Category Archives: Justificações

Não sei se volto

Há momentos na nossa vida em que nos sentimos inaptos para proferir uma palavra que seja. O que quer que elaboremos assemelha-se a justificações que não queremos dar. O que for que justifiquemos soará a desculpas que ninguém de nós reclamará.

É quando já só nos resta falar que as palavras mais se arriscam a tomar a forma de um feitiço. A construção das palavras é um meticuloso exercício de aptidões onde inventamos sentimentos. Inventamo-los para parecerem ser nossos, inventamo-los para serem o mais fielmente parecidos com os nossos, inventamo-los porque precisamos que sejam nossos, e assim forjamos esse encantamento de nós, tão desonestamente quanto isso.

Há momentos na nossa vida, sobretudo quando sentimos que precisamos urgentemente falar, em que devemos saber calar. Que se evite a ortografia do rigor, essa estética que pouco de nós acrescenta. Que se espante essa escrita dos sentimentos, piedosa quase, que em nós tanto distorce. Que tudo isso junto, engalanado traiçoeiramente nessa mole de palavras, nos chega a fazer acreditar que nós, mais do que quem escreve, somos aquele que (d)escrevemos.

Deixemos em branco – sem rabiscos de letras alteradas – este espaço que nos habita, onde afinal, o que falta, são gestos nossos.


momento lapaliciano dedicado a um amigo

Não há escápulas excessivamente grandes, mas sim quadros demasiado valiosos para caírem ao chão

[sei que isto ainda não soa bem. depois alinharei melhor. distrai-me o medir de forças aqui na sala ao lado: o Diogo treina afincadamente com o pífaro e o gato lança miados desesperados em crescendo. os dois juntos nessa disputa não me deixam condições muito aceitáveis para grandes fabricações tautológicas.]


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