da morte de um poeta

hoje morreu herberto helder

e mais 150 pessoas num avião despenhado nos alpes,

hoje morreu também o meu vizinho

e outros tantos milhões noutras ruas deste mundo.

o pesar pelo que nos é próximo é a mais aconchegante ilusão

que semeamos na tristeza,

para fazermos da morte coisa mais humana e ponderável,

sem esse seu angustiante fim infinito

que nunca saberemos conceber.


do dia do pai e do dia em que as palavras o transformaram num enorme ruído

Nunca o percebi. Instruí-me numa profissão técnica, não era suposto ter de escrever tanto. Mas faço-o e fi-lo sempre. Mas custa-me a perceber. Outros com funções idênticas às minhas não escrevem nem pela metade. Mas talvez perceba. Há anos que me acompanha esta sensação de que a palavra, quando grafada, torna as afirmações mais verdadeiras, as sensações mais intensas, as ilusões mais honestas, e faz-nos melhores e maiores aos olhos de quem nos lê. Ficamos mais bem-parecidos e o que dizemos parece valer mais. Escreve-se, escrevo eu tanto, por isso? Creio que sim. Mas há um mistério curioso na origem deste exercício. O que durante anos escrevi de forma pública tinha um leitor destinatário. Eu. Durante mais de 10 anos, que são esses os anos que levo pecando neste exercício, sempre achei que assim feito, lendo-me a mim mesmo no meio dos outros, me fazia parecer mais belo e até, por culpa de me repetir nesta insaciedade da autoleitura, tornar-me apto a transformar passados, retocando-os na medida em que porventura se me parecessem mais entusiasmantes.

Depois apareceram as redes sociais e particularmente o facebook – destas todas, a única que integro – e descubro que afinal, a escrita, o que nos conduz a ela, ou melhor, o que nos leva a publicar aquilo que achamos, essa necessidade de, dizendo aos outros, parecermos mais belos e verdadeiros, afinal é um elixir da humanidade em geral e não apenas de alguns. Isso induz algo de extraordinário. Creio que nunca antes tanta gente terá valorizado o exercício da escrita. Tenho a certeza de que isso nunca aconteceu antes. E é ao mesmo tempo algo inusitado. Numa época onde nunca se escreveu tão mal, num tempo onde a vida se vive tão aligeirada das coisas que nos dão trabalho, escrever é um acto que deveria ser descartado. Mas não, afinal é um arcaísmo que, contra a natureza dos tempos, não só sobreviveu como se tornou hábito corrente.

Como digo, há nisso algo de extraordinário e de belo. Mas tem também os seus revezes. A palavra assim democratizada, tão profusa, esgrimida em tantas direcções amontoadamente, começa a transformar-se num enorme e indiscernível ruído. Antes, neste exercício entre o onanismo e a exacerbação das minhas memórias, quando derramava aqui alguma coisa, havia uma película mágica entre mim e o mundo que me trazia a sensação de que todos me escutavam (e tinha uma boa audiência para ajudar) num acomodado silêncio. Mas hoje, o que sinto é exactamente o oposto, é que todos me querem reclamar para seu leitor, e nisso sem tempo para me lerem. Existe uma competição exasperada pela palavra, cada um lançando-as, mais ou menos cuidadamente, aos outros. E são tantos, somos tantos, competindo entre este papel de autor e leitor, que a maior parte dessas palavras acaba por nascer morta, sem alguém que alguma vez as venha a ler. Como tudo o que é excessivo, também hoje, as palavras escritas em alvoroço, dedilhadas por milhões e milhões de dedos, tornam-se um desperdício, algo que afinal nunca chega a acontecer. Já não se escreve com a cuidada vaidade e orgulho de se poder vir a ser apreciado por alguém que nos lê. Escreve-se porque isso nos traz essa ilusão, e isso nos basta.

Durante esta década em que fui cultivando deleitosamente a prática da escrita, terei vertido porventura vários textos sobre o meu pai, um homem que me marcou profundamente e que tantas vezes, (de forma tão silenciosa que só muito mais tarde eu o soube reconhecer), influenciou os meus padrões de vida. Mas isso foi antes de perceber – tal como hoje vou lendo por todo o lado – que afinal ele era tão importante quanto todos os outros. Então escrevia-o porque poderia criar a ilusão de que nenhum outro poderia provocar em alguém aquilo que eu sentia pelo meu. Por isso, depois, agora, deixei de ter vontade de o ‘escrever’ aqui. Porque a intimidade com que lhe dedico a saudade e eterna admiração não se presta a comparações. E é por isso que agora, ao meu, o abrigo no silêncio.

As memórias do que nos é grato podem festejar-se com palavras, desde que haja quem as leia. Sobretudo desde que nós próprios consigamos pausar o suficiente para, com tranquilidade, os podermos saudar na escrita que lhes dedicamos. Mas no mundo de hoje somos todos tão sedentos de emitir que já não há quem nos leia, nem nós mesmos. Os pais, os nossos pais, não se podem trazer a esta competição absurda das palavras, porque são nossos e incomparáveis. E porque nunca iremos ser capazes de conceber que o nosso partilhe o mesmo pedestal de palavras com os outros. Mas sobretudo porque as memórias que deles guardamos merecem muito mais do que serem transformadas à nascença em cadáveres de palavras, amontoadas sem nunca terem sido lidas no ruído catatónico da internet.


Os rios contados devagar por esta criança aos adultos

rioGosto também muito dos rios. São eles que enchem os mares com as histórias que trazem da terra. E os rios são todos diferentes, e todos os rios são diferentes em cada curva. Os rios não têm pais nem mães e por isso não sabem que se devem comportar sempre da mesma maneira. Eu gosto das coisas que nunca são iguais e que não têm vergonha de assim o ser. Os rios também são um bocadinho comilões e no inverno engordam muito, e nós ficamos a julgar que eles são patetas mas se calhar é porque no verão, como está calor, não podem comer tanto. Os rios mais bonitos são os azuis, mas isso é porque estão estragados. Se não estivessem estragados traziam com eles a terra e restos de plantas e sementes e levavam tudo isso para os peixes no mar poderem comer de manhã quando acordassem e tivessem fome, e por isso deviam ser verdes. As pessoas que julgam que os rios sujos estão estragados não sabem que os rios são quem leva a comida aos animais que vivem no mar, e se calhar até acham que os animais também deviam ser todos da mesma cor e todos bonitos. Os rios são muito importantes também porque fazem umas grandes barrigas e os homens podem tirar de beber das suas margens, mas às vezes não gostam que lhes impeçam caminho. Outras vezes dançam de alegria com a chuva que os molha (os rios gostam muito de chuva, ficam mais mexidos quando a sentem e até parecem maiores, porque a alegria faz os rios parecerem maiores, como as pessoas) e então os homens fazem muros e prendem-nos em poças muito grandes por onde eles não podem passar. E quando os rios lá chegam vão perdendo as forças e desistem e depois ficam ali à espera e vão ficando, e ficando, até que alguém deixe passar um bocadinho deles – qualquer bocadinho já é bom, mas qualquer ribeirinho não é o rio é apenas a sua vontade presa de ser rio. Os rios vivem da liberdade de se desenharem pela terra fora fazendo de cada curva um acaso, e por isso os rios não gostam dos homens. Não é de todos, mas de quase todos, daqueles que não sabem olhar para eles. Os homens que prendem os rios não fazem ideia do que é ser rio, nem fazem ideia do que é ser homem e nunca experimentaram a liberdade de serem apenas o que quiserem ser, assim, como os rios.


de uma tela branca …

Em todos nós corre uma torrente artística. Na maioria das vezes um avisado pudor acaba por a conter da vista dos outros. Noutros casos, mais desafortunados, basta um pequeno clique para esbanjar essa deriva da criatividade em acidentes bem mais reprováveis. Normalmente isso ocorre com a idade. Os idos dos anos levam-nos a querer fruir do que não serve absolutamente para nada e, estranhamente, é daí que recolhemos o prazer. Admitamos que um qualquer indivíduo um dia se dispunha a pintar, não porque fosse dotado ou porque alguma vez pendesse para a realização artística, nem tão pouco porque já o tivesse previamente experimentado, mas apenas porque sim. O que normalmente o impedirá é a falta de balanço. Nada em seu redor estimularia a que esse excêntrico desejo passasse disso. Mas admitamos que subitamente acorda e vê na sua frente um tripé, uma tela em branco e uma caixa de óleos. E dia após dia, no acordar, a mesma imagem, sem nada já que o trave a desafiar razões, nem argumentos para deixar de as ter. Pois é …

2009
… um destes dias terá de ser.


desta janela (de 2014) por onde olho

As pessoas vivem cada vez mais à janela. Só assim compreendo que este ritual a que nos entregamos no balanço do ano assuma tão veementes tonalidades trágicas, e para isso quase sempre aludindo ao que os outros nos infligiram, ao que eles são, ao que disso resultou em perdas no nosso bem-estar e exaltados e indignados nos ocupamos a fazer-nos ouvir sobre o tanto mal que nos aconteceu. Quase nunca uma palavra sobre nós, um registo do que tenhamos sentido, do que tenhamos feito acontecer, e em tantos dias de balanço nem uma palavra sobre esse outro lado da vida que nos vive por dentro.

Se um dia lá para diante nos pudesse revisitar diria que este teria sido um ano sem espaço para o surpreendente, sem magia, sem ambição, sem sementes para amanhã, um ano de sobrevivência apenas, um ano de desalento e desencanto, onde nos prestámos apenas para vítimas do mal dos outros. E de tão presos a este penar da pele, envoltos neste negrume que nos rodeou, não nos sobra nada da alma, que de tão fatigada de lamentações, já sem fulgor para nos reconstruir, com pouco fica para tomar para si: esquecem-se os momentos especiais com os nossos filhos, omite-se o íntimo com os nossos amigos, ignora-se o alegre com a nossa família, nem um extraordinário gesto de um colega ou mesmo de um desconhecido sabemos guardar e nada, absolutamente nada, nos espantou e interrogou, nada de novo ou digno de ser registado neste acervo do que fomos em 2014.

Se um dia nos revisitássemos neste ano que há-de ser longínquo pouco mais encontraríamos que uma turba de almas penadas, mas sem alma, e já só mesmo penadas. Que de pena se encheu o ano, pena de nós, pena dos outros, pena do que os outros nos fizeram a nós, pena que tudo não pudesse ter sido diferente. Olho em meu redor e apenas sinto frio e amargura, incómodo e desespero, raiva e reclamação. Consentiria até nisso, que todos nós, os desta alma lusitana, temos isso de poetas, o de nos cozinharmos em sentimentos tristes e nostálgicos. Consentiria isso também, pois não posso ignorar a degradação das condições económicas que tanto importam. Mas foi só a carne que nos trouxe até aqui, este pobre corpo que se envelheceu por mais um ano, de mais nada nos fizemos acompanhar?

E foi só nos outros que entregámos os nossos desígnios, nada mais construímos sobre os nossos pés, a nós não entregámos nenhum papel, em nenhum lugar de nós que vasculhemos encontraremos uma partícula, um acontecimento imprevisto num minuto breve que seja, que nos deixe moderadamente felizes ou orgulhosos? Não que ‘estar bem’ não seja uma condição capital para nos ‘sentirmos bem’, mas confesso que me preocupa quando isso, essa acepção exclusivamente física da felicidade, se torna o fundamento do nosso (des)contentamento ou, no mínimo, daquilo que não sabemos descrever mas que nos deveria servir para os balanços da vida.

Este ano, também olhando para mim, fez-me perceber que as pessoas vivem cada vez mais à janela, como se fosse do lado de fora que pudessem encontrar o que fez falta à sua vida.


do que comigo caminha

Ontem fez 16 anos que fiquei orfão. Ao contrário do que os mais novos possam pensar a orfandade não é algo que se aligeire mais, quando a sentimos mais velhos. É uma ferida que se abre com o mesmo tamanho na carne para não mais se fechar, um bocado de nós que fica sem ter onde viver, um lugar onde já não podemos acorrer quando nada mais nos serve. Porventura o que poderá ainda acentuar alguma diferença nisso é quando a dimensão do homem por trás daquele que nos foi pai ainda acrescenta mais ao que nos falta. A minha orfandade é imensa, escavada e será sempre eternamente súbita, mas nunca a trocaria por outra que a atenuasse mais.

(extraído do facebook, esse mural efémero, tão impróprio para a grafitagem dos sentires eternos)


da mulher desnuda com a criança atrás

Sobre o conteúdo deste artigo no ‘Observador’,  – se calhar porque tenho uma embirração especial com a sua autora o que me torna incapaz de conter a subjectividade que daí derramaria – ainda que possa concordar com uma parte do que refere, pese embora todo o seu argumentário me pareça um artificialismo para conduzir a conclusões que nada colam com o que elabora antes,  não me vou pronunciar – enfim, afinal, ainda que brevemente, não resisti a uma pequena alfinetada.

Já o tema em si sempre me encanitou, como me irritam a maioria dos combates em prol do politicamente correcto (e escrevo ‘combates’ sem aspas, pois a atitude a que me refiro é normalmente um estado de guerrilha social que é na generalidade das situações absolutamente gratuito).  Começam por pequenos estertores mas que rapidamente formam um ruído desemesurado, onde já não se ‘escuta’, fazendo mola na condição idiota de simplesmente combater convenções, tão pouco matutando sobre o significado das mesmas e raramente levantando qualquer tipo de interrogação a partir de um plano isento. É a teoria da reengenharia total. E se isso de ‘recomeçar com uma folha em branco’, que em alguns casos empresariais pode significar um último esforço para uma desesperada sobrevivência, num contexto sócio-cultural, fazendo tábua rasa de todos e quaisquer códigos sociais, da arte da boa convivência e do respeito pelos outros, e até de alguns preceitos de ética e etiqueta, sem sequer os interpretar, é pura selvajaria.

Vem isto a propósito da amamentação em público. É evidente que, aqui chegado, já pouco precisarei de dizer mais, é assim mesmo: há uns que já se abespinharam e que estão prontinhos para me chamar retrógrado ou outra qualquer coisa menos comedida e outros que correm mais aceleradamente para clicarem ali em baixo a dizer que gostam. É este o mal destes temas, a meio do que quer que estejamos a ler já nos afogámos nos nossos próprios preconceitos, até na forma como corremos a mostrar que os não temos.

Mas voltando à questão e do que dela retive: segundo o que alude o artigo há um local privado que pede polidamente a uma mãe que esconda da vista dos outros clientes a imagem das sua mamas enquanto amamenta a sua criança, por isso constituir um desvio ao código de conduta ali aplicável. E pronto, está tudo estragado, saltarão certamente a terreiro aqueles que encarniçadamente alegam que não conseguem perceber como é que há locais onde até a forma mais cândida e natural deste mundo, essa imagem de uma mãe a amamentar o seu filho, querem esconder da vista. Eu pessoalmente também acho lamentável … que tal conduta de comportamento só se aplique em locais privados; deveria ser extensiva a todos os locais públicos.

Como não pretendo fazer moral sobre o assunto apenas declaro que, da minha parte até se poderiam aplicar os velhos costumes cretenses. Não tenho nada contra a visão de mulheres desnudas e só não manifesto que me parece algo que pode pender (desde que não penda demasiado) para uma moda até com razoável encanto e sensualidade, porque arrisco ser acusado de lascivo. Repito, eu, pessoalmente, não me manifestaria contrário à moda dos seios livres, embora admita que isso pudesse trazer alguns momentos mais constrangedores num autocarro à pinha.

O que não percebo é porque é que uma criança, na sua necessidade de amamentação, legitima um costume que em condições normais é tido por censurável ou desajustado. E quase apostaria que os mesmos que manifestam a sua discordância sobre a atitude do hotel que solicitou à senhora que resguardasse da vista dos clientes os seus seios, serão os mesmos que agitariam as suas bandeiras contra essa imagem sexista e exploradora da imagem objecto da mulher, que andaria por aí a céu aberto oscilando os seus seios para gáudio de homens perversos.

Temos portanto que o mesmo comportamento tem censuras opostas conforme a mulher tenha ou não uma criança amamentando-se nos seus mamilos, a ponto de a hipótese de pousar um lenço, resguardando esse momento tão especial entre a mãe e a criança, contendo-o assim de ser exibido a outros que nem amigos ou familiares o são, se torna uma profunda ofensa aos valores mais sagrados da maternidade e da mulher. Há tanto aqui que não consigo compreender que nem me sinto apto a explicar melhor porquê.

Mas já sei, eu é que sou o preconceituoso.

Nota de Rodapé: Sou pai de dois filhos e por isso fui espectador privilegiado, (digo bem, espectador), daquela relação quase mágica que se estabelece na maternidade. Costumo dizer em brincadeira que eu só fui pai 6 meses depois da mãe dos meus filhos, tão forte e cúmplice era essa relação que se prolongava com naturalidade da fase embrionária onde os dois se entrelaçavam da forma tão íntima que nunca encontrarei palavras para a descrever. Desses momentos guardo com magia e enternecido a amamentação, um espaço de tranquilidade e comunicação silenciosa que se (r)estabelecia entre os dois, onde eu me remetia para a minha condição de observador privilegiado. Nunca senti que em nenhum de nós os três houvesse essa absoluta necessidade de dessacralizar aquele instante e mantenho a convicção de que o recato do mesmo, se a amamentação tivesse de ter lugar em local público, não seria afectado por um cobrir da fralda ou lenço, antes pelo contrário. A menos que o quisessemos mostrar ao mundo inteiro, mas isso nada tem a ver com os costumes e a perda de liberdade de que aqui me apeteceu falar.


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