Terapia Automobilística (2/2)

Os meus displicentes 5 minutos de atraso foram acolhidos com um reprovador olhar oblíquo, a recordar-me da implacabilidade anunciada logo na sessão anterior no que se referia ao escrupuloso cumprimento do horário. “- Agora que o José já chegou vamos então iniciar a nossa conversa”. A voz, acomodada em pausas adestradas, continuava a fabricar tranquilidade. A Inês – o tratamento pelo primeiro nome convidava ao celestial ambiente terapêutico do primeiro dia, ainda que ela o soubesse gerir com especial mestria para não cair em intimidade inapropriada – procurava assim, de modo algo conspícuo, acentuar a atrapalhação do meu atraso, e insistia fazendo pairar um silêncio de espera enquanto eu me engodilhava com o sobretudo e restantes atavios de inverno no assento que me estava destinado. 

Nesse impasse os meus companheiros iam lançando saudações de camaradagem, aqui um sorriso compadecido, ali um piscar d’olho meio cúmplice e assim nos íamos reencontrando nesse pequeno conforto de partilharmos esta lamentável condição de condenados. Ultrapassado este meu entremetimento e numa tentativa de reiniciar os trabalhos, pedia-nos a formadora que voltássemos a recuperar os recortes que permaneciam em cima da mesa, no mesmo estado descuidado em que os deixáramos na sessão anterior. Que cada um chamasse a si o que escolhera e que se reiniciasse a conversa que, recordo, pretendia que nos autorretratássemos como automobilistas.

Os primeiros instantes em redor da mesa reavivaram-me rapidamente o inusitado prazer que tinha retirado da sessão anterior. Havia algo de enredo literário em tudo aquilo, cada um reclamando um personagem que, distinto dos restantes, ainda assim fazia sempre convergir o seu testemunho para  um clima absolutamente adverso ao contexto de reabilitação pretendido naquela iniciativa. E nisto atrapalhava-se cada vez mais a nossa psicóloga que, apesar do abuso que fazia de todas as ferramentas que a sua formação académica lhe fornecia, via a sua tarefa conspurcada e o objectivo da nossa reeducação ficar mais longe a cada troca de testemunho.

A conversa rolava agora a todo o vapor, ainda no seu início mas já em ritmo indomável, a ela permitindo-se-lhe apenas pequenas interjeições que ali já ninguém estava para se mandar calar, ainda que por camaradagem entre nós se soubesse respeitar a vez. Com o correr da mesma os tiques que já conhecia na Inês iam aos poucos destapando-se e acentuavam-se os mesmos trejeitos que já lhe havia observado: o nariz engelhava-se enquanto cutucava os óculos com o indicador e esticava as órbitas míopes para diante, ovalizando-as ainda mais. Nesses momentos, por uma razão que ainda não consigo explicar e até decifrar, procurava-me, não sei se pretendendo de mim compreensão e solidariedade, convidando-me para aliado. Desejo sinceramente que, consciente ou inconscientemente, não fosse esse o seu intuito, pois a minha natureza leva-me em geral a ser compassivo mas isso, pelas circunstâncias que se avizinhavam, fazia-se de todo impossível.

Tal como na segunda-feira anterior eu tinha começado dócil e comportadamente a escutar o testemunho de cada um dos meus companheiros. Mas, tal como dessa vez, à medida que a conversa saltava de um para o outro, o meu estado de espírito encapelava-se e tornava-se cada vez mais difícil dominar o sorriso que se me ia rasgando. Infelizmente desta vez a coisa precipitou-se mais ferozmente e dei por mim em total perda de controlo ainda não tínhamos chegado ao terceiro depoimento. E foi assim que, ao invés de um pretendido aliado, ela encontrou em mim a centelha de todo aquele caos. O seu olhar, agora, fuzilava-me. E já se sabe do irracional destas crises de riso, pois que é o interdito e o inconveniente o que mais as alimenta e por isso, quanto mais me tentava conter, mais desbragadamente me largava em risos. E este círculo retroalimentava-se.

O ambiente,  assim ainda mais estimulado, tornava-se mais e mais competitivo entre os meus colegas automobilistas. O meu comportamento descontrolado ecoava de tal modo por toda a sala que, um por um, de cada vez que alguém era chamado a manifestar-se, vendo-me nesse crescendo, ainda tomava mais alento para desconcertar a formadora e nisso recolhendo o devido reconhecimento dos seus pares. A situação progrediu de tal modo que não tive outra alternativa se não sair balbuciadamente da sala. O rigor da Formadora aí fraquejando, pois que ela, tanto ou mais que eu, queria ver-me dali para fora.

Já não lacrimejava quando voltei, ainda que ferrasse os lábios para melhor fazer vencer o meu compromisso de quietação. Mas aparentemente não iria ser fácil. O Cláudio, condutor profissional com muitos cursos e recursos de velocidade, segundo ele próprio, expressava de forma entusiástica a sua oportunidade para anunciar que era, ele mesmo, um dos mais hábeis condutores que conhecia. Subjugava – os braços esvoaçando – a atenção de todos. “- E já vê a Dona Inês que isto não tem a ver com velocidade, o importante é mesmo sabermos o que estamos a fazer”, explicava. “- Mas o Cláudio anda sempre assim tão depressa? Mesmo fora das auto-estradas?” – aqui a formadora talvez tentando que dele viesse um ‘não’, algo que invertesse o desastre em que aquele testemunho se estava a tornar. O homem arregalou os olhos, pausou, como se saboreando o momento e arremessa: “- Eu ando sempre a esta velocidade professora, não importa a estrada. Mas olhe, sei bem o que faço, tenho muitos cursos já. Olhe, por exemplo, numa estrada sinuosa, deve sempre lançar-se a viatura para o lado de fora da curva. Os meus colegas se calhar julgam que é perigoso sair assim para fora de mão antes da curva, mas não é. Porque a gente dali consegue alcançar melhor a saída da curva e tem tempo de desviar-se se vier lá …” … “ – E a Elena, e a Elena, conte-nos lá”. A voz da Inês, juro, ainda que mantendo um tom baixo e inflectido, esganiçava-se. Nem sempre a voz soa como se ouve, é preciso olhar a cara também. E a cara da formadora estava claramente esganiçada. Mas aqui não posso deixar de elogiar a resiliência e a inteligência táctica da psicóloga. Virara-se para a silenciosa senhora que estava do meu lado direito na expectativa de colocar um travão àquele descalabro.

A Elena era uma aquietada ucraniana que apesar de viver em Portugal há 14 anos falava de forma muito rudimentar o português. Ela seria assim o coelho da cartola, o antídoto para travar aquele remoinho endemoninhado de velocidades. Esta minha companheira do lado usava uma espécie de gorro na cabeça por baixo de um cabelo louro áspero que nunca tirou e utilizava um vocabulário infantil temperado com a pronúncia do leste. Isso fazia com que parecesse estar a partilhar connosco um pequeno conto para crianças, com um ritmo de escuta muito pautado e falado de modo conciso e expurgado de linguagem acessória o que o tornava, de alguma forma, interessante, ao ser escutado. “- E a Elena?” insistia a formadora. A Elena era muito reservada, não apenas pelas condicionantes da comunicação, mas porque era claramente uma pessoa tímida. Ainda assim, aqui e ali suspensa de ajuda para a sua narrativa, lá foi discorrendo. E também eu, porque já tinha esbanjado toda a vergonha com o meu comportamento, acompanhava agora a expectativa da Inês de alcançar um ambiente mais amornado e testemunhos mais anémicos, por assim dizer.

Escutávamos então o ritmo infantil da Elena que afinal aparentava também gostar de conversar e ia contornando a conversa com a longa história da vida dela e rasgados encómios a Portugal, o país que tomara por seu a ponto de nunca mais ter voltado à sua terra natal. Mas aos poucos lá ia fazendo afluir o seu testemunho que nos contava ser uma pessoa muito sensata e cuidadosa a conduzir. A ponto de, apesar de ter imigrado munida de título de condução, mas porque acabara por não praticar, ter decidido tirar a carta outra vez. “- Muito bem Elena, muito bem” – animava-se finalmente a Inês com esta tão exemplar prudência. Enquanto isso ia rolando vagarosa e desafiadoramente o olhar pela mesa toda, fitando, um por um, esta cambada de criminosos sobre rodas. A nossa ucraniana, com estas interjeições de encorajamento, prosseguia então com maior confiança e ainda mais detalhadamente no seu testemunho. E a vincar a sua ponderação lá ia explicando que após tirar a carta, antes de pegar no carro, fez durante umas duas semanas, a pé, o caminho até à escola da neta – esse, viemos a perceber, o motivo quase exclusivo da sua condução – afim de melhor poder estudar os trajectos, os sinais, enfim, purgando todos os imprevistos com que se pudesse deparar. “- E depois Elena e depois?”, e aqui a formadora, reconduzida na sua confiança sobre o ambiente geral aparentemente mais domado, já a estimular alguma aceleração. “- Depois comecei a fazer o caminho de carro, devagarinho e só quando não havia mais ninguém na estrada. Saía aí pelas 3h da manhã, às vezes nem tirava o roupão” – e ria, como se troçasse de si própria – “e ia e vinha até à escola da minha netinha. Fiz isso muitas vezes. Agora não, agora já a levo todos os dias e graças a deus nunca bati.”

A formadora, às tantas, talvez por cansaço, também ela, no escutar de história tão enfadonha, arrisca uma pergunta final. Aqui desacautelando-se: “- Mas então Elena, conte-nos lá como acabou por vir aqui parar? Não me parece ser pessoa para andar em excesso de velocidade.” “- E não sou, sou até muito cuidadosa”, argumentava a Elena, “muito, muito cuidadosa. Estou sempre com atenção à estrada e nunca desvio os olhos. Não posso é ir com a minha filha ao lado que ela é muito nervosa”. “- Faz mal a sua filha, porque a Elena parece-me uma pessoa muito cautelosa e é assim que se deve ser na estrada” – e mais uma volta do olhar em redor da mesa. “- Pois, pois. Mas ela está sempre a dizer oh mãe olha o semáforo, pára pára, oh mãezinha tu não podes virar à direita, oh mãe isto oh mãe aquilo mas eu nem ligo, vou sempre tão devagarinho e com muito cuidado no volante que não quero saber dessas coisas. Mas naquele dia ela tinha razão com o sinal da velocidade, só que eu não posso desviar os olhos da estrada e como vai a gente fazer ? Se olho para os sinais não olho para a estrada …”. Nem o olhar alquebrado da Elena conseguiu estancar a risada geral.

Já pouco mais havia a fazer mas também poucos testemunhos faltavam já recrutar. Depois da imprevisível intervenção da nossa colega os comportamentos agitavam-se de novo e quando a formadora encarou o João, o último de nós a manifestar-se nesta segunda volta da mesa, tê-lo-á feito com a legítima esperança de repor a normalidade. O João era um homem dos seus quarenta e tal, reservado, fato, cuidadosamente penteado, que punha sempre o portátil em cima da mesa e saía com um mercedes de gama alta. Era por isso legítimo que a Inês confiasse a ele um comportamento moderado e um testemunho sensato já que era alguém que prometia uma postura cívica mais tranquila. Depois de olhar ansiosamente para o relógio, tomou fôlego e lançou o habitual incitamento: “- E o João, o que quer partilhar connosco?”. O João sorriu, mas de modo distante, como se avaliasse de que forma deveria começar por se exprimir: “- Eu não tenho assim muito para contar. Fui apanhado em excesso de velocidade como todos os outros aqui e pronto”. Talvez porque  confiasse no testemunho do João para deixar uma nota final mais positiva agora que a sessão estava a acabar, a Inês espicaçava-o, “- Vejo que escolheu uma moto de entre os recortes de papel, o João gosta de motos?”. Poderá ser imaginação minha mas lembro-me de naquele mesmo instante  lhe ter notado os olhos navegarem, malandros, antes de responder: “- Bastante, ando de moto desde os 5 anos”. “- Mas, na estrada não, suponho?!” arriscava perguntar a Inês enquanto ensaiava um sorriso vacilante pois que a pobre coitada já admitia tudo. “Nãoo, com cinco anos não. Isso foi só com treze, com treze é que já fazia umas voltas”. “- De moto? Na estrada?”. “- Não”. O suspiro dela foi audível, “- Estava a ver que o João…”, para logo ser interrompida, “- Só de carro. A moto era só lá no monte”.

Estávamos já tão apiedados da formadora que desta vez toda a gente se conteve no riso. A jovem Inês endireitou-se na cadeira e com o seu olhar míope olhou de novo nervosamente para o relógio. O seu rigor militar obrigava-a a esgotar os 5 minutos que faltavam para as 11h da noite. Havia um certo tom enraivecido misturado com a moleza do desalento quando se forçou a promover a continuação da conversa junto do João. “- E o João já tinha tido muitas multas por excesso de velocidade?”. Ele mantinha o seu ar sereno e composto, “- Nos últimos tempos não. Sobretudo desde que tenho filhos tenho um enorme cuidado”. Mas aqui, talvez por imprecavido excesso de entusiasmo, a professora resvalou mais uma vez, abrindo brechas de oportunidade para que nova enxurrada entrasse por ali dentro: “- Muito bem. Quer dizer que antes, se calhar, era mais atrevido … “. Do outro lado da mesa eu embasbacava. Como era possível que alguém que até me parecia ter alguma inteligência táctica se deixasse conduzir para ali, até mais que isso, que ela própria provocasse o apocalipse. Recostei-me para ouvir a resposta do João. Confesso que nem num dos meus dias de mais fértil imaginação seria capaz de inventar tal desfecho. O João iça um pouco o queixo, num insuspeitável tique de presunção, pensei eu, mas hesita. E hesita. “ – A Inês leu o número da ‘visão’ que falava sobre os radares?”.

A ondulação com que formulara a pergunta, o impasse com que a terminara, sugeriam bondosamente que ela não prosseguisse, mas a Inês há muito que tinha perdido o discernimento que eu tanto elogiara no início dos trabalhos. E por isso a pobre da formadora prosseguiu: “- Por acaso li, porque como deve calcular é matéria do meu interesse”. “- Pois”, e o João, cordial, interrompe-se assim mais uma vez, deixando ficar o silêncio a aconselhar deixar ficar tudo assim por ali. “- Mas porque nos refere a Visão?”. Até os menos lestos dos meus colegas arrepiaram com tamanha asneirada da Inês. “ – Nesse artigo há uma pequena caixa de texto com o caso de um indivíduo que teve 47 multas de excesso de velocidade”. Quando percebeu para onde estava a ser conduzida, logo agora no fechar da sessão, os olhos arregalam-se, muito, como se estivesse a ver ao longe uma vaga de tsunami aproximar-se e fita-o, em silêncio incrédulo. Aliás, toda a sala se mantém atónita. “- Sim. Sou eu. Mas já foi há algum tempo. E foi por culpa de um radar por onde eu passava todos os dias. Nunca mais fui apanhado em excesso de velocidade”. Uma tal apoteose nem provocou risos, nem falas, não houve nada, mais nada, apenas o silêncio da estupefacção, talvez até admiração, quando ele ainda corrigiu “ – A não ser esta. A não ser esta multa agora”.

Onze da noite. A sessão, finalmente, terminou. Não sei como terá sido o resto da vida da Inês. Espero que não lhe tenha sido tão árdua quanto aquelas horas que passou connosco. Da nossa parte – e posso-o afirmar de modo geral porque ainda trocámos duas ou três palavras à porta do prédio – apesar de ninguém querer voltar a estas sessões de terapia, ainda assim, achámos todos que foram umas horas bem passadas, bastante agradáveis, daquelas que quase não se dá pelo tempo fluir. Ah, e descobrimos que somos todos bons condutores, talvez um pouco injustiçados. E que a Inês tem uma profissão difícil.


Terapia automobilística (1/2)

Uns dizem que com o avançar da idade nos tornamos mais impacientes. Nada disso, tornamo-nos apenas mais avaros com o tempo. Quando temos um saco de rebuçados a menos de meio não gostamos que alguém lá meta a mão sem pedir licença.

Nesta segunda-feira à noite não foi por isso com grande disposição que ali cheguei, sem saber tão-pouco se para ali havia sido convocado para punição ou terapia, a medir-me assim entre o resignado e o expectante já que a segunda alternativa sempre traria algum desagravo. Mas antes de entrar já levava comigo bom conselho: se arranjares um carro para os teus filhos, dá-o por completo, não o deixes registado em teu nome. E que a laxação acabe aqui, porque pior que isso seria receberes depois as multas de excesso de velocidade, pagares e chutares para canto.

E portanto aqui estou, agora já na sala, ou melhor, num esconso gabinete, por culpa alheia. São doze os desgraçados a desenroscarem-se por ali adentro, pedindo licença de passagem pelo friso de espaço entre a mesa e as paredes, na atrapalhação de nem um lugar encontrarem para pousar os casacos, os gestos lentos e submissos de quem caminha para um eminente processo por gazeamento, a acantonarem-se ao redor da mesa. Uma exígua mesa de reuniões atravancada num gabinete diminuto, repita-se. Depois, entre pausas, se faz favores, pausas outra vez, tosses fininhas e outras vírgulas de matar o tempo, conforme ia viajando a vista por eles, um por um, foi-se aliviando de algum modo o desagrado por ali estar.

Rédeas nas mãos, logo firme a entrar, a jovem formadora. Encantadora na sua função, cândida, com um olhar míope e estudioso por detrás das lentes garrafais. Psicóloga, não tenho dúvidas. A ela era-lhe dada a absurda missão de punir doze malvados automobilistas, durante quatro noites, naquela sala. Perdão, gabinete. Perdão, consciencializar para novos comportamentos esses tal malvados. Oxalá aquela auréola de serenidade estivesse bem ancorada dentro de si porque, a julgar pelos entretantos, esperava-a espinhosa missão.

No tampo da mesa oval onde nos sentávamos os treze – uma belíssima mesa de madeira se me deixassem chegar-lhe as mãos – estavam espalhados dezenas de recortes de figuras de revistas. Sim, como brincávamos quando andávamos na infantil. E os temas, mais bondosos ou mais impactantes, mais figurativos ou abstractos, eram também os mesmos. E nada mais. Nem um papel para rabiscar, uma caneta, um copo de plástico, uma garrafa de água vá lá, nada. Punição. Tinha-me saído a punição. Agora só me restava por isso tentar desfrutar dela.

E para isso foi-se construindo um cenário promissor. Seguem as apresentações à volta da mesa. Uma hora inteira. Ficámos logo a saber que conversa não iria faltar e que éramos todos exímios condutores, dos que andavam depressa e bem. Mas com segurança, como acentuava o senhor de que não me lembro o nome e que ajudara a sentar à minha esquerda, com 78 anos. Aliás tínhamos todos em comum isso de conduzir impecávelmente mas também contribuir generosamente para uma média de idades que nunca andaria abaixo dos 60. Da absurda unanimidade destas declarações que versavam os nossos dotes automobilísticos e da forma como essas eram, uma por uma, rendilhadas em delirantes episódios, não continha o sorriso a única jovem que fazia excepção à idade, daqueles que ainda se conseguem esconder debaixo do queixo, mas ali amordaçando-o, já no limite, para não virar riso,  e nisso acompanhando-me.

A primeira volta estava dada. Toda a gente descartou à vez o papelinho que escolhera para se identificar e partíamos agora para a última hora. Tenho a convicção absoluta que os meus colegas infractores, sem excepção, carregavam consigo um sorriso malandro enquanto recolhiam o segundo pedaço de papel com que pretenderiam argumentar-se perante a nova questão. E sobre essa pedia então a incorpórea formadora, dela só a voz açucarada e aqueles saltitantes olhinhos perscrutadores, que nos identificássemos como condutores. Ao Idálio – não tenho a certeza do nome, mas seria algo assim, entre a graça do rufia lisboeta e do herói mítico –  viu-o escolher uma foto onde constavam 5 cutelos sobre um fundo branco. A formadora também viu. Levou o indicador aos óculos pretendendo encaixá-los melhor, num gesto desnecessário enquanto frisava o nariz.  Iria vê-la repetir esse tique nervoso inúmeras vezes nessa noite, ainda que só estivéssemos na fase das apresentações.

Ficou também aí confirmado que tinha caído num caldo de terapia de grupo, um exercício que me recolhia à infância, até às actividades pré-primárias de corte e colagem e simultaneamente me fazia sentir num confrangedor encontro dos A.A. – Automobilistas Anónimos, esclareça-se. Em suma, iríamos passar ali 4 longas noites a falar de cada um de nós, à volta da fogueira. E alguns – vou-os identificando – certamente já de chouriço no espeto, enquanto tentarão recrutar mais e mais palavras para poderem continuar a falar de si e aproveitarem a oportunidade para afastarem por umas horas uma presumível solidão. E pela amostra, pelo menos no meu achar e do da jovial rapariga, isso poderia até conter alguns momentos bem risíveis.

Mas isso a correr para quarta-feira que as sevícias por hoje estavam terminadas. Nesta segunda ronda, interrompida, falara apenas metade da mesa, mas eu também não sei escrever nada por metade.


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