Category Archives: PostoMaton’s

façanhas entre paredes-meias

A 27 de Março, já desgastado com tanto recolhimento e tele-trabalho, ensaiei bater umas bolas de padel no meu pátio.

A coisa não correu bem. Em pouco menos de meia-hora tive de reconhecer que o recinto não estava devidamente adaptado às minhas capacidades.

A explicação vem com a mensagem que enviei aos meus vizinhos, por whatsapp:

 

As respostas, de ambos os logradouros chegaram prestes e agradáveis. Mas antes é importante fazer notar que, a partir do meu recinto, tinha dois muros pela frente, sem visibilidade abaixo dos 3 metros e que o local de ‘encestamento’ distava pelo menos uns 10 metros…

 

 

Para quem não perceba o alcance de tal façanha diria que, se mesmo por uma misteriosa alquimia de ADN’s inventassem um misto de Nadal e do Cristiano R., nem ainda assim essa espécie de super-andróide alcançaria tal feito. Fique por isso registado para os tempos que hão-de vir.

Para aqueles, ainda assim, cépticos sobre esta capacidade ingénita de alcançar feitos atléticos verdadeiramente extraordinários e que ainda possam ser induzidos na torpe ideia de que isto é pura vaidade derramada ao vivo, não me contenho de referir que, algures nos confins deste blogue, por altura do Euro 2004, quase igualei a velocidade de chuto do Roberto Carlos – então o terror dos guarda-redes e de quem até se contava ter sangue a escorrer das unhas quando descalçava as chuteiras, tal era o impacto na bola. E assim dizimei também todos os records daquela barraca da “Funzone” e deixei os fadistas de queixada caída, a mesma que antes do meu arremesso gania um “olha o velho, olha o velho”. E mesmo que isso, também isso e apesar disso, não vos importe muito, importa-me a mim que durante pelo menos uns 2 dias fui o super-herói dos meus filhos.

Podem querer continuar nessa vossa vidinha pacata de cidadão comum, mas ao menos concedam o mérito a quem o merece e sabe fazer diferente apenas com um balde de zinco e uma bola de padel. E chega. Basta-me apenas a vossa vénia.


realmente …

Neste espaço guardaram-se muitos recortes da vida familiar. Porque relê-los na posteridade é um exercício saboroso e tantas vezes hilariante, como já o comprovei, não resisto a trazer aqui mais um, mesmo que diferido em alguns anos.

Ter-se-á passado por volta de 2010 e o Francisco teria então uns 18 anos. Já nessa altura reflectia um racional e uma tranquilidade por vezes desconcertantes e sobretudo sem qualquer inclinação genética.

 

Chega a casa já noite, as saudações habituais e remete de seguida em tom de aparente irrelevância:

– Acabaram de me roubar o telemóvel novo.

 – O quê? Como foi isso?

 – Então, estava na paragem do autocarro, para vir para casa e chega um bando daquela malta que eu contei no outro dia que anda sempre a rondar escola. Prái uns dez com granda mau aspecto. E eu foi pedir e dar, nem mugi.

 – Fizeste bem. Mas que chatice!

 – Mas julga que eles ficaram por ali? Entraram depois no autocarro e foi roubar desde a frente até à parte de trás do autocarro, velhinhas, homens, todos os que lá estavam.

 – Sabes lá tu isso …

 – Oh pai, como assim? então, eu vi!

 – Como viste tu? estavas lá com eles?

 – Claro que sim. Eu não lhe disse que estava na paragem à espera do autocarro?

 – Sim, disseste. Mas … olha lá, eles roubam-te e de seguida entras no mesmo autocarro atrás deles?

– E então, acha que eu ainda tinha alguma coisa que eles quisessem?


ora se não era para ser igual que o tivesse dito …

A prateleira da casa de banho do Algarve lascou-se na zona de um dos suportes.

Preguiçoso para o resolver então, trago a travessa de vidro comigo para Lisboa. Tenho um vidraceiro mesmo por baixo de casa.

Uns dias mais tarde entrego-a ao Diogo e peço-lhe que vá até eles e peça uma nova com as mesmas medidas.

À noite, quando chego, pergunto-lhe por ela. “Está aqui” diz ele com ar de dever cumprido. E eu, que não, que “Essa foi a que te dei”. E ele a avançar, desmentindo-me orgulhosamente: “Parece não é?! ficou tão bem que nem se nota a diferença”. E perante a minha incredibilidade vai buscar a outra, a lascada.

De facto tinha sido um belo trabalho. O entalhe no vidro estava tão bem feito que quase não se percebia qual estava quebrada e qual ele tinha mandado fazer exactamente com a mesma parte estilhaçada… fiquei com duas prateleiras estragadas, mas uma delas estava perfeita.

E aprendi que da próxima vez, quando pedir alguma coisa, é melhor não ter pressa em sair de casa e ser mais claro (ou menos claro) nas minhas instruções.

[mais uma para juntar ao álbum de família]


travessias

Em Julho de 2007 havia assinalado neste blogue os dotes marítimos dos meus filhos, no que estes se confundem com a própria natureza do homem, entregando à posteridade o seguinte apontamento sobre uma travessia nocturna entre Mallorca e Ibiza:

Esta travessia foi diferente das outras. Dividimo-nos entre adultos e crianças e pela primeira vez tive como companheiros de turno os meus filhos. Interrompidos do sono por vontade própria ali se sustiveram no poço durante horas a fio, embalados comigo pelo planar calado e escuro do casco.  De madrugada, enramelados, foram eles que hastearam o sol nas mãos enquanto deixávamos pela ré o silêncio cavo da noite.

Observo-os. Quase tão súbitos como a alvorada,  o Francisco fez-se homem e o Diogo bom marinheiro.

Três anos depois registei algures no meu PC o mar que entretanto se fora cumprindo. E reza assim o meu envaidecido apontamento de 2010:

Finalmente tenho novas do Francisco e do mar. Julho, em travessia pelo sul de França contam-me de lá. E de lá contam-me também, mais tarde, que o turno da noite foi dele, mas já sem mim e sem outros. Três ou 4 horas por diante no breu do mar, atento nas velas e no fazer disso rumo enquanto tios e primas se entregam ao sono, confiando-lhe o casco.

Reflicto na travessia de há 3 anos atrás e comparo-a: não há simbolismo nisto, há mesmo uma verdade concreta. Desta vez eu já não estava lá, os outros dormiam e ele cumpria uma perna de vela, sozinho, pela noite fora. Assim ir, a sós, pela cala infinita da noite – e sei do que falo – já não é mera questão náutica, que isso, mais que dos dotes de marinhagem, requer sadias doses de confiança e paz interna. Conheço muitos que nunca chegaram até aqui, até assim, tão adultos consigo próprios para nisto não precisarem de companhia.

É também sorte, e disso faço aqui elogio, ter um tio que lhe concede tamanha prova de confiança.

Vem talvez isto a propósito de outros mares por onde este mais velho dos meus agora se vai lançando, oficiando-se no desfraldar do velame, trimando cabos, lançando-se por diante com a tranquilidade de sempre. E se dos seus dotes de marinhar a vida eu já nem devo cuidar, resta-me clamar, ainda que em surdina, que bons ventos o acompanhem nesse futuro de que faz rumo.


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