Category Archives: Pulsações

das coisas pretensiosas que acho

Descubro coisas velhas. Eu, por exemplo. Gostar de saborear lentamente o que me dá gosto, não ter paciência para o fátuo e a replicação até à exaustão do mesmo e nisso até receando estar a dissipar vida, não me apetecer explicar porquê nem achar nisso uma postura de boas maneiras quando nada de recíproco acontece ou é sequer compreendido, ter de trocar tempo de conversas, de ideias desprendidas, de simples cavaqueira, por uma interrupção do telemóvel. Enfim, há tantas coisas que me aquietam em melhores lugares. Gosto do silêncio e dos momentos que justificam interrompê-lo. Apenas esses. E estranhamente sinto-me um abençoado nisto de ir assim indo para velho, essa espécie de desconectados do que é suposto ser o importante do hoje. Cada um de nós tem o seu lugar, o seu tempo, onde quer que seja que se sente melhor. Mas, francamente, não sei se nos tempos que correm, alguns, de tão ocupados com a gritaria, não se terão esquecido de os procurar.


um dia …

Todos vivemos suspensos do dia em que arremessaremos tudo para longe sem olhar para trás, mesmo que não tenhamos uma consciência clara disso. Será sempre num ímpeto, num acto imprevisível, espontâneo e irreprimido e poderá ocorrer hoje, amanhã, algures num tempo indeterminado. Na maior parte das vezes nunca chegará a acontecer, mas isso não importa. Todos nos julgamos mais do que somos e todos acreditamos merecer mais do que temos e para isso precisamos desta inocente mentira, a que nos atira para destinos antipodais e provavelmente exóticos, para sobreviver nesta realidade que tecemos com o que somos e fizemos para merecer e, diga-se, onde na maior parte das vezes somos felizes. E acreditar que um dia ‘isso’ pode acontecer faz parte da nossa construção da felicidade, mesmo que esta aparente resultar de causas mais concretas que vamos coleccionando enquanto esperamos que um dia ‘isso’ possa mesmo acontecer.


25 anos, no embaraço de os saber dizer

E depois, ocasionalmente, no acaso de uma foto, tudo fica dito

Paris

Paris, Set. 2016


O Renato partiu sem mim

Há quinze dias a tasca aqui debaixo não abriu. O Renato morrera. O irmão contou-me ainda nesse dia que o tinha encontrado no domingo já sem se dar à consciência, enrodilhado nos lençóis imundos da agonia da noite e que poucas horas depois expirara no hospital. Conhecia-o há mais de 20 anos, falávamos todos os dias, mas não lhe era muito chegado. Partilhávamos simplesmente as conversas de ocasião enquanto me servia o café da manhã.

Foi numa dessas conversas de balcão, há 4 meses atrás, que fiquei a saber que lhe haviam diagnosticado um cancro nos pulmões. Uma semana antes, mais exactamente a 18 de Março, tinha acabado de receber notícia parecida mas, naturalmente, sobre outra pessoa. Sobre mim. Desde então os nossos cancros tornaram-se irmãos, embora só eu – porque nunca o partilhara com ele – o soubesse e o sentisse. Tinham contudo personalidades diferentes. O dele vivia falado, extrovertido e activo, enquanto o meu se calava e era titubeante e tímido. O dele era cabal e geométrico, enquanto o meu se anunciava sibilino e escondido na ambiguidade, como o pior dos monstros metásticos. O dele mergulhava agora na ilusão da cura, enquanto o meu ainda tropeçava num infindável e complexo rol de diagnósticos para o desprenderem da incerteza.

Nos dias que se seguiram, enquanto ele ia contando as várias fases e tratamentos porque ia passando na abordagem clínica e nisso transpirava os seus momentos de maior entusiasmo ou de maior quebra física, eu continuava a entregar-me silenciosamente ao meu rodopio de exames em busca do primário. Foram ecografias e tomografias, desde os testículos à tiróide, e depois intermináveis peregrinações de endoscópios pelas minhas entranhas, desde os brônquios e do esófago aos intestinos. Por fim as claustrofóbicas viagens ao longo de um tubo interminável onde me injectaram com líquidos esquisitos e me falavam de positrões. O meu corpo tornou-se património da ciência médica de tão inspeccionado que foi, mas o diagnóstico continuou ambíguo e indeterminável, já o dele o encaminhava pelos solitários corredores dos hospitais.

Enquanto o Renato vivia resignado, deixando-se conduzir com um sorriso dócil por um caminho já traçado, eu volteava de resultado em resultado, cada vez mais ansioso pela confirmação de uma sobrevivência improvável. Em certos momentos, confesso, invejei-o. Afinal ele tinha estrada, tinha a possibilidade de enfrentar a fatalidade, tomando-lhe o pulso, já a mim cabia-me viver suspenso sobre um cruzamento que piedosamente me iam fazendo saber ter forte probabilidade de conduzir numa direcção única. Não vivia, não morria, não tinha destino a dar a mim próprio. Vive-se um dia com a incerteza de o bicho nos ter apanhado. Vive-se até uma semana. Mas a partir daí a nossa natureza exige respostas para nos armar. O Renato tinha respostas e desgraçadamente ia morrer. Eu desgraçadamente ia morrer mas não tinha respostas.

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Três meses passaram. Entretanto partilhei com poucos a minha condição e a sua estranha incerteza que quase se garantia ser fatalidade. Esses terão sido os momentos mais dolorosos, ver a minha morte a anunciar-se nos seus olhos. Investiguei, estudei e colhi testemunhos de gente admirável. Refugiei-me de alguns comportamentos típicos, daqueles que olham para o chão e nos empurram ainda mais para dentro de nós e daqueles que sentem uma absoluta necessidade de dar conselhos, procurando o conforto de se acharem úteis, deixando-nos lá longe com mais esse encargo de fingir que os escutamos. Pelo meio continuava a desenrolar-se o universo utópico da medicina, sem certezas mas categórico. Entretanto, por falta de mais a que me agarrar, fui tomando o meu caminho e as minhas decisões baseado nos cenários mais prováveis, como quem prepara o farnel sem saber para onde irá. Estabilizei-me, serenei-me, continuei-me, e poucas foram as vezes em que os meus olhos não se deixaram amolecer no dormir ou não acordei no dia seguinte com a mesma vontade dos dias comuns. Portei-me bem comigo.

Entretanto, as notícias trouxeram algumas cambiantes. Parece que depois de tanto se procurar e nada se encontrar, restava então, já não a metástase, mas o dos pulmões. Foi por aí, embora não saiba exactamente quando, que dei por confirmada a minha viagem de barco. Se a miséria da doença estava cá e pela frente se traçava um caminho que já conhecia pouco havia a fazer e o melhor era tratar do espírito para o enfrentar, se pelo contrário nada ficasse comprovado, ora bolas, ainda bem que assim decidia. Ficou o barco à espera e os bilhetes comprados para Junho. Na última semana antes de partir muita coisa se passou e muito mudou. Uma última TAC trazia estridentes notícias: que por lá continuavam, mas pelo comportamento migratório dos nódulos não poderia ser coisa neoplásica, fui sabendo de um lado. Do outro anunciava-se a inevitabilidade da biópsia com cirurgia toráxica, esta a ser conclusiva, e a correspondente notificação que, a confirmar-se o dia e a hora, me iria apanhar algures entre Menorca e a Sardenha, mar adentro. E o cirurgião a tomar-se de cuidados, a ligar-me , a chamar-me de louco, mas depois a desembravecer à medida que lhe vou contando dos últimos exames, eu já quase a falar de igual para igual com ele. E por fim, que fosse, que a responsabilidade era minha, mas que já agora levasse uns antibióticos que quando voltasse logo se via tudo de novo.

Todos os dias lá ia à tasca, para o café do meio da manhã, ou almoço senão a cerveja do meio da tarde. O Renato lá ia seguindo, uns dias melhor outros pior, a caminho de um final calado, eu melhor, quase a seguir para o barco, a fingir-me parte de outra realidade. Foi dois dias antes de zarpar que lhe revelei pela primeira vez a minha condição quase semelhante, com algum demasiado detalhe, sei-o agora. E foi a primeira vez que lhe vi os olhos aguados. Depois parti e ele ficou.

–//–

Quando voltei tê-lo-ei visto mais um dia ou dois apenas. Estava praticamente irreconhecível. E depois foi ele que partiu, naquele dia em que a Tasca não abriu. Esse mesmo dia em que eu fiquei. Nunca saberei explicar isto a ninguém. Uns acharão um exagerado exercício de dramatização, outros que o que atravessei me tenha empurrado para um descontrolado misticismo, mas eu tenho bem dentro de mim, gravado para todos os dias que faltarem, que eu e ele fomos escolhidos no mesmo dia, num dia em que só havia lugar para um.

E sim, fui ao seu funeral. Fui enterrar a minha morte.


seguindo

Durante 4 meses partilhámos a mesma fatalidade, até o Renato morrer. Eu não. O seu diagnóstico foi cumprido, o meu foi ficar.


o sítio certo

Sempre tive dificuldade em lidar com o súbito e a voracidade do cancro, quando ele aconteceu próximo de mim. Senti-me sempre desajeitado, sem saber o que poderia fazer para ajudar nessa dor de alguém. Acho que o meu maior receio foi sempre ser intrusivo, achando que ao aproximar-me poderia não estar a ajudar mas sim a invadir um território de guerra, onde em vez de me pôr à frente das balas estaria a obstruir a zona de tiro. Quase sempre a minha posição acabou por manter uma proximidade vigilante, pronto a responder a uma ordem de chamada, mas dando distância. Como é óbvio nunca ninguém me chamou e eu acabei por ser uma presença indiferente num processo que nunca soube ocupar.  Na verdade, com excepção de um único caso (o único que me chamou e que por isso me afastou do arrepio da inconveniência), sempre me comportei como o primeiro de dois estereótipos que sempre considerei nestas situações.

Há então os que olham para o chão, como eu. Sem saber o que fazer, sentem-se primeiro inúteis e depois desconfortáveis. É um comportamento de fuga e por mais que queiramos interiorizar que o temos por um sinal de respeito e para garantir que não estamos a mais num momento tão crítico para alguém, a verdade é que disso resulta não estar e nada fazer. O segundo comportamento é contudo bem pior, é o daqueles que de imediato nos começam a encharcar de conselhos, desde o médico que devemos consultar até às recomendações sobre o estado de espírito que precisamos manter. O pior é que as pessoas que o praticam são difíceis de afastar e isso por uma razão muito simples, sobrestimam-se. É óbvio que alguém que pensa poder desempenhar esse papel, mesmo que com a melhor das boas vontades, já não está centrada em nós, mas nela mesmo e na sua dor, mesmo que essa derive da nossa própria condição.

Tudo é diferente quando se está do lado de cá. Aqui já não podemos adoptar comportamentos alternativos. Anunciar que temos o bicho cá dentro junto daqueles que nos são próximos não é uma opção é, mais tarde ou mais cedo (isso do ‘quando’ é outra história), uma inevitabilidade. O anúncio do cancro, junto dos meus filhos, da Ana e da minha mãe, foi-me mais doloroso que interiorizá-lo em mim. E se com os meus filhos e a Ana ocorreu com uma surpreendente serenidade, ainda que com um evidente sentimento de negação que era aliás compreensível dado que nada do que era dado como certo estava objectivamente diagnosticado, junto da minha mãe, quando tudo corria para que assim fosse também, talvez porque deixei de ser pai para ser filho, perdi o controlo. Esta foi a única vez que não consegui dar a notícia com os olhos escorridos. Na verdade descobri que retratar o meu incidente o mais factualmente possível, seguindo escrupulosamente a sua cronologia, não só me permitia manter sob controlo, como trazia aos outros um efeito de choque mais moderado e implicava-os numa reacção idêntica à minha. Isso foi muito importante para mim. Admito que haja quem precise de explosões de afecto nessas alturas e que neles possa de alguma forma derramar e aliviar o seu desespero, mas no meu caso, por natureza, sempre sucedeu o contrário. Nada me incomoda mais que isso. Gosto dos gestos de emoção lentos e pensados, que carregam consigo significados bem construídos. Gosto que a emoção me seja trazida como uma linguagem, que mesmo os impulsos sejam sentidos como algo propositado, com significados, sustentado numa vontade expressa em declará-los. Não me sinto cómodo com explosões fátuas de emotividade, de fogos de artifício de lágrimas e risos avulso.

Ao trazer aos outros a notícia da minha condição, desta forma, quase em modo de narrativa, sei-o agora, preparei o clima desejado para a partir daí podermos reagir melhor, ultrapassado o impacto inicial e desviar-me de situações emotivamente descontroladas. Por outro lado preparei melhor o clima da surpresa e da dor súbita, onde normalmente acabam por eclodir os dois comportamentos opostos que referi antes.  Talvez por isso, e para felicidade minha, descobri também que há quem tenha qualidades humanas tão suficientemente reforçadas, que conseguem posicionar-se no sítio certo. E por sorte descobri que vivo rodeado dessas pessoas que trazem consigo, ao mesmo tempo, uma enorme dose de coragem e a sensatez de dosearem comportamentos que se evitam tornar irritantemente intrusivos. Claro que não há um ‘sítio certo’, o que há é um espaço onde se estabelece uma nova relação com quem nos rodeia. Nos dois comportamentos anteriores isso não acontece. No primeiro caso as pessoas que ‘baixam os olhos’ simplesmente se demitem de ocupar esse ‘sítio’ e no segundo caso as pessoas do ‘deves fazer isto’ ocupam-nos tão totalmente que passam a fazer parte do nosso território da doença. Nesta altura da minha vida descobri que sou um afortunado. A maior parte das pessoas que me são próximas trazem consigo uma tal sensibilidade que perceberam que o que eu precisava é que pudéssemos construir um ‘sítio’ novo nesta fase da minha vida. Com alguns um sítio de silêncio e de pequenos mas significantes gestos, para outras um sítio de serenidade e reflexão, para outros as oportunidades dos desabafos alegres com um copo na mão, mas nenhum, até hoje, baixou os olhos ou me deu conselhos.

Hoje percebo na carne quando dizem que é nas más notícias que melhor se descobre a amizade e a generosidade dos outros. E no meio disto tudo sou um homem feliz. Ninguém sabe quando morrerá – nem eu, embora possa ter uma ideia mais aproximada – mas certamente todos quererão, enquanto cá andarem, poderem fazê-lo da melhor maneira. E eu descobri que, seja por dois dias, dois meses ou dois anos, estou no ‘sítio certo’, o sítio onde se quer estar para viver os últimos dias !

13 Maio de 2016


tic tac

Sento-me. Levanto-me. Vou à cozinha. Abro e fecho a porta do frigorífico. Abro-a de novo agora para olhar o interior. Fecho-a, não vinha à procura de fome. Visito a sala. Olho para o pátio. Conto os limões no chão. registo que ainda não comprei a vassoura.Passo para a outra sala. Ligo a televisão. Olho as imagens de alguém a falar. Passam carros ao fundo. Desligo-a. Fico indeciso onde pousar o comando. Faço-me indeciso. Passo pela outra sala. Ajeito o correio. Reviro um envelope fechado. Não tenho curiosidade em abrir. Agarro no telefone. Passo-lhe o dedo. Volto a passar para o trancar. Ajeito uma cadeira pelo caminho. Sento-me outra vez na mesa do computador. Abro o blog. Fecho-o. Volto a abrir. Escrevo isto. Nem olho. Olho o relógio. Passaram 5 minutos. Não tenho fome. Não tenho de fazer já o jantar. Não tenho nada para fazer. Não sei o que fazer. Não me apetece pensar o que possa fazer. Não faço nada.

Às vezes o tempo engole-nos, outras fica engasgado connosco.


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