Category Archives: Justificações

Não sei se volto

Há momentos na nossa vida em que nos sentimos inaptos para proferir uma palavra que seja. O que quer que elaboremos assemelha-se a justificações que não queremos dar. O que for que justifiquemos soará a desculpas que ninguém de nós reclamará.

É quando já só nos resta falar que as palavras mais se arriscam a tomar a forma de um feitiço. A construção das palavras é um meticuloso exercício de aptidões onde inventamos sentimentos. Inventamo-los para parecerem ser nossos, inventamo-los para serem o mais fielmente parecidos com os nossos, inventamo-los porque precisamos que sejam nossos, e assim forjamos esse encantamento de nós, tão desonestamente quanto isso.

Há momentos na nossa vida, sobretudo quando sentimos que precisamos urgentemente falar, em que devemos saber calar. Que se evite a ortografia do rigor, essa estética que pouco de nós acrescenta. Que se espante essa escrita dos sentimentos, piedosa quase, que em nós tanto distorce. Que tudo isso junto, engalanado traiçoeiramente nessa mole de palavras, nos chega a fazer acreditar que nós, mais do que quem escreve, somos aquele que (d)escrevemos.

Deixemos em branco – sem rabiscos de letras alteradas – este espaço que nos habita, onde afinal, o que falta, são gestos nossos.

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momento lapaliciano dedicado a um amigo

Não há escápulas excessivamente grandes, mas sim quadros demasiado valiosos para caírem ao chão

[sei que isto ainda não soa bem. depois alinharei melhor. distrai-me o medir de forças aqui na sala ao lado: o Diogo treina afincadamente com o pífaro e o gato lança miados desesperados em crescendo. os dois juntos nessa disputa não me deixam condições muito aceitáveis para grandes fabricações tautológicas.]


e sim,

tenho humores muito variáveis

o-mesmo-de-sempre.jpg


interrupimento

chamam-me

Francisco na cachoada, no Tuga, em Cabrera

voltarei mais tarde. acho.

Adenda: Nem de propósito, e inesperadamente, alguém distende tanto passado, e de forma tão exuberante, que pouco mais – desse movimento repetitivo de rebobinagem que tantas vezes aqui ensaiei – haverá já por tentar. Assim lido, o partir é quase voltar.


aqui …

… apenas isso, a possibilidade de amanhã me revisitar, e se o entender, poder achar-me um estranho. E nem me constrange ver-me assim exposto, a escrita a imitar a minha existência, a clamar inconfidências. Há algo de delinquente nisto, de promíscuo, de impedido, que me faz sentir diferente. Como se eu fosse marginal a tudo isso, e a mim mesmo.

O desfrute deste blog, já o referi várias vezes, não está tanto no escrevê-lo, mas sim no seu revisitar. Ler-me é muitas vezes experimentar um processo ilusionista através do qual consigo estabelecer um diálogo comigo mesmo, em diferido, o qual, de alguma forma, a distância torna mais fértil. Muitas coisas de mim tenho compreendido melhor assim – dessas coisas que não são precisas no dia-a-dia e sobre as quais podemos deixar passar anos (quiçá uma vida inteira) sem as destaparmos. Será essa a razão porque a partir de agora recorrerei a textos antigos, que escrevinhei em outros lugares, e que para aqui trarei. Alguns deles serão simplesmente copiados, transmutados, mas outros sei que irei tecla por tecla reescrever cada uma das suas letras. Porquê?, bom, para isso teria de começar por reconhecer que não fui absolutamente sincero (nunca o terei de ser) no texto que aí em cima começo por reproduzir. Na verdade, quando mergulho em alguns textos que escrevi, não me sinto nada marginal a eles, e nem tão pouco os consigo ver por fora. Há textos, eventualmente os mais carnosos, que são um inexplicável e por vezes espinhoso processo de me reencarnar das memórias e das pessoas que ainda tenho dentro de mim. Não se trata de um luto, porque essas pessoas ainda vivem em mim, e muitas delas à minha volta, no nosso mundo. Não sei discernir essa fronteira, mas consigo compreender que também eu faço parte dessas pessoas que arrisco narrar. Sei apenas que a alguns textos não me os basta ler – preciso pari-los de novo – para deles tirar o que lá guardei. É no fluir das palavras que agitamos que acabam por reacontecer as coisas que contamos, e são elas que trazem uma cara ou um gesto que tínhamos já distraidamente afogado nas saudades, ou um breve trecho de memória que nos leva numa súbita viagem à infância onde aos poucos vamos recuperando o vozeiral de sons familiares em redor da mesa de jantar. Seja o que for que para aqui trouxer, e seja como o trouxer, não hesitarei em os refazer sempre que sentir apelo disso, pois só assim neles encarnarei. A outros esconderei algumas pontas. Gosto também de sentir que neles deixo por escrever aquilo que nunca quererei e conseguirei contar. Faz-me sentir infinito.

[ Para o que então (re)escrever passarei a usar esta cor, sem mais qualquer outra referência. ]


foi 

  muito 

bonito !!! 


actualizando

… e completando o post debaixo, esse o dessa alma rugbista, com um extracto de comentário ao jogo pela imprensa inglesa, com que aqui a amável e longínqua Timor teve a simpatia de homenagear amigo comum.

aproveito para aqui ir deixando aviso para o facto de, possivelmente, durante os próximos dias, este blog não ser imune, e muito menos isento, no que se refere às ‘desapaixonadas’ apreciações do desempenho desportivo mais extraordinário que ocorreu nos últimos anos (décadas?) em Portugal,  (exagero? certo. fico então a aguardar as v. contraposições), e que aqui possam vir a surgir.


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