Category Archives: apenas mais um

(uma vida contada por episódios, um amigo por cada um)

CB, NL, FS, CF, JN, JP, estes são os símbolos químicos das partículas que depois de detonadas ficaram espalhadas pela minha vida fora. Olho para trás e vejo uma estrada cheia de buracos, de momentos interrompidos, de coisas que faltaram dizer e viver. Uns com a idade vão juntando aqui e ali alguns amigos. A mim, talvez porque fui privilegiado em encontrar-me com gente especial muito cedo, calhou-me ficar toda a vida a vê-los partir. A questão a que não consigo responder é porque  haveria eu de ir ficando por cá, assim minguado, com esta raiva de mim, a pontapear pedras da calçada como se fossem a minha cara.

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porque raio haverias de me passar à frente na fila ?!

Hoje vou finalmente dizer-te umas coisas que tu precisas de ouvir Joni B.

Quantas vezes te disse que não podes ser assim, assim tanto, assim para tantos. Quantas vezes te disse que ninguém pode ser sempre assim, que ninguém é infinito, mesmo que tu o possas parecer. Mas tu nunca acreditaste nisso, pois não, que não podemos estar em todo o lado de cada vez que um de nós te chama, que isso cansa, e muitos e muitas vezes cansa demasiado.

Agora alguns de nós andamos a procurar conforto na religião, como se essa pudesse servir para explicar os desígnios que nós não conseguimos aceitar. Outros vasculhamos a justiça no mundo, como se o mundo com todo aquele mar que sempre nos aprisionou pudesse dar-nos mais respostas do que apenas ser belo. Mas a maior parte de nós remete para as explicações mais prosaicas e tentamos refugiar-nos na ciência para fingirmos compreender o que é ainda inverosímil, como se tudo isto se tivesse resumido a um incidente clínico.

Mas sabes, eu tenho quase a certeza que não foi nada disto. Não foi porque Deus quisesse ou andasse distraído, não foi pelo acaso implacável da nossa condição humana e muito menos foi por enfarte como nos querem fazer crer. Tu morreste pelo coração, sim, mas não morreste do coração. Eu não percebo como tanta gente não sabe ver a diferença nisso, mas sei que num serão bem esgalhado nós os dois seríamos capazes de convencer o mundo inteiro de que eu tenho razão. Ora ouve, que a minha ‘mecânica’ é como a tua ‘música clássica’, irrefutável. Aprendi tanto contigo a escutá-la para não mais a questionar que agora te peço que me escutes tu a mim.

Todas essas merdices extremamente importantes com que te procurava, tantas e tantas vezes, onde é que elas ficavam quando delas me aliviavas? Quando te deixava, às vezes já alvorada, julgas que não sei onde guardavas as coisas de que me tinhas desafogado? E julgas que não sei quantas vezes isso se repetia com tantos outros? Que peito aguenta um coração que precisa de ir sempre guardando bocados de pessoas? Até que tamanho pode um coração crescer dentro dele? Não, tu não morreste do coração, tu morreste pelo coração.

Tudo estaria bem e tu estarias cá se no fim tudo não se resumisse a uma membrana, uma fina película incapaz de suster o quanto tu tiveste de guardar dentro dela, por nós. E quantas vezes te disse isso, caramba. Mas não ligavas e sorrias com aquele jeito que desarma qualquer razão, na tua maneira especial de dizer “não inventes Boné”.

E agora puto, na parte de mim que ia ter contigo quando eu não sabia estar comigo, o que faço com isso? onde ouvirei agora o que não sou capaz de dizer a mim mesmo? em que abraço sereno, em que silêncio, me sentirei tão compreendido?

E agora João, quando precisar de ti, como faço?


25 anos, no embaraço de os saber dizer

E depois, ocasionalmente, no acaso de uma foto, tudo fica dito

Paris

Paris, Set. 2016


O Renato partiu sem mim

Há quinze dias a tasca aqui debaixo não abriu. O Renato morrera. O irmão contou-me ainda nesse dia que o tinha encontrado no domingo já sem se dar à consciência, enrodilhado nos lençóis imundos da agonia da noite e que poucas horas depois expirara no hospital. Conhecia-o há mais de 20 anos, falávamos todos os dias, mas não lhe era muito chegado. Partilhávamos simplesmente as conversas de ocasião enquanto me servia o café da manhã.

Foi numa dessas conversas de balcão, há 4 meses atrás, que fiquei a saber que lhe haviam diagnosticado um cancro nos pulmões. Uma semana antes, mais exactamente a 18 de Março, tinha acabado de receber notícia parecida mas, naturalmente, sobre outra pessoa. Sobre mim. Desde então os nossos cancros tornaram-se irmãos, embora só eu – porque nunca o partilhara com ele – o soubesse e o sentisse. Tinham contudo personalidades diferentes. O dele vivia falado, extrovertido e activo, enquanto o meu se calava e era titubeante e tímido. O dele era cabal e geométrico, enquanto o meu se anunciava sibilino e escondido na ambiguidade, como o pior dos monstros metásticos. O dele mergulhava agora na ilusão da cura, enquanto o meu ainda tropeçava num infindável e complexo rol de diagnósticos para o desprenderem da incerteza.

Nos dias que se seguiram, enquanto ele ia contando as várias fases e tratamentos porque ia passando na abordagem clínica e nisso transpirava os seus momentos de maior entusiasmo ou de maior quebra física, eu continuava a entregar-me silenciosamente ao meu rodopio de exames em busca do primário. Foram ecografias e tomografias, desde os testículos à tiróide, e depois intermináveis peregrinações de endoscópios pelas minhas entranhas, desde os brônquios e do esófago aos intestinos. Por fim as claustrofóbicas viagens ao longo de um tubo interminável onde me injectaram com líquidos esquisitos e me falavam de positrões. O meu corpo tornou-se património da ciência médica de tão inspeccionado que foi, mas o diagnóstico continuou ambíguo e indeterminável, já o dele o encaminhava pelos solitários corredores dos hospitais.

Enquanto o Renato vivia resignado, deixando-se conduzir com um sorriso dócil por um caminho já traçado, eu volteava de resultado em resultado, cada vez mais ansioso pela confirmação de uma sobrevivência improvável. Em certos momentos, confesso, invejei-o. Afinal ele tinha estrada, tinha a possibilidade de enfrentar a fatalidade, tomando-lhe o pulso, já a mim cabia-me viver suspenso sobre um cruzamento que piedosamente me iam fazendo saber ter forte probabilidade de conduzir numa direcção única. Não vivia, não morria, não tinha destino a dar a mim próprio. Vive-se um dia com a incerteza de o bicho nos ter apanhado. Vive-se até uma semana. Mas a partir daí a nossa natureza exige respostas para nos armar. O Renato tinha respostas e desgraçadamente ia morrer. Eu desgraçadamente ia morrer mas não tinha respostas.

— // —

Três meses passaram. Entretanto partilhei com poucos a minha condição e a sua estranha incerteza que quase se garantia ser fatalidade. Esses terão sido os momentos mais dolorosos, ver a minha morte a anunciar-se nos seus olhos. Investiguei, estudei e colhi testemunhos de gente admirável. Refugiei-me de alguns comportamentos típicos, daqueles que olham para o chão e nos empurram ainda mais para dentro de nós e daqueles que sentem uma absoluta necessidade de dar conselhos, procurando o conforto de se acharem úteis, deixando-nos lá longe com mais esse encargo de fingir que os escutamos. Pelo meio continuava a desenrolar-se o universo utópico da medicina, sem certezas mas categórico. Entretanto, por falta de mais a que me agarrar, fui tomando o meu caminho e as minhas decisões baseado nos cenários mais prováveis, como quem prepara o farnel sem saber para onde irá. Estabilizei-me, serenei-me, continuei-me, e poucas foram as vezes em que os meus olhos não se deixaram amolecer no dormir ou não acordei no dia seguinte com a mesma vontade dos dias comuns. Portei-me bem comigo.

Entretanto, as notícias trouxeram algumas cambiantes. Parece que depois de tanto se procurar e nada se encontrar, restava então, já não a metástase, mas o dos pulmões. Foi por aí, embora não saiba exactamente quando, que dei por confirmada a minha viagem de barco. Se a miséria da doença estava cá e pela frente se traçava um caminho que já conhecia pouco havia a fazer e o melhor era tratar do espírito para o enfrentar, se pelo contrário nada ficasse comprovado, ora bolas, ainda bem que assim decidia. Ficou o barco à espera e os bilhetes comprados para Junho. Na última semana antes de partir muita coisa se passou e muito mudou. Uma última TAC trazia estridentes notícias: que por lá continuavam, mas pelo comportamento migratório dos nódulos não poderia ser coisa neoplásica, fui sabendo de um lado. Do outro anunciava-se a inevitabilidade da biópsia com cirurgia toráxica, esta a ser conclusiva, e a correspondente notificação que, a confirmar-se o dia e a hora, me iria apanhar algures entre Menorca e a Sardenha, mar adentro. E o cirurgião a tomar-se de cuidados, a ligar-me , a chamar-me de louco, mas depois a desembravecer à medida que lhe vou contando dos últimos exames, eu já quase a falar de igual para igual com ele. E por fim, que fosse, que a responsabilidade era minha, mas que já agora levasse uns antibióticos que quando voltasse logo se via tudo de novo.

Todos os dias lá ia à tasca, para o café do meio da manhã, ou almoço senão a cerveja do meio da tarde. O Renato lá ia seguindo, uns dias melhor outros pior, a caminho de um final calado, eu melhor, quase a seguir para o barco, a fingir-me parte de outra realidade. Foi dois dias antes de zarpar que lhe revelei pela primeira vez a minha condição quase semelhante, com algum demasiado detalhe, sei-o agora. E foi a primeira vez que lhe vi os olhos aguados. Depois parti e ele ficou.

–//–

Quando voltei tê-lo-ei visto mais um dia ou dois apenas. Estava praticamente irreconhecível. E depois foi ele que partiu, naquele dia em que a Tasca não abriu. Esse mesmo dia em que eu fiquei. Nunca saberei explicar isto a ninguém. Uns acharão um exagerado exercício de dramatização, outros que o que atravessei me tenha empurrado para um descontrolado misticismo, mas eu tenho bem dentro de mim, gravado para todos os dias que faltarem, que eu e ele fomos escolhidos no mesmo dia, num dia em que só havia lugar para um.

E sim, fui ao seu funeral. Fui enterrar a minha morte.


nós, a chuva e as palavras

Mahon (Menorca)

Mahon (Menorca)

Cada vez mais achamos dispor do destino e inventamos dizeres para o reter dentro das fronteiras ‘tecnológicas’ da nossa compreensão. Com a ciência vamos descodificando ínfimas partes do universo e com isso acentuando a ilusória noção antropocêntrica. A visão coperniciana anda cada vez mais longe de nós, a ponto de pretendermos humanizar a própria indeterminabilidade e incomensurabilidade do destino, como se tudo tivesse causa em nós. E porque nada mais temos que possa descodificar o que nos transcende, alguns rezam, mas a maioria de nós inventamos palavras.

É verdade, muitas vezes as palavras invertem o seu propósito e, ao invés de servirem para os retratar, inventam significados que nos servem apenas para serem confortáveis e ilusórios. É o caso. Depois de uns saudados dias caniculares hoje não deveria estar a chover, mas está. Porque a inexpectável chuva acontece porque se trata de um fenómeno natural e a natureza não é algo que dominemos ou antecipemos nos seus humores, e por isso a inconcebível chuva ocorre apesar de a não querermos e acharmos que ela não deveria acontecer.

O inexpectável é o que nos habituamos a achar que não acontece e o inconcebível aquilo que julgamos não estar preparados para aceitar. Nenhuma destas palavras existe verdadeiramente. Nenhuma delas traduz um significado que não o de reduzirmos a um acontecimento perdido o que não dominamos – “ah aconteceu mas era de todo inexpectável e não deixa de ser inconcebível que tenha ocorrido”. Ambas servem para se negarem a si próprias e para convivermos com o que não dominamos. São palavras mentirosas. Nunca as teríamos de usar se as ocasiões em que nos vemos obrigados a aplicá-las não tivessem de facto ocorrido.

Enfim, palavras. Servem para acomodarmos a chuva quando não a esperamos nem queremos.

E no entanto, hoje, chove.


a aliança e a chave

Lamento, caro leitor, que tenha chegado até aqui, para nada.

Acontece que por vezes também uso isto como um bloco de notas para apontar ideias sobre as quais mais tarde quero escrevinhar. Antes disto dos blogs, (o que no meu caso remonta para trás de 2004),  já fazia isto nas costas dos talões de multibanco e nas embalagens de açúcar. Torna-se por isso muito mais legítimo, com a memória a distrair-se em cada esquina do tempo e a internet tão em cima de nós, que o faça agora aqui, neste registo de ajuda mnésica.

Fim do Post

A epifania de um tipo enrolado em papel azul que descobre que tem consigo apenas uma aliança e uma chave. O resto haverás de te lembrar Zé …


comunicado editorial

Por motivos de força maior, ainda que temporários, informamos que este blog  passará a comunicar só para dentro.

Assim, a estimada audiência poderá notar um certo silêncio que mais não é que devido à inibição de leitura, ainda que aqui e ali, esparsamente, possam brotar as profilácticas leviandades do costume.

Por este transtorno pedimos desculpa ao perseverante visitante deste espaço.


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