Category Archives: Conversações

do dia do pai e do dia em que as palavras o transformaram num enorme ruído

Nunca o percebi. Instruí-me numa profissão técnica, não era suposto ter de escrever tanto. Mas faço-o e fi-lo sempre. Mas custa-me a perceber. Outros com funções idênticas às minhas não escrevem nem pela metade. Mas talvez perceba. Há anos que me acompanha esta sensação de que a palavra, quando grafada, torna as afirmações mais verdadeiras, as sensações mais intensas, as ilusões mais honestas, e faz-nos melhores e maiores aos olhos de quem nos lê. Ficamos mais bem-parecidos e o que dizemos parece valer mais. Escreve-se, escrevo eu tanto, por isso? Creio que sim. Mas há um mistério curioso na origem deste exercício. O que durante anos escrevi de forma pública tinha um leitor destinatário. Eu. Durante mais de 10 anos, que são esses os anos que levo pecando neste exercício, sempre achei que assim feito, lendo-me a mim mesmo no meio dos outros, me fazia parecer mais belo e até, por culpa de me repetir nesta insaciedade da autoleitura, tornar-me apto a transformar passados, retocando-os na medida em que porventura se me parecessem mais entusiasmantes.

Depois apareceram as redes sociais e particularmente o facebook – destas todas, a única que integro – e descubro que afinal, a escrita, o que nos conduz a ela, ou melhor, o que nos leva a publicar aquilo que achamos, essa necessidade de, dizendo aos outros, parecermos mais belos e verdadeiros, afinal é um elixir da humanidade em geral e não apenas de alguns. Isso induz algo de extraordinário. Creio que nunca antes tanta gente terá valorizado o exercício da escrita. Tenho a certeza de que isso nunca aconteceu antes. E é ao mesmo tempo algo inusitado. Numa época onde nunca se escreveu tão mal, num tempo onde a vida se vive tão aligeirada das coisas que nos dão trabalho, escrever é um acto que deveria ser descartado. Mas não, afinal é um arcaísmo que, contra a natureza dos tempos, não só sobreviveu como se tornou hábito corrente.

Como digo, há nisso algo de extraordinário e de belo. Mas tem também os seus revezes. A palavra assim democratizada, tão profusa, esgrimida em tantas direcções amontoadamente, começa a transformar-se num enorme e indiscernível ruído. Antes, neste exercício entre o onanismo e a exacerbação das minhas memórias, quando derramava aqui alguma coisa, havia uma película mágica entre mim e o mundo que me trazia a sensação de que todos me escutavam (e tinha uma boa audiência para ajudar) num acomodado silêncio. Mas hoje, o que sinto é exactamente o oposto, é que todos me querem reclamar para seu leitor, e nisso sem tempo para me lerem. Existe uma competição exasperada pela palavra, cada um lançando-as, mais ou menos cuidadamente, aos outros. E são tantos, somos tantos, competindo entre este papel de autor e leitor, que a maior parte dessas palavras acaba por nascer morta, sem alguém que alguma vez as venha a ler. Como tudo o que é excessivo, também hoje, as palavras escritas em alvoroço, tecladas por milhões e milhões de dedos, tornam-se um desperdício, algo que afinal nunca chega a acontecer. Já não se escreve com a cuidada vaidade e orgulho de se poder vir a ser apreciado por alguém que nos lê. Escreve-se porque isso nos traz essa ilusão, e isso nos basta.

Durante esta década em que fui cultivando deleitosamente a prática da escrita, terei vertido porventura vários textos sobre o meu pai, um homem que me marcou profundamente e que tantas vezes, (de forma tão silenciosa que só muito mais tarde eu o soube reconhecer), influenciou os meus padrões de vida. Mas isso foi antes de perceber – tal como hoje vou lendo por todo o lado – que afinal ele era tão importante quanto todos os outros. Então escrevia-o porque poderia criar a ilusão de que nenhum outro poderia provocar em alguém aquilo que eu sentia pelo meu. Por isso, depois, agora, deixei de ter vontade de o ‘escrever’ aqui. Porque a intimidade com que lhe dedico a saudade e eterna admiração não se presta a comparações. E é por isso que agora, ao meu, o abrigo no silêncio.

As memórias do que nos é grato podem festejar-se com palavras, desde que haja quem as leia. Sobretudo desde que nós próprios consigamos pausar o suficiente para, com tranquilidade, os podermos saudar na escrita que lhes dedicamos. Mas no mundo de hoje somos todos tão sedentos de emitir que já não há quem nos leia, nem nós mesmos. Os pais, os nossos pais, não se podem trazer a esta competição absurda das palavras, porque são nossos e incomparáveis. E porque nunca iremos ser capazes de conceber que o nosso partilhe o mesmo pedestal de palavras com os outros. Mas sobretudo porque as memórias que deles guardamos merecem muito mais do que serem transformadas à nascença em cadáveres de palavras, amontoadas sem nunca terem sido lidas no ruído catatónico da internet.


o muro não caiu, o muro não cairá

Em tempos deixei registo de um episódio de infância num blogue colectivo que partilhava esse tipo de nostalgias amealhadas nos Olivais. Logo saltaram a terreiro amigos mais incrédulos, querendo desmantelar-me as memórias que ali averbei: que tão pouco o muro, o adamastor dessas recordações, que nem tal edificação alguma vez existira.

Pois aqui deixo prova video – ao minuto 11:29, no prédio em primeiro plano, do seu lado direito, luminosamente branco e enorme, como enorme foi a minha façanha, eis o dito muro – essa empena existia, existe e existirá sempre, mesmo para além da história a que quiseram estorvar a verdade.

Que vos sirva de lição, que nunca mais atentem contra as recordações de uma criança sobrevividas à exaustão do tempo. Posso perder o tino do que fiz ontem ou não lembrar do que amanhã me compromete, mas no meu vasilhame da infância ninguém toca.


da idade e de mais alguém que se junta em mim

Também eu, como tu, senti de forma irreparável a perda do meu pai. Como tu, presumo, também a minha vida deixou de ser a de sempre para passar a ser outra, a minha vida sem ele. E também eu, como tu, depois de o ver partir, voltei a perder um grande amigo, por uma e outra vez e por mais outras tantas que já não quis contar. E mais uma vez a minha vida voltou a não mais ser a mesma. A vida que nos vai restando vai ficando esburacada deles. Não das suas memórias, mas das suas presenças, como se só agora percebessemos que – sem um ocasional convite para jantar, um conselho num entre-conversas, uma gargalhada arrastada ou um súbito silêncio desses que não nos trazem incómodo – nos arriscamos a peregrinar mais dentro de nós, sem sentido e direcção. Sabes quando mais os sinto? Quando algo de bom me acontece, quando algo de bom faço e não posso colher deles o orgulho de mim. Sim, no fundo sentir a perda deles é este mero acto de egoísmo vaidoso, esse de sabermos que aquilo que somos e as façanhas que juntamos já não nos sabem tão bem nem nos fazem parecer tão grandes sem os seus olhos brilhantes a falarem de nós.

Depois resignamo-nos a viver assim e aos poucos substituímo-los dentro de nós. Não as suas memórias, nem as suas vozes, nem esses laivos dos seus gestos que nos aparecem a partir de breves coincidências, mas esse ver-nos no que neles gostávamos de ver de nós, essa outra forma de nos amarmos a nós próprios, que antes, com eles, nunca tínhamos precisado. Cresce-se assim? É crescer isto? Envelhecer? Não sei. Nada sei sobre este ficar privado de alguém, porque cada vez que isso me acontece sinto-o como da primeira vez. Umas superam-se melhor, as outras obrigam-nos a ser mais fortes, mas nenhuma nos prepara para a que vier a seguir.

Não sei escrever nada disto, deste tudo que esse nada tanto significa. Sei que comigo é assim, como creio que contigo também o é, como em todos será. E sei também, sinto-o no meio desta tanta ausência, que mais do que as palavras que não me conseguem explicar há uma espécie de conforto por entrever-te aí, lá na distância da tua mágoa que assim partilhada parece mais curta. No fundo nem importa que tenhamos de explicar essas ausências, mas sim que nos saibamos ainda à distância um do outro. Importa sim que ainda possamos estar… mesmo que agora já sejas um deles.

Pois, agora fazes também parte de mim. Ainda ontem falávamos sobre este lugar, em conversa corrida, e tu levavas-nos avante sem vírgulas nem hesitações, enquanto eu te tentava seguir e compreender. Agora, quem sabe, ouso pensar que estavas apenas a arrumar um espaço neste futuro a que já não pertences, um sítio em mim onde pudesses pernoitar, algures neste meio século de mim que agora nos irá juntar. Sei agora, vou sabendo, que o envelhecimento não advém dos anos que passam por nós. Ninguém se cansa de envelhecer, o que vamos é andando mais afadigados com aqueles que vamos carregando dentro de nós. Mas acomoda-te algures aí, aqui, perto dos outros, que eu ainda vou continuar por cá mais um pouco, a levar-vos comigo.

Aquele abraço


porque o desejo só habita no que ainda está para vir,

nesse futuro que será sempre o lugar onde nos poderemos surpreender,

nada do que se deseja poderá ser por isso mentira ou impossível.

 

E por isso desejo-vos um ano de 2012 pleno de oportunidades de trabalho,

prenhe de mistérios

e de sótãos para reconstruir


olha, afinal um blog também pode ter utilidade!?

O meu filho está a fazer um inquérito on-line sobre genética com fins meramente académicos. Será que podem passar por lá?


uma lição de culinária, (ou de como um blogue serve para tudo)

Chego hoje aqui para regar as plantas já murchas  e acabo por constatar que a expressão de busca que nos últimos tempos mais tem trazido leitores a este blogue é precisamente: “receitas de feijoada“. É a decadência! e a raiva também. E basta-me isso para de forma determinada, ainda que desanimada, garantir aos anónimos pretendentes a chefes de cozinha que nunca aqui desvendarei o segredo dessa receita, até porque, como já o devem ter constatado aqui, n’ “a melhor feijoada do mundo“, ele não está nos ingredientes,

… mas no homem que nos criou!


colectando

Ana, lá para o painel de fotos do mar que queres arranjar, achas que ficavam mal umas palavrinhas a situarem o momento, enfim, uma coisa assim um bocado de pai amaricado, como esta por exemplo, entre maiorca e ibiza?


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