da escrita mortalizada

Da minha viagem pelos blogues, que dura para mais de 12 anos, já poucos paradeiros conservo. Durante muito tempo foram breves rotinas na inauguração de todas as manhãs. Enquanto, no alvoroçado tráfego, alguns iam pousando de semáforo em semáforo, eu, livre disso, para alcançar o trabalho, pausava de blogue em blogue.

Mas hoje já não. Cansei-me, os blogues cansaram-se, muitos despareceram, acabámo-nos mutuamente. A minha lista de favoritos, por onde saltitava e de onde provinha a maior fatia da minha leitura dessa altura, resume-se hoje a visitas esporádicas a não mais de meia dúzia de blogues. Sei que nunca me libertarei desse impulso, esse clique de curiosidade que me leva ocasionalmente a revisitar um ou outro, mas já quase nunca repito esse hábito de forma consistente, que acabou assim por se transformar em espaçados impulsos, meio involuntários, meio erráticos.

É no entanto um clique de mãos que sei que nunca me abandonará. Descobri nesta experiência que gosto da escrita anónima, aberta, não condicionada à exposição do seu autor ou a um propósito ou argumento de fundo. Uma escrita livre que não encontro em mais nenhum lugar quando a consumo na forma publicada, seja em livros, brochuras publicitárias ou notícias. E nestes incluo também os blogues com missões informativas ou políticas porque esses, hoje, estão mais do lado dos ‘instrumentos media’ do que dos projectos de escrita pessoal que eu ainda reconheço e que aqui destaco.

Os blogues (esses que não os instrumentos media que acima refiro, esses que são os ‘meus blogues’) acomodam a liberdade da escrita pública: todos os podem escrever e todos os podem ler. Por isso muitas vezes são vulgares e carrascos da arte da escrita. Conciliar a multitude e a qualidade, simultaneamente, como em tudo, também na escrita é algo improvável. Mas, e porque são imensos, há-os de todas as naturezas, o que inclui também aqueles que contradizem qualquer juízo ou consideração que sobre os mesmos, de uma forma global, se queira arriscar.

E aqui chegamos ao que aqui me prendeu, nisto dos blogues e ao que aqui me fará voltar sempre, ainda que esparsamente: ‘esses’ blogues! São poucos já os que visito e são poucas as vezes em que o faço, como já disse, mas quando calha mergulhar num deles volto a recuperar a sensação deliciosa desta leitura invulgar. É um prazer poder ler boas palavras, às vezes lavradas com uma originalidade surpreendente e um cuidado irrepreensível, num momento avulso que alguém desconhecido, do íntimo da sua vida, se dispõe partilhar connosco. Raramente há nisso propósitos e significados, que não outros do que aqueles que o autor, provavelmente de forma impulsiva, deixou correr. E essa escrita em liberdade que anda por aí, quase apócrifa, quando se pincela com o dom do bem escrever, será sempre um momento de deleite que dificilmente encontrarei noutra forma de leitura.

Há uns dias atrás andei a procurar “A Memória Inventada(já sem link), para mim um dos melhores blogues de sempre, escrito genialmente, pejado de descrições que me traziam também, de uma forma deliciosa, as memórias da minha juventude, já que estas também comuns às do autor. Desaparecido! Hoje, quase por acaso, passei pelo “Ana de Amsterdam(ainda com link) e andei a desembrulhar leituras, e a deleitar-me com algumas delas. Aparentemente este ainda existe e até ele ainda vou encontrando o caminho, mesmo que incidentalmente. E outros, ainda que escassos, também. Ainda.  Como é possível que o mesmo espaço (a blogosfera) que estimula e nos presenteia com peças extraordinárias de literatura, de um dia para o outro as impluda, sem que uma vírgula sequer tenha sobrevivido de um texto que nos maravilhou, sem um sinal deixado sobre o seu novo paradeiro, sem nada mais que não um banner comercial a informar-nos sobre os melhores comprimidos para o tesão?!

Se calhar é isso que também me encanta, essa fragilidade dos blogues, a mortalidade da sua escrita. O mesmo ímpeto que leva alguém a partilhá-la connosco, de forma espontânea e por vezes tão íntima, é o mesmo que o condena à sua efemeridade. Como se fosse uma janela distraidamente deixada aberta, por onde podemos ir dando uma espreitadela para um lugar de alguém, até que um dia a encontramos fechada. Como se um blogue, porque um dia morre, fosse por isso uma pequena peça de vida. Se calhar é essa sua condição humana, emanada do seu autor, que tanto o distingue da altiva escrita grafada, algures desmaiada na prateleira de uma estante empoeirada.


hoje lembrei-me de ti pá

O nosso passado, a nossa história e memórias, por mais egocêntricos que sejamos, nunca será absolutamente nosso. Parte de nós é guardada nos outros, naqueles que nos rodearam de perto. Sem eles essa parte nunca existiu. Sem eles ficamos apenas com a parte que de nós guardamos.

Já entrámos em Agosto e o sol está a pedir meças. Um destes dias parto para o algarve mas, entretanto, enquanto alcanço algumas folgas pelos dias que correm, vou desembrulhando o verão. E a forma mais fácil de lhe ganhar apetite é recordá-lo. Foi assim que comecei por aí fora, a revisitar-me, desenrolando anos e mais anos para trás e acabei num trecho perdido da memória: acordo debaixo de um barco pesqueiro, com os lábios embrulhados na areia e um hálito de fazer arrepiar o alcool.  Um fio de sol pica-me as pálpebras, a ressuscitar-me com berros de brilho do meio destroço em que me sinto e, lentamente, vou acordando para o mundo. Os sons primeiro, ao fundo primeiro, o mar, a situar-me. Depois, mais perto, as famílias, a chegarem à praia, a invadirem-nos o território à gargalhada àquela hora da matina, àquela hora da nossa noite. E depois, ainda mais ao perto, vozes que se vão tornando inteligíveis. Foi aí que encontrei a tua, engalfinhada com dois PI’s de cacetetes baloiçantes, apesar de provavelmente não estares muito melhor que eu. Eras sempre tu a arranjares confusão. E a resolveres depois as coisas. Nunca percebi como é que alguém com tanta propensão para nos meter em sarilhos, pode ser também o que mais aptidões tem para nos tirar deles.

Ainda ri, ainda rimos, os dois, nesse instante que te conto, esse instante de lá do fundo dos nossos dias, que não são meus nem teus, mas esses do verão que era dos dois. O verão volta todos os anos, parece. E acontece que todos os anos, porque me faço mais retardado em partir que a outra Lisboa inteira e preciso de aditivos para sobreviver aos dias que o antecedem, fico por cá o antecipá-lo. Hoje, um instante, amanhã um episódio e assim fico ziguezagueando nesses tempos em que o algarve era ao mesmo tempo uma praia e uma noite imensa e o verão nunca acabava. E acontece que nisso, nessas viagens planadas onde me lanço pela memória, todos os anos te volto a encontrar lá. Uma boa parte desses verões, que não é minha, tens tu guardada contigo. Sabes, eu prefiro assim. Assim, sempre que o trouxer de volta, lá terei de te encontrar de novo. Tu lá, o rapazola de sempre. O primeiro a arranjar confusão e a chegar às miúdas mais giras.

Um abraço pá e até daqui a uns dias.

 


a presença da ausência


nem do antes nem do depois

Há demasiados factos, dados e opiniões sobre a infinidade de coisas novas que todos os dias acontecem. Já ninguém as colige. Cabe hoje a cada um pesquisar, integrar, filtrar, avalisar e concluir sobre tudo isso. Depois, e porque qualquer indivíduo anónimo hoje tem acesso a um manancial de disseminação de fazer inveja a qualquer imprensa de porte médio de há vinte anos atrás, recrudescem novos níveis de comunicação, uma segunda camada de informação, opinosa, disforme, que de tão massificada se torna lerda, que de tão vasta se torna indigerível. A humanidade criou dispositivos de comunicação tão eficazes, que ela própria deixou de ser capaz de consumir o que produz  – diz-se que 90% das coisas que se escrevem nunca serão lidas por ninguém.

Mas esta não é uma mudança de paradigma exclusiva da informação e comunicação. Também do lado da indústria, no domínio da concepção de produtos, as tecnologias emergentes arrepiam as sociedades industriais e as pesadas infra-estruturas fabris, cujo perímetro de acção era estanque e o seu território ignorado pelo lado do consumo, estão agora a confrontar-se com uma sociedade que começa a ter capacidade de produzir por si mesma e de criar em rede um tal potencial de criatividade que qualquer gabinete de projecto se deverá sentir tremer – diz-se que nos próximos 25 anos serão gerados mais novos produtos que em toda a história de humanidade. Esta humanidade em rede que se tornou hoje uma máquina de invenção do novo e do prolífero tão eficaz que ela própria deixou de ter a capacidade para lidar com a informação e absorver os bens que produz porque continua a depender de cada um de nós e não de uma voracidade infinita.

A velocidade, o tempo, este é o novo paradigma desta civilização. Os mais aptos tirarão partido dela, ainda que isso signifique apenas uma dízima do que desperdiçam. O mundo avança demasiado depressa, um mundo onde todos os fenómenos se transformaram em orfãos de um mecanismo viral, posse de um colectivo desinteressado, que se compraz mais no acto da sua (re)criação e propagação que no seu usufruto. Os mais novos integrarão em si, desde o berço, essas novas capacidades que os preparam para esta realidade, desviando o supérfluo, mesmo que isso signifique a exclusão da cultura e do eclectismo, ou tão simplesmente um lugar para descansar no silêncio da natureza. Não tenho dúvidas que entre uns e outros nunca na história da humanidade esta evoluirá de forma tão abissal e veloz. Assim foi na geração antes da minha e assim será na geração depois da minha.

Cada vez mais o passado resumir-se-á a uma fracção irrelevante do que o dia de hoje aponta e a história deixará cada vez mais de ser uma referência nele contida. Já não há passado, mas uma colina de informação, de experiências e de novas ideias que ontem não tivemos tempo para organizar, encavalitados no vertiginoso das novas coisas. O mundo avança demasiado depressa, muito mais depressa do que o ritmo a que somos capazes de o viver. Todos os fenómenos deixaram de ter uma origem para se transformaram em algo viral, posse de um colectivo, que os exponencia a tal ponto que individualmente deixamos de estar aptos para os entrelaçar entre si e no tempo .

Dantes escutávamos o mundo com tempo suficiente. Tudo tinha uma origem, um mentor, um significado e resultado. Hoje não, todos os acontecimentos adquirem a mesma ordem de importância, os mais populares (que não os mais relevantes) rapidamente tomam uma dimensão abissal e são possuídos por um colectivo de milhões que não os verticaliza, apenas lhe acrescenta novos tentáculos. As coisas novas deixaram de ser importantes, tornaram-se banais e o que verdadeiramente se tornou importante é que todos os dias apareçam coisas novas, indiferentemente da sua natureza.

Dantes, os mais velhos, eram tidos como uma reserva nas decisões. Eles não estavam tão aptos a olhar o futuro, mas traziam consigo os hábitos, a história, o bom senso, criavam pontes entre cada um dos lados da história, insinuavam caminhos para nos trazerem do passado para um futuro por diante, nalguns casos de forma demasiada assisada mas quase sempre fazendo pontes. Hoje quase nada sobra de ontem. Pouco mais que aquilo que se gizou produzir e consumir para amanhã. É cada vez mais um tempo sem passado, sem velhos e sem memória.  E a memória  é a ponte da humanidade entre a sua história e a parte do futuro que ela ainda pode racionalizar. Mas as pontes da memória deixaram de ser importantes nesta superprodução de coisas e acontecimentos.

E ademais há a outra parte, a da vida. Receio que por diante muitos deixem de perceber e nisso de usufruir o poder estar, apenas estar. Seja debaixo de uma árvore, dormitando no silêncio da natureza, seja revisitando amizades e histórias entre copos, conversas e memórias, seja simplesmente escutando o vagar da verdade na boca de um velho ao final da tarde. Sim, é verdade. Não sou fanático do novo e vivo nesta permanente ansiedade com este futuro que todos os dias muda sem tempo prévio para se anunciar. Mas quero acreditar também que não sou ainda um velho, um acidente de um passado já improvável, um incompetente a enfrentar a vida como ela hoje é. Mas a que mundo afinal pertenço?

Não sei. E estou com medo. Quero poder ir andando pela vida e não que a vida me sugue por um túnel de vácuo a uma velocidade tão vertiginosa que nem tempo tenha para apreciar a paisagem. E nisto da vida, é isso mesmo … eu só quero poder apreciar a paisagem.

bengala


da madeira

A escrita, como qualquer lugar de criação, é um espaço de felicidade. Não o afirmo como fugitivo, pois é lugar que me está vedado. Sou apenas um criativo sem dote, um homem que por um qualquer acaso genético vive carente do movimento da criação, mas que por óbvias insuficiências artísticas olha rabugento para a sorte de alguns outros. Enfim, sou um apátrida, sem território para a expressão. A carpintaria, a forma e a macieza da madeira, é o que encontro mais próximo dessa sensação que me foi vedada. Nisso nem aspiro alcançar qualquer estrato artístico, mas tão sómente olhar-lhe a forma acabada, tê-la depois do nada, filha minha. Há quem da escrita esculpa verdadeiras peças de arte, outros, dela, só fazem cadeiras. Uns nascem enleados por esse dote, outros resignam-se a trabalhar com as mãos. Um dia, neste entardecer da idade, será a madeira que me ajudará a copiar essa felicidade. A marcenaria será a minha megera da arte.


Kalithea Halkidiki poderia ser no hawaii mas é ali na grécia, mesmo ao pé da rússia

Esta minha fase profissional tem-me levado nos últimos anos a galgar território europeu. Embora os objectivos das viagens não me deixem grande folga turística trazem sempre consigo algo de exótico nestes destinos onde atraco: lahti, trondhein, lublin, ankara, zarautz, greenwich, … uma infinidade de paragens que certamente nunca visaria com propósitos turísticos, porque fora do gradiente comum, e que acabam por trazer uma percepção mais sincera e próxima dos países e dos povos.

Tinha-me comprometido, por estas mesmas razões, a guardar aqui relatos espontâneos de cada um desses lugares.  Nada a ver com a panorâmica das paisagens ou o motivo das mesmas, nada a ver também com o pretensiosismo de um diário de bordo, mas apenas o registo almiscarado de notas soltas que, durante essas jornadas, por razão que desconheço, colecciono em mim. Infelizmente, os mesmos motivos que me levam a cruzar estes insólitos lugares são os mesmos que me têm retirado a disponibilidade para trazer à escrita as anotações que me prometi mais verter em texto. Depois o tempo passa, …

Desta vez fui parar à Grécia, perto de Salónica, a um local de veraneio chamado Kalithea Halkidiki. Como das outras vezes não tenho impulso para tratar com o esmero que a escrita partilhada justifica as tais notas avulso que me foram povoando a cabeça. Não obstante, pelos motivos que já aleguei, quero aqui crivar um espaço que, pelo menos a mim, se não a mais  ninguém, me estimule a revisitar o que então me ocorreu, que agora apenas anoto, na esperança que quiçá um dia o possa tratar mais cuidadamente.

Estamos em 2015, Junho, porventura no momento mais crítico de todo o confronto bélico entre a Grécia a UE e outras tantas demais instituições cuja denominação, com o distar do tempo, pouco importarão. O que daí nos chega continua a ser propagado da mesma forma de sempre, de mão em mão. Por mais ágeis que sejam hoje os meios tecnológicos de disseminação, por mais espontânea e fértil que seja a informação, continuamos a comunicar e a integrar a informação como sempre o fizemos, a partir da percepção anónima de alguém, emitindo de algures, construindo, por maioria de razão, a nossa própria razão das coisas.

Registo aqui, para mim, depois de uns banhos no Egeu e uns mergulhos nas comunidades locais, os acertos que decidi fazer à minha verdade das coisas:

1. qual grécia?

Salónica é a segunda maior cidade da grécia, desde que é grécia, o que apenas acontece há pouco mais de 100 anos. Basta olhar para o mapa para perceber que sempre foi campo de passagem entre dois continentes e várias turbas civilizacionais, enfim, o que lhe quiserem chamar, que a mim não me dá tempo para detalhes nem qualquer tipo de rigor histórico. Quando viajo escrevo com os olhos que levei, e esse é o registo que aqui me importa. Chego de noite, ainda a tempo de desentorpecer as pernas na zona central da cidade, numa noite quente à beira-mar e amaciando as agruras de uma tortuosa viagem com o travo gelado da cerveja local. A propósito, 8 euros, repito, 8 euros num balcão de bar de rua, ainda que na zona boémia da cidade. Cidade de grande azáfama universitária, está pejada de gente nova e com o cair da noite o ribombar daquela música incompreensível que se espraia pela babuja da cidade, como em qualquer outra cidade do sul, com o mesmo tempero climático e cheiro a verão. E assim vagueando. De esquina em esquina a mesma música, o mesmo tipo de pessoas, a mesma cultura… Nada disso! De esquina para esquina tudo mudava. Aqui os gregos ocidentalizados, de influências mais sulistas, essa coisas da poliponésia ou assim, aqueles que de atenas trazem a imagem da grécia europeizada ao resto do mundo e com eles o badum badum badum, das músicas que nos esvaziam os ouvidos nesse tipo de ambiente. Na esquina seguinte as shakiras, de saiotes rendilhados, os homens aturquesados, manga cava tatuada, verdadeiroos espécmes de ‘quaresmas’ a dominar, bamboleando em cima das mesas, ao som de uma música que para os meus pobres ouvidos poderia ser grega mas que jurarei seria algo diferente, ainda que com um distintivo balanço do levante oriental. Aqui a história dos cruzamentos civilizacionais, das famílias que foram ficando de outros tempos, lá em baixo daqueles outros que foram subindo, primeiro no arquipélago, primeiro ocupantes, depois provavelmente proclamados gregos de verdade. Há medida que vou caminhando esvaie-se o som da europa e entra em crescendo a batida turca, mais uns passos e vice-versa.

E fico a matutar, enquanto caminho em círculos, o que virá a ser esta cidade sem encanto, uma atenas do norte, um balcão partilhado num corredor de migrações, no dia do colapso social. E fico apenas a pensar no que se passará entre cada esquina, entre os bares da música badum badum e os bares das shakiras, e aqui a distender-me para o passsado recente, tão inverosivelmente perto de nós, lá pelas ex-terras da jugoslávia e do horror do que se passava de cada lado da mesma rua, entre famílias.

Oxalá, estes olhos de turista, estes fracos ouvidos para a música, se enganem. Oxalá a música, de bar para bar, seja afinal a mesma.

2. qual realidade?

Agora vou sendo conduzido até ao local da reunião, simpaticamente escolhido à beira-mar. O meu parceiro grego é de uma simpatia que só encontro em Portugal. A mulher, por cortesia acompanha-nos. A conversa, inevitavelmente, roça o (des)esperado. Do desfile da desgraça que me vai contando, sobre o desemprego, a baixa dos ordenados e das pensões, etc – ao longo do qual eu me arrisco a ir interrompendo apenas para fazer notar um “nós também, é só dividir por dois” – tudo é culpa dos alemães. Ele é professor universitário, os dois rapazes estudam em Inglaterrra e a outra filha, mais recentemente, está em Paris, diz-me a simpática senhora. E que por muito que lhe custe lá vai aconselhando que fiquem por lá, “nós também” vou acrescentando ” nós também”. E por fim, lançado num enorme suspiro, termina: “que posso eu fazer por eles? sou reformada, cortaram-me 30% da pensão!”

A lacrimosa senhora, uma simpáctica reformada de pensão cortada, tinha 57 anos. Cinquenta e sete anos. São uns malandros estes alemães.

3. qual europa?

Chegados finalmente ao destino. Uma língua de terra,  pejada de hoteis para turistas e casas de fim de semana para os mais afortunados de salónica,  tudo ainda semi-habitado nesta altura precoce do verão. O hotel, enorme, sobranceiro sobre a praia, não deixa de respirar aquela atmosfera de Inatel para reformados, mas está limpo de mofo, reconstruído e tem uma praia invejável, para quem ao fim de um dia de meeting aspire a experimentar uns mergulhos. Mas os hóspedes, há algo de estranho com estes hóspedes. Um olhar desumanizado, a falta de gentileza e uma linguagem gutural que mesmo para um leigo como eu dá para perceber que não é o grego. Ao jantar questiono-os, aos meus anfitriões gregos. Baixam o olhar enquanto respondem: “são russos”.

Dois dias depois, acabado o meeting, tempo para visitar a terreola mais próxima para um típico jantar do finar do dia nas sempre agradáveis varandas que se debruçam em  toalhas de quadrados vermelhos e brancos e pratos de azeitonas sobre o beira-mar mediterrânico. Mas ainda nem chegados, ou melhor, chegados à sua periferia, lojas, e lojas, e lojas. Normal numa zona turística de veraneio. Não fossem todas elas lojas de peles. A cada 10 metros uma placa dizia sempre o mesmo “Mexa”, ou algo assim – hieroglificamente não me é fácil ser rigoroso. Perguntei-lhes o que queria aquilo dizer ao que me responderam “creio que quer dizer peles”. “Como assim, não têm a certeza?”, eu na estranheza. E eles de novo desviando os olhos, “não, está em russo”.

Ocorreu-me que a primeira visita de estado do Tsipras, a qual aliás achei estranha na altura, tinha sido à Rússia, ao Sr. Putin. Agora já não a acho assim tão estranha, ainda que suspeite que a maior parte da europa, inocentemente, a continue a achar descabida.

 


dos dias d’antes, dos filhos e do cansaço

Os últimos dias têm-me engolido. Nada mais me atravessa que não esta enxurrada de trabalho. Nas frouxas folgas, sem saber o que delas fazer, entretenho-me a inventar mais trabalho. Aos dias que virão vejo-os como tijolos amontoados, todos iguais, e cada dia um mais empilhado, meticulosamente acimentado numa parede infinita cujo único propósito é tapar-me o mundo.  Assim ando eu.

Sei que passará. Hoje, antes de fechar, venho aqui. Deambular pelos textos que escrevi em momentos e estados de espírito tão distintos é a melhor forma que encontro para desmentir esta sensação inexorável de fundo da caverna. Dou com isto:

E ainda assim, disso já conscientes, na maior parte das vezes continuamos sem ser capazes de os olhar sem aquele orgulho mesquinho que anseia vê-los como uma espécie de versão aumentada e melhorada de nós. Pouco nos importa como lá chegam, importa que cheguem (como se fosse possível simplesmente ‘chegar’), e que cheguem bem, sem arranhões (como se estes não fizessem parte da narrativa da nossa pele). E assim, fazendo-nos destinos dos nossos filhos, lá teimamos em ignorar quão importante é eles poderem ir olhando para trás e verem o seu próprio trilho, e admirarem os sítios que traçaram e poderem disso, (aqui eles, não nós, importa insistir: eles, não nós, eles, sem nós, eles), orgulharem-se.

que fui buscar aqui. Hoje não o escreveria assim.

De qualquer forma, hoje nada teria para escrever.


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