Monthly Archives: Agosto 2012

das coisas que nos assolam quando estamos sossegadamente a fazer exercícios matinais com xilófene

Toda a manhã me tenho lembrado de um líndissimo conto do Asimov que li na juventude e que nunca mais esqueci. Séc. XXII (supunhamos), algures no universo, um devoto e emérito padre-cientista acaba de fazer a maior descoberta que estas suas duas vocações, quase antagónicas, conseguem partilhar com igual intensidade e significado. Acabara de descobrir, depois de elaborados estudos astrológicos e uma vida inteira de dedicação que, a estrela polar, aquela que assinalara o divino milagre e guiara os reis magos, afinal, fora apenas a explosão de uma supernova, em todo o seu esplendor, algures na galáxia XPTO.

É pungente o conto, na forma como está narrado, mas sobretudo na bestialidade com que uma das metades do homem, rejubilando pela descoberta de toda uma vida, acaba por assassinar a devoção e a ilusão que sustinham a sua outra meia natureza. Ser assim, dois hemisférios, duas convicções, dois olhares num só homem e saber que a glória, a realização de uma metade de nós implicará a sepultação de tudo o que a nossa outra parte acreditou, é algo de profundamente comovente.

Vem isto a propósito de uma cavilha. Sim, uma cavilha. Antevejo o espanto e justifico-o facilmente. Estive quatro horas enfiado em 60m2 escrupulosamente calafetados, apenas eu, a porcaria daquele produto, as madeiras, as trinchas e os rolos, e uma máscara que já teve melhores dias. É-me permitido elaborar sobre tudo. A alucinação tem destas coisas, abre-nos os horizontes da imaginação e fermenta-os com o incredível . Mas sobre a cavilha lá direi depois das minhas razões – se ainda a voltar a ter – agora tenho de voltar a subir para o ringue tóxico, pois a pedrada com que estou já começa a perder efeito.

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o exterminador

anda um tipo a estudar a vida inteira para acabar a brincar ao Dark Vader

e agora venham cá bichinhos, ou julgavam que eu fechava a loja e vos deixava toda esta madeira tenrinha ?


diário de um sótão

Daqui a meia hora vou entregar a afagadora, depois fazemos as malas e arrancamos, por fim, para férias. Ou quase. Os dois mais novos desandam para casa intermédia enquanto nós, os progenitores, durante o dia de amanhã, em turnos, encharcamos o sótão de xilófene. Depois sim, trancamos a casa e partimos. Foram 6 meses, em que todos os dias subimos as escadas durante as horas que nos iam sobrando. Depois, nos últimos dois meses, eu a deixá-los de manhã, com o briefing diário, e a substituí-los ao fim do dia, eles exaustos, eu também. Não chegava, disso nos íamos dando conta. Nas últimas 6 semanas fizemos uma investida total. Eles folgando com umas idas ao algarve, e voltando, reiniciando, progredindo dias a fio de lixadeiras na mão, nós agarrando todas as sobras dos dias.

Nos últimos dias (re)fizemos várias vezes o nosso plano. O objectivo era acabar com o trabalho árduo, deixar para o depois apenas as trinchas e algumas reconstruções que eu teria de fazer e, só depois, arrancar, largar tudo e estatelarmo-nos no descanso. Os setenta e dois tarolos que suportam o assentamento das telhas estão todos escovados a fio de aço, os madeiros que os escoram, um por um, lixados e polidos, o soalho todo ele remendado, enxertado e por fim afagado. Estes últimos dias passámo-los por inteiro, os quatro, lá enfiados no meio de nuvens de serrim, de dedos magoados e rios de suor. Nenhum lançou um lamento, nenhum deu mostras de ser o primeiro a pedir tréguas.

Hoje, na pausa do almoço propus novo ponto de situação. Faltam-nos ainda uns bons dois ou três dias. Há disponibilidade mas também muito cansaço e algum desalento por um trabalho sem fim. Mas nenhum deles, ainda assim, se propôs dar por concluído o que ainda não o fora. Fui eu que o fiz, que sugeri que ficássemos por aqui, por agora, eu, o mais obstinado, agora, o primeiro a ceder. Vamos parar e partir. O sótão pode não ter ainda ficado acabado até onde queríamos, mas o que nele já foi feito, com traves de afectos, cavilhas de orgulho e soalhos de admiração, faz dele mais nosso que qualquer metro quadrado de uma qualquer casa de família.

Pois sim, vou para férias, mas este blog vai escrevinhar retrospectivamente toda esta imensa experiência. Que é para coisas assim, de construir, mais do que as fotogénicas coisas acabadas que, afinal, importa guardar no álbum de família.


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