Category Archives: devaneios

Filhos da mãe

O dia da mãe é sagrado e para não me chamarem herege antecipo-o com um texto para aqui encontrado. Não se dão flores murchas no dia da mãe. De plástico sim, que as há muitas. Ou um texto sem perfume, como este. 

“Em cada mulher há um regaço de que um homem abusa. Primeiro confundindo afectos com lanches e mochilas preparadas e camas feitas e essas pequenas coisinhas com que ainda miúdos nos vamos rodeando, disso habituando e a elas cercando. Depois, já em adultos, prosseguindo, abusando, aqui já pai dos nossos filhos, a entregar-lhe a ela aquilo que de outra recebemos antes. Não falo dos mimos, sejamos claros, falo daquilo que os homens, hipocritamente, continuam à espera que uma mãe e mais tarde, se possível, uma outra mulher, possa fazer por eles. Nada tem a ver com afectos, fertilidade ou sensibilidade. Falo desse ramerrame que nós homens fazemos por ignorar e desvalorizar, pais e filhos, para o qual as empurramos no teatro do dia-a-dia. Chamamos a nós outros papéis e chamamos a essa labuta de “amor de mãe”. A desfaçatez de uma palavra suave de vez em quando por troca de uma pequena tarefa doméstica.

Elas são as mulheres que amamos. Por isso os mais sensíveis trocam isso por flores e dão urras ao dia da mãe em troca de poesias bonitas. Parece-me bem. Não vejo mesmo o que melhor pode fazer um filho da mãe.”

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bloco de notas

Amanhã vou fazer contas à vida … e já vai atrasado!
Tenho talões de memórias espalhados por todo o lado e acertos a fazer com tanta gente …

do improviso da idade

Quando nós crescemos, as coisas novas surpreendem-nos menos e algumas coisas velhas vão ficando esquecidas. Por isso nós gostamos cada vez mais das coisas que temos. Mas isso já tu sabes.

Quando nós crescemos, as coisas crescem connosco e cada dia passam a fazer mais parte de nós. Por isso os nossos amigos são cada vez mais os nossos amigos. Mas isso já tu sabes.

Quando nós crescemos, por vezes acordamos com nuvens. Depois sentimos que isso é porque estamos um pouco mais perto de algo e isso torna-nos ainda mais orgulhosos do que já andámos até aqui. Mas isso já tu sabes.

Quando nós crescemos, somos mais descrentes e positivos, mais eufóricos e apáticos e vamos vivendo num estado de maior alternação, copiando a vida. Mas isso porque sentimos que lidamos com mais do que já somos. Mas isso já tu sabes.

Quando nós crescemos, olhamos para o que fizemos e às vezes pensamos que não fizemos tudo. Então deitamos a cabeça no colo de alguém, a costurar o tempo, não desistidos mas sem que nada mais importe … Do que aquilo que tu já sabes


da morte de um poeta

hoje morreu herberto helder

e mais 150 pessoas num avião despenhado nos alpes,

hoje morreu também o meu vizinho

e outros tantos milhões noutras ruas deste mundo.

o pesar pelo que nos é próximo é a mais aconchegante ilusão

que semeamos na tristeza,

para fazermos da morte coisa mais humana e ponderável,

sem esse seu angustiante fim infinito

que nunca saberemos conceber.


das mãos e da arrogância de ser feliz

Gosto de criar, de o fazer com as mãos e sonho um dia acabar as minhas forças numa carpintaria. Posso não ter muito jeito com algumas coisas, mas dêm-me um naco de madeira e algumas ferramentas e eu apresto-me a mostrar a minha franqueza. Sempre me senti mais sereno e seguro com o concreto. O mais perto que encontrei disso na formação académica fez de mim Engenheiro Mecânico. Depois fui me deixando seguir – em contra-mão com este mundo profissional do frenesim da permanente mobilidade – aclimatado a uma organização onde esse mesmo quadro de criatividade, mutabilidade e concretividade, que ainda hoje me seduz, me dissuadiu sempre de procurar outras alternativas profissionais.

Mas o traço da vida é uma sinusóide imperfeita, cujas assimptotas nem sempre são susceptíveis de serem antecipadas por nós. Esmorece-se, desanima-se, e aos poucos vamo(nos) afundando na apatia de uma vida qualquer, e entrega-se à rotina aquilo que são as qualidades que sempre procurámos e exigimos de nós. E damos por nós longe do que queríamos ser, sem um resmungo sequer.

Só tomamos consciência do quão longe andávamos da nossa natureza quando, por sorte, o destino nos traz de volta ao espaço onde sempre nos sentimos bem e então, aí, percebemos de novo a ventura que temos pela frente. E de repente tudo muda. Percebemos o quão importante somos, o quão realizador pode ser viver e prosseguir em todas as facetas que escolhemos para a nossa vida, tendo por mote a convicção da felicidade.

Vem isto a propósito das terças partes que hoje preenchem a minha vida:

  • Vejo-me de novo a gerar projectos, a criar oportunidades, a entregar resultados concretos para fortalecer o amplexo profissional que partilho na minha empresa. Este clima de criatividade é agora também salpicado por incessantes viagens aos mais recônditos e imprevisíveis locais da Europa, e sabe bem quem gira por essas lides que não haverá melhor contexto para a auto-interrogação que de vez a vez encontrarmo-nos longe da nossa vida comum, do que nos é próximo, do nosso bunker de conforto.
  • Nos tempos livres que me sobram mergulho agora num idoso sótão que durante anos a fio deixei ao abandono. Olho para aquele madeirame todo e sinto as minhas mãos encavalitarem-se de vontade. Aquele que irá ser o espaço dos meus filhos é antes disso, e agora, a oportunidade que tenho para inventariar, projectar, levantar, remendar, martelar, serrar, repintar, afagar, refazer, criar. Só eu sei o deleite que é poder voltar a investir neste nosso espaço, como se nisso de cuidar do nosso tecto houvesse algo de primordial, de essencial, cujo investimento me realiza mais do que qualquer outra noção de sobrevivência.
  • E depois, depois, porque ainda há tempo que sobra, porque esse é um tempo que nunca poderá ser ocupado com mais nada que não aquilo que o empenha, tenho andado ocupado em redescobrir o amor. O amor é como o madeirame do meu sótão. Vai ficando velho, cansado e por vezes abandonado, sem que nós tenhamos dado conta disso. Mas está lá, continua lá, agarrando o telhado. Volto-me para ele com a mesma vontade e prazer com que subo os lances do sótão. Todos os dias me invisto agora nele e todos os dias descubro esta felicidade indizível de o ver rejuvenescido.

Que dizer, que falar mais, quando este momento da minha vida sacia por inteiro o que é mais perene na minha natureza e me faz sentir tão completo perante a minha intelectualidade, a minha ânsia do concreto e a minha sentimentalidade. Sou hoje o homem mais importante do mundo, a minha profissão também o é, e o meu sótão, e aqueles que amo.

 

(Mas, e o Euro, ouço algures perguntar com ar sisudo e preocupado. Pouco me importa o Euro, ou que chova lá fora.)


4 dias

faltam apenas 4 dias

para voltar a ser contaminado!



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