Category Archives: Navegações

de noite todas as velas são monstros marinhos

A meio da noite três murros secos na carlinga do barco acordam-me sobressaltado. Tinha feito o turno anterior e apesar do balançar cavalgado do barco dormia um sono profundo. Subo ao poço, noite cerrada e vejo-os aos dois, equilibrando-se das sacudidelas, debruçados sobre um mar cavado e negro. As vagas, a emergência da situação e a agitação da tarefa num instante me livraram do resto do sono que ainda trazia. Braçada a braçada tentavam recolher pelo través de estibordo uma cobra enorme, esbranquiçada, mais longa ainda que o comprido do barco. Estava um vento ruidoso mas ainda assim ouvia-lhes os berros com que tentavam coordenar-se entre si de forma a dominarem aquela enorme criatura que teimava em se debater, esgueirando-se por entre as mãos. Juntei-me a eles, distanciámo-nos uns quatro passos entre nós de forma a cobrir quase todo o bordo do barco e, sincronizadamente, lá fomos levando de vencida aquela guerra com a monstruosa serpente.
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Por fim havíamos vencido. O vento enregelado da noite, o mar que me encharcava e o esforço alvoroçado daquela violenta epopeia só no fim me haviam despertado completamente do sono e o meu discernimento permitiu-me então ver melhor o gigantesco troféu que houvéramos recolhido:   o velame, já sem vida, ainda escorrendo água do seu ventre, jazia ao longo de todo o bordo do barco. Tinha-se rasgado o punho do spi.
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Lá está este armado em Homero, já vos ouço gracejar … Pois experimentem ser raptados ao sono neste alvoroço da noite para retirar um balão de vinte metros arrastado no mar e embrulhado em toneladas d’água, e depois venham cá jurar que não andaram numa guerra com monstros marinhos.

Kalithea Halkidiki poderia ser no hawaii mas é ali na grécia, mesmo ao pé da rússia

Esta minha fase profissional tem-me levado nos últimos anos a galgar território europeu. Embora os objectivos das viagens não me deixem grande folga turística trazem sempre consigo algo de exótico nestes destinos onde atraco: lahti, trondhein, lublin, ankara, zarautz, greenwich, … uma infinidade de paragens que certamente nunca visaria com propósitos turísticos, porque fora do gradiente comum, e que acabam por trazer uma percepção mais sincera e próxima dos países e dos povos.

Tinha-me comprometido, por estas mesmas razões, a guardar aqui relatos espontâneos de cada um desses lugares.  Nada a ver com a panorâmica das paisagens ou o motivo das mesmas, nada a ver também com o pretensiosismo de um diário de bordo, mas apenas o registo almiscarado de notas soltas que, durante essas jornadas, por razão que desconheço, colecciono em mim. Infelizmente, os mesmos motivos que me levam a cruzar estes insólitos lugares são os mesmos que me têm retirado a disponibilidade para trazer à escrita as anotações que me prometi mais verter em texto. Depois o tempo passa, …

Desta vez fui parar à Grécia, perto de Salónica, a um local de veraneio chamado Kalithea Halkidiki. Como das outras vezes não tenho impulso para tratar com o esmero que a escrita partilhada justifica as tais notas avulso que me foram povoando a cabeça. Não obstante, pelos motivos que já aleguei, quero aqui crivar um espaço que, pelo menos a mim, se não a mais  ninguém, me estimule a revisitar o que então me ocorreu, que agora apenas anoto, na esperança que quiçá um dia o possa tratar mais cuidadamente.

Estamos em 2015, Junho, porventura no momento mais crítico de todo o confronto bélico entre a Grécia a UE e outras tantas demais instituições cuja denominação, com o distar do tempo, pouco importarão. O que daí nos chega continua a ser propagado da mesma forma de sempre, de mão em mão. Por mais ágeis que sejam hoje os meios tecnológicos de disseminação, por mais espontânea e fértil que seja a informação, continuamos a comunicar e a integrar a informação como sempre o fizemos, a partir da percepção anónima de alguém, emitindo de algures, construindo, por maioria de razão, a nossa própria razão das coisas.

Registo aqui, para mim, depois de uns banhos no Egeu e uns mergulhos nas comunidades locais, os acertos que decidi fazer à minha verdade das coisas:

1. qual grécia?

Salónica é a segunda maior cidade da grécia, desde que é grécia, o que apenas acontece há pouco mais de 100 anos. Basta olhar para o mapa para perceber que sempre foi campo de passagem entre dois continentes e várias turbas civilizacionais, enfim, o que lhe quiserem chamar, que a mim não me dá tempo para detalhes nem qualquer tipo de rigor histórico. Quando viajo escrevo com os olhos que levei, e esse é o registo que aqui me importa. Chego de noite, ainda a tempo de desentorpecer as pernas na zona central da cidade, numa noite quente à beira-mar e amaciando as agruras de uma tortuosa viagem com o travo gelado da cerveja local. A propósito, 8 euros, repito, 8 euros num balcão de bar de rua, ainda que na zona boémia da cidade. Cidade de grande azáfama universitária, está pejada de gente nova e com o cair da noite o ribombar daquela música incompreensível que se espraia pela babuja da cidade, como em qualquer outra cidade do sul, com o mesmo tempero climático e cheiro a verão. E assim vagueando. De esquina em esquina a mesma música, o mesmo tipo de pessoas, a mesma cultura… Nada disso! De esquina para esquina tudo mudava. Aqui os gregos ocidentalizados, de influências mais sulistas, essa coisas da poliponésia ou assim, aqueles que de atenas trazem a imagem da grécia europeizada ao resto do mundo e com eles o badum badum badum, das músicas que nos esvaziam os ouvidos nesse tipo de ambiente. Na esquina seguinte as shakiras, de saiotes rendilhados, os homens aturquesados, manga cava tatuada, verdadeiroos espécmes de ‘quaresmas’ a dominar, bamboleando em cima das mesas, ao som de uma música que para os meus pobres ouvidos poderia ser grega mas que jurarei seria algo diferente, ainda que com um distintivo balanço do levante oriental. Aqui a história dos cruzamentos civilizacionais, das famílias que foram ficando de outros tempos, lá em baixo daqueles outros que foram subindo, primeiro no arquipélago, primeiro ocupantes, depois provavelmente proclamados gregos de verdade. Há medida que vou caminhando esvaie-se o som da europa e entra em crescendo a batida turca, mais uns passos e vice-versa.

E fico a matutar, enquanto caminho em círculos, o que virá a ser esta cidade sem encanto, uma atenas do norte, um balcão partilhado num corredor de migrações, no dia do colapso social. E fico apenas a pensar no que se passará entre cada esquina, entre os bares da música badum badum e os bares das shakiras, e aqui a distender-me para o passsado recente, tão inverosivelmente perto de nós, lá pelas ex-terras da jugoslávia e do horror do que se passava de cada lado da mesma rua, entre famílias.

Oxalá, estes olhos de turista, estes fracos ouvidos para a música, se enganem. Oxalá a música, de bar para bar, seja afinal a mesma.

2. qual realidade?

Agora vou sendo conduzido até ao local da reunião, simpaticamente escolhido à beira-mar. O meu parceiro grego é de uma simpatia que só encontro em Portugal. A mulher, por cortesia acompanha-nos. A conversa, inevitavelmente, roça o (des)esperado. Do desfile da desgraça que me vai contando, sobre o desemprego, a baixa dos ordenados e das pensões, etc – ao longo do qual eu me arrisco a ir interrompendo apenas para fazer notar um “nós também, é só dividir por dois” – tudo é culpa dos alemães. Ele é professor universitário, os dois rapazes estudam em Inglaterrra e a outra filha, mais recentemente, está em Paris, diz-me a simpática senhora. E que por muito que lhe custe lá vai aconselhando que fiquem por lá, “nós também” vou acrescentando ” nós também”. E por fim, lançado num enorme suspiro, termina: “que posso eu fazer por eles? sou reformada, cortaram-me 30% da pensão!”

A lacrimosa senhora, uma simpáctica reformada de pensão cortada, tinha 57 anos. Cinquenta e sete anos. São uns malandros estes alemães.

3. qual europa?

Chegados finalmente ao destino. Uma língua de terra,  pejada de hoteis para turistas e casas de fim de semana para os mais afortunados de salónica,  tudo ainda semi-habitado nesta altura precoce do verão. O hotel, enorme, sobranceiro sobre a praia, não deixa de respirar aquela atmosfera de Inatel para reformados, mas está limpo de mofo, reconstruído e tem uma praia invejável, para quem ao fim de um dia de meeting aspire a experimentar uns mergulhos. Mas os hóspedes, há algo de estranho com estes hóspedes. Um olhar desumanizado, a falta de gentileza e uma linguagem gutural que mesmo para um leigo como eu dá para perceber que não é o grego. Ao jantar questiono-os, aos meus anfitriões gregos. Baixam o olhar enquanto respondem: “são russos”.

Dois dias depois, acabado o meeting, tempo para visitar a terreola mais próxima para um típico jantar do finar do dia nas sempre agradáveis varandas que se debruçam em  toalhas de quadrados vermelhos e brancos e pratos de azeitonas sobre o beira-mar mediterrânico. Mas ainda nem chegados, ou melhor, chegados à sua periferia, lojas, e lojas, e lojas. Normal numa zona turística de veraneio. Não fossem todas elas lojas de peles. A cada 10 metros uma placa dizia sempre o mesmo “Mexa”, ou algo assim – hieroglificamente não me é fácil ser rigoroso. Perguntei-lhes o que queria aquilo dizer ao que me responderam “creio que quer dizer peles”. “Como assim, não têm a certeza?”, eu na estranheza. E eles de novo desviando os olhos, “não, está em russo”.

Ocorreu-me que a primeira visita de estado do Tsipras, a qual aliás achei estranha na altura, tinha sido à Rússia, ao Sr. Putin. Agora já não a acho assim tão estranha, ainda que suspeite que a maior parte da europa, inocentemente, a continue a achar descabida.

 


do mar cadáver

by Fernando Paula

by Fernando Paula

A semana passada fui ao deserto. Fiz o programa todo, com camelos, acampamentos e dunas. Hei-de trazer para aqui algo sobre isso, para registo póstumo. Mas por agora, como mera declaração casual, apenas se me oferece registar o seguinte: O deserto poderia ser como o mar, não fosse tão fatalmente preguiçoso.

Consigo olhar para o mar e sentir-lhe o humor, mais forte que o meu até. A serenidade, a euforia, a raiva, a exaustão, a temeridade, tudo no mar, alternante, é como em nós, mas em maior. O deserto é, sei-o agora, o que mais lhe está próximo mas, sem latitude nos humores, é dele embuste. Enfada-me o deserto, não por causa da areia e da forma como vagaroso brinca com as cores, que esse é o seu encantamento, mas pelo pouco que faz com ela.

O deserto é o mar, em defunto. Não há naquele horizonte adornado de cores melosas e curvas boleadas imprevisibilidade bastante para que lhe possamos inventar um futuro. Encarar o mar é olhar por diante, para a inquietude de amanhã, navegar na incerteza e se formos corajosos trazê-la até nós. Mas a contemplação do deserto, quieta, calada, cálida, enganosamente açucarada, nada traz por diante. Não há carácter, apenas uma hipnótica valsa de tons e distância parada para nos esconder o que é óbvio: ali nada mais há que ausência, essas memórias pútridas – ainda que belas – do que já foi.

Se chamo o mar para me chamar a mim, ao deserto deverei escondê-lo, sei-o agora, para que não traga essa parte de mim, a fingir-me contemplativo, a fazer-me olhado nas entorpecidas curvas que desenha no horizonte, imóveis, qual veneno de fazer calar vontades e adormecer o que por direito humano devo aguardar me possa calhar amanhã. Às dunas, belas ao final da tarde, olho-as por cima do ombro, vagaroso, como quem corre cortinas. Às vagas, essa vontade de água irrequieta, justamente por não poder saber o que lhes quero e o que elas de mim querem, prefiro fitá-las de frente, do lado da vida.

Além disso, confesso, não gosto de Tajine.


da mais trágica viagem marítima

Em boa hora deveria em mim ter acudido a suspeita, logo ali naquela primeira perna da viagem, de que nada de auspicioso nos havia sido confiado. Ainda a terra se lobrigava a estibordo e já se alevantava uma estridulosa lua redonda, prenha de luz de arranhar pálpebras, a impedir-me qualquer fugaz cochilar na escala que em sorte me calhara nessa primeira noite do marear. Como se agora, a natureza, só porque no mar nos acontece mais infinita, se arguisse do direito de reclamar dos prometimentos da boa segurança e demais propósitos da marinhagem. Pois assim nos lançámos, zarpando noite adentro, de olhos escorados por esse tão candente dejecto cósmico que, se por ali se lançava orbitado, mais não terá sido que com o propósito de nos contrariar um confortante dormitar ainda que por mais leve que fosse. Entretanto Lisboa ficou penumbra no jusante da luz e do vento e depois desapareceu, mais tarde foi a costa de Sesimbra quem se fez fio e já a Sines não a tocámos. Enquanto mergulhávamos no mar que levávamos por avante, a coberto desse luzir nocturno de amornar corpos e roubar almas, ai soubéssemos nós aí as agruras que este destino nos cozinhava e esta travessia nem riscada no mapa haveria ter sido ensaiada.

 largo sines

 

 

Gibraltar nunca deve ser contado. Não há homem com pejo de vergonha que não eleja ficar calado a confessar os açoites e tremores que aquele infundíbulo de terra escarpada nos inflige. Empurram-se ao vento e ao mar por aquele funil afora até não se cumprir no mundo mais que espuma e medo, que não há barco que não vire barcaça nem homem que não se amofine, que tal é o mar que se agiganta que o céu nos foge e a honra assim o segue pelas pernas abaixo. Passemos pois adiante, que outras escarpas mais decorosas se arranjarão para contar.

 

Dobrávamos então o cabo das gatas, aprestando-nos para tomar dois dias de largo e brada da proa quem por lá aprumava cabos: que eram imensas as bestas marinhas que dali avistava, monstraria de mares nem contados, ilustrava ele em convulsões de terror. Pois pouco durou a zombaria com que escarnecíamos de tal fraquejo e se no riso se trazia alguma humidade logo ali na garganta se nos secou. Uma dezena, arriscava um, que não, que logo no través se contavam mais e mais, um grupo tão vasto que as suas barbatanas corcovadas mais pareciam o horizonte serpenteado da terra que deixáramos pela popa. Baleias. Aterrados tirámos vela na tentativa de amaciar o movimento, debalde, que ali se encurvava aquela multidão informe, qual exército que se aprestava agora a aproar a esta nossa frágil embarcação. Uma hora assim andámos torneados pela matilha, ou manada ou que quiserdes chamar a tão aterrador magote de cetáceos. Quando por fim, inusitadamente, nos deixaram partir sem que sequer tivessem ensaiado virar a barca, nem tão por menos abalroa-la, éramos uma tripulação taciturna, pois que não havia modo nem palavra que servisse à gente que ainda guardava em si o espanto de lhe ver concedida uma segunda existência e da vergonha do medo, de tão partilhada, decidimos calá-la entre nós e para todo o sempre.

baleotes1

 

 

baleotes2

 

Que por pior que nos seja vivido ou contado sabe um marinheiro que nunca deve cogitar que “para mais que isso já não haverá que temer”. No virar do segundo dia da travessia navegava este vosso desditoso narrador no turno que lhe cabia. Pela ré o breu da noite num azul tão escuro que o mar não se desligava do céu, enquanto pela proa um ténue encarniçamento dobrava a linha do horizonte. Subitamente a noite calou-se, o vento sumiu e um pasmo sinistro acercou-se da embarcação. Um esquisito céu, pela minha frente, começou a retorcer-se de tal modo que enquanto me fixava para me fazer acreditar de tal prodígio já ele se tinha revirado de noite em dia. E não fora o que então proveio e por ali me teria ficado estacado até que algum dos outros me encontrasse com esse dispor embalsamado. Mas o mais extraordinário haveria de advir. Primeiro um clarão enorme, alastrando, depois uma linha de fogo rasgando-se, por fim, ronceiramente, uma enorme bola de fogo que emerge do fundo da terra aonde o mar já não chega, que o digo eu por saúde destes olhos que a emborcaram, e o inferno, que outra coisa mais não teria esclarecimento, tomou conta do mundo. Nesse pasmar, o mar falecido, quieto, eterno e sobre ele a nossa embarcação em tumba transfigurada, enquanto um fogo infernal se engrandecia pelo céu afora e num mar de azeite lançava os seus braços de brilho tépido, no vagar venenoso com que se fazia prestes a envolver-nos. Não sei precisar quanto tempo depois acudiu ao poço a restante tripulação, mas então o mundo voltara a ser aquele para o qual um dia houvéramos nascido. Não se contam monstros que não tenham corpo nem garras, nem se fala de infernos a quem nunca os contemplou e fiz-me sensato em conceder deles o juízo de ter cedido ao aconchego dormitar da alvorada e nisso me ter trazido a devaneios negligentes, pois que para ali havia sido designado não para outra coisa que não cuidar do nosso destino.

cabo das gatas

 

E tanto mar, tanta privação para aqui me concluir, a esta terra onde vim dar. Daqui nada vejo, que não há praia que se lance assim em pó tão alvo, nem mar com humor tão desmaiado que nem a mais ligeira correnteza ou vaga o baldeia. E se alguém ousar fazer-me acreditar que há na face da terra azul como este ou água tão cálida que nele nos termos ou dela sair não nos traz distinção, dir-lhe-ei apenas que volte por onde vim, que naufrague a alma no inferno da madrugada, que implore pela vida àquelas alimárias marinhas que peneiraram famintas ao nosso redor, que alcance as escarpas colossais que confundem o mar com o céu e quem de lá ainda assim saia com duração pois que tente ao corpo que certamente trará esfarrapado fazê-lo sobreviver ao luar da noite a riscar arrepios de sono nas pálpebras de quem carrega a aziaga sorte de tomar o destino da embarcação.

 formentera

 

Com bom conselho pois vos deixo então: ide por terra que para isso nos deram locomoção, arriscai pelo ar se a tanto vos levar a imaginação, mas a menos que arrisqueis mergulhar eternamente na demência ou pretendais cessar a vossa própria existência, não vos aventureis nunca por esse tenebroso mundo, que mais agigantado que o mar só o céu que lhe dá tecto e a amizade que se cose entre os homens com que por ele trilhamos. Sobra-me mar e ficam-me sempre aqueles com quem sobre ele padeci, que do resto nada mais valoroso haverá para contar.


delírios da pré-alvorada

grécia 2009Partir, mas partir a desimaginar portos, ancoradouros e tudo o que nos faça chegar, ir apenas, zarpar, vagabundear no sopro do vento, deitar borda fora a vontade, os horários e os planos no passar de uma vaga qualquer, adormecer no fio do horizonte e acordar com o rugir dos cabos, desinteressado do que virá a seguir, simplesmente partir, nem ir nem ficar, sem que importe seja verdade ou mentira, improvável, impossível ou inadmissível, largar todos esses ‘in’s engravatados na esteira revolta desse caminho de abrir mar, que só aí, verdadeiramente, quando o mundo nos engole e o tempo é uma distância adormecida e tudo o resto que era antes tão importante morre agora submerso na imensidão calada do mar, só aí encontramos a janela que nos deixa espreitar para dentro de nós.


Londres

chelsea

Continuo sem ser um especial admirador de Londres. Tem tudo, de facto. É um ícone do ‘cosmopolitanismo’ e nisso o melhor que a civilização ocidental tem para oferecer com essa imensa e colorida miríade de raças. É imperial e nisso irrepreensível no bom gosto e preservação que todos os lugares do mundo tentam copiar. E consegue, ainda assim, na sua imensidão urbana, resguardar aqueles pequenos lugares ‘cozy’ onde quase podemos entranhar as rotinas quotidianas de uma família feliz.

Mas …. quando recordo as cidades por onde passei, evoco os exercícios de solidão que elas provocaram em mim, e isso torna-as indeléveis nas minhas memórias. E Londres não me induz aquele misto de nostalgia e introspecção que as cidades que me marcam deixam em mim.

Além disso sou um demofóbico (sim, googlem, como eu fiz), o que não é uma fobia razoável para deambular pela Piccadilly num sábado avizinhado do Natal.

Sorry mates.


os homens e os mares (uma febril auto-reedição)

Quem nunca viveu o mediterrâneo a partir do mar desconhecerá provavelmente algo que marcadamente ele induz em todas as populações que nas suas costas se acomodaram. Ao contrário da face atlântica onde a aspereza do oceano e a grande variação das marés impele as pessoas para uma cota mais segura, no mediterrâneo essa variação quase não existe e a linha de água fica assim quase desvanecida. Este pormenor é de uma importância extrema para a relação que os povos estabeleceram com o mar.

biscayaNas escarpas oceânicas o mar nem sempre é amigo e a distância é algo que se deve manter com ele. Aí cativa o inóspito e entre nós e ele há sempre escarpas que apelam ao épico, ao esforço com que nele mergulhamos, mas também ao distanciamento reverente. Todas as actividades que entrosámos com ele foram sempre cravejadas por actos heróicos, onde guerreámos com a sua ira vezes sem conta, onde lhe aprendemos o respeito pelo seu gigantismo, onde, temerários, nos abandonámos às suas histórias de final imprevisível. E se nos deixámos ir assim,  endoidecidos aventureiros,  oferecidos ao seu destino, é porque assim quisémos também que nos contasse a sua história.

No mediterrâneo tudo é o inverso. A terra é o fim do mar e o mar o seu intuito, a fronteira desvanecida para onde todos os povos se viraram e dela se fizeram depender. A linha da costa é macia, quase imperceptível, e frágil empurra-nos nessa proximidade para o mar como só nesse mar conheço e a história da humanidade confirma. Há uma relação serena com o mar e em vez das grandes conquistas e dos desafios pelo desconhecido, que ocorreram connosco por influência do agreste, a maré, a falta dela, sempre desentaipou um caminho mais fácil, o ponto de partida para outros lugares vizinhos, a alternativa menos árdua do partir.

No mediterrâneo descobre-se, pois nos oceanos conquista-se. E tudo é uma questão de marés, de oscilações, de maior ou menor previsibilidade, de irascibilidade. É assim com os mares e assim também é com os homens que neles habitam. As pessoas também são assim, e digo eu feito marinheiro (que as léguas no mar, ainda que poucas, são mais que aquelas que sou capaz de entender nos homens), as pessoas são como o mar: Tal como os oceanos umas são de intempestivas marés, e nessa oscilação de vontades ora se mostram acessíveis e sedutoras ora lançam estuporados gestos de antipatia e gritos de cólera com que sacodem aqueles a quem no fundo se querem prender; Outras são mais estáveis, mais mansas, mais doces, mais previsíveis e confortantes, são mediterrânicas e por isso delas reconhecemos sempre a linha d’água e nelas deixamos acampar a nossa confiança. Numas pode-se viver na beira das suas margens sem recear que um dia estas nos fujam ou invadam, outras são tormentas permanentes a desafiar a perseverança de quem, ainda que assim, gosta delas .

Eu, se fosse mar, banharia a costa nórdica: que é tal a maré que o que agora é terra não tarda é mar. Abraços inábeis, franjas de água descontroladas, humores sem tino e previsão, marés grandes de mais para o mar que os outros conseguem ter de mim.


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