seguindo

Durante 4 meses partilhámos a mesma fatalidade, até o Renato morrer. Eu não. O seu diagnóstico foi cumprido, o meu foi ficar.


de noite todas as velas são monstros marinhos

A meio da noite três murros secos na carlinga do barco acordam-me sobressaltado. Tinha feito o turno anterior e apesar do balançar cavalgado do barco dormia um sono profundo. Subo ao poço, noite cerrada e vejo-os aos dois, equilibrando-se das sacudidelas, debruçados sobre um mar cavado e negro. As vagas, a emergência da situação e a agitação da tarefa num instante me livraram do resto do sono que ainda trazia. Braçada a braçada tentavam recolher pelo través de estibordo uma cobra enorme, esbranquiçada, mais longa ainda que o comprido do barco. Estava um vento ruidoso mas ainda assim ouvia-lhes os berros com que tentavam coordenar-se entre si de forma a dominarem aquela enorme criatura que teimava em se debater, esgueirando-se por entre as mãos. Juntei-me a eles, distanciámo-nos uns quatro passos entre nós de forma a cobrir quase todo o bordo do barco e, sincronizadamente, lá fomos levando de vencida aquela guerra com a monstruosa serpente.
                                .
Por fim havíamos vencido. O vento enregelado da noite, o mar que me encharcava e o esforço alvoroçado daquela violenta epopeia só no fim me haviam despertado completamente do sono e o meu discernimento permitiu-me então ver melhor o gigantesco troféu que houvéramos recolhido:   o velame, já sem vida, ainda escorrendo água do seu ventre, jazia ao longo de todo o bordo do barco. Tinha-se rasgado o punho do spi.
                                  .
Lá está este armado em Homero, já vos ouço gracejar … Pois experimentem ser raptados ao sono neste alvoroço da noite para retirar um balão de vinte metros arrastado no mar e embrulhado em toneladas d’água, e depois venham cá jurar que não andaram numa guerra com monstros marinhos.

Lado B

A poucos importará, mas importa ao que aqui escreve registar este pequeno detalhe.

Mudei o nome para ZeB. Ainda pensei em ZeII, mas pareceu-me afectadamente aristocrático.

E o Zé, versão B, tem um tom mais digital, vai melhor com o espumoso das coisas que hoje se escrevem e do efémero que saltita à frente da nossa linha de vida.

Por falar em versão B, vou ter de voltar a escrever tudo de novo.

Tudo!

 


cúpulas

Ao todo eram meia dúzia de crianças que estabeleciam pontes entre si de acordo com os motivos, os momentos, os seus traços de personalidade e a proximidade da idade, apesar de, como em todas as alcateias, existirem alianças naturais, mesmo que estas não fossem reconhecidas de modo cognoscente. Assim, os dias entrecruzavam-se-lhes com motivos de escola, de rua, de amigos, de jogos, enfim, daquilo que preenche as vidas das crianças.

O mais novo preenchia-os fazendo desenhos, desde que gatinhava. Essa disposição foi crescendo consigo e tornou-se uma óbvia inclinação vocacional que se acentuava com o passar dos dias e dos anos e que o mantinha dedicado às suas folhas de papel. Como todas as crianças precisava de estímulo e reconhecimento, procurando assim a paga do seu esforço e o encorajamento necessário à sua dedicação. Para isso era principalmente o segundo quem ele procurava.

Acercava-se dele com aquele ar inocente da idade, hasteando uma folha rabiscada na mão, sempre com a mesma pergunta: “gostas?”. O segundo habituara-se a isso. Lançava descontraidamente breves comentários, alguns elogios ou pequenas críticas, para logo voltar ao que o ocupava antes de ser interrompido. O “gostas?” tornou-se uma rotina entre os dois. Todos os dias o mais novo voltava, ele olhava os desenhos, cada vez mais evoluídos e lançava a sua opinião que, por mais lacónica que fosse, colhia sempre uma atenção grata da parte do mais novo.

Muitos dias e desenhos se foram passando, e tantos foram que o mais novo deixou de ser pequeno e entrou pela puberdade. Cresceu e a sua arte cresceu com ele, mas esses momentos mantinham-se entre eles. Todos os dias fazia um desenho novo, cada vez mais esmerado e dotado e quase todos os dias lhe mostrava um deles. Mas um dia, simplesmente, deixou de colher da parte do segundo qualquer tipo de atenção. Talvez se tivesse habituado a ver a “paga” do seu trabalho nas apreciações mais ou menos fundamentadas do segundo e por isso mantinha-se insistente, mas o segundo, tempestivamente, passara a ignorá-lo em absoluto.

Há datas que não são determináveis e por vezes é preciso olhar muitos anos para trás para podermos associar-lhes efectivamente um acontecimento. Um dia não é datável mas a determinação desse dia, mesmo que inlocalizável, é-o. E há imagens agregadas. O segundo lembra-se de fingir não ver as costas desmaiadas do mais novo quando deixava de receber dele o que se habituara e tentava lidar com a mágoa dele com uma indiferença disfarçada. E lembra-se que nada disto foi repentino, mas sim um processo lento e carnívoro, até que as investidas do mais novo se tornaram cada vez mais esparsas e incertas até perderem o hábito de procurar o irmão.

O mais novo, porque era mais novo e porque era dotado, provavelmente não se terá mais lembrado da dependência que nesse tempo longínquo o delimitava e condicionava. O segundo talvez tenha pensado na altura que um dia lhe fosse possível explicar isso, um dia, quando ambos percebessem melhor as palavras e os significados. O dia em que o dom do mais novo se tornou maior do que a sua capacidade crítica e onde teve a clara percepção de que esse era o dia em que o que dissesse teria de deixar de ser relevante para ele. Não percebia nada de arte, mas sabia de si sobre o acto de criar, esse espaço enorme, vazio, arrepiante às vezes, que nunca poderá ser ocupado por mais ninguém que não o seu criador e as suas interrogações sem resposta.

Algures, nesse tempo indeterminado, com um gesto bruto e calado, cada um passou a seguir o seu desígnio e cada um se tornou homem nele. Hoje, o mais novo desenha enormes cúpulas em céus amarelados. Criações lindas que vão muito para além da sensibilidade que levou o segundo a fazer-se engenheiro. Se o mais novo viesse hoje ter com ele, com esses estranhos desenhos de coisas viradas ao contrário, e lhe perguntasse: “gostas?”, provavelmente o segundo não saberia o que responder. Mas o mais novo nunca lhe perguntaria isso, porque há muitos anos que deixou de precisar de perguntas. Porque há muitos anos que se dedica a inventar respostas.

… e algumas saem-lhe lindas!


a culpa foi do árbitro

Assim que entrei na sala a professora interrogou-me de imediato – “ Mas o que lhe aconteceu?”.

Ser um aluno pouco acima da mediania, a português, numa turma da área científico-tecnológica, conferia-me algum destaque, mesmo que sem grande mérito, e a verdade é que sentia uma estima especial, que era, aliás, recíproca, da parte da professora. Um dia, numa conversa distraída de final de aula, constatámos que partilhávamos o mesmo interesse pelos clássicos. De vez a vez trocávamos umas palavras sobre o que estávamos a ler e quando um dia lhe referi que estava a devorar arrebatadamente os “trabalhadores do mar” do Victor Hugo – livro que aliás foi determinante na acentuação das minhas opções vocacionais – e que ela também elegia, conforme me confessou, como uma obra suprema, desde então passei a ocupar um papel especial naquele rol de alunos desmotivantes. Assim, não sendo um aluno de excelência em Português, ocupava um lugar de interesse especial para ela naquela turma distraída e pouco dada a letras o que, reconheço, inflacionava de alguma forma as minhas notas que em nada tinham correspondência com as classificações que retirava dos testes enfadonhos para os quais era reclamado o tecnicismo da língua portuguesa que nunca me entusiasmou.

Na véspera tinha tido um jogo decisivo de rugby, não menos que a final entre nós (CDUL) e a “Agronomia” no escalão de juniores. Acontece que o jogo tinha descambado e quando demos por nós estávamos os 30 jogadores das duas equipas envolvidos numa melée, mas sem bola. O jogo era determinante e tinha sido muito mal conduzido pelo árbitro o que tinha acicatado ainda mais o nosso destempero, e já se sabe que um turbilhão de jovens de 18 anos não é propriamente uma falange disciplinada do exército. Aliás, não era assim tão incomum este tipo de cortesias que se intrometiam no jogo, por breves instantes, que logo de seguida retomava a sua normalidade. Só que daquela vez estava muito em jogo e os espíritos estavam desgovernados por uma péssima arbitragem. Acontece que, não só o pobre do árbitro não se estava a sair bem, como ainda provou não perceber nada dos protocolos do seu exercício: regra número 1 – nunca se interpor em rixas dentro do campo, 2 – manter uma distância de observação enquanto as mesmas se desenrolam e 3 – no final actuar disciplinarmente e em conformidade com os acontecimentos. Acontece que o senhor, talvez por entender que deveria ter uma intervenção pedagógica, entendeu intrometer-se entre as duas moles de jogadores que naquela altura já estavam completamente ingovernáveis. Paf, paf, para aqui e para acolá, as cores dos equipamentos a misturarem-se e a camisola amarela do árbitro a desaparecer, num ápice, por entre o emaranhado de corpos. Depois de, a custo, ter sido apaziguada a quezília, constatou-se que o senhor que estava algures por baixo do amontoado de corpos, com uma camisola vagamente amarela, não apresentava condições físicas para poder continuar a arbitragem, recomendando-se até que fosse levado a curativos. O jogo ficou suspenso, ninguém ganhou e eu voltei com um lanho na testa  e um olho ligeiramente escurecido.

Foram esses evidentes sinais de atropelamento que levaram a professora, com a simpatia que já reconheci nutrir por mim, a interessar-se sobre a razão do meu estado de saúde. Não me recordo com exactidão em que moldes me expliquei, nem qual o detalhe com que o fiz. Creio que terei sido algo lacónico, mas não o suficiente para dispensar a referência à má actuação do árbitro como razão inicial de tudo o que depois se passou. Ainda hoje me lembro dos olhos esbugalhados com que ela recebeu a minha resposta e da dureza do tom ríspido com que, para minha surpresa, terá retorquido: “uma cambada de crianças malcriadas é o que é, e agora tenho o meu marido em casa a meter gelo no nariz” e, a acentuar, ainda mais furiosamente, “e queira Deus que não tenha de ser operado ao cepto nasal”.

Desconheço se ela teria estado presente a assistir ao jogo, se foi mera associação de casos, ou se efectivamente estávamos perante uma desastrosa e infeliz coincidência mas, obviamente, nunca mais voltámos a falar de Dostoievski ou Hemingway e a classificação final em Português acabou por não ser das que contribuiu decisivamente para a minha média de entrada na universidade.

De qualquer modo, a culpa foi do árbitro.


tic tac

Sento-me. Levanto-me. Vou à cozinha. Abro e fecho a porta do frigorífico. Abro-a de novo agora para olhar o interior. Fecho-a, não vinha à procura de fome. Visito a sala. Olho para o pátio. Conto os limões no chão. registo que ainda não comprei a vassoura.Passo para a outra sala. Ligo a televisão. Olho as imagens de alguém a falar. Passam carros ao fundo. Desligo-a. Fico indeciso onde pousar o comando. Faço-me indeciso. Passo pela outra sala. Ajeito o correio. Reviro um envelope fechado. Não tenho curiosidade em abrir. Agarro no telefone. Passo-lhe o dedo. Volto a passar para o trancar. Ajeito uma cadeira pelo caminho. Sento-me outra vez na mesa do computador. Abro o blog. Fecho-o. Volto a abrir. Escrevo isto. Nem olho. Olho o relógio. Passaram 5 minutos. Não tenho fome. Não tenho de fazer já o jantar. Não tenho nada para fazer. Não sei o que fazer. Não me apetece pensar o que possa fazer. Não faço nada.

Às vezes o tempo engole-nos, outras fica engasgado connosco.


a ver se me sinto melhor agora

Se eu apanho o filho da puta que anda há dois meses a gozar comigo e que ainda tem a cobardia de se esconder atrás da lua, juro que lhe vou aos fagotes!


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