Category Archives: PostoMaton’s

ora se não era para ser igual que o tivesse dito …

A prateleira da casa de banho do Algarve lascou-se na zona de um dos suportes.

Preguiçoso para o resolver então, trago a travessa de vidro comigo para Lisboa. Tenho um vidraceiro mesmo por baixo de casa.

Uns dias mais tarde entrego-a ao Diogo e peço-lhe que vá até eles e peça uma nova com as mesmas medidas.

À noite, quando chego, pergunto-lhe por ela. “Está aqui” diz ele com ar de dever cumprido. E eu, que não, que “Essa foi a que te dei”. E ele a avançar, desmentindo-me orgulhosamente: “Parece não é?! ficou tão bem que nem se nota a diferença”. E perante a minha incredibilidade vai buscar a outra, a lascada.

De facto tinha sido um belo trabalho. O entalhe no vidro estava tão bem feito que quase não se percebia qual estava quebrada e qual ele tinha mandado fazer exactamente com a mesma parte estilhaçada… fiquei com duas prateleiras estragadas, mas uma delas estava perfeita.

E aprendi que da próxima vez, quando pedir alguma coisa, é melhor não ter pressa em sair de casa e ser mais claro (ou menos claro) nas minhas instruções.

[mais uma para juntar ao álbum de família]

Anúncios

travessias

Em Julho de 2007 havia assinalado neste blogue os dotes marítimos dos meus filhos, no que estes se confundem com a própria natureza do homem, entregando à posteridade o seguinte apontamento sobre uma travessia nocturna entre Mallorca e Ibiza:

Esta travessia foi diferente das outras. Dividimo-nos entre adultos e crianças e pela primeira vez tive como companheiros de turno os meus filhos. Interrompidos do sono por vontade própria ali se sustiveram no poço durante horas a fio, embalados comigo pelo planar calado e escuro do casco.  De madrugada, enramelados, foram eles que hastearam o sol nas mãos enquanto deixávamos pela ré o silêncio cavo da noite.

Observo-os. Quase tão súbitos como a alvorada,  o Francisco fez-se homem e o Diogo bom marinheiro.

Três anos depois registei algures no meu PC o mar que entretanto se fora cumprindo. E reza assim o meu envaidecido apontamento de 2010:

Finalmente tenho novas do Francisco e do mar. Julho, em travessia pelo sul de França contam-me de lá. E de lá contam-me também, mais tarde, que o turno da noite foi dele, mas já sem mim e sem outros. Três ou 4 horas por diante no breu do mar, atento nas velas e no fazer disso rumo enquanto tios e primas se entregam ao sono, confiando-lhe o casco.

Reflicto na travessia de há 3 anos atrás e comparo-a: não há simbolismo nisto, há mesmo uma verdade concreta. Desta vez eu já não estava lá, os outros dormiam e ele cumpria uma perna de vela, sozinho, pela noite fora. Assim ir, a sós, pela cala infinita da noite – e sei do que falo – já não é mera questão náutica, que isso, mais que dos dotes de marinhagem, requer sadias doses de confiança e paz interna. Conheço muitos que nunca chegaram até aqui, até assim, tão adultos consigo próprios para nisto não precisarem de companhia.

É também sorte, e disso faço aqui elogio, ter um tio que lhe concede tamanha prova de confiança.

Vem talvez isto a propósito de outros mares por onde este mais velho dos meus agora se vai lançando, oficiando-se no desfraldar do velame, trimando cabos, lançando-se por diante com a tranquilidade de sempre. E se dos seus dotes de marinhar a vida eu já nem devo cuidar, resta-me clamar, ainda que em surdina, que bons ventos o acompanhem nesse futuro de que faz rumo.


Uma tartaruga no tecto, outra debaixo do chão

Se alguma vantagem há nisto de levar a crónicas acontecimentos esparsos e irrelevantes do correr da minha vida será certamente a de mais tarde os poder re(a)ver, garantindo por isso que estes não correrão o risco, como tantas outras coisas passadas, de serem submergidos no difuso desta fraca memória que me vai empedrando.

Já se passaram quase 7 anos (acabo de registar que há quase 7 anos que emito estas coisas-de-coisa-nenhuma) sobre estes relatos na altura escritos em tempo real, de uma batalha entre dois admiráveis tipos de animais de sangue frio – as tartarugas … e eu.

Trago-os de novo para aqui por duas razões: a primeira porque quem me é próximo já os tem ouvido contar, embora em versão menos cuidada e assim poderá entender melhor o valor da minha façanha, a segunda porque neles se inscreve um genuíno e devido orgulho de caçador que, sem modéstia, pelo sangue-frio e o sagaz discernimento que empenhei nos incidentes, acabo por reconhecer em  mim.

Aviso ao leitor menos prevenido: são quatro episódios novelísticos demasiado longos – para o tempo que normalmente dispensamos à leitura on-line – de uma epopeia doméstica de valor duvidoso.

Índice (clicar até onde for a v. paciência)

1- quando os bichos me arranhavam os serões com arrepios riscados no tecto da sala

2- enquanto um outro me esgatanhava a paciência debaixo do chão da casa de banho

3- mas eis que a vitória surge, ou melhor, emerge, de um chão de madeira transformado em oceano

4- enquanto lá em cima, no sótão, se demonstra para que servem, quando devidamente manejadas, umas pinças da salada


a santa decapitada

Conta-se como história vivida e confirmada, mas logo se vê pela efabulação do incidente de onde a santa surge que, a ser verídica, já traz condimento lendário apenso pelas indetermináveis repetições que a propalaram.

Mas conta então que terá, certa noite, a santa dado à praia, ali para os lados do Alvor, terra esta que qualquer algarvio avisado sabe ser fértil de episódios risíveis e rocambolescos. Qual Iemanjá, logo a santa náufraga foi acolhida com fervor por aquelas gentes e assim piedosamente depositada na capela local.

Porém, talvez um capelão, certamente com dotes geómetras, terá descoberto um dia que a divina estatueta, se aquartelada em cima de um andor, jamais galgaria a porta da capela que, apesar de alta, não se alçava para além da sua majestosa altura.

Mas gente do mar não se amofina à primeira contrariedade e assim logo foi ponderada a solução. Decapitar-se a santa. Foi pois serrado, com a delicadeza e a reverência possível, o seu esbelto pescoço, tendo-se depois entregue a mutilada santa nas mãos de algum ferreiro cirurgião, para que este lhe aplicasse as devidas ferragens.

Na primeira procissão que a Santa encabeçou, as hostes católicas reuniram-se em grande número no adro da igreja, certamente conduzidas pela devoção que se lhes reconhecerá, mas também levemente espicaçadas pela curiosidade de saber o que à Santa teria sido cometido para resolver tão intrincado e delicado imbróglio.

Eis então que avança o cortejo, ainda embaciado pela penumbra do interior da igreja. As manobras que se seguiram e que aqui se retratam foram assistidas com ruidoso júbilo e profunda admiração pelos fiéis que ali aguardavam. O pescoço da pobre imagem era então rodado nos gonzos e a cabeça tombava-lhe para trás, inerte, assim se fazendo passar pela ombreira da porta a santa rebaixada, com a cachola às costas, para logo depois, já a céu aberto, alguém usando a ponta do pau de estandarte com a discrição e solenidade recomendada, ajustar de novo a cabeça à santa decapitada, rodando-a no ronco das dobradiças até esta se encaixar com estrondo no busto aplainado.

E daí em diante era sempre vê-la, à nossa senhora naufragada e degolada, nos dias das festividades religiosas, encabeçar o cortejo do alto do seu palanquim, tão orgulhosamente carregada pelos seus abnegados e imaginosos sequazes, sob o júbilo das gentes do Alvor.


um conto (de natal) sem título

O jovem vai absorto na paisagem urbana que corre na janela. De cada vez que é alcançada uma nova paragem o chiar dos travões e o impulso da desaceleração transportam-no de volta para o interior do autocarro. A porta abre-se, a humidade da chuva é trazida nas roupas dos passageiros e um cheiro acre a mofo é ventado com o arrastar com que cada um que vai procurando lugar para se acomodar. Depois a breve azáfama cessa, os corpos equilibram-se entre si e o autocarro arranca de novo com os seus viajantes mergulhados em abstracções casuais, outros talvez mastigando pesares do trabalho ou tão só na inércia cansada de se deixarem ir conduzidos. Ele embrenha-se de novo no lado de fora, onde a velocidade das empenas dá agora lugar a um rio longilíneo que o vai acompanhando no trotar da viatura. Desta vez nem dera por o autocarro se ter carregado de gente. Uma senhora de alguma idade, talvez podendo ser mais que sua mãe, cambaleia entre cada gesto do veículo, para a frente, para trás, o seu corpo frágil chocalhando de encontro aos outros. Agora atento, o rapaz de imediato se levanta e no seu jeito tímido tenta fazer-se compreender desse seu gesto. As suas mãos insistem, indicando caminho para o conforto que lhe oferece, mas a senhora leva os olhos no chão. Súbito, um matulão esgueira-se por entre os dois e toma-lhe o assento. Ele ainda tenta protestar, depois sustém-se. Olha em redor. Protestar do quê. A senhora, agora na sua frente, dorida, continua de olhos no chão. Tantos olhos no chão. Protestar do quê se nenhum dos dois terá sequer percebido a sua intenção.

O pai, ao fim do dia, também deixará que os seus olhos lambam o chão, refugiando-se nele de uma resposta que não lhe saberá dar. Mas pai, nem a senhora compreendeu que lhe estava a dar lugar, nem o senhor o quis entender. Mas pai, então por que me levantei? Mas pai. E o pai varrendo o fundo de si, repescando a razão das coisas que lhe haviam ensinado e que agora mantinha querer ensinar ao seu filho. E lá fora, o autocarro, relinchando de gente. Tanta gente e tão sozinha. E tantos olhos no chão.


sonho de uma noite de verão

Vê-lo mais alto e mais belo que nós, mais treinado e mais dotado,

vê-lo, com coragem, a afrontar os caminhos de que nós nos desviá(va)mos,

esses caminhos que nos confrontavam com a nossa timidez e os outros,

e saber que nisso acontece toda uma forma diferente de se fazer vida

pode bem ser o “sonho de uma noite de verão”, de qualquer pai

Bravo Lizandro!


Andamos a trocar fotos entre nós

e nisso repuxam-se memórias que nos são comuns, episódios que ainda partilhamos, e depois até o reparo, o espanto, da semelhança das feições das nossas crias que encontramos nestas crianças de antanho que agora revisitamos.

Mergulhar nesse passado tão longínquo da infância é normalmente um momento plácido, um exercício de serenidade que estimulamos em nós, mas é quase sempre um acto solitário, como se desembrulhássemos uma prenda fabulosa mas não tivéssemos quem connosco pudesse brincar com ela.

Creio que nunca tinha cuidado da extraordinária experiência que é poder fazê-lo lado a lado com outros e retroceder ao mesmo instante da nossa meninice, grafado há 40 anos atrás, sem ter de o desfrutar sozinho. Poder trilhar o nosso passado mais distante e íntimo com outros que o têm também como deles é uma dádiva que, percebo agora, nem todos têm a sorte de poder usufruir. Poder fazê-lo não com um ou dois irmãos, mas com mais cinco, é um festival de memórias, uma orgia de recordações, essa uma dádiva ainda maior, essa que irei sempre querer desembrulhar, com uma enorme gratidão, junto dos meus pais.


%d bloggers like this: