Category Archives: Replicações

“Na morte de um homem quantos homens morrem?”

Marcelo Duarte Mathias


sobre um carneiro cabrão

Em tempos idos, antes das redes sociais, a blogosfera, com uma vasta camada de autores anónimos que se interligavam e interagiam, era o que mais se lhes assemelhava. Para se tornarem mais funcionais os blogues estabeleciam entre si hiperligações permitindo assim que através deles fossem encaminhados leitores de uns para os outros. Raro era o blogue que não tinha a sua lista de preferidos numa coluna do lado. Eram essas ligações que acabavam por estabelecer o mapa da blogosfera – era possível começar de manhã num blogue, seguir desse para outro e depois para outro e assim dar a volta a quase toda a blogosfera. Alguns bloguistas eram relativamente selectivos e apenas linkavam os blogues que verdadeiramente apreciavam e liam, mas outros casos seguiam uma regra idiota de reciprocidade, uma espécie de cortesia baseada no “tu linkas-me e eu linko-te, mandas-me leitores e eu mando-te leitores”.

O intuito óbvio era portanto fazer crescer tráfego a partir de listas de outros blogues. As audiências eram nessa altura o ‘egómetro’ dos bloguistas, mesmo que se tratassem de visitas erráticas e efémeras com visitantes que nem um título de um post perdiam tempo a ler. Eu ‘dessocializei-me’ muito cedo. Ainda habitava o meu blogue anterior – há mais de 10 anos portanto – fiz desaparecer a minha coluna de blogues preferidos e tornei-me um ermita da blogosfera. Na altura de maior fervor recolhia regularmente 1.500 visitas por dia. Uns meses depois de ter acabado com essas listas confrontei-me com a tranquilidade de pouco mais de uma centena de leitores, os que efectivamente aqui pretendiam vir, fora dos canais de tráfego.

Mas nunca deixei de linkar um texto ou um blogue, assim guardando neste meu acervo a possibilidade de no futuro o poder encontrar. Este espaço, dentro dele, tem algumas dessas ligações, mas a maior parte infelizmente já não vão dar a lado nenhum. Outras, poucas, ainda terão do lado de lá o registo da escrita que então me terá maravilhado. Esta enorme prelecção apenas para dizer que continuarei a trazer para aqui textos dos outros, sempre que estes me deliciarem. E que o continuarei a fazer com extremoso critério, sobretudo para aqueles em que receio pela sua natureza volátil, como é o caso de textos que esvoaçam vertiginosamente pelo facebook.

Hoje foi o caso. Já sabes Nuno, quando não souberes dele, é só vires aqui ter (sempre me ajudas na audiência do blogue).

Crónica duma vingança.
OS ANIMAIS

Uma vez, quando ainda era um puto, delegaram-me a responsabilidade de pastar um rebanho de lindas ovelhinhas. Mas nesse rebanho havia um carneiro meio louco que me atacou impiedosamente. Tive de fugir a sete pés. Não foi fácil, fartei-me de correr de árvore em árvore até encontrar um porto seguro.

Não pensem que nessa fuga me escondi atrás das árvores, não fui covarde a esse ponto. Normalmente, quando os carneiros marram contra uma pessoa que esteja de pé param antes e, levantando-se sobre as patas traseiras, caiem depois violentamente sobre a vítima. Foram essas coreografias guerreiras, que a fera dançou antes de cada marrada, que me permitiram encher o peito de ar e ganhar fôlego para os sprints. Esses momentos serviram-me também para me defender e de alguma forma até para retaliar. Sempre que aquelas esmagadoras centenas de quilos se ergueram no ar diante de mim, eu aproveitei para me esquivar e me pôr novamente em fuga até à árvore seguinte. Assim fui avançando prudente e metodicamente, deixando para trás o pobre animal a repetir as violentas marradas, desferidas nas cascas ásperas daquelas enormes e inabaláveis árvores encontradas pelo caminho.

À primeira vista a minha atitude pode parecer uma reacção inocente e infantil, mas garanto-vos que foram gestos conscientes e vis, de premeditada e infame vingança, aqueles que retruquei. O meu desejo era que o carneiro ficasse prostrado por terra, com o crânio rachado ao meio, a esvair-se em sangue, sozinho, em morte lenta e agonizante.

Mas, agora, quando penso nisso envergonho-me, fico mesmo exaurido de remorso. O carneiro fez apenas o que um carneiro está destinado a fazer, marrou. Por mais obtuso que o animal fosse não merecia ser humilhado e castigado daquela maneira.

Se tivesse sido hoje, teria agido de forma completamente diferente. Ao longo da minha vida fui ganhando alguma sabedoria e, com ela, passei a ter outro respeito pelos animais. Se tivesse sido hoje, eu teria pacientemente domado a besta, tosquiado o seu pêlo, feito um casaquinho quentinho com a sua lã e, a cavalo no seu dorso, teria partido alegremente à descoberta do mundo cheio de aventuras. No regresso, sacrificaria a besta com toda a solenidade e organizaria um belo churrasco para festejar em sua honra.

Às vezes pode não parecer, mas os animais também são nossos amigos. Lembro-me com amizade desse carneiro. Cabrão do Carneiro.”

Nuno Fonseca


viver sempre também cansa

(Para o meu amigo Bill, de um escritor que também passeava a poesia …)

Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

José Gomes Ferreira


da escrita mortal

Da minha viagem pelos blogues, que dura para mais de 12 anos, já poucos paradeiros conservo. Durante muito tempo foram breves rotinas na inauguração de todas as manhãs. Enquanto, no alvoroçado tráfego, alguns iam pousando de semáforo em semáforo, eu, livre disso, para alcançar o trabalho, pausava de blogue em blogue.

Mas hoje já não. Cansei-me, os blogues cansaram-se, muitos despareceram, acabámo-nos mutuamente. A minha lista de favoritos, por onde saltitava e de onde provinha a maior fatia da minha leitura dessa altura, resume-se hoje a visitas esporádicas a não mais de meia dúzia de blogues. Sei que nunca me libertarei desse impulso, esse clique de curiosidade que me leva ocasionalmente a revisitar um ou outro, mas já quase nunca repito esse hábito de forma consistente, que acabou assim por se transformar em espaçados impulsos, meio involuntários, meio erráticos.

É no entanto um clique de mãos que sei que nunca me abandonará. Descobri nesta experiência que gosto da escrita anónima, aberta, não condicionada à exposição do seu autor ou a um propósito ou argumento de fundo. Uma escrita livre que não encontro em mais nenhum lugar quando a consumo na forma publicada, seja em livros, brochuras publicitárias ou notícias. E nestes incluo também os blogues com missões informativas ou políticas porque esses, hoje, estão mais do lado dos ‘instrumentos media’ do que dos projectos de escrita pessoal que eu ainda reconheço e que aqui destaco.

Os blogues (esses que não os instrumentos media que acima refiro, esses que são os ‘meus blogues’) acomodam a liberdade da escrita pública: todos os podem escrever e todos os podem ler. Por isso muitas vezes são vulgares e carrascos da arte da escrita. Conciliar a multitude e a qualidade, simultaneamente, como em tudo, também na escrita é algo improvável. Mas, e porque são imensos, há-os de todas as naturezas, o que inclui também aqueles que contradizem qualquer juízo ou consideração que sobre os mesmos, de uma forma global, se queira arriscar.

E aqui chegamos ao que aqui me prendeu, nisto dos blogues e ao que aqui me fará voltar sempre, ainda que esparsamente: ‘esses’ blogues! São poucos já os que visito e são poucas as vezes em que o faço, como já disse, mas quando calha mergulhar num deles volto a recuperar a sensação deliciosa desta leitura invulgar. É um prazer poder ler boas palavras, às vezes lavradas com uma originalidade surpreendente e um cuidado irrepreensível, num momento avulso que alguém desconhecido, do íntimo da sua vida, se dispõe partilhar connosco. Raramente há nisso propósitos e significados, que não outros do que aqueles que o autor, provavelmente de forma impulsiva, deixou correr. E essa escrita em liberdade que anda por aí, quase apócrifa, quando se pincela com o dom do bem escrever, será sempre um momento de deleite que dificilmente encontrarei noutra forma de leitura.

Há uns dias atrás andei a procurar “A Memória Inventada(já sem link), para mim um dos melhores blogues de sempre, escrito genialmente, pejado de descrições que me traziam também, de uma forma deliciosa, as memórias da minha juventude, já que estas também comuns às do autor. Desaparecido! Hoje, quase por acaso, passei pelo “Ana de Amsterdam(ainda com link) e andei a desembrulhar leituras, e a deleitar-me com algumas delas. Aparentemente este ainda existe e até ele ainda vou encontrando o caminho, mesmo que incidentalmente. E outros, ainda que escassos, também. Ainda.  Como é possível que o mesmo espaço (a blogosfera) que estimula e nos presenteia com peças extraordinárias de literatura, de um dia para o outro as impluda, sem que uma vírgula sequer tenha sobrevivido de um texto que nos maravilhou, sem um sinal deixado sobre o seu novo paradeiro, sem nada mais que não um banner comercial a informar-nos sobre os melhores comprimidos para o tesão?!

Se calhar é isso que também me encanta, essa fragilidade dos blogues, a mortalidade da sua escrita. O mesmo ímpeto que leva alguém a partilhá-la connosco, de forma espontânea e por vezes tão íntima, é o mesmo que o condena à sua efemeridade. Como se fosse uma janela distraidamente deixada aberta, por onde podemos ir dando uma espreitadela para um lugar de alguém, até que um dia a encontramos fechada. Como se um blogue, porque um dia morre, fosse por isso uma pequena peça de vida. Se calhar é essa sua condição humana, emanada do seu autor, que tanto o distingue da altiva escrita grafada, algures desmaiada na prateleira de uma estante empoeirada.


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