(uma vida contada por episódios, um amigo por cada um)

CB, NL, FS, CF, JN, JP, estes são os símbolos químicos das partículas que depois de detonadas ficaram espalhadas pela minha vida fora. Olho para trás e vejo uma estrada cheia de buracos, de momentos interrompidos, de coisas que faltaram dizer e viver. Uns com a idade vão juntando aqui e ali alguns amigos. A mim, talvez porque fui privilegiado em encontrar-me com gente especial muito cedo, calhou-me ficar toda a vida a vê-los partir. A questão a que não consigo responder é porque  haveria eu de ir ficando por cá, assim minguado, com esta raiva de mim, a pontapear pedras da calçada como se fossem a minha cara.

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“Na morte de um homem quantos homens morrem?”

Marcelo Duarte Mathias

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amizades de conveniência

Ao João conheci-o por conveniência, há mais de 40 anos, a ele e ao Chico. Tinha 13 anos, estava apaixonado por uma miúda loura, era muito tímido e eles eram os seus irmãos mais novos. Enfim, eram a oportunidade de cruzar o seu horizonte.

Depois os anos passaram, a paixão juvenil também, mas eles não. Ao João mantive-o sempre por muito perto. Há pessoas que não se podem perder com risco de nos perdermos a nós também. Ao João habituei-me a prendê-lo com amarras de amizade.

Fiquei tão preso dele que foi ele quem fui buscar, talvez há uns 5 anos atrás, para me ajudar a não deixar partir essa mesma miúda loura por quem me tinha apaixonado em miúdo. João, tens de vir. E ficava lá fora, a vê-lo chegar a meio da madrugada, vestido à pressa e depois ao vulto dos dois na janela, a abraçarem-se. E ficava lá fora a vê-lo fazer de mim.

Ao longo da minha vida chamei-o muitas vezes. Chamei-o sempre que precisava fazer de mim e não sabia como o fazer. O João foi sempre uma amizade por conveniência.


porque raio haverias de me passar à frente na fila ?!

Hoje vou finalmente dizer-te umas coisas que tu precisas de ouvir Joni B.

Quantas vezes te disse que não podes ser assim, assim tanto, assim para tantos. Quantas vezes te disse que ninguém pode ser sempre assim, que ninguém é infinito, mesmo que tu o possas parecer. Mas tu nunca acreditaste nisso, pois não, que não podemos estar em todo o lado de cada vez que um de nós te chama, que isso cansa, e muitos e muitas vezes cansa demasiado.

Agora alguns de nós andamos a procurar conforto na religião, como se essa pudesse servir para explicar os desígnios que nós não conseguimos aceitar. Outros vasculhamos a justiça no mundo, como se o mundo com todo aquele mar que sempre nos aprisionou pudesse dar-nos mais respostas do que apenas ser belo. Mas a maior parte de nós remete para as explicações mais prosaicas e tentamos refugiar-nos na ciência para fingirmos compreender o que é ainda inverosímil, como se tudo isto se tivesse resumido a um incidente clínico.

Mas sabes, eu tenho quase a certeza que não foi nada disto. Não foi porque Deus quisesse ou andasse distraído, não foi pelo acaso implacável da nossa condição humana e muito menos foi por enfarte como nos querem fazer crer. Tu morreste pelo coração, sim, mas não morreste do coração. Eu não percebo como tanta gente não sabe ver a diferença nisso, mas sei que num serão bem esgalhado nós os dois seríamos capazes de convencer o mundo inteiro de que eu tenho razão. Ora ouve, que a minha ‘mecânica’ é como a tua ‘música clássica’, irrefutável. Aprendi tanto contigo a escutá-la para não mais a questionar que agora te peço que me escutes tu a mim.

Todas essas merdices extremamente importantes com que te procurava, tantas e tantas vezes, onde é que elas ficavam quando delas me aliviavas? Quando te deixava, às vezes já alvorada, julgas que não sei onde guardavas as coisas de que me tinhas desafogado? E julgas que não sei quantas vezes isso se repetia com tantos outros? Que peito aguenta um coração que precisa de ir sempre guardando bocados de pessoas? Até que tamanho pode um coração crescer dentro dele? Não, tu não morreste do coração, tu morreste pelo coração.

Tudo estaria bem e tu estarias cá se no fim tudo não se resumisse a uma membrana, uma fina película incapaz de suster o quanto tu tiveste de guardar dentro dela, por nós. E quantas vezes te disse isso, caramba. Mas não ligavas e sorrias com aquele jeito que desarma qualquer razão, na tua maneira especial de dizer “não inventes Boné”.

E agora puto, na parte de mim que ia ter contigo quando eu não sabia estar comigo, o que faço com isso? onde ouvirei agora o que não sou capaz de dizer a mim mesmo? em que abraço sereno, em que silêncio, me sentirei tão compreendido?

E agora João, quando precisar de ti, como faço?


há tanto a fazer sobre isto !

 


dos telexes, faxes e outras coisas mais modernas com que se faz a escrita

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Gostava de ter tempo, para ao tempo o transverter para escrita. Porque a escrita imobiliza o tempo, sacode-lhe a pressa, confunde-lhe o ritmo inexorável da vida. Escrever é não deixar que a vida avance muito depressa, porque repetir as nossas percepções do que já aconteceu é vivê-las duas vezes. É viver o dobro por cada linha que se dobra.

Falta o som seco do carreto empurrado no final da linha, assim, afirmativo, para tudo se reiniciar de novo na margem esquerda da linha de baixo, à procura de cada minuto que possa voltar a ser vivido. O tempo a fingir voltar, em cada compasso, onde ainda agora aconteceu.

Mas já não há máquinas de escrever. O barulho metálico dos carretos extinguiu-se. A dactilografia, essa coisa demorada e estrídula que desafiava o tempo, sem a alavanca do final de cada linha, emudeceu com a morte das coisas mecânicas. Resta-nos o toc-toc frenético e cobardemente rectificável dos teclados. O que se escreve para poder ser apagado e corrigido não tem alma nem intenção de imortalidade. Já não há tempo nem máquinas para escrever o tempo que inventa o tempo. O decalque da tinta impressa nas folhas brancas deixou de fazer barulho e poesia, e pior que isso, deixou de ser o resultado único e indelével do ímpeto do seu operador, fosse esse um jornalista, um poeta ou um simples redactor.

Já não há tempo para escrever o tempo. Há uma parte da escrita que se extinguiu com a mortandade da mecânica. O tempo deixou de poder ser grafado a tinta. Deixou de ser perene e irreversível. Deixou de valer o tempo que o tempo merece valer na escrita.


Há inevitavelmente uma altura em que, de súbito, aquilo que fomos e julgamos poder continuar a ser, deixa de fazer sentido. O que se sucede a seguir tem duas estradas possíveis. Deixar acontecer o que afinal não mais acontecerá, ou virar numa encruzilhada qualquer e ficar a pairar sobre um vale de incertezas. A primeira, a da acomodação, leva-nos ao mundo da dormência, onde não mais seremos surpreendidos, onde viveremos entre o não muito nem pouco e sobretudo onde nos tornaremos incapazes de nos entregar à saudável ilusão da esperança. A segunda obriga-nos a esquecer tudo o que fomos, a ficarmos subitamente estrangeiros na nossa vida, o que, convenhamos, obriga a uma tenacidade que já não é para todas as idades. É sempre muito difícil aceitar a mudança, sobretudo porque a mudança, ao contrário da que inventamos, nunca surge de nós, mas sim do que vem de fora, e de imprevisto. Mesmo com o farnel feito e enquanto julgamos que essa mudança foi algo que preparámos e estimulámos, ou que pelo menos suspeitámos, ela entra-nos estridente pela vida adentro sem pré-aviso. Porque ninguém, absolutamente ninguém, gosta e está preparado para mudar.

No momento em que a enfrentamos consideramos que a mudança é algo de bom, um processo controlado que nos estimula a ousadia e a vitalidade e nos alarga trajectórias de vida. E pensamos que é algo nosso, que nos vem de dentro. Mas a verdadeira mudança não é a que preparamos mas sim a que permitimos. E isso, na maior parte dos casos, é apenas um exercício de humildade que muito provavelmente tem a ver com a necessidade de libertar os outros de nós. A mudança deve ser quase sempre isso, o momento em que precisamos saber aceitar a necessidade de liberdade dos outros, tomando-a como nossa. Como um último acto de amor.

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