Monthly Archives: Abril 2008


giroscópios e aceleração de coriólis

[ estava aqui um post que transportei para o meu acesso privado. dava-se a muitas interpretações, minhas e dos outros. e era sobre coisas que apenas nasceram para isso mesmo, para serem coisas escritas, nem tanto lidas. coisas sobre o que ninguém quer fazer perguntas e que a ninguém sussurrarão respostas. ]

 


 

Trilhos, confissões e um cão

 


a vez dos casacos à vez

Há pouco o Francisco foi a um concerto. Não ‘dos dele’ mas um dos ‘da avó’, desses que também gosta. Nos preparos, apesar dos ténis, incondicionais, notei-lhe esmero na camisa preta. Raramente lhe tinha visto tal zelo e por isso chamei-o ao quarto dos roupeiros e ofereci-lhe um dos meus blasers. Agitou-se nesse “que nem pensar” mas depois olhou-o melhor, era preto também, passou-lhe a mão, de veludo, e decidiu-se a experimentá-lo. Assentou-lhe melhor que a mim – engrossou-lhe o tronco, espaldeirou-lhe os ombros e ainda o fez mais alto. Encostei-me ao fundo e fiquei a vê-lo percorrer-se no espelho. (É curiosa essa idade em que subitamente nos podemos sentir surpresos com a nossa própria imagem). Quando se virou percebi imediatamente que tinha acabado de perder o meu casaco favorito. Depois a campainha tocou, eu disfarcei o enternecimento da despedida, ele saiu e a porta fechou-se atrás de si.

Claro que fujo desse lugar comum de querer ver nele a minha projecção, melhorada, mas seria hipócrita negar que o casaco lhe assenta melhor que a mim.


tenho um grave problema com as vírgulas

Produzo um texto, publico-o, releio-o e …hummm… lá acabo a puxar uma vírgula para a esquerda. Revejo-o agora de novo e, nada bem, desloco-a ainda mais para a esquerda. Uma outra vez e, concluindo-a desnecessária, acabo por a retirar de cima do ‘ou’. Arquejante, volto outra vez ao texto e de vírgula suspensa na mão procuro um local onde a possa pousar. Releio pela enésima vez o texto saltitando de vírgula em vírgula no que acabo sempre ofegante. Jamais conseguirei alinhar as vírgulas com o meu ciclo respiratório.

Quais ginásios e máquinas de correr parado! Para mim, escrever e rever infinitamente aquilo que escrevo é o verdadeiro exercício aeróbico.


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