nem do antes nem do depois

Há demasiados factos, dados e opiniões sobre a infinidade de coisas novas que todos os dias acontecem. Já ninguém as colige. Cabe hoje a cada um pesquisar, integrar, filtrar, avalisar e concluir sobre tudo isso. Depois, e porque qualquer indivíduo anónimo hoje tem acesso a um manancial de disseminação de fazer inveja a qualquer imprensa de porte médio de há vinte anos atrás, recrudescem novos níveis de comunicação, uma segunda camada de informação, opinosa, disforme, que de tão massificada se torna lerda, que de tão vasta se torna indigerível. A humanidade criou dispositivos de comunicação tão eficazes, que ela própria deixou de ser capaz de consumir o que produz  – diz-se que 90% das coisas que se escrevem nunca serão lidas por ninguém.

Mas esta não é uma mudança de paradigma exclusiva da informação e comunicação. Também do lado da indústria, no domínio da concepção de produtos, as tecnologias emergentes arrepiam as sociedades industriais e as pesadas infra-estruturas fabris, cujo perímetro de acção era estanque e o seu território ignorado pelo lado do consumo, estão agora a confrontar-se com uma sociedade que começa a ter capacidade de produzir por si mesma e de criar em rede um tal potencial de criatividade que qualquer gabinete de projecto se deverá sentir tremer – diz-se que nos próximos 25 anos serão gerados mais novos produtos que em toda a história de humanidade. Esta humanidade em rede que se tornou hoje uma máquina de invenção do novo e do prolífero tão eficaz que ela própria deixou de ter a capacidade para lidar com a informação e absorver os bens que produz porque continua a depender de cada um de nós e não de uma voracidade infinita.

A velocidade, o tempo, este é o novo paradigma desta civilização. Os mais aptos tirarão partido dela, ainda que isso signifique apenas uma dízima do que desperdiçam. O mundo avança demasiado depressa, um mundo onde todos os fenómenos se transformaram em orfãos de um mecanismo viral, posse de um colectivo desinteressado, que se compraz mais no acto da sua (re)criação e propagação que no seu usufruto. Os mais novos integrarão em si, desde o berço, essas novas capacidades que os preparam para esta realidade, desviando o supérfluo, mesmo que isso signifique a exclusão da cultura e do eclectismo, ou tão simplesmente um lugar para descansar no silêncio da natureza. Não tenho dúvidas que entre uns e outros nunca na história da humanidade esta evoluirá de forma tão abissal e veloz. Assim foi na geração antes da minha e assim será na geração depois da minha.

Cada vez mais o passado resumir-se-á a uma fracção irrelevante do que o dia de hoje aponta e a história deixará cada vez mais de ser uma referência nele contida. Já não há passado, mas uma colina de informação, de experiências e de novas ideias que ontem não tivemos tempo para organizar, encavalitados no vertiginoso das novas coisas. O mundo avança demasiado depressa, muito mais depressa do que o ritmo a que somos capazes de o viver. Todos os fenómenos deixaram de ter uma origem para se transformaram em algo viral, posse de um colectivo, que os exponencia a tal ponto que individualmente deixamos de estar aptos para os entrelaçar entre si e no tempo .

Dantes escutávamos o mundo com tempo suficiente. Tudo tinha uma origem, um mentor, um significado e resultado. Hoje não, todos os acontecimentos adquirem a mesma ordem de importância, os mais populares (que não os mais relevantes) rapidamente tomam uma dimensão abissal e são possuídos por um colectivo de milhões que não os verticaliza, apenas lhe acrescenta novos tentáculos. As coisas novas deixaram de ser importantes, tornaram-se banais e o que verdadeiramente se tornou importante é que todos os dias apareçam coisas novas, indiferentemente da sua natureza.

Dantes, os mais velhos, eram tidos como uma reserva nas decisões. Eles não estavam tão aptos a olhar o futuro, mas traziam consigo os hábitos, a história, o bom senso, criavam pontes entre cada um dos lados da história, insinuavam caminhos para nos trazerem do passado para um futuro por diante, nalguns casos de forma demasiada assisada mas quase sempre fazendo pontes. Hoje quase nada sobra de ontem. Pouco mais que aquilo que se gizou produzir e consumir para amanhã. É cada vez mais um tempo sem passado, sem velhos e sem memória.  E a memória  é a ponte da humanidade entre a sua história e a parte do futuro que ela ainda pode racionalizar. Mas as pontes da memória deixaram de ser importantes nesta superprodução de coisas e acontecimentos.

E ademais há a outra parte, a da vida. Receio que por diante muitos deixem de perceber e nisso de usufruir o poder estar, apenas estar. Seja debaixo de uma árvore, dormitando no silêncio da natureza, seja revisitando amizades e histórias entre copos, conversas e memórias, seja simplesmente escutando o vagar da verdade na boca de um velho ao final da tarde. Sim, é verdade. Não sou fanático do novo e vivo nesta permanente ansiedade com este futuro que todos os dias muda sem tempo prévio para se anunciar. Mas quero acreditar também que não sou ainda um velho, um acidente de um passado já improvável, um incompetente a enfrentar a vida como ela hoje é. Mas a que mundo afinal pertenço?

Não sei. E estou com medo. Quero poder ir andando pela vida e não que a vida me sugue por um túnel de vácuo a uma velocidade tão vertiginosa que nem tempo tenha para apreciar a paisagem. E nisto da vida, é isso mesmo … eu só quero poder apreciar a paisagem.

bengala


da madeira

A escrita, como qualquer lugar de criação, é um espaço de felicidade. Não o afirmo como fugitivo, pois é lugar que me está vedado. Sou apenas um criativo sem dote, um homem que por um qualquer acaso genético vive carente do movimento da criação, mas que por óbvias insuficiências artísticas olha rabugento para a sorte de alguns outros. Enfim, sou um apátrida, sem território para a expressão. A carpintaria, a forma e a macieza da madeira, é o que encontro mais próximo dessa sensação que me foi vedada. Nisso nem aspiro alcançar qualquer estrato artístico, mas tão sómente olhar-lhe a forma acabada, tê-la depois do nada, filha minha. Há quem da escrita esculpa verdadeiras peças de arte, outros, dela, só fazem cadeiras. Uns nascem enleados por esse dote, outros resignam-se a trabalhar com as mãos. Um dia, neste entardecer da idade, será a madeira que me ajudará a copiar essa felicidade. A marcenaria será a minha megera da arte.


Kalithea Halkidiki poderia ser no hawaii mas é ali na grécia, mesmo ao pé da rússia

Esta minha fase profissional tem-me levado nos últimos anos a galgar território europeu. Embora os objectivos das viagens não me deixem grande folga turística trazem sempre consigo algo de exótico nestes destinos onde atraco: lahti, trondhein, lublin, ankara, zarautz, greenwich, … uma infinidade de paragens que certamente nunca visaria com propósitos turísticos, porque fora do gradiente comum, e que acabam por trazer uma percepção mais sincera e próxima dos países e dos povos.

Tinha-me comprometido, por estas mesmas razões, a guardar aqui relatos espontâneos de cada um desses lugares.  Nada a ver com a panorâmica das paisagens ou o motivo das mesmas, nada a ver também com o pretensiosismo de um diário de bordo, mas apenas o registo almiscarado de notas soltas que, durante essas jornadas, por razão que desconheço, colecciono em mim. Infelizmente, os mesmos motivos que me levam a cruzar estes insólitos lugares são os mesmos que me têm retirado a disponibilidade para trazer à escrita as anotações que me prometi mais verter em texto. Depois o tempo passa, …

Desta vez fui parar à Grécia, perto de Salónica, a um local de veraneio chamado Kalithea Halkidiki. Como das outras vezes não tenho impulso para tratar com o esmero que a escrita partilhada justifica as tais notas avulso que me foram povoando a cabeça. Não obstante, pelos motivos que já aleguei, quero aqui crivar um espaço que, pelo menos a mim, se não a mais  ninguém, me estimule a revisitar o que então me ocorreu, que agora apenas anoto, na esperança que quiçá um dia o possa tratar mais cuidadamente.

Estamos em 2015, Junho, porventura no momento mais crítico de todo o confronto bélico entre a Grécia a UE e outras tantas demais instituições cuja denominação, com o distar do tempo, pouco importarão. O que daí nos chega continua a ser propagado da mesma forma de sempre, de mão em mão. Por mais ágeis que sejam hoje os meios tecnológicos de disseminação, por mais espontânea e fértil que seja a informação, continuamos a comunicar e a integrar a informação como sempre o fizemos, a partir da percepção anónima de alguém, emitindo de algures, construindo, por maioria de razão, a nossa própria razão das coisas.

Registo aqui, para mim, depois de uns banhos no Egeu e uns mergulhos nas comunidades locais, os acertos que decidi fazer à minha verdade das coisas:

1. qual grécia?

Salónica é a segunda maior cidade da grécia, desde que é grécia, o que apenas acontece há pouco mais de 100 anos. Basta olhar para o mapa para perceber que sempre foi campo de passagem entre dois continentes e várias turbas civilizacionais, enfim, o que lhe quiserem chamar, que a mim não me dá tempo para detalhes nem qualquer tipo de rigor histórico. Quando viajo escrevo com os olhos que levei, e esse é o registo que aqui me importa. Chego de noite, ainda a tempo de desentorpecer as pernas na zona central da cidade, numa noite quente à beira-mar e amaciando as agruras de uma tortuosa viagem com o travo gelado da cerveja local. A propósito, 8 euros, repito, 8 euros num balcão de bar de rua, ainda que na zona boémia da cidade. Cidade de grande azáfama universitária, está pejada de gente nova e com o cair da noite o ribombar daquela música incompreensível que se espraia pela babuja da cidade, como em qualquer outra cidade do sul, com o mesmo tempero climático e cheiro a verão. E assim vagueando. De esquina em esquina a mesma música, o mesmo tipo de pessoas, a mesma cultura… Nada disso! De esquina para esquina tudo mudava. Aqui os gregos ocidentalizados, de influências mais sulistas, essa coisas da poliponésia ou assim, aqueles que de atenas trazem a imagem da grécia europeizada ao resto do mundo e com eles o badum badum badum, das músicas que nos esvaziam os ouvidos nesse tipo de ambiente. Na esquina seguinte as shakiras, de saiotes rendilhados, os homens aturquesados, manga cava tatuada, verdadeiroos espécmes de ‘quaresmas’ a dominar, bamboleando em cima das mesas, ao som de uma música que para os meus pobres ouvidos poderia ser grega mas que jurarei seria algo diferente, ainda que com um distintivo balanço do levante oriental. Aqui a história dos cruzamentos civilizacionais, das famílias que foram ficando de outros tempos, lá em baixo daqueles outros que foram subindo, primeiro no arquipélago, primeiro ocupantes, depois provavelmente proclamados gregos de verdade. Há medida que vou caminhando esvaie-se o som da europa e entra em crescendo a batida turca, mais uns passos e vice-versa.

E fico a matutar, enquanto caminho em círculos, o que virá a ser esta cidade sem encanto, uma atenas do norte, um balcão partilhado num corredor de migrações, no dia do colapso social. E fico apenas a pensar no que se passará entre cada esquina, entre os bares da música badum badum e os bares das shakiras, e aqui a distender-me para o passsado recente, tão inverosivelmente perto de nós, lá pelas ex-terras da jugoslávia e do horror do que se passava de cada lado da mesma rua, entre famílias.

Oxalá, estes olhos de turista, estes fracos ouvidos para a música, se enganem. Oxalá a música, de bar para bar, seja afinal a mesma.

2. qual realidade?

Agora vou sendo conduzido até ao local da reunião, simpaticamente escolhido à beira-mar. O meu parceiro grego é de uma simpatia que só encontro em Portugal. A mulher, por cortesia acompanha-nos. A conversa, inevitavelmente, roça o (des)esperado. Do desfile da desgraça que me vai contando, sobre o desemprego, a baixa dos ordenados e das pensões, etc – ao longo do qual eu me arrisco a ir interrompendo apenas para fazer notar um “nós também, é só dividir por dois” – tudo é culpa dos alemães. Ele é professor universitário, os dois rapazes estudam em Inglaterrra e a outra filha, mais recentemente, está em Paris, diz-me a simpática senhora. E que por muito que lhe custe lá vai aconselhando que fiquem por lá, “nós também” vou acrescentando ” nós também”. E por fim, lançado num enorme suspiro, termina: “que posso eu fazer por eles? sou reformada, cortaram-me 30% da pensão!”

A lacrimosa senhora, uma simpáctica reformada de pensão cortada, tinha 57 anos. Cinquenta e sete anos. São uns malandros estes alemães.

3. qual europa?

Chegados finalmente ao destino. Uma língua de terra,  pejada de hoteis para turistas e casas de fim de semana para os mais afortunados de salónica,  tudo ainda semi-habitado nesta altura precoce do verão. O hotel, enorme, sobranceiro sobre a praia, não deixa de respirar aquela atmosfera de Inatel para reformados, mas está limpo de mofo, reconstruído e tem uma praia invejável, para quem ao fim de um dia de meeting aspire a experimentar uns mergulhos. Mas os hóspedes, há algo de estranho com estes hóspedes. Um olhar desumanizado, a falta de gentileza e uma linguagem gutural que mesmo para um leigo como eu dá para perceber que não é o grego. Ao jantar questiono-os, aos meus anfitriões gregos. Baixam o olhar enquanto respondem: “são russos”.

Dois dias depois, acabado o meeting, tempo para visitar a terreola mais próxima para um típico jantar do finar do dia nas sempre agradáveis varandas que se debruçam em  toalhas de quadrados vermelhos e brancos e pratos de azeitonas sobre o beira-mar mediterrânico. Mas ainda nem chegados, ou melhor, chegados à sua periferia, lojas, e lojas, e lojas. Normal numa zona turística de veraneio. Não fossem todas elas lojas de peles. A cada 10 metros uma placa dizia sempre o mesmo “Mexa”, ou algo assim – hieroglificamente não me é fácil ser rigoroso. Perguntei-lhes o que queria aquilo dizer ao que me responderam “creio que quer dizer peles”. “Como assim, não têm a certeza?”, eu na estranheza. E eles de novo desviando os olhos, “não, está em russo”.

Ocorreu-me que a primeira visita de estado do Tsipras, a qual aliás achei estranha na altura, tinha sido à Rússia, ao Sr. Putin. Agora já não a acho assim tão estranha, ainda que suspeite que a maior parte da europa, inocentemente, a continue a achar descabida.

 


dos dias d’antes, dos filhos e do cansaço

Os últimos dias têm-me engolido. Nada mais me atravessa que não esta enxurrada de trabalho. Nas frouxas folgas, sem saber o que delas fazer, entretenho-me a inventar mais trabalho. Aos dias que virão vejo-os como tijolos amontoados, todos iguais, e cada dia um mais empilhado, meticulosamente acimentado numa parede infinita cujo único propósito é tapar-me o mundo.  Assim ando eu.

Sei que passará. Hoje, antes de fechar, venho aqui. Deambular pelos textos que escrevi em momentos e estados de espírito tão distintos é a melhor forma que encontro para desmentir esta sensação inexorável de fundo da caverna. Dou com isto:

E ainda assim, disso já conscientes, na maior parte das vezes continuamos sem ser capazes de os olhar sem aquele orgulho mesquinho que anseia vê-los como uma espécie de versão aumentada e melhorada de nós. Pouco nos importa como lá chegam, importa que cheguem (como se fosse possível simplesmente ‘chegar’), e que cheguem bem, sem arranhões (como se estes não fizessem parte da narrativa da nossa pele). E assim, fazendo-nos destinos dos nossos filhos, lá teimamos em ignorar quão importante é eles poderem ir olhando para trás e verem o seu próprio trilho, e admirarem os sítios que traçaram e poderem disso, (aqui eles, não nós, importa insistir: eles, não nós, eles, sem nós, eles), orgulharem-se.

que fui buscar aqui. Hoje não o escreveria assim.

De qualquer forma, hoje nada teria para escrever.


do improviso da idade

Quando nós crescemos, as coisas novas surpreendem-nos menos e algumas coisas velhas vão ficando esquecidas. Por isso nós gostamos cada vez mais das coisas que temos. Mas isso já tu sabes.

Quando nós crescemos, as coisas crescem connosco e cada dia passam a fazer mais parte de nós. Por isso os nossos amigos são cada vez mais os nossos amigos. Mas isso já tu sabes.

Quando nós crescemos, por vezes acordamos com nuvens. Depois sentimos que isso é porque estamos um pouco mais perto de algo e isso torna-nos ainda mais orgulhosos do que já andámos até aqui. Mas isso já tu sabes.

Quando nós crescemos, somos mais descrentes e positivos, mais eufóricos e apáticos e vamos vivendo num estado de maior alternação, copiando a vida. Mas isso porque sentimos que lidamos com mais do que já somos. Mas isso já tu sabes.

Quando nós crescemos, olhamos para o que fizemos e às vezes pensamos que não fizemos tudo. Então deitamos a cabeça no colo de alguém, a costurar o tempo, não desistidos mas sem que nada mais importe … Do que aquilo que tu já sabes


das palavras naufragadas

Quando brancos matavam pretos eram racistas, pois eram. Quando pretos matam pretos, são agora xenófobos. Há um século quando um barco naufragou com 1.500 membros da elite social foi uma catástrofe tão grande que ainda hoje é persistentemente recordada. Nos últimos 15 meses morreram nas águas do mediterrâneo 4.500 pessoas, aquilata-se agora. Depois far-se-ão umas cimeiras e deixará de haver o antes e o depois dessas famílias inteiras que continuarão a afogar-se silenciosamente nessa quimera de um futuro impossível.

Malditas palavras. Tirem-lhes a culatra.


do mar cadáver

by Fernando Paula

by Fernando Paula

A semana passada fui ao deserto. Fiz o programa todo, com camelos, acampamentos e dunas. Hei-de trazer para aqui algo sobre isso, para registo póstumo. Mas por agora, como mera declaração casual, apenas se me oferece registar o seguinte: O deserto poderia ser como o mar, não fosse tão fatalmente preguiçoso.

Consigo olhar para o mar e sentir-lhe o humor, mais forte que o meu até. A serenidade, a euforia, a raiva, a exaustão, a temeridade, tudo no mar, alternante, é como em nós, mas em maior. O deserto é, sei-o agora, o que mais lhe está próximo mas, sem latitude nos humores, é dele embuste. Enfada-me o deserto, não por causa da areia e da forma como vagaroso brinca com as cores, que esse é o seu encantamento, mas pelo pouco que faz com ela.

O deserto é o mar, em defunto. Não há naquele horizonte adornado de cores melosas e curvas boleadas imprevisibilidade bastante para que lhe possamos inventar um futuro. Encarar o mar é olhar por diante, para a inquietude de amanhã, navegar na incerteza e se formos corajosos trazê-la até nós. Mas a contemplação do deserto, quieta, calada, cálida, enganosamente açucarada, nada traz por diante. Não há carácter, apenas uma hipnótica valsa de tons e distância parada para nos esconder o que é óbvio: ali nada mais há que ausência, essas memórias pútridas – ainda que belas – do que já foi.

Se chamo o mar para me chamar a mim, ao deserto deverei escondê-lo, sei-o agora, para que não traga essa parte de mim, a fingir-me contemplativo, a fazer-me olhado nas entorpecidas curvas que desenha no horizonte, imóveis, qual veneno de fazer calar vontades e adormecer o que por direito humano devo aguardar me possa calhar amanhã. Às dunas, belas ao final da tarde, olho-as por cima do ombro, vagaroso, como quem corre cortinas. Às vagas, essa vontade de água irrequieta, justamente por não poder saber o que lhes quero e o que elas de mim querem, prefiro fitá-las de frente, do lado da vida.

Além disso, confesso, não gosto de Tajine.


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