nós, a chuva e as palavras

Mahon (Menorca)

Mahon (Menorca)

Cada vez mais achamos dispor do destino e inventamos dizeres para o reter dentro das fronteiras ‘tecnológicas’ da nossa compreensão. Com a ciência vamos descodificando ínfimas partes do universo e com isso acentuando a ilusória noção antropocêntrica. A visão coperniciana anda cada vez mais longe de nós, a ponto de pretendermos humanizar a própria indeterminabilidade e incomensurabilidade do destino, como se tudo tivesse causa em nós. E porque nada mais temos que possa descodificar o que nos transcende, alguns rezam, mas a maioria de nós inventamos palavras.

É verdade, muitas vezes as palavras invertem o seu propósito e, ao invés de servirem para os retratar, inventam significados que nos servem apenas para serem confortáveis e ilusórios. É o caso. Depois de uns saudados dias caniculares hoje não deveria estar a chover, mas está. Porque a inexpectável chuva acontece porque se trata de um fenómeno natural e a natureza não é algo que dominemos ou antecipemos nos seus humores, e por isso a inconcebível chuva ocorre apesar de a não querermos e acharmos que ela não deveria acontecer.

O inexpectável é o que nos habituamos a achar que não acontece e o inconcebível aquilo que julgamos não estar preparados para aceitar. Nenhuma destas palavras existe verdadeiramente. Nenhuma delas traduz um significado que não o de reduzirmos a um acontecimento perdido o que não dominamos – “ah aconteceu mas era de todo inexpectável e não deixa de ser inconcebível que tenha ocorrido”. Ambas servem para se negarem a si próprias e para convivermos com o que não dominamos. São palavras mentirosas. Nunca as teríamos de usar se as ocasiões em que nos vemos obrigados a aplicá-las não tivessem de facto ocorrido.

Enfim, palavras. Servem para acomodarmos a chuva quando não a esperamos nem queremos.

E no entanto, hoje, chove.


a aliança e a chave

Lamento, caro leitor, que tenha chegado até aqui, para nada.

Acontece que por vezes também uso isto como um bloco de notas para apontar ideias sobre as quais mais tarde quero escrevinhar. Antes disto dos blogs, (o que no meu caso remonta para trás de 2004),  já fazia isto nas costas dos talões de multibanco e nas embalagens de açúcar. Torna-se por isso muito mais legítimo, com a memória a distrair-se em cada esquina do tempo e a internet tão em cima de nós, que o faça agora aqui, neste registo de ajuda mnésica.

Fim do Post

A epifania de um tipo enrolado em papel azul que descobre que tem consigo apenas uma aliança e uma chave. O resto haverás de te lembrar Zé …


Filhos da mãe

O dia da mãe é sagrado e para não me chamarem herege antecipo-o com um texto para aqui encontrado. Não se dão flores murchas no dia da mãe. De plástico sim, que as há muitas. Ou um texto sem perfume, como este. 

“Em cada mulher há um regaço de que um homem abusa. Primeiro confundindo afectos com lanches e mochilas preparadas e camas feitas e essas pequenas coisinhas com que ainda miúdos nos vamos rodeando, disso habituando e a elas cercando. Depois, já em adultos, prosseguindo, abusando, aqui já pai dos nossos filhos, a entregar-lhe a ela aquilo que de outra recebemos antes. Não falo dos mimos, sejamos claros, falo daquilo que os homens, hipocritamente, continuam à espera que uma mãe e mais tarde, se possível, uma outra mulher, possa fazer por eles. Nada tem a ver com afectos, fertilidade ou sensibilidade. Falo desse ramerrame que nós homens fazemos por ignorar e desvalorizar, pais e filhos, para o qual as empurramos no teatro do dia-a-dia. Chamamos a nós outros papéis e chamamos a essa labuta de “amor de mãe”. A desfaçatez de uma palavra suave de vez em quando por troca de uma pequena tarefa doméstica.

Elas são as mulheres que amamos. Por isso os mais sensíveis trocam isso por flores e dão urras ao dia da mãe em troca de poesias bonitas. Parece-me bem. Não vejo mesmo o que melhor pode fazer um filho da mãe.”


ode da saudade

Estás longe, por onde andas?

Mas já foi, mas como foi se ainda sinto?

Ainda que o que sinto seja vago de ausência.

 

Nada dizes e se nada dizes com nada fico!

Ou estás ou não estás, ou és ou já não és!

Senão nada mais tenho, para além deste frio de espanto.

 

É um trecho de sonho que agora te traz?

Brincas fazendo copiar pequenos gestos nas mãos dos meus filhos?

É assim que me visitas, quando nada mais vejo que o estranho da dúvida?

 

Que mundo é este que me deixaste?

Uma terra estranha de ti, que ficou estrangeira para mim

Emigrado na saudade, a aprender a viver esta outra vida !

 

Mas onde as escondeste?

Às palavras, memórias, dias, lugares, desígnios …

Se de resto nada encontro, onde anda o nosso passado?

 

E eu onde passei a estar, será que estou?

O meu rosto nos teus olhos, sem eles, qual é o meu rosto?

Também fui contigo? Para onde me levaste se não te encontro?

 

Procurar-te é encontrar-te, sem o saber

Sei agora que a saudade é para isso, para não te encontrar

e para me trazer a continuar a procurar-te, dentro de mim.

 

Nesta mentira piedosa que me conto,  eu que fico

Mas que vazia e inócua seria esta, como a reviveria à vida

Se no que sigo não te trouxesse comigo?


um medronho no alpendre

O carro rola agora vagarosamente deixando um rasto de pó que, sob a luminosidade da lua cheia, brilha numa nuvem fosforescente.

Quinze minutos antes estavam respaldados sobre a melhor vista do mundo. O socalco da quinta em primeiro plano, a fazer de balcão para diante, na distância mais larga o quadriculado das salinas agora transformadas em viveiros, depois a ria, a dividir-se em dois, e por trás dela a barra a abrir garganta pelo mar adentro. Terra e água pinceladas com o prateado daquela noite de lua cheia e o silêncio dos coaxares, assobios, sibilos e outros sons entrelaçados que só ali, na noite algarvia, longe do ruído das luzes dos aglomerados turísticos, acontecem assim.

Agora, à medida que avançam pelo vale, ziguezagueando por entre as esquinas rectas que definem os viveiros, de capota rebaixada, vão levemente tomando a noção que, ainda que sem gravidade desmesurada, se encaminham para um pequeno acto criminoso. E vão sorrindo, os dois, ainda que nem precisem de olhar um para o outro para saberem que partilham do mesmo estado de espírito. A noite é morna, tão morna como a languidez com que seguem caminho.

Da varanda de onde partiram, a coberto da pérgula e tendo por diante a noite e o mar, a conversa foi escorrendo horas a fio, sem trajectória, apenas acontecendo, sem os acanhamentos que por vezes nos condicionam e nos levam a quebrar o seu acontecer com receio de contradições ou confissões desmesuradas. Quando dois homens se sentam ali, naquelas noites, há mais de 30 anos, já nada disso faz sentido. As palavras lançam-se, soltam-se e volteiam para voltarem a cair e com elas se brinca e com elas se sorri. Quando dois homens se conhecem assim as palavras não têm dono, alguém as lança e quando caem são dos dois. Nem sempre isso é assim, a vida não é assim, mas naquela varanda, do fundo daqueles anos todos, naquelas noites de verão algarvio, entre eles, as coisas são sempre assim.

O João reduzia agora a velocidade, recomendava-lhe o Zé, para que a nuvem de pó pousasse e a presença deles se tornasse menos conspícua. Lentamente iam olhando em redor à medida que o carro avançava pelos dois trilhos lavrados pelos rodados dos tractores. Desconfiavam ter encontrado a leste o destino daquela incursão. Calmamente trocavam impressões: se aqueles dois focos e a distância entre eles, do alto dos postes, poderiam ser o seu alvo, ou se estariam a confundi-los com outros mais adiante. E nisto paravam, olhavam para trás, a procurar a varanda lá longe, do morro de onde tinham partido, para lhe tirarem a trajectória, a direcção e a distância que acordavam não haveria de ser menos que uns 3km.

Não saberiam certamente precisar como aquilo tinha começado. Às tantas a conversa levou-os ali, enquanto reabasteciam os copos com o delicioso medronho que só a quinta de Monchique produz no mundo. Um casual trocar de palavras, como aliás sempre acontecia, acabou por dar mote a uma nova linha de conversação que, sem que o pretendessem ou disso se importassem, acabou por estimular o que pouco tempo depois haveria de ganhar o volume de uma enorme indignação. Era já noite muito avançada, tanto que já só os dois tinham sobrevivido despertos, quando por fim um deles proferiu em jeito de remate: “que filhos da mãe! para que eram precisos aqueles holofotes enormes ali? já nem a ria se consegue ver!”

Eram aqueles, só poderiam ser aqueles. O João seguiu por diante com o carro, procurando encontrar sítio para inverter a marcha do carro naquela estreita azinhaga, que por prudência seria de ficar apontado por donde tinham vindo. O Zé lançou-se a caminhar ao longo da cerca, procurando-lhe uma falha. Com algum custo, pois que em nada era ajudado pela óbvia tropeguidão, lá descortinou uma zona mais expugnável, por onde se fez desaparecer para o interior da propriedade. Sabia exactamente onde se dirigir, embora se recomendasse de cautela, que local tão iluminado poderia bem ser vigiado ou até mesmo ter cães de guarda. A casinhota das máquinas era de betão, mas a porta estava descuidadamente aberta. Na parede do fundo avistou a instalação, depois encontrou a caixa de contactos e daí seguiu o caminho dos cabos cuidadosamente. Não havia razão para estragar mais do que aquilo que a placidez da ria obrigava. Uma coisa era um acto de sabotagem outro era vandalismo que não assentava bem a quem era pai de filhos.

Quando se voltaram a aninhar no alpendre, as pernas estendidas sobre o murete, o céu começava a ficar com os matizes eléctricos que aproximam a madrugada. Encheram mais um pequeno copo de medronho, lançaram a vista em frente, esticaram-na para um e outro lado. As salinas, a ria e o mar estavam formidáveis e em redor nada os incomodava. A noite tinha voltado a estar desaprisionada.  Sorriram, tilintaram os cálices, beberam um último trago e foram deitar-se.

do alpendre

Todas as noites, a seguir ao jantar, é no alpendre que a numerosa família se entrega às noites lânguidas e luminosas que só o Algarve sabe trazer. No esvoaçar da conversa, os mais novos, filhos e sobrinhos, comentavam entre si a lisura da noite e a sorte de com tanto empreendimento à volta ter a vista pela frente salva de entulho, cimento e luzes, no que a avó assentia, que pois que era uma sorte, que a quinta quase parecia ser um santuário da família. Os dois sorriram, concordaram e cada um à sua vez se despediu para a deita que a noite anterior tinha sido longa.

Nota do Autor: Esta história é ficcionada; Já não há medronho como aquele, nem nunca existirá alpendre que assim se vire ao mundo. Além disso ainda se admite que dois amigos se possam compreender o suficiente para usarem de meias palavras mesmo que para arquitectarem maliciosos estratagemas, mas é evidente que com quase 50 anos e bem formados nunca se meteriam em vilanagens e a saltar cercas.


km72

Há homens onde o descanso que lhes seria devido faria neles crescer a angústia da quietação até um dia se tornar insuportável. Por isso, hoje sei-o, um dia morreu. Tenho tanta certeza disso que quase o ouço dizer nas conversas cigarreadas, lá por onde andar:  “Sei que um dia eles perceberão que era assim que teria de ser. Não foi cedo. Foi dando mais tempo para um dia perceberem que já não precisarão de mim.”


25 anos a apanhar bolas e ainda não sei jogar futebol

É idiota ainda me surpreender quando a ouço dizer nos momentos mais inesperados que vai arranjar as unhas. Se eu, em stress, saio porta fora para ir beber uma cerveja, nem que seja na tasca ao lado. porque não haverá quem possa nessas circunstâncias decidir arranjar as unhas.

Quando chegar vou convidá-la para uma cerveja … até porque a alternativa contrária não é muito apetecível.


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