Category Archives: Irritações

porque raio haverias de me passar à frente na fila ?!

Hoje vou finalmente dizer-te umas coisas que tu precisas de ouvir Joni B.

Quantas vezes te disse que não podes ser assim, assim tanto, assim para tantos. Quantas vezes te disse que ninguém pode ser sempre assim, que ninguém é infinito, mesmo que tu o possas parecer. Mas tu nunca acreditaste nisso, pois não, que não podemos estar em todo o lado de cada vez que um de nós te chama, que isso cansa, e muitos e muitas vezes cansa demasiado.

Agora alguns de nós andamos a procurar conforto na religião, como se essa pudesse servir para explicar os desígnios que nós não conseguimos aceitar. Outros vasculhamos a justiça no mundo, como se o mundo com todo aquele mar que sempre nos aprisionou pudesse dar-nos mais respostas do que apenas ser belo. Mas a maior parte de nós remete para as explicações mais prosaicas e tentamos refugiar-nos na ciência para fingirmos compreender o que é ainda inverosímil, como se tudo isto se tivesse resumido a um incidente clínico.

Mas sabes, eu tenho quase a certeza que não foi nada disto. Não foi porque Deus quisesse ou andasse distraído, não foi pelo acaso implacável da nossa condição humana e muito menos foi por enfarte como nos querem fazer crer. Tu morreste pelo coração, sim, mas não morreste do coração. Eu não percebo como tanta gente não sabe ver a diferença nisso, mas sei que num serão bem esgalhado nós os dois seríamos capazes de convencer o mundo inteiro de que eu tenho razão. Ora ouve, que a minha ‘mecânica’ é como a tua ‘música clássica’, irrefutável. Aprendi tanto contigo a escutá-la para não mais a questionar que agora te peço que me escutes tu a mim.

Todas essas merdices extremamente importantes com que te procurava, tantas e tantas vezes, onde é que elas ficavam quando delas me aliviavas? Quando te deixava, às vezes já alvorada, julgas que não sei onde guardavas as coisas de que me tinhas desafogado? E julgas que não sei quantas vezes isso se repetia com tantos outros? Que peito aguenta um coração que precisa de ir sempre guardando bocados de pessoas? Até que tamanho pode um coração crescer dentro dele? Não, tu não morreste do coração, tu morreste pelo coração.

Tudo estaria bem e tu estarias cá se no fim tudo não se resumisse a uma membrana, uma fina película incapaz de suster o quanto tu tiveste de guardar dentro dela, por nós. E quantas vezes te disse isso, caramba. Mas não ligavas e sorrias com aquele jeito que desarma qualquer razão, na tua maneira especial de dizer “não inventes Boné”.

E agora puto, na parte de mim que ia ter contigo quando eu não sabia estar comigo, o que faço com isso? onde ouvirei agora o que não sou capaz de dizer a mim mesmo? em que abraço sereno, em que silêncio, me sentirei tão compreendido?

E agora João, quando precisar de ti, como faço?

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a ver se me sinto melhor agora

Se eu apanho o filho da puta que anda há dois meses a gozar comigo e que ainda tem a cobardia de se esconder atrás da lua, juro que lhe vou aos fagotes!


Filhos da mãe

O dia da mãe é sagrado e para não me chamarem herege antecipo-o com um texto para aqui encontrado. Não se dão flores murchas no dia da mãe. De plástico sim, que as há muitas. Ou um texto sem perfume, como este. 

“Em cada mulher há um regaço de que um homem abusa. Primeiro confundindo afectos com lanches e mochilas preparadas e camas feitas e essas pequenas coisinhas com que ainda miúdos nos vamos rodeando, disso habituando e a elas cercando. Depois, já em adultos, prosseguindo, abusando, aqui já pai dos nossos filhos, a entregar-lhe a ela aquilo que de outra recebemos antes. Não falo dos mimos, sejamos claros, falo daquilo que os homens, hipocritamente, continuam à espera que uma mãe e mais tarde, se possível, uma outra mulher, possa fazer por eles. Nada tem a ver com afectos, fertilidade ou sensibilidade. Falo desse ramerrame que nós homens fazemos por ignorar e desvalorizar, pais e filhos, para o qual as empurramos no teatro do dia-a-dia. Chamamos a nós outros papéis e chamamos a essa labuta de “amor de mãe”. A desfaçatez de uma palavra suave de vez em quando por troca de uma pequena tarefa doméstica.

Elas são as mulheres que amamos. Por isso os mais sensíveis trocam isso por flores e dão urras ao dia da mãe em troca de poesias bonitas. Parece-me bem. Não vejo mesmo o que melhor pode fazer um filho da mãe.”


mais uma viagem pelos lábios dela

Chego a casa já noite avançada e encontro-a a dormir no sofá. Aproximo-me, cautelosamente. Seria embaraçoso que ela despertasse e me visse este olhar d’agora. E escusável. Sei que se isso acontecesse iria ainda acicatar-me mais a fúria com que horas antes, estrondosamente, ali a havia deixado. Mas algo em mim não resiste, algo em mim não lhe resiste. Ajoelho-me ao seu lado e aproximo-me ainda mais. Quase lhe toco a respiração.

Deixo-me assim ficar, pairando sobre os seus olhos fechados e depois seguindo-lhe as rugas que deles divergem, lendo-a. Cada uma dessas linhas lavra um tempo, pessoas, episódios, troços do passado que revivo, onde a encontro, e onde ela me vê. São traços dela que são já meus também, de um passado cada vez mais partilhado e prolongado que assim se sulca. Nenhum passado é igual nem de igual se conta cada passado, mas o meu passado já é tanto dela que se por ela contado seria mais franco do que por mim relatado. Continuo a seguir-lhe esse raiado que lhe nasce dos cantos dos olhos, e o passado que percorro nele, a forma como o conta, é um passado preenchido, sereno, bastante. Olho-o (olho-a) e compreendo como isso é indissociável de mim, e como conheço tão bem cada milímetro que percorro na sua face quase como se fora um episódio particular da minha vida. Olho-a e apercebo-me como é bom poder ter ela também para contar a minha vida, como é bom poder ser ela a fazê-lo, e bem melhor do que eu.

Depois desço para a sua boca e aí me perco mais um tempo. Aqui não é o passado que repousa. Os seus lábios falam-me do futuro, do que ainda temos para sorver, da carne e do desejo, do que agora sinto por eles e do que tanto deles quero amanhã. São generosos, grandes, vivos. Percorro lentamente com o dedo as suas curvas adormecidas e sigo tacteando o desenho desse viver sereno e carnudo, capaz de sussurrar subtilmente o que tantas vezes me falta nos gritos desvairados do fim do dia.  Contorno-os até tocar o arrebique de felicidade que volteia os seus cantos. Ali onde as duas linhas se tocam, no exacto ponto onde se forma o seu sorriso, é ali onde quero que se abrigue a minha vida, que nada há que conheça que tão veementemente me fale da felicidade por diante, ali mesmo, nesse futuro onde quero estar. Há neles uma curva arredondada que sabe fruir o que vem enquanto eu estou demasiado ocupado a prever o que depois se seguirá. Esses lábios são o que traz o nosso futuro. Não o que eu planeio, antecipo, alvitro e acautelo, e que de tão ocupado nisso me esqueço de receber, mas aquele que nos chega agora, o futuro que nos entra pela vida adentro e que, aqui chegado, encontra nela quem o receba.

Agora afasto-me, subitamente. Não quero que as convulsões de riso que me atravessam a despertem. Rio de mim: acabo de determinar que o meu amuo, desta vez, por mais esta vez, expirou. Que importa toda a razão do mundo e mais as minhas justificadas iras, se dela tenho os seus lábios. Se neles repousa o nosso agora que tantas vezes desperdiço.


das palavras naufragadas

Quando brancos matavam pretos eram racistas, pois eram. Quando pretos matam pretos, são agora xenófobos. Há um século quando um barco naufragou com 1.500 membros da elite social foi uma catástrofe tão grande que ainda hoje é persistentemente recordada. Nos últimos 15 meses morreram nas águas do mediterrâneo 4.500 pessoas, aquilata-se agora. Depois far-se-ão umas cimeiras e deixará de haver o antes e o depois dessas famílias inteiras que continuarão a afogar-se silenciosamente nessa quimera de um futuro impossível.

Malditas palavras. Tirem-lhes a culatra.


da mulher desnuda com a criança atrás

Sobre o conteúdo deste artigo no ‘Observador’,  – se calhar porque tenho uma embirração especial com a sua autora o que me torna incapaz de conter a subjectividade que daí derramaria – ainda que possa concordar com uma parte do que refere, pese embora todo o seu argumentário me pareça um artificialismo para conduzir a conclusões que nada colam com o que elabora antes,  não me vou pronunciar – enfim, afinal, ainda que brevemente, não resisti a uma pequena alfinetada.

Já o tema em si sempre me encanitou, como me irritam a maioria dos combates em prol do politicamente correcto (e escrevo ‘combates’ sem aspas, pois a atitude a que me refiro é normalmente um estado de guerrilha social que é na generalidade das situações absolutamente gratuito).  Começam por pequenos estertores mas que rapidamente formam um ruído desemesurado, onde já não se ‘escuta’, fazendo mola na condição idiota de simplesmente combater convenções, tão pouco matutando sobre o significado das mesmas e raramente levantando qualquer tipo de interrogação a partir de um plano isento. É a teoria da reengenharia total. E se isso de ‘recomeçar com uma folha em branco’, que em alguns casos empresariais pode significar um último esforço para uma desesperada sobrevivência, num contexto sócio-cultural, fazendo tábua rasa de todos e quaisquer códigos sociais, da arte da boa convivência e do respeito pelos outros, e até de alguns preceitos de ética e etiqueta, sem sequer os interpretar, é pura selvajaria.

Vem isto a propósito da amamentação em público. É evidente que, aqui chegado, já pouco precisarei de dizer mais, é assim mesmo: há uns que já se abespinharam e que estão prontinhos para me chamar retrógrado ou outra qualquer coisa menos comedida e outros que correm mais aceleradamente para clicarem ali em baixo a dizer que gostam. É este o mal destes temas, a meio do que quer que estejamos a ler já nos afogámos nos nossos próprios preconceitos, até na forma como corremos a mostrar que os não temos.

Mas voltando à questão e do que dela retive: segundo o que alude o artigo há um local privado que pede polidamente a uma mãe que esconda da vista dos outros clientes a imagem das sua mamas enquanto amamenta a sua criança, por isso constituir um desvio ao código de conduta ali aplicável. E pronto, está tudo estragado, saltarão certamente a terreiro aqueles que encarniçadamente alegam que não conseguem perceber como é que há locais onde até a forma mais cândida e natural deste mundo, essa imagem de uma mãe a amamentar o seu filho, querem esconder da vista. Eu pessoalmente também acho lamentável … que tal conduta de comportamento só se aplique em locais privados; deveria ser extensiva a todos os locais públicos.

Como não pretendo fazer moral sobre o assunto apenas declaro que, da minha parte até se poderiam aplicar os velhos costumes cretenses. Não tenho nada contra a visão de mulheres desnudas e só não manifesto que me parece algo que pode pender (desde que não penda demasiado) para uma moda até com razoável encanto e sensualidade, porque arrisco ser acusado de lascivo. Repito, eu, pessoalmente, não me manifestaria contrário à moda dos seios livres, embora admita que isso pudesse trazer alguns momentos mais constrangedores num autocarro à pinha.

O que não percebo é porque é que uma criança, na sua necessidade de amamentação, legitima um costume que em condições normais é tido por censurável ou desajustado. E quase apostaria que os mesmos que manifestam a sua discordância sobre a atitude do hotel que solicitou à senhora que resguardasse da vista dos clientes os seus seios, serão os mesmos que agitariam as suas bandeiras contra essa imagem sexista e exploradora da imagem objecto da mulher, que andaria por aí a céu aberto oscilando os seus seios para gáudio de homens perversos.

Temos portanto que o mesmo comportamento tem censuras opostas conforme a mulher tenha ou não uma criança amamentando-se nos seus mamilos, a ponto de a hipótese de pousar um lenço, resguardando esse momento tão especial entre a mãe e a criança, contendo-o assim de ser exibido a outros que nem amigos ou familiares o são, se torna uma profunda ofensa aos valores mais sagrados da maternidade e da mulher. Há tanto aqui que não consigo compreender que nem me sinto apto a explicar melhor porquê.

Mas já sei, eu é que sou o preconceituoso.

Nota de Rodapé: Sou pai de dois filhos e por isso fui espectador privilegiado, (digo bem, espectador), daquela relação quase mágica que se estabelece na maternidade. Costumo dizer em brincadeira que eu só fui pai 6 meses depois da mãe dos meus filhos, tão forte e cúmplice era essa relação que se prolongava com naturalidade da fase embrionária onde os dois se entrelaçavam da forma tão íntima que nunca encontrarei palavras para a descrever. Desses momentos guardo com magia e enternecido a amamentação, um espaço de tranquilidade e comunicação silenciosa que se (r)estabelecia entre os dois, onde eu me remetia para a minha condição de observador privilegiado. Nunca senti que em nenhum de nós os três houvesse essa absoluta necessidade de dessacralizar aquele instante e mantenho a convicção de que o recato do mesmo, se a amamentação tivesse de ter lugar em local público, não seria afectado por um cobrir da fralda ou lenço, antes pelo contrário. A menos que o quisessemos mostrar ao mundo inteiro, mas isso nada tem a ver com os costumes e a perda de liberdade de que aqui me apeteceu falar.


das coisas da natureza que a natureza do homem não percebe

Os vícios dos tempos que correm empurram-nos facilmente para gritar culpas ao homem do lado, seja ele o vizinho ou o presidente da câmara de Lisboa. Que as terão certamente, culpa disto ou daquilo, em parte ou no todo. Mas esse mote de acusação, remete-nos sempre para uma culpa coetânea, um acontecimento presente, uma perda de profundidade crítica. Servirá para discutir e acusar a política certamente, essa política mesquinha dos dias que correm que apenas se debruça sobre o que corre nos dias.

Mas no caso das feridas que a natureza nos mostra, quando ela uma e outra vez rasga vontades pela terra adentro, choca-me ver-nos entretidos nesta dança do costume, tão ensurdecidos pelo barulho destes vozeares que nem nos detemos sequer a auscultá-la, com a distância e a reverência que ela nos merece, esse berço de cada um de nós, do nosso bairro, da nossa cidade, mas também do nosso mundo, e do de todos os nossos antepassados que por cá passaram e de mais aqueles que queiramos nós ainda nele hão-de nascer. Não sermos capazes de compreender e respeitar a natureza, entretidos nesta nossa arroganciazinha de ditar sermões políticos e outros ditames, daqui desta nossa caixinha minúscula de tempo onde cabe a nossa vida, faz-nos tão insignificantes e incompetentes quanto a proporção do tempo geológico tem sobre a nossa efémera condição mortal.

E posto isto, deixo aqui uma foto:

marquês

Sabeis o que retrata? Exactamente, o Marquês de Pombal e, por trás, a zona que virá a ser o Parque Eduardo VII. Agora notem, há um lago, um lago tão grande que até barcos à vela nele aportavam. Isto era assim nos anos 30 (?) do século passado, algo que certamente os nossos avós nos poderiam contar. Para onde foi essa água? Não é preciso ser um especialista em hidrografia para perceber que a Av. da Liberdade já foi leito de um rio que corria entre duas colinas e que certamente desaguaria no Terreiro do Paço, e que o mesmo se passaria na Av. Ceuta que tinha em Alcântara o seu desaguar. Claro que a natureza terá mudado de vontade aqui e ali mas o resto fomos nós a mudar-lhe a vontade. Lembro-me do meu pai contar que na Av. da Liberdade haviam prédios com bombas na cave a bombear continuamente. A água que não vemos hoje, a água que retirámos, envergonhada de ser impedida na sua natureza, escondeu-se, debaixo de terra. E o que fizemos nós, agora que já podíamos construir os nossos caixotes de cimento sobre os leitos que lhe conquistámos. Criámos diques subterrâneos. As entranhas dos edifícios com que rasgámos terra adentro, as cofragens dos parques de estacionamento subterrâneos, a impermeabilização dos solos com camadas sobre camadas de alcatrão e cimento, lá fomos assim erigindo obreiramente muralhas debaixo da terra, para que nem aí a água se fizesse livre. Mas a água que de algum lado virá para algum lado terá de ir, pois essa é a lei da natureza que aparentemente nos achamos capazes de contrariar.

Quando vejo o tipo de reacções a estas recentes inundações extenuarem-se nas habituais acusações sobre a obra que não foi feita ou que foi mal feita é como se estivesse a olhar de cima para uma manifestação de formigas afadigadas a discutirem trilhos, enquanto um tronco de embondeiro, indiferente, lhes está prestes a cair em cima, tão distantes estamos já desta terra que nos acolhe. Lembro-me que há uns meses, na TV, eram então as trágicas reportagens sobre a costa que o maldito mar levara, e em directo, enquanto se viam ao fundo camiões a despejarem milhares e milhares de euros de areia nas praias, era entrevistado em primeiro plano um pescador que lá ia dizendo que aquilo era gente que não percebia do mar, pois que “o que o mar quer o mar leva e traz”. Mas não me pareceu que o entrevistador estivesse sequer atento às suas palavras simples, ele ali como um ornamento exótico do plano de fundo onde os ridículos camiões espojavam os seus baldes de terra, obstinados em julgar que a natureza é coisa que também se pode ‘arranjar’, enquanto o mar, compadecido, do longe do horizonte, sorria.


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