Category Archives: Lamentações

da inveja

 

eu se fosse poeta queria ser o José Gomes Ferreira.

é preciso um talento especial para ser capaz de dizer coisas lindas sem que pareçam um naperon de palavras

 


declaração de voto

faço-me proibir de votar PCP

seria incapaz de votar BE

mas não voltarei  a votar PS

não, não consigo votar PSD

…  no que resta

… no

(até na vontade do voto me sinto violentado. Patifes!)


estou sem palavras …

Governo demitido faz 156 nomeações e promoções “

… mas o que mais forte me faz calar é esta vergonha que agora tenho para com os meus filhos


dislates de um homem desanimado

 

Os calos na mão provam a obra do artífice? Não, apenas confirmam o ofício.

O esforço por si mesmo traz legitimidade ao propósito? Também não, fará apenas prova.

O que diferencia então a vontade da intenção? Provavelmente, a hipótese de se falhar .

Mas nos crentes isso esconde-se na idiota obstinação de o negar.

Eu sou crente. A minha mentira é maior. E sofro mais por isso.

Hoje vou emborrachar-me. Posso.


reeditando vontades perdidas

 

São 5h da manhã e continuo sem conseguir enterrar o dia. De cada vez que fecho os olhos algo repica dentro de mim e me impede de o deitar, a este dia já tão longo e estafado. Estou exausto e sei que daqui a pouco ele se levantará de novo, inquieto, com alfinetadas de luz por entre os estores, para voltar a levar-me com ele, mais uma vez, um dia mais. E todos os dias se repete esta liça nocturna, silenciosamente, sozinha no mundo, esta guerra em que o dia se irrompe da noite sonegando-me às interrupções do dormir e sem dar conforto a esta tamanha fadiga. E enquanto o dia não se faz dia lá sobramos nós, eu, pobre alma em deambulações pela casa e o bicho tenebroso que em mim se hospeda. Travamos esta guerra há quase dois meses, ininterruptamente.

Resignado, preparo um nescafé fraco e beberico com ele o resto do whisky que ficou no fundo de um copo. Faço tudo isto com uma mão apenas. Carrego-o comigo enquanto damos mais uma volta à casa na calada da noite, revisitando cada assoalhada com a atenção de uma primeira vez, colhendo e pousando depois, distraidamente, cada uma das peças que encontramos pelo caminho, matando o tempo e calando as vontades em gestos de sonambulismo. E não chega, nunca chega. Volto então a vestir uns calções, calço umas chinelas e saio para a rua. Uma, duas portas, que destranco, com uma mão apenas, que a outra mantem-se de punho fechado, guardando no toque a exaltação da insónia. Dobro a esquina, subo o beco e volto a descê-lo e depois retorno para dentro. Os mesmos movimentos a repetirem-se eternamente. Tudo recomeça agora uma outra vez. Sento-me na borda da cama. Ele continua lá, dentro de mim e espera que, tal como o sono que havia em mim, também eu desista. Há dois meses que espera. Abro finalmente a mão e dou duas voltas ao isqueiro que guardo na sua palma. Apago de novo as luzes e fico depois a brincar com a chama no escuro enquanto me deito a pensar que me habituei a trazer comigo um sono que não consigo curar.

Agora já não me apetece pensar e a chama já está débil. Tenho brincado muito com ela nestes últimos tempos. Mas agora já não quero pensar, nem no isqueiro sequer. Nem queria sentir nada, se me fosse dado esse intervalo, essa trégua, uns minutos breves onde me deixasse flutuar no sono sem nada sentir. Deixo-me cair para trás e fico de costas na cama. O tecto tem um rendilhado nos cantos, umas cornucópias de gesso em que nunca tinha reparado. Mas não deveria estar a tomar atenção a isso, não deveria sequer tomar atenção a nada. Já devia ter aprendido a tapar vagarosamente a consciência e enganar o dia e a noite naqueles breves momentos que seriam o suficiente. Abro a mão. Desagarrado,  o isqueiro cai. Deveria ser tão fácil como este gesto assim, largando-o, largando-me, simplesmente.

E lá fico, eu e a noite quase dia outra vez, e a mão aberta, sem nada, insuportavelmente vazia do desejo que durante 30 anos se habituou a segurar.

Há 65 dias.

                                                                                                     3 de Agosto de 2006

 

Ao meu amigo Zé que na sua courela mergulha agora nesta luta. E tem-te atento homem, pois é mais tarde, quando julgares ter o bicho por adormecido, que sub-repticiamente atacará a lascívia de SÓ um charuto após farto repasto que mal não fará. Tanto heroísmo não merece, como aconteceu comigo após 3 anos, ser traído pela lama bolorenta de uma vontade já esquecida.

(eu já aí vou ter contigo …)


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