as vozes podem chorar, mas não se choram

O anúncio da morte de um grande músico não me comove mais que a morte do marceneiro que tinha umas mãos de ouro para recuperar os móveis de família. Claro que fico triste, pois com eles esvai-se a possibilidade de amanhã me sentar num outro cadeirão recuperado a escutar mais uma belíssima canção inédita. Como ficarei triste por saber que falecem aqueles que com a sua acção contribuíram directa ou indirectamente para o meu mundo. Mas emocionado, de lágrimas suspensas, a escrever em jornais públicos que “chorei como se tivesse morrido alguém da minha família”? Como posso sentir-me assim com alguém que não conheço, assim como se fosse alguém da minha família?

Esses estados guardo-os fervorosamente na minha intimidade para as perdas dos que me são próximos, daqueles que verdadeiramente conheci e amei e de cuja presença passarei a estar privado. Posso chorar pela ausência desses, que me foram perto, que me faltarão, que nunca mais me repetirão, posso chorar pelas tantas tragédias humanas que se passam por esse mundo fora ou pela dor alheia, aqui mais perto ou longe, mas nunca por uma música que não chegará a existir ou um braço de cadeira que ficará por arranjar. Posso chorar por outros, mas nunca pelo que eles deixaram de me dar por terem morrido. Assim como nunca chorarei por homens que nunca conheci e que morreram algures aos 82 anos. E acho mesmo que isso iria desarranjar a minha caixa de emoções onde carrego as memórias daqueles que verdadeiramente chorei e que quero guardar. Essas memórias que de vez em quando gosto de ir desembrulhando ao som  de uma melodia percorrida pela voz assombrosa do Leonard Cohen, por exemplo.

Entretanto ainda bem que existiu gente que deixou legados como este que, na sua condição perpétua, não precisam das nossas lágrimas para nada:


do abrunhal

O abrunhal, lá na beira baixa, um território incontornável das férias grandes da minha infância onde recebíamos com incontido entusiasmo as indicações dos seus espalhafatosos planos, esquiçados debaixo do enorme medronheiro que vigiava a azinhaga de acesso, ficou hoje mais desabitado.

E nisto também a constatar que, dos homens do meu sangue, sobramos já quase só nós, agora os mais velhos. E o medronheiro, na sua abrigada eternidade.


viver sempre também cansa

(Para o meu amigo Bill, de um escritor que também passeava a poesia …)

Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

José Gomes Ferreira


25 anos, no embaraço de os saber dizer

E depois, ocasionalmente, no acaso de uma foto, tudo fica dito

Paris

Paris, Set. 2016


a chegar de gatas …

… mas quase a entrar em modo ‘férias’

 


O Renato partiu sem mim

Há quinze dias a tasca aqui debaixo não abriu. O Renato morrera. O irmão contou-me ainda nesse dia que o tinha encontrado no domingo já sem se dar à consciência, enrodilhado nos lençóis imundos da agonia da noite e que poucas horas depois expirara no hospital. Conhecia-o há mais de 20 anos, falávamos todos os dias, mas não lhe era muito chegado. Partilhávamos simplesmente as conversas de ocasião enquanto me servia o café da manhã.

Foi numa dessas conversas de balcão, há 4 meses atrás, que fiquei a saber que lhe haviam diagnosticado um cancro nos pulmões. Uma semana antes, mais exactamente a 18 de Março, tinha acabado de receber notícia parecida mas, naturalmente, sobre outra pessoa. Sobre mim. Desde então os nossos cancros tornaram-se irmãos, embora só eu – porque nunca o partilhara com ele – o soubesse e o sentisse. Tinham contudo personalidades diferentes. O dele vivia falado, extrovertido e activo, enquanto o meu se calava e era titubeante e tímido. O dele era cabal e geométrico, enquanto o meu se anunciava sibilino e escondido na ambiguidade, como o pior dos monstros metásticos. O dele mergulhava agora na ilusão da cura, enquanto o meu ainda tropeçava num infindável e complexo rol de diagnósticos para o desprenderem da incerteza.

Nos dias que se seguiram, enquanto ele ia contando as várias fases e tratamentos porque ia passando na abordagem clínica e nisso transpirava os seus momentos de maior entusiasmo ou de maior quebra física, eu continuava a entregar-me silenciosamente ao meu rodopio de exames em busca do primário. Foram ecografias e tomografias, desde os testículos à tiróide, e depois intermináveis peregrinações de endoscópios pelas minhas entranhas, desde os brônquios e do esófago aos intestinos. Por fim as claustrofóbicas viagens ao longo de um tubo interminável onde me injectaram com líquidos esquisitos e me falavam de positrões. O meu corpo tornou-se património da ciência médica de tão inspeccionado que foi, mas o diagnóstico continuou ambíguo e indeterminável, já o dele o encaminhava pelos solitários corredores dos hospitais.

Enquanto o Renato vivia resignado, deixando-se conduzir com um sorriso dócil por um caminho já traçado, eu volteava de resultado em resultado, cada vez mais ansioso pela confirmação de uma sobrevivência improvável. Em certos momentos, confesso, invejei-o. Afinal ele tinha estrada, tinha a possibilidade de enfrentar a fatalidade, tomando-lhe o pulso, já a mim cabia-me viver suspenso sobre um cruzamento que piedosamente me iam fazendo saber ter forte probabilidade de conduzir numa direcção única. Não vivia, não morria, não tinha destino a dar a mim próprio. Vive-se um dia com a incerteza de o bicho nos ter apanhado. Vive-se até uma semana. Mas a partir daí a nossa natureza exige respostas para nos armar. O Renato tinha respostas e desgraçadamente ia morrer. Eu desgraçadamente ia morrer mas não tinha respostas.

— // —

Três meses passaram. Entretanto partilhei com poucos a minha condição e a sua estranha incerteza que quase se garantia ser fatalidade. Esses terão sido os momentos mais dolorosos, ver a minha morte a anunciar-se nos seus olhos. Investiguei, estudei e colhi testemunhos de gente admirável. Refugiei-me de alguns comportamentos típicos, daqueles que olham para o chão e nos empurram ainda mais para dentro de nós e daqueles que sentem uma absoluta necessidade de dar conselhos, procurando o conforto de se acharem úteis, deixando-nos lá longe com mais esse encargo de fingir que os escutamos. Pelo meio continuava a desenrolar-se o universo utópico da medicina, sem certezas mas categórico. Entretanto, por falta de mais a que me agarrar, fui tomando o meu caminho e as minhas decisões baseado nos cenários mais prováveis, como quem prepara o farnel sem saber para onde irá. Estabilizei-me, serenei-me, continuei-me, e poucas foram as vezes em que os meus olhos não se deixaram amolecer no dormir ou não acordei no dia seguinte com a mesma vontade dos dias comuns. Portei-me bem comigo.

Entretanto, as notícias trouxeram algumas cambiantes. Parece que depois de tanto se procurar e nada se encontrar, restava então, já não a metástase, mas o dos pulmões. Foi por aí, embora não saiba exactamente quando, que dei por confirmada a minha viagem de barco. Se a miséria da doença estava cá e pela frente se traçava um caminho que já conhecia pouco havia a fazer e o melhor era tratar do espírito para o enfrentar, se pelo contrário nada ficasse comprovado, ora bolas, ainda bem que assim decidia. Ficou o barco à espera e os bilhetes comprados para Junho. Na última semana antes de partir muita coisa se passou e muito mudou. Uma última TAC trazia estridentes notícias: que por lá continuavam, mas pelo comportamento migratório dos nódulos não poderia ser coisa neoplásica, fui sabendo de um lado. Do outro anunciava-se a inevitabilidade da biópsia com cirurgia toráxica, esta a ser conclusiva, e a correspondente notificação que, a confirmar-se o dia e a hora, me iria apanhar algures entre Menorca e a Sardenha, mar adentro. E o cirurgião a tomar-se de cuidados, a ligar-me , a chamar-me de louco, mas depois a desembravecer à medida que lhe vou contando dos últimos exames, eu já quase a falar de igual para igual com ele. E por fim, que fosse, que a responsabilidade era minha, mas que já agora levasse uns antibióticos que quando voltasse logo se via tudo de novo.

Todos os dias lá ia à tasca, para o café do meio da manhã, ou almoço senão a cerveja do meio da tarde. O Renato lá ia seguindo, uns dias melhor outros pior, a caminho de um final calado, eu melhor, quase a seguir para o barco, a fingir-me parte de outra realidade. Foi dois dias antes de zarpar que lhe revelei pela primeira vez a minha condição quase semelhante, com algum demasiado detalhe, sei-o agora. E foi a primeira vez que lhe vi os olhos aguados. Depois parti e ele ficou.

–//–

Quando voltei tê-lo-ei visto mais um dia ou dois apenas. Estava praticamente irreconhecível. E depois foi ele que partiu, naquele dia em que a Tasca não abriu. Esse mesmo dia em que eu fiquei. Nunca saberei explicar isto a ninguém. Uns acharão um exercício de dramatização, outros considerarão que o que atravessei me tenha trazido um desgovernado misticismo, mas eu tenho bem dentro de mim, gravado para todos os dias que faltarem, que eu e ele fomos escolhidos no mesmo dia, num dia em que só havia lugar para um.

E sim, fui ao seu funeral. Fui enterrar a minha morte.


seguindo

Durante 4 meses partilhámos a mesma fatalidade, até o Renato morrer. Eu não. O seu diagnóstico foi cumprido, o meu foi ficar.


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