a sensação deliciosa desta leitura invulgar. É um prazer poder ler boas palavras, às vezes lavradas com uma originalidade surpreendente e um cuidado irrepreensível, num momento avulso que alguém desconhecido, do íntimo da sua vida, se dispõe partilhar connosco. Raramente há nisso propósitos e significados, que não outros do que aqueles que o autor, provavelmente de forma impulsiva, deixou correr. E essa escrita em liberdade que anda por aí, quase apócrifa, quando se pincela com o dom do bem escrever, será sempre um momento de deleite que dificilmente encontrarei noutra forma de leitura.

Há uns dias atrás andei a procurar “A Memória Inventada(já sem link), para mim um dos melhores blogues de sempre, escrito genialmente, pejado de descrições que me traziam também, de uma forma deliciosa, as memórias da minha juventude, já que estas também comuns às do autor. Desaparecido! Hoje, quase por acaso, passei pelo “Ana de Amsterdam(ainda com link) e andei a desembrulhar leituras, e a deleitar-me com algumas delas. Aparentemente este ainda existe e até ele ainda vou encontrando o caminho, mesmo que incidentalmente. E outros, ainda que escassos, também. Ainda.  Como é possível que o mesmo espaço (a blogosfera) que estimula e nos presenteia com peças extraordinárias de literatura, de um dia para o outro as impluda, sem que uma vírgula sequer tenha sobrevivido de um texto que nos maravilhou, sem um sinal deixado sobre o seu novo paradeiro, sem nada mais que não um banner comercial a informar-nos sobre os melhores comprimidos para o tesão?!

Se calhar é isso que também me encanta, essa fragilidade dos blogues, a mortalidade da sua escrita. O mesmo ímpeto que leva alguém a partilhá-la connosco, de forma espontânea e por vezes tão íntima, é o mesmo que o condena à sua efemeridade. Como se fosse uma janela distraidamente deixada aberta, por onde podemos ir dando uma espreitadela para um lugar de alguém, até que um dia a encontramos fechada. Como se um blogue, porque um dia morre, fosse por isso uma pequena peça de vida. Se calhar é essa sua condição humana, emanada do seu autor, que tanto o distingue da altiva escrita grafada, algures desmaiada na prateleira de uma estante empoeirada.


nem do antes nem do depois

Há demasiados factos, dados e opiniões sobre a infinidade de coisas novas que todos os dias acontecem. Já ninguém as colige. Cabe hoje a cada um pesquisar, integrar, filtrar, avalisar e concluir sobre tudo isso. Depois, e porque qualquer indivíduo anónimo hoje tem acesso a um manancial de disseminação de fazer inveja a qualquer imprensa de porte médio de há vinte anos atrás, recrudescem novos níveis de comunicação, uma segunda camada de informação, opinosa, disforme, que de tão massificada se torna lerda, que de tão vasta se torna indigerível. A humanidade criou dispositivos de comunicação tão eficazes, que ela própria deixou de ser capaz de consumir o que produz  – diz-se que 90% das coisas que se escrevem nunca serão lidas por ninguém.

Mas esta não é uma mudança de paradigma exclusiva da informação e comunicação. Também do lado da indústria, no domínio da concepção de produtos, as tecnologias emergentes arrepiam as sociedades industriais e as pesadas infra-estruturas fabris, cujo perímetro de acção era estanque e o seu território ignorado pelo lado do consumo, estão agora a confrontar-se com uma sociedade que começa a ter capacidade de produzir por si mesma e de criar em rede um tal potencial de criatividade que qualquer gabinete de projecto se deverá sentir tremer – diz-se que nos próximos 25 anos serão gerados mais novos produtos que em toda a história de humanidade. Esta humanidade em rede que se tornou hoje uma máquina de invenção do novo e do prolífero tão eficaz que ela própria deixou de ter a capacidade para lidar com a informação e absorver os bens que produz porque continua a depender de cada um de nós e não de uma voracidade infinita.

A velocidade, o tempo, este é o novo paradigma desta civilização. Os mais aptos tirarão partido dela, ainda que isso signifique apenas uma dízima do que desperdiçam. O mundo avança demasiado depressa, um mundo onde todos os fenómenos se transformaram em orfãos de um mecanismo viral, posse de um colectivo desinteressado, que se compraz mais no acto da sua (re)criação e propagação que no seu usufruto. Os mais novos integrarão em si, desde o berço, essas novas capacidades que os preparam para esta realidade, desviando o supérfluo, mesmo que isso signifique a exclusão da cultura e do eclectismo, ou tão simplesmente um lugar para descansar no silêncio da natureza. Não tenho dúvidas que entre uns e outros nunca na história da humanidade esta evoluirá de forma tão abissal e veloz. Assim foi na geração antes da minha e assim será na geração depois da minha.

Cada vez mais o passado resumir-se-á a uma fracção irrelevante do que o dia de hoje aponta e a história deixará cada vez mais de ser uma referência nele contida. Já não há passado, mas uma colina de informação, de experiências e de novas ideias que ontem não tivemos tempo para organizar, encavalitados no vertiginoso das novas coisas. O mundo avança demasiado depressa, muito mais depressa do que o ritmo a que somos capazes de o viver. Todos os fenómenos deixaram de ter uma origem para se transformaram em algo viral, posse de um colectivo, que os exponencia a tal ponto que individualmente deixamos de estar aptos para os entrelaçar entre si e no tempo .

Dantes escutávamos o mundo com tempo suficiente. Tudo tinha uma origem, um mentor, um significado e resultado. Hoje não, todos os acontecimentos adquirem a mesma ordem de importância, os mais populares (que não os mais relevantes) rapidamente tomam uma dimensão abissal e são possuídos por um colectivo de milhões que não os verticaliza, apenas lhe acrescenta novos tentáculos. As coisas novas deixaram de ser importantes, tornaram-se banais e o que verdadeiramente se tornou importante é que todos os dias apareçam coisas novas, indiferentemente da sua natureza.

Dantes, os mais velhos, eram tidos como uma reserva nas decisões. Eles não estavam tão aptos a olhar o futuro, mas traziam consigo os hábitos, a história, o bom senso, criavam pontes entre cada um dos lados da história, insinuavam caminhos para nos trazerem do passado para um futuro por diante, nalguns casos de forma demasiada assisada mas quase sempre fazendo pontes. Hoje quase nada sobra de ontem. Pouco mais que aquilo que se gizou produzir e consumir para amanhã. É cada vez mais um tempo sem passado, sem velhos e sem memória.  E a memória  é a ponte da humanidade entre a sua história e a parte do futuro que ela ainda pode racionalizar. Mas as pontes da memória deixaram de ser importantes nesta superprodução de coisas e acontecimentos.

E ademais há a outra parte, a da vida. Receio que por diante muitos deixem de perceber e nisso de usufruir o poder estar, apenas estar. Seja debaixo de uma árvore, dormitando no silêncio da natureza, seja revisitando amizades e histórias entre copos, conversas e memórias, seja simplesmente escutando o vagar da verdade na boca de um velho ao final da tarde. Sim, é verdade. Não sou fanático do novo e vivo nesta permanente ansiedade com este futuro que todos os dias muda sem tempo prévio para se anunciar. Mas quero acreditar também que não sou ainda um velho, um acidente de um passado já improvável, um incompetente a enfrentar a vida como ela hoje é. Mas a que mundo afinal pertenço?

Não sei. E estou com medo. Quero poder ir andando pela vida e não que a vida me sugue por um túnel de vácuo a uma velocidade tão vertiginosa que nem tempo tenha para apreciar a paisagem. E nisto da vida, é isso mesmo … eu só quero poder apreciar a paisagem.

bengala


de quem eu digo que sou

Somos feitos de fragmentos que disparam em todas as direcções, pequenos estilhaços do nosso comportamento, ainda que depois teimemos em os alisar numa agradável ilusão de personalidade. De nós partem muitas latitudes mas, como sempre, teimamos em achar que caminhamos numa única (e honesta) direcção. Mas não há em nós o bem ou o mal – há o bem e o mal. O resto somos nós a fingir-nos de nós.

É por isso que nos é mais fácil achar sobre os outros, porque deles apenas reunimos os fragmentos do que são, olhando-os interrompidamente, sem essa ilusão virtuosa que armamos dentro de nós para não nos sentirmos insustentavelmente disformes. Neles julgamos comportamentos, em nós justificamos caracteres. É desigual.

Há quase 10 anos ensaiei exactamente isso, pintar-me com fragmentos muito antigos, da quase infância. Pequenos episódios avulsos entre a honra e a vergonha. Experimentei-o aqui:

#1

Repartíamos o orgulho de termos tirado a melhor nota no exame nacional. Nada mais nos unia. Ele deslocado do Douro interior e em vias de voltar para ajudar o pai nas vindimas, eu apenas num intervalo da vida aburguesada da cidade. Estendia a oportunidade, sugerindo que ainda assim se demoraria mais dois dias pela capital, que mal conhecia e que bem podíamos … quando me pediu o telefone pensei que não tinha nenhum sentido que nos viéssemos a encontrar, mas não lho disse. Nem o incómodo de lhe dizer isso, com a sinceridade possível, lhe concedi. Dei-lhe o primeiro número que me veio à cabeça.

#2

Na frente corríamos todos que nem loucos. Quando o vi atrasar-se, com um corpinho ainda mais miúdo que o meu e começar a ser envolvido por aquela multidão furiosa estaquei o passo e fiz-me ao seu lado. Ainda alteei a voz enquanto o escondia por trás das minhas costas … depois levei uma paulada na cabeça e passei a gozar da fama dessa ousadia.

#3

Por duas vezes me perguntou se aquela revista ordinária que estava caída no quintal era minha. Por duas vezes lhe disse que não. E avançava que tal descuido e com irmãs mais novas por ali sempre a brincar … mas eu mantinha que não. Sabia as páginas quase de cor. Nunca me ocorrera que pudesse rebolar do telhado para onde a tinha atirado. Por duas vezes me perguntou e por duas vezes o neguei. Neguei-me. A fúria da minha sexualidade adolescente tornou-se então uma prática obscura a que eu me condenei.

#4

Escutava no quarto ao lado o zurzir das chineladas. Ainda me corriam as lágrimas da biqueirada que ele me enfiara nas costas. Tudo começara como sempre, ele a fazer-se de irmão mais velho e eu a negar-lhe o estatuto. Ouvia-o agora em choros aflitos, ali ao lado e ainda me ocorreu intervir, dizer que a culpa também era minha. Em vez disso deixei-me ficar, consolado, com um sorriso traidor.

#5

Quando jovem tive um barco à vela. Aparelhei-o e desaparelhei-o vezes sem conta. Numas ainda zarpei, noutras fiquei a olhar o mar e fingi ter perdido a palamenta.

Vermo-nos em pequenos fotogramas, sem os alisar e retocar, é um exercício duro. O mesmo exercício que praticamos (destinamos) tantas vezes aos outros.


do onanismo da auto-citação

O silêncio, a ausência, a saudade, tudo o que vive calado, parece sempre maior quando olhamos demasiado para ele.


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