dos dias d’antes, dos filhos e do cansaço

Os últimos dias têm-me engolido. Nada mais me atravessa que não esta enxurrada de trabalho. Nas frouxas folgas, sem saber o que delas fazer, entretenho-me a inventar mais trabalho. Aos dias que virão vejo-os como tijolos amontoados, todos iguais, e cada dia um mais empilhado, meticulosamente acimentado numa parede infinita cujo único propósito é tapar-me o mundo.  Assim ando eu.

Sei que passará. Hoje, antes de fechar, venho aqui. Deambular pelos textos que escrevi em momentos e estados de espírito tão distintos é a melhor forma que encontro para desmentir esta sensação inexorável de fundo da caverna. Dou com isto:

E ainda assim, disso já conscientes, na maior parte das vezes continuamos sem ser capazes de os olhar sem aquele orgulho mesquinho que anseia vê-los como uma espécie de versão aumentada e melhorada de nós. Pouco nos importa como lá chegam, importa que cheguem (como se fosse possível simplesmente ‘chegar’), e que cheguem bem, sem arranhões (como se estes não fizessem parte da narrativa da nossa pele). E assim, fazendo-nos destinos dos nossos filhos, lá teimamos em ignorar quão importante é eles poderem ir olhando para trás e verem o seu próprio trilho, e admirarem os sítios que traçaram e poderem disso, (aqui eles, não nós, importa insistir: eles, não nós, eles, sem nós, eles), orgulharem-se.

que fui buscar aqui. Hoje não o escreveria assim.

De qualquer forma, hoje nada teria para escrever.


do improviso da idade

Quando nós crescemos

As coisas novas surpreendem-nos menos

E algumas coisas velhas vão ficando esquecidas

Por isso nós gostamos cada vez mais das coisas que temos

Mas isso já tu sabes

 

Quando nós crescemos

As coisas crescem connosco

E cada dia passam a fazer mais parte de nós

Por isso os nossos amigos são cada vez mais os nossos amigos

Mas isso já tu sabes

 

Quando nós crescemos

Às vezes acordamos com nuvens

Depois sentimos que isso é porque estamos um pouco mais perto de algo

E isso torna-nos ainda mais orgulhosos do que já andámos até aqui

Mas isso já tu sabes

 

Quando nós crescemos

Somos mais descrentes e positivos, mais eufóricos e apáticos

E vamos vivendo num estado de maior alternação, copiando a vida

Mas isso porque sentimos que lidamos com mais do que já somos

Mas isso já tu sabes

 

Quando nós crescemos

Olhamos para o que fizemos e às vezes pensamos que não fizemos tudo

Então deitamos a cabeça no colo de alguém, a costurar o tempo

Não desistidos, mas sem que nada mais importe

Do que aquilo que tu já sabes


das palavras naufragadas

Quando brancos matavam pretos eram racistas, pois eram. Quando pretos matam pretos, são agora xenófobos. Há um século quando um barco naufragou com 1.500 membros da elite social foi uma catástrofe tão grande que ainda hoje é persistentemente recordada. Nos últimos 15 meses morreram nas águas do mediterrâneo 4.500 pessoas, aquilata-se agora. Depois far-se-ão umas cimeiras e deixará de haver o antes e o depois dessas famílias inteiras que continuarão a afogar-se silenciosamente nessa quimera de um futuro impossível.

Malditas palavras. Tirem-lhes a culatra.


do mar cadáver

by Fernando Paula

by Fernando Paula

A semana passada fui ao deserto. Fiz o programa todo, com camelos, acampamentos e dunas. Hei-de trazer para aqui algo sobre isso, para registo póstumo. Mas por agora, como mera declaração casual, apenas se me oferece registar o seguinte: O deserto poderia ser como o mar, não fosse tão fatalmente preguiçoso.

Consigo olhar para o mar e sentir-lhe o humor, mais forte que o meu até. A serenidade, a euforia, a raiva, a exaustão, a temeridade, tudo no mar, alternante, é como em nós, mas em maior. O deserto é, sei-o agora, o que mais lhe está próximo mas, sem latitude nos humores, é dele embuste. Enfada-me o deserto, não por causa da areia e da forma como vagaroso brinca com as cores, que esse é o seu encantamento, mas pelo pouco que faz com ela.

O deserto é o mar, em defunto. Não há naquele horizonte adornado de cores melosas e curvas boleadas imprevisibilidade bastante para que lhe possamos inventar um futuro. Encarar o mar é olhar por diante, para a inquietude de amanhã, navegar na incerteza e se formos corajosos trazê-la até nós. Mas a contemplação do deserto, quieta, calada, cálida, enganosamente açucarada, nada traz por diante. Não há carácter, apenas uma hipnótica valsa de tons e distância parada para nos esconder o que é óbvio: ali nada mais há que ausência, essas memórias pútridas – ainda que belas – do que já foi.

Se chamo o mar para me chamar a mim, ao deserto deverei escondê-lo, sei-o agora, para que não traga essa parte de mim, a fingir-me contemplativo, a fazer-me olhado nas entorpecidas curvas que desenha no horizonte, imóveis, qual veneno de fazer calar vontades e adormecer o que por direito humano devo aguardar me possa calhar amanhã. Às dunas, belas ao final da tarde, olho-as por cima do ombro, vagaroso, como quem corre cortinas. Às vagas, essa vontade de água irrequieta, justamente por não poder saber o que lhes quero e o que elas de mim querem, prefiro fitá-las de frente, do lado da vida.

Além disso, confesso, não gosto de Tajine.


do ir e parar

Saltitamos por todo o lado. Por todo o lado brotam viagens maravilhosas que documentamos raivosamente com fotos e links. É agora aqui, e esbracejamos, que já depois será ali, de um algures de onde arremessamos mensagens e acenos ruidosos aos familiares e amigos, como se não o poder dizer fosse quase não ter feito acontecer. Os nossos corpos giram à velocidade da luz, irrequietos, sôfregos, como se tivessem medo de parar, como se estar parado fosse cada vez mais um local tenebroso que não sabemos habitar. Um sítio onde não está mais ninguém para além de nós. Um local, por isso, indizível.

Saltitamos por todo o lado, mas cada vez viajamos menos.


da morte de um poeta

hoje morreu herberto helder

e mais 150 pessoas num avião despenhado nos alpes,

hoje morreu também o meu vizinho

e outros tantos milhões noutras ruas deste mundo.

o pesar pelo que nos é próximo é a mais aconchegante ilusão

que semeamos na tristeza,

para fazermos da morte coisa mais humana e ponderável,

sem esse seu angustiante fim infinito

que nunca saberemos conceber.


do dia do pai e do dia em que as palavras o transformaram num enorme ruído

Nunca o percebi. Instruí-me numa profissão técnica, não era suposto ter de escrever tanto. Mas faço-o e fi-lo sempre. Mas custa-me a perceber. Outros com funções idênticas às minhas não escrevem nem pela metade. Mas talvez perceba. Há anos que me acompanha esta sensação de que a palavra, quando grafada, torna as afirmações mais verdadeiras, as sensações mais intensas, as ilusões mais honestas, e faz-nos melhores e maiores aos olhos de quem nos lê. Ficamos mais bem-parecidos e o que dizemos parece valer mais. Escreve-se, escrevo eu tanto, por isso? Creio que sim. Mas há um mistério curioso na origem deste exercício. O que durante anos escrevi de forma pública tinha um leitor destinatário. Eu. Durante mais de 10 anos, que são esses os anos que levo pecando neste exercício, sempre achei que assim feito, lendo-me a mim mesmo no meio dos outros, me fazia parecer mais belo e até, por culpa de me repetir nesta insaciedade da autoleitura, tornar-me apto a transformar passados, retocando-os na medida em que porventura se me parecessem mais entusiasmantes.

Depois apareceram as redes sociais e particularmente o facebook – destas todas, a única que integro – e descubro que afinal, a escrita, o que nos conduz a ela, ou melhor, o que nos leva a publicar aquilo que achamos, essa necessidade de, dizendo aos outros, parecermos mais belos e verdadeiros, afinal é um elixir da humanidade em geral e não apenas de alguns. Isso induz algo de extraordinário. Creio que nunca antes tanta gente terá valorizado o exercício da escrita. Tenho a certeza de que isso nunca aconteceu antes. E é ao mesmo tempo algo inusitado. Numa época onde nunca se escreveu tão mal, num tempo onde a vida se vive tão aligeirada das coisas que nos dão trabalho, escrever é um acto que deveria ser descartado. Mas não, afinal é um arcaísmo que, contra a natureza dos tempos, não só sobreviveu como se tornou hábito corrente.

Como digo, há nisso algo de extraordinário e de belo. Mas tem também os seus revezes. A palavra assim democratizada, tão profusa, esgrimida em tantas direcções amontoadamente, começa a transformar-se num enorme e indiscernível ruído. Antes, neste exercício entre o onanismo e a exacerbação das minhas memórias, quando derramava aqui alguma coisa, havia uma película mágica entre mim e o mundo que me trazia a sensação de que todos me escutavam (e tinha uma boa audiência para ajudar) num acomodado silêncio. Mas hoje, o que sinto é exactamente o oposto, é que todos me querem reclamar para seu leitor, e nisso sem tempo para me lerem. Existe uma competição exasperada pela palavra, cada um lançando-as, mais ou menos cuidadamente, aos outros. E são tantos, somos tantos, competindo entre este papel de autor e leitor, que a maior parte dessas palavras acaba por nascer morta, sem alguém que alguma vez as venha a ler. Como tudo o que é excessivo, também hoje, as palavras escritas em alvoroço, dedilhadas por milhões e milhões de dedos, tornam-se um desperdício, algo que afinal nunca chega a acontecer. Já não se escreve com a cuidada vaidade e orgulho de se poder vir a ser apreciado por alguém que nos lê. Escreve-se porque isso nos traz essa ilusão, e isso nos basta.

Durante esta década em que fui cultivando deleitosamente a prática da escrita, terei vertido porventura vários textos sobre o meu pai, um homem que me marcou profundamente e que tantas vezes, (de forma tão silenciosa que só muito mais tarde eu o soube reconhecer), influenciou os meus padrões de vida. Mas isso foi antes de perceber – tal como hoje vou lendo por todo o lado – que afinal ele era tão importante quanto todos os outros. Então escrevia-o porque poderia criar a ilusão de que nenhum outro poderia provocar em alguém aquilo que eu sentia pelo meu. Por isso, depois, agora, deixei de ter vontade de o ‘escrever’ aqui. Porque a intimidade com que lhe dedico a saudade e eterna admiração não se presta a comparações. E é por isso que agora, ao meu, o abrigo no silêncio.

As memórias do que nos é grato podem festejar-se com palavras, desde que haja quem as leia. Sobretudo desde que nós próprios consigamos pausar o suficiente para, com tranquilidade, os podermos saudar na escrita que lhes dedicamos. Mas no mundo de hoje somos todos tão sedentos de emitir que já não há quem nos leia, nem nós mesmos. Os pais, os nossos pais, não se podem trazer a esta competição absurda das palavras, porque são nossos e incomparáveis. E porque nunca iremos ser capazes de conceber que o nosso partilhe o mesmo pedestal de palavras com os outros. Mas sobretudo porque as memórias que deles guardamos merecem muito mais do que serem transformadas à nascença em cadáveres de palavras, amontoadas sem nunca terem sido lidas no ruído catatónico da internet.


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