Monthly Archives: Janeiro 2017

sobre um carneiro cabrão

Em tempos idos, antes das redes sociais, a blogosfera, com uma vasta camada de autores anónimos que se interligavam e interagiam, era o que mais se lhes assemelhava. Para se tornarem mais funcionais os blogues estabeleciam entre si hiperligações permitindo assim que através deles fossem encaminhados leitores de uns para os outros. Raro era o blogue que não tinha a sua lista de preferidos numa coluna do lado. Eram essas ligações que acabavam por estabelecer o mapa da blogosfera – era possível começar de manhã num blogue, seguir desse para outro e depois para outro e assim dar a volta a quase toda a blogosfera. Alguns bloguistas eram relativamente selectivos e apenas linkavam os blogues que verdadeiramente apreciavam e liam, mas outros casos seguiam uma regra idiota de reciprocidade, uma espécie de cortesia baseada no “tu linkas-me e eu linko-te, mandas-me leitores e eu mando-te leitores”.

O intuito óbvio era portanto fazer crescer tráfego a partir de listas de outros blogues. As audiências eram nessa altura o ‘egómetro’ dos bloguistas, mesmo que se tratassem de visitas erráticas e efémeras com visitantes que nem um título de um post perdiam tempo a ler. Eu ‘dessocializei-me’ muito cedo. Ainda habitava o meu blogue anterior – há mais de 10 anos portanto – fiz desaparecer a minha coluna de blogues preferidos e tornei-me um ermita da blogosfera. Na altura de maior fervor recolhia regularmente 1.500 visitas por dia. Uns meses depois de ter acabado com essas listas confrontei-me com a tranquilidade de pouco mais de uma centena de leitores, os que efectivamente aqui pretendiam vir, fora dos canais de tráfego.

Mas nunca deixei de linkar um texto ou um blogue, assim guardando neste meu acervo a possibilidade de no futuro o poder encontrar. Este espaço, dentro dele, tem algumas dessas ligações, mas a maior parte infelizmente já não vão dar a lado nenhum. Outras, poucas, ainda terão do lado de lá o registo da escrita que então me terá maravilhado. Esta enorme prelecção apenas para dizer que continuarei a trazer para aqui textos dos outros, sempre que estes me deliciarem. E que o continuarei a fazer com extremoso critério, sobretudo para aqueles em que receio pela sua natureza volátil, como é o caso de textos que esvoaçam vertiginosamente pelo facebook.

Hoje foi o caso. Já sabes Nuno, quando não souberes dele, é só vires aqui ter (sempre me ajudas na audiência do blogue).

Crónica duma vingança.
OS ANIMAIS

Uma vez, quando ainda era um puto, delegaram-me a responsabilidade de pastar um rebanho de lindas ovelhinhas. Mas nesse rebanho havia um carneiro meio louco que me atacou impiedosamente. Tive de fugir a sete pés. Não foi fácil, fartei-me de correr de árvore em árvore até encontrar um porto seguro.

Não pensem que nessa fuga me escondi atrás das árvores, não fui covarde a esse ponto. Normalmente, quando os carneiros marram contra uma pessoa que esteja de pé param antes e, levantando-se sobre as patas traseiras, caiem depois violentamente sobre a vítima. Foram essas coreografias guerreiras, que a fera dançou antes de cada marrada, que me permitiram encher o peito de ar e ganhar fôlego para os sprints. Esses momentos serviram-me também para me defender e de alguma forma até para retaliar. Sempre que aquelas esmagadoras centenas de quilos se ergueram no ar diante de mim, eu aproveitei para me esquivar e me pôr novamente em fuga até à árvore seguinte. Assim fui avançando prudente e metodicamente, deixando para trás o pobre animal a repetir as violentas marradas, desferidas nas cascas ásperas daquelas enormes e inabaláveis árvores encontradas pelo caminho.

À primeira vista a minha atitude pode parecer uma reacção inocente e infantil, mas garanto-vos que foram gestos conscientes e vis, de premeditada e infame vingança, aqueles que retruquei. O meu desejo era que o carneiro ficasse prostrado por terra, com o crânio rachado ao meio, a esvair-se em sangue, sozinho, em morte lenta e agonizante.

Mas, agora, quando penso nisso envergonho-me, fico mesmo exaurido de remorso. O carneiro fez apenas o que um carneiro está destinado a fazer, marrou. Por mais obtuso que o animal fosse não merecia ser humilhado e castigado daquela maneira.

Se tivesse sido hoje, teria agido de forma completamente diferente. Ao longo da minha vida fui ganhando alguma sabedoria e, com ela, passei a ter outro respeito pelos animais. Se tivesse sido hoje, eu teria pacientemente domado a besta, tosquiado o seu pêlo, feito um casaquinho quentinho com a sua lã e, a cavalo no seu dorso, teria partido alegremente à descoberta do mundo cheio de aventuras. No regresso, sacrificaria a besta com toda a solenidade e organizaria um belo churrasco para festejar em sua honra.

Às vezes pode não parecer, mas os animais também são nossos amigos. Lembro-me com amizade desse carneiro. Cabrão do Carneiro.”

Nuno Fonseca

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