Monthly Archives: Maio 2010

eu e eles

 

Houve alguns dos meus mortos que se foram esfumando e que se transformaram aos poucos numa nostálgica e nebulosa recordação, não mais que uma abstracta sensação de perda, sem identidade já, eu tentando-os recuperar com o que eles deveriam ser mas já não eram.

Mas outros houve em que as recordações não se desvaneceram, porque, mais do que as suas memórias, foram eles que me entranharam. O seu luto, aquela dor brutal gritando uma explicação que nunca viria, era afinal o processo – sei-o agora – com que integravam o homem que eu iria ser no dia seguinte e depois, e para sempre. É aí, dentro de nós, não pelas recordações que deles guardamos, mas pelo que passamos despercebidamente a ser deles, que as almas daqueles que nos tocam verdadeiramente na vida, passam a viver.

Esses são os meus mortos. Até a solidão que por vezes sinto, tão opaca e insuperável apesar de rodeada de gente, até ela me traz a exultação de os pressentir por ali. Sentirmo-nos mais amargurados, sabermo-nos mais insuficientes, crermo-nos mais frágeis, tudo isso não advém da acentuação de uma espécie de infelicidade que por vezes parece que pretendemos vitimar em nós. Nas alegrias, mas também na adversidade, tudo se torna mais denso, porque deles carregamos em nós uma parte que vai muito para além da imponderabilidade das memórias.

É assim que agora nós vamos caminhando pelo mundo e pela vida, eles em mim, eu fazendo-me por nos trazer a todos emprestados neste meu corpo estafado. Eu sou um homem bom e vivo rodeado de bons homens e por isso sei que um dia virá que serei eu que irei habitar neles, e queira eu que o façam eles com o mesmo orgulho e ventura com que hoje trago comigo os meus mortos. Se duvidais do que aqui digo olhai lá para trás onde estão aqueles que admira(ra)m, como eu o fiz e faço com o meu pai: notarão neles algo que está para além do imaterial das memórias, algo quase tangível, uma marca quase desapercebida mas indelével. São eles, aqui mesmo, agora, a marcarem no volver dos dias o trilho da nossa vida.

 

Nota posterior: Ontem foi o meu avô Zé quem fez anos. O meu avô Zé já morreu há pelo menos 25 anos, mas ainda ontem recebi um SMS da minha mãe a recordar o seu aniversário: “anos do avô Zé”. Na semana passada foram os “anos do avô João”. Sabendo como eu sou esquecido lança-me estes alertas com um carinho e um rigor admiráveis, que eu intimamente agradeço. Faz isso para me recordar das efemérides de todos os membros da família, e sublinho: todos!, que não apenas os ainda entre-nós. Adiciono esta nota porque me parece a demonstração lacónica de quem melhor que eu sabe que não é o traço da morte que nos deve fazer diferenciar a festa dos afectos.  

 

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o cemitério das palavras

 

Olhou de viés pela janela, de olhar abstraído, como se na indiferença do horizonte viesse a encontrar inspiração. Calcou por duas vezes na tecla Enter, vício de partida do palavreado mas também sintoma de uma forte hesitação, de um vazio que lhe ia inquietando o arranque do texto. Deixou-se ficar assim durante alguns minutos, desviando atenções entre o ecrã branco e a capa encerada do livro que tinha na sua frente. Depois, em ritmo pausado e solene, foi digitando: j…á…n…ã…o…v…o…l…t…o

A seguir fechou o portátil com uma desajustada serenidade face à decisão que anunciava, ergueu-se, ajeitou a roupa na cintura, esboçou um sorriso de cantos desvanecidos e abriu o “Dom Quixote” que vivia idolatradamente pousado sobre a mesa de vidro. Desfolhava-o agora com agitação. Sabia o que procurava, algures numa página lá pelo meio da sua espessura, sabia exactamente o momento e em qual dos seus 126 capítulos encontraria a frase que havia escolhido, essa que, agora descoberta, fazia fincada com o indicador, quase âncora, em jeito de a aprisionar. 

Lançou um olhar lânguido para o fundo da casa onde a família se debruçava sobre um qualquer lazer na mesa de jantar e deixou-se invadir por breves instantes num enternecimento de lágrimas inoportunas. Depois, mergulhou naquele mar de letras! O livro fechou-se com estrondo, pelo impulso da sua vontade, mas isso ficou desapercebido do resto da casa. Há muito que se haviam habituado a conceder-lhe a sua quase imaterialidade com a qual vivia mergulhado no seu mundo paralelo da escrita, o que tornaria inverosímil qualquer barulho que por acidente fluísse do seu lado.

 

Um dia alguém iria voltar a desembainhar a obra do Cervantes e, rolando-lhe apressadamente o espesso das páginas com os dedos lambidos, quiçá acabaria por passar pelo parágrafo onde acabara de se exilar. Teria assim a oportunidade, suficiente, para inspirar uma vez mais um pouco da luz do sol sobre a mornidão do papel onde agora vivia, ou até rever caras e barulhos das suas gentes familiares e isso haveria de ser bastante para aliviar as saudades que, ainda recentes, já começavam a parecer distantes.  

Estava agradado com a decisão que tomara, embora sobre ela tanto tivesse hesitado. Afinal não era de ânimo leve que alguém poderia decidir transpor-se para esse universo que acabara de escolher (*) e isso tão mais determinante e irrevogável ainda do que simplesmente morrer. Mas não tinha agora dúvidas sobre essa forma de eternidade que escolhera. Jazeria nessa soberba planície literária, arada por terras de La Mancha, objecto da maior inspiração humana que alguma vez acontecera e tão maravilhosamente distante do mundo turbulento que deixara. Sim – assentia de novo para consigo, encostado à vírgula do terceiro parágrafo onde encontrava a doce Dulcineia em vias de se entregar ao seu Cavaleiro da triste figura  – ali poderia finalmente respirar a perenidade da sua solidão.

 

(*) Cervantes deu a seguinte definição à sua própria obra: “orden desordenada (…) de manera que el arte, imitando à la Naturaleza, parece que allí la vence”



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