cúpulas

Ao todo eram meia dúzia de crianças que estabeleciam pontes entre si de acordo com os motivos, os momentos, os seus traços de personalidade e a proximidade da idade, apesar de, como em todas as alcateias, existirem alianças naturais, mesmo que estas não fossem reconhecidas de modo cognoscente. Assim, os dias entrecruzavam-se-lhes com motivos de escola, de rua, de amigos, de jogos, enfim, daquilo que preenche as vidas das crianças.

O mais novo preenchia-os fazendo desenhos, desde que gatinhava. Essa disposição foi crescendo consigo e tornou-se uma óbvia inclinação vocacional que se acentuava com o passar dos dias e dos anos e que o mantinha dedicado às suas folhas de papel. Como todas as crianças precisava de estímulo e reconhecimento, procurando assim a paga do seu esforço e o encorajamento necessário à sua dedicação. Para isso era principalmente o segundo quem ele procurava.

Acercava-se dele com aquele ar inocente da idade, hasteando uma folha rabiscada na mão, sempre com a mesma pergunta: “gostas?”. O segundo habituara-se a isso. Lançava descontraidamente breves comentários, alguns elogios ou pequenas críticas, para logo voltar ao que o ocupava antes de ser interrompido. O “gostas?” tornou-se uma rotina entre os dois. Todos os dias o mais novo voltava, ele olhava os desenhos, cada vez mais evoluídos e lançava a sua opinião que, por mais lacónica que fosse, colhia sempre uma atenção grata da parte do mais novo.

Muitos dias e desenhos se foram passando, e tantos foram que o mais novo deixou de ser pequeno e entrou pela puberdade. Cresceu e a sua arte cresceu com ele, mas esses momentos mantinham-se entre eles. Todos os dias fazia um desenho novo, cada vez mais esmerado e dotado e quase todos os dias lhe mostrava um deles. Mas um dia, simplesmente, deixou de colher da parte do segundo qualquer tipo de atenção. Talvez se tivesse habituado a ver a “paga” do seu trabalho nas apreciações mais ou menos fundamentadas do segundo e por isso mantinha-se insistente, mas o segundo, tempestivamente, passara a ignorá-lo em absoluto.

Há datas que não são determináveis e por vezes é preciso olhar muitos anos para trás para podermos associar-lhes efectivamente um acontecimento. Um dia não é datável mas a determinação desse dia, mesmo que inlocalizável, é-o. E há imagens agregadas. O segundo lembra-se de fingir não ver as costas desmaiadas do mais novo quando deixava de receber dele o que se habituara e tentava lidar com a mágoa dele com uma indiferença disfarçada. E lembra-se que nada disto foi repentino, mas sim um processo lento e carnívoro, até que as investidas do mais novo se tornaram cada vez mais esparsas e incertas até perderem o hábito de procurar o irmão.

O mais novo, porque era mais novo e porque era dotado, provavelmente não se terá mais lembrado da dependência que nesse tempo longínquo o delimitava e condicionava. O segundo talvez tenha pensado na altura que um dia lhe fosse possível explicar isso, um dia, quando ambos percebessem melhor as palavras e os significados. O dia em que o dom do mais novo se tornou maior do que a sua capacidade crítica e onde teve a clara percepção de que esse era o dia em que o que dissesse teria de deixar de ser relevante para ele. Não percebia nada de arte, mas sabia de si sobre o acto de criar, esse espaço enorme, vazio, arrepiante às vezes, que nunca poderá ser ocupado por mais ninguém que não o seu criador e as suas interrogações sem resposta.

Algures, nesse tempo indeterminado, com um gesto bruto e calado, cada um passou a seguir o seu desígnio e cada um se tornou homem nele. Hoje, o mais novo desenha enormes cúpulas em céus amarelados. Criações lindas que vão muito para além da sensibilidade que levou o segundo a fazer-se engenheiro. Se o mais novo viesse hoje ter com ele, com esses estranhos desenhos de coisas viradas ao contrário, e lhe perguntasse: “gostas?”, provavelmente o segundo não saberia o que responder. Mas o mais novo nunca lhe perguntaria isso, porque há muitos anos que deixou de precisar de perguntas. Porque há muitos anos que se dedica a inventar respostas.

… e algumas saem-lhe lindas!


a culpa foi do árbitro

Assim que entrei na sala a professora interrogou-me de imediato – “ Mas o que lhe aconteceu?”.

Ser um aluno pouco acima da mediania, a português, numa turma da área científico-tecnológica, conferia-me algum destaque, mesmo que sem grande mérito, e a verdade é que sentia uma estima especial, que era, aliás, recíproca, da parte da professora. Um dia, numa conversa distraída de final de aula, constatámos que partilhávamos o mesmo interesse pelos clássicos. De vez a vez trocávamos umas palavras sobre o que estávamos a ler e quando um dia lhe referi que estava a devorar arrebatadamente os “trabalhadores do mar” do Victor Hugo – livro que aliás foi determinante na acentuação das minhas opções vocacionais – e que ela também elegia, conforme me confessou, como uma obra suprema, desde então passei a ocupar um papel especial naquele rol de alunos desmotivantes. Assim, não sendo um aluno de excelência em Português, ocupava um lugar de interesse especial para ela naquela turma distraída e pouco dada a letras o que, reconheço, inflacionava de alguma forma as minhas notas que em nada tinham correspondência com as classificações que retirava dos testes enfadonhos para os quais era reclamado o tecnicismo da língua portuguesa que nunca me entusiasmou.

Na véspera tinha tido um jogo decisivo de rugby, não menos que a final entre nós (CDUL) e a “Agronomia” no escalão de juniores. Acontece que o jogo tinha descambado e quando demos por nós estávamos os 30 jogadores das duas equipas envolvidos numa melée, mas sem bola. O jogo era determinante e tinha sido muito mal conduzido pelo árbitro o que tinha acicatado ainda mais o nosso destempero, e já se sabe que um turbilhão de jovens de 18 anos não é propriamente uma falange disciplinada do exército. Aliás, não era assim tão incomum este tipo de cortesias que se intrometiam no jogo, por breves instantes, que logo de seguida retomava a sua normalidade. Só que daquela vez estava muito em jogo e os espíritos estavam desgovernados por uma péssima arbitragem. Acontece que, não só o pobre do árbitro não se estava a sair bem, como ainda provou não perceber nada dos protocolos do seu exercício: regra número 1 – nunca se interpor em rixas dentro do campo, 2 – manter uma distância de observação enquanto as mesmas se desenrolam e 3 – no final actuar disciplinarmente e em conformidade com os acontecimentos. Acontece que o senhor, talvez por entender que deveria ter uma intervenção pedagógica, entendeu intrometer-se entre as duas moles de jogadores que naquela altura já estavam completamente ingovernáveis. Paf, paf, para aqui e para acolá, as cores dos equipamentos a misturarem-se e a camisola amarela do árbitro a desaparecer, num ápice, por entre o emaranhado de corpos. Depois de, a custo, ter sido apaziguada a quezília, constatou-se que o senhor que estava algures por baixo do amontoado de corpos, com uma camisola vagamente amarela, não apresentava condições físicas para poder continuar a arbitragem, recomendando-se até que fosse levado a curativos. O jogo ficou suspenso, ninguém ganhou e eu voltei com um lanho na testa  e um olho ligeiramente escurecido.

Foram esses evidentes sinais de atropelamento que levaram a professora, com a simpatia que já reconheci nutrir por mim, a interessar-se sobre a razão do meu estado de saúde. Não me recordo com exactidão em que moldes me expliquei, nem qual o detalhe com que o fiz. Creio que terei sido algo lacónico, mas não o suficiente para dispensar a referência à má actuação do árbitro como razão inicial de tudo o que depois se passou. Ainda hoje me lembro dos olhos esbugalhados com que ela recebeu a minha resposta e da dureza do tom ríspido com que, para minha surpresa, terá retorquido: “uma cambada de crianças malcriadas é o que é, e agora tenho o meu marido em casa a meter gelo no nariz” e, a acentuar, ainda mais furiosamente, “e queira Deus que não tenha de ser operado ao cepto nasal”.

Desconheço se ela teria estado presente a assistir ao jogo, se foi mera associação de casos, ou se efectivamente estávamos perante uma desastrosa e infeliz coincidência mas, obviamente, nunca mais voltámos a falar de Dostoievski ou Hemingway e a classificação final em Português acabou por não ser das que contribuiu decisivamente para a minha média de entrada na universidade.

De qualquer modo, a culpa foi do árbitro.


tic tac

Sento-me. Levanto-me. Vou à cozinha. Abro e fecho a porta do frigorífico. Abro-a de novo agora para olhar o interior. Fecho-a, não vinha à procura de fome. Visito a sala. Olho para o pátio. Conto os limões no chão. registo que ainda não comprei a vassoura.Passo para a outra sala. Ligo a televisão. Olho as imagens de alguém a falar. Passam carros ao fundo. Desligo-a. Fico indeciso onde pousar o comando. Faço-me indeciso. Passo pela outra sala. Ajeito o correio. Reviro um envelope fechado. Não tenho curiosidade em abrir. Agarro no telefone. Passo-lhe o dedo. Volto a passar para o trancar. Ajeito uma cadeira pelo caminho. Sento-me outra vez na mesa do computador. Abro o blog. Fecho-o. Volto a abrir. Escrevo isto. Nem olho. Olho o relógio. Passaram 5 minutos. Não tenho fome. Não tenho de fazer já o jantar. Não tenho nada para fazer. Não sei o que fazer. Não me apetece pensar o que possa fazer. Não faço nada.

Às vezes o tempo engole-nos, outras fica engasgado connosco.


a ver se me sinto melhor agora

Se eu apanho o filho da puta que anda há dois meses a gozar comigo e que ainda tem a cobardia de se esconder atrás da lua, juro que lhe vou aos fagotes!


nós, a chuva e as palavras

Mahon (Menorca)

Mahon (Menorca)

Cada vez mais achamos dispor do destino e inventamos dizeres para o reter dentro das fronteiras ‘tecnológicas’ da nossa compreensão. Com a ciência vamos descodificando ínfimas partes do universo e com isso acentuando a ilusória noção antropocêntrica. A visão coperniciana anda cada vez mais longe de nós, a ponto de pretendermos humanizar a própria indeterminabilidade e incomensurabilidade do destino, como se tudo tivesse causa em nós. E porque nada mais temos que possa descodificar o que nos transcende, alguns rezam, mas a maioria de nós inventamos palavras.

É verdade, muitas vezes as palavras invertem o seu propósito e, ao invés de servirem para os retratar, inventam significados que nos servem apenas para serem confortáveis e ilusórios. É o caso. Depois de uns saudados dias caniculares hoje não deveria estar a chover, mas está. Porque a inexpectável chuva acontece porque se trata de um fenómeno natural e a natureza não é algo que dominemos ou antecipemos nos seus humores, e por isso a inconcebível chuva ocorre apesar de a não querermos e acharmos que ela não deveria acontecer.

O inexpectável é o que nos habituamos a achar que não acontece e o inconcebível aquilo que julgamos não estar preparados para aceitar. Nenhuma destas palavras existe verdadeiramente. Nenhuma delas traduz um significado que não o de reduzirmos a um acontecimento perdido o que não dominamos – “ah aconteceu mas era de todo inexpectável e não deixa de ser inconcebível que tenha ocorrido”. Ambas servem para se negarem a si próprias e para convivermos com o que não dominamos. São palavras mentirosas. Nunca as teríamos de usar se as ocasiões em que nos vemos obrigados a aplicá-las não tivessem de facto ocorrido.

Enfim, palavras. Servem para acomodarmos a chuva quando não a esperamos nem queremos.

E no entanto, hoje, chove.


a aliança e a chave

Lamento, caro leitor, que tenha chegado até aqui, para nada.

Acontece que por vezes também uso isto como um bloco de notas para apontar ideias sobre as quais mais tarde quero escrevinhar. Antes disto dos blogs, (o que no meu caso remonta para trás de 2004),  já fazia isto nas costas dos talões de multibanco e nas embalagens de açúcar. Torna-se por isso muito mais legítimo, com a memória a distrair-se em cada esquina do tempo e a internet tão em cima de nós, que o faça agora aqui, neste registo de ajuda mnésica.

Fim do Post

A epifania de um tipo enrolado em papel azul que descobre que tem consigo apenas uma aliança e uma chave. O resto haverás de te lembrar Zé …


Filhos da mãe

O dia da mãe é sagrado e para não me chamarem herege antecipo-o com um texto para aqui encontrado. Não se dão flores murchas no dia da mãe. De plástico sim, que as há muitas. Ou um texto sem perfume, como este. 

“Em cada mulher há um regaço de que um homem abusa. Primeiro confundindo afectos com lanches e mochilas preparadas e camas feitas e essas pequenas coisinhas com que ainda miúdos nos vamos rodeando, disso habituando e a elas cercando. Depois, já em adultos, prosseguindo, abusando, aqui já pai dos nossos filhos, a entregar-lhe a ela aquilo que de outra recebemos antes. Não falo dos mimos, sejamos claros, falo daquilo que os homens, hipocritamente, continuam à espera que uma mãe e mais tarde, se possível, uma outra mulher, possa fazer por eles. Nada tem a ver com afectos, fertilidade ou sensibilidade. Falo desse ramerrame que nós homens fazemos por ignorar e desvalorizar, pais e filhos, para o qual as empurramos no teatro do dia-a-dia. Chamamos a nós outros papéis e chamamos a essa labuta de “amor de mãe”. A desfaçatez de uma palavra suave de vez em quando por troca de uma pequena tarefa doméstica.

Elas são as mulheres que amamos. Por isso os mais sensíveis trocam isso por flores e dão urras ao dia da mãe em troca de poesias bonitas. Parece-me bem. Não vejo mesmo o que melhor pode fazer um filho da mãe.”


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