Category Archives: Revisitações

da natureza

A primeira casa que habitámos tinha um terraço virado a poente com vista sobre a ‘mãe-d’água’. Era o melhor espaço do mundo para pousar o fim da tarde. Aí, num canteiro abandonado, sobreviviam um hibisco e uns pés de beldroegas. O hibisco perdurou por mais três lares e 28 anos depois ainda medra no meu pátio. As beldroegas consumimo-las em deliciosas sopas.

É assim, nem tudo pode ser mera poesia. Há coisas que fazem mesmo falta.


amizades de conveniência

Ao João conheci-o por conveniência, há mais de 40 anos, a ele e ao Chico. Tinha 13 anos, estava apaixonado por uma miúda loura, era muito tímido e eles eram os seus irmãos mais novos. Enfim, eram a oportunidade de cruzar o seu horizonte.

Depois os anos passaram, a paixão juvenil também, mas eles não. Ao João mantive-o sempre por muito perto. Há pessoas que não se podem perder com risco de nos perdermos a nós também. Ao João habituei-me a prendê-lo com amarras de amizade.

Fiquei tão preso dele que foi ele quem fui buscar, talvez há uns 5 anos atrás, para me ajudar a não deixar partir essa mesma miúda loura por quem me tinha apaixonado em miúdo. João, tens de vir. E ficava lá fora, a vê-lo chegar a meio da madrugada, vestido à pressa e depois ao vulto dos dois na janela, a abraçarem-se. E ficava lá fora a vê-lo fazer de mim.

Ao longo da minha vida chamei-o muitas vezes. Chamei-o sempre que precisava fazer de mim e não sabia como o fazer. O João foi sempre uma amizade por conveniência.


cúpulas

Ao todo eram meia dúzia de crianças que estabeleciam pontes entre si de acordo com os motivos, os momentos, os seus traços de personalidade e a proximidade da idade, apesar de, como em todas as alcateias, existirem alianças naturais, mesmo que estas não fossem reconhecidas de modo cognoscente. Assim, os dias entrecruzavam-se-lhes com motivos de escola, de rua, de amigos, de jogos, enfim, daquilo que preenche as vidas das crianças.

O mais novo preenchia-os fazendo desenhos, desde que gatinhava. Essa disposição foi crescendo consigo e tornou-se uma óbvia inclinação vocacional que se acentuava com o passar dos dias e dos anos e que o mantinha dedicado às suas folhas de papel. Como todas as crianças precisava de estímulo e reconhecimento, procurando assim a paga do seu esforço e o encorajamento necessário à sua dedicação. Para isso era principalmente o segundo quem ele procurava.

Acercava-se dele com aquele ar inocente da idade, hasteando uma folha rabiscada na mão, sempre com a mesma pergunta: “gostas?”. O segundo habituara-se a isso. Lançava descontraidamente breves comentários, alguns elogios ou pequenas críticas, para logo voltar ao que o ocupava antes de ser interrompido. O “gostas?” tornou-se uma rotina entre os dois. Todos os dias o mais novo voltava, ele olhava os desenhos, cada vez mais evoluídos e lançava a sua opinião que, por mais lacónica que fosse, colhia sempre uma atenção grata da parte do mais novo.

Muitos dias e desenhos se foram passando, e tantos foram que o mais novo deixou de ser pequeno e entrou pela puberdade. Cresceu e a sua arte cresceu com ele, mas esses momentos mantinham-se entre eles. Todos os dias fazia um desenho novo, cada vez mais esmerado e dotado e quase todos os dias lhe mostrava um deles. Mas um dia, simplesmente, deixou de colher da parte do segundo qualquer tipo de atenção. Talvez se tivesse habituado a ver a “paga” do seu trabalho nas apreciações mais ou menos fundamentadas do segundo e por isso mantinha-se insistente, mas o segundo, tempestivamente, passara a ignorá-lo em absoluto.

Há datas que não são determináveis e por vezes é preciso olhar muitos anos para trás para podermos associar-lhes efectivamente um acontecimento. Um dia não é datável mas a determinação desse dia, mesmo que inlocalizável, é-o. E há imagens agregadas. O segundo lembra-se de fingir não ver as costas desmaiadas do mais novo quando deixava de receber dele o que se habituara e tentava lidar com a mágoa dele com uma indiferença disfarçada. E lembra-se que nada disto foi repentino, mas sim um processo lento e carnívoro, até que as investidas do mais novo se tornaram cada vez mais esparsas e incertas até perderem o hábito de procurar o irmão.

O mais novo, porque era mais novo e porque era dotado, provavelmente não se terá mais lembrado da dependência que nesse tempo longínquo o delimitava e condicionava. O segundo talvez tenha pensado na altura que um dia lhe fosse possível explicar isso, um dia, quando ambos percebessem melhor as palavras e os significados. O dia em que o dom do mais novo se tornou maior do que a sua capacidade crítica e onde teve a clara percepção de que esse era o dia em que o que dissesse teria de deixar de ser relevante para ele. Não percebia nada de arte, mas sabia de si sobre o acto de criar, esse espaço enorme, vazio, arrepiante às vezes, que nunca poderá ser ocupado por mais ninguém que não o seu criador e as suas interrogações sem resposta.

Algures, nesse tempo indeterminado, com um gesto bruto e calado, cada um passou a seguir o seu desígnio e cada um se tornou homem nele. Hoje, o mais novo desenha enormes cúpulas em céus amarelados. Criações lindas que vão muito para além da sensibilidade que levou o segundo a fazer-se engenheiro. Se o mais novo viesse hoje ter com ele, com esses estranhos desenhos de coisas viradas ao contrário, e lhe perguntasse: “gostas?”, provavelmente o segundo não saberia o que responder. Mas o mais novo nunca lhe perguntaria isso, porque há muitos anos que deixou de precisar de perguntas. Porque há muitos anos que se dedica a inventar respostas.

… e algumas saem-lhe lindas!


a culpa foi do árbitro

Assim que entrei na sala a professora interrogou-me de imediato – “ Mas o que lhe aconteceu?”.

Ser um aluno pouco acima da mediania, a português, numa turma da área científico-tecnológica, conferia-me algum destaque, mesmo que sem grande mérito, e a verdade é que sentia uma estima especial, que era, aliás, recíproca, da parte da professora. Um dia, numa conversa distraída de final de aula, constatámos que partilhávamos o mesmo interesse pelos clássicos. De vez a vez trocávamos umas palavras sobre o que estávamos a ler e quando um dia lhe referi que estava a devorar arrebatadamente os “trabalhadores do mar” do Victor Hugo – livro que aliás foi determinante na acentuação das minhas opções vocacionais – e que ela também elegia, conforme me confessou, como uma obra suprema, desde então passei a ocupar um papel especial naquele rol de alunos desmotivantes. Assim, não sendo um aluno de excelência em Português, ocupava um lugar de interesse especial para ela naquela turma distraída e pouco dada a letras o que, reconheço, inflacionava de alguma forma as minhas notas que em nada tinham correspondência com as classificações que retirava dos testes enfadonhos para os quais era reclamado o tecnicismo da língua portuguesa que nunca me entusiasmou.

Na véspera tinha tido um jogo decisivo de rugby, não menos que a final entre nós (CDUL) e a “Agronomia” no escalão de juniores. Acontece que o jogo tinha descambado e quando demos por nós estávamos os 30 jogadores das duas equipas envolvidos numa melée, mas sem bola. O jogo era determinante e tinha sido muito mal conduzido pelo árbitro o que tinha acicatado ainda mais o nosso destempero, e já se sabe que um turbilhão de jovens de 18 anos não é propriamente uma falange disciplinada do exército. Aliás, não era assim tão incomum este tipo de cortesias que se intrometiam no jogo, por breves instantes, que logo de seguida retomava a sua normalidade. Só que daquela vez estava muito em jogo e os espíritos estavam desgovernados por uma péssima arbitragem. Acontece que, não só o pobre do árbitro não se estava a sair bem, como ainda provou não perceber nada dos protocolos do seu exercício: regra número 1 – nunca se interpor em rixas dentro do campo, 2 – manter uma distância de observação enquanto as mesmas se desenrolam e 3 – no final actuar disciplinarmente e em conformidade com os acontecimentos. Acontece que o senhor, talvez por entender que deveria ter uma intervenção pedagógica, entendeu intrometer-se entre as duas moles de jogadores que naquela altura já estavam completamente ingovernáveis. Paf, paf, para aqui e para acolá, as cores dos equipamentos a misturarem-se e a camisola amarela do árbitro a desaparecer, num ápice, por entre o emaranhado de corpos. Depois de, a custo, ter sido apaziguada a quezília, constatou-se que o senhor que estava algures por baixo do amontoado de corpos, com uma camisola vagamente amarela, não apresentava condições físicas para poder continuar a arbitragem, recomendando-se até que fosse levado a curativos. O jogo ficou suspenso, ninguém ganhou e eu voltei com um lanho na testa  e um olho ligeiramente escurecido.

Foram esses evidentes sinais de atropelamento que levaram a professora, com a simpatia que já reconheci nutrir por mim, a interessar-se sobre a razão do meu estado de saúde. Não me recordo com exactidão em que moldes me expliquei, nem qual o detalhe com que o fiz. Creio que terei sido algo lacónico, mas não o suficiente para dispensar a referência à má actuação do árbitro como razão inicial de tudo o que depois se passou. Ainda hoje me lembro dos olhos esbugalhados com que ela recebeu a minha resposta e da dureza do tom ríspido com que, para minha surpresa, terá retorquido: “uma cambada de crianças malcriadas é o que é, e agora tenho o meu marido em casa a meter gelo no nariz” e, a acentuar, ainda mais furiosamente, “e queira Deus que não tenha de ser operado ao cepto nasal”.

Desconheço se ela teria estado presente a assistir ao jogo, se foi mera associação de casos, ou se efectivamente estávamos perante uma desastrosa e infeliz coincidência mas, obviamente, nunca mais voltámos a falar de Dostoievski ou Hemingway e a classificação final em Português acabou por não ser das que contribuiu decisivamente para a minha média de entrada na universidade.

De qualquer modo, a culpa foi do árbitro.


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