Monthly Archives: Março 2016

um medronho no alpendre

O carro rola agora vagarosamente deixando um rasto de pó que, sob a luminosidade da lua cheia, brilha numa nuvem fosforescente.

Quinze minutos antes estavam respaldados sobre a melhor vista do mundo. O socalco da quinta em primeiro plano, a fazer de balcão para diante, na distância mais larga o quadriculado das salinas agora transformadas em viveiros, depois a ria, a dividir-se em dois, e por trás dela a barra a abrir garganta pelo mar adentro. Terra e água pinceladas com o prateado daquela noite de lua cheia e o silêncio dos coaxares, assobios, sibilos e outros sons entrelaçados que só ali, na noite algarvia, longe do ruído das luzes dos aglomerados turísticos, acontecem assim.

Agora, à medida que avançam pelo vale, ziguezagueando por entre as esquinas rectas que definem os viveiros, de capota rebaixada, vão levemente tomando a noção que, ainda que sem gravidade desmesurada, se encaminham para um pequeno acto criminoso. E vão sorrindo, os dois, ainda que nem precisem de olhar um para o outro para saberem que partilham do mesmo estado de espírito. A noite é morna, tão morna como a languidez com que seguem caminho.

Da varanda de onde partiram, a coberto da pérgula e tendo por diante a noite e o mar, a conversa foi escorrendo horas a fio, sem trajectória, apenas acontecendo, sem os acanhamentos que por vezes nos condicionam e nos levam a quebrar o seu acontecer com receio de contradições ou confissões desmesuradas. Quando dois homens se sentam ali, naquelas noites, há mais de 30 anos, já nada disso faz sentido. As palavras lançam-se, soltam-se e volteiam para voltarem a cair e com elas se brinca e com elas se sorri. Quando dois homens se conhecem assim as palavras não têm dono, alguém as lança e quando caem são dos dois. Nem sempre isso é assim, a vida não é assim, mas naquela varanda, do fundo daqueles anos todos, naquelas noites de verão algarvio, entre eles, as coisas são sempre assim.

O João reduzia agora a velocidade, recomendava-lhe o Zé, para que a nuvem de pó pousasse e a presença deles se tornasse menos conspícua. Lentamente iam olhando em redor à medida que o carro avançava pelos dois trilhos lavrados pelos rodados dos tractores. Desconfiavam ter encontrado a leste o destino daquela incursão. Calmamente trocavam impressões: se aqueles dois focos e a distância entre eles, do alto dos postes, poderiam ser o seu alvo, ou se estariam a confundi-los com outros mais adiante. E nisto paravam, olhavam para trás, a procurar a varanda lá longe, do morro de onde tinham partido, para lhe tirarem a trajectória, a direcção e a distância que acordavam não haveria de ser menos que uns 3km.

Não saberiam certamente precisar como aquilo tinha começado. Às tantas a conversa levou-os ali, enquanto reabasteciam os copos com o delicioso medronho que só a quinta de Monchique produz no mundo. Um casual trocar de palavras, como aliás sempre acontecia, acabou por dar mote a uma nova linha de conversação que, sem que o pretendessem ou disso se importassem, acabou por estimular o que pouco tempo depois haveria de ganhar o volume de uma enorme indignação. Era já noite muito avançada, tanto que já só os dois tinham sobrevivido despertos, quando por fim um deles proferiu em jeito de remate: “que filhos da mãe! para que eram precisos aqueles holofotes enormes ali? já nem a ria se consegue ver!”

Eram aqueles, só poderiam ser aqueles. O João seguiu por diante com o carro, procurando encontrar sítio para inverter a marcha do carro naquela estreita azinhaga, que por prudência seria de ficar apontado por donde tinham vindo. O Zé lançou-se a caminhar ao longo da cerca, procurando-lhe uma falha. Com algum custo, pois que em nada era ajudado pela óbvia tropeguidão, lá descortinou uma zona mais expugnável, por onde se fez desaparecer para o interior da propriedade. Sabia exactamente onde se dirigir, embora se recomendasse de cautela, que local tão iluminado poderia bem ser vigiado ou até mesmo ter cães de guarda. A casinhota das máquinas era de betão, mas a porta estava descuidadamente aberta. Na parede do fundo avistou a instalação, depois encontrou a caixa de contactos e daí seguiu o caminho dos cabos cuidadosamente. Não havia razão para estragar mais do que aquilo que a placidez da ria obrigava. Uma coisa era um acto de sabotagem outro era vandalismo que não assentava bem a quem era pai de filhos.

Quando se voltaram a aninhar no alpendre, as pernas estendidas sobre o murete, o céu começava a ficar com os matizes eléctricos que aproximam a madrugada. Encheram mais um pequeno copo de medronho, lançaram a vista em frente, esticaram-na para um e outro lado. As salinas, a ria e o mar estavam formidáveis e em redor nada os incomodava. A noite tinha voltado a estar desaprisionada.  Sorriram, tilintaram os cálices, beberam um último trago e foram deitar-se.

do alpendre

Todas as noites, a seguir ao jantar, é no alpendre que a numerosa família se entrega às noites lânguidas e luminosas que só o Algarve sabe trazer. No esvoaçar da conversa, os mais novos, filhos e sobrinhos, comentavam entre si a lisura da noite e a sorte de com tanto empreendimento à volta ter a vista pela frente salva de entulho, cimento e luzes, no que a avó assentia, que pois que era uma sorte, que a quinta quase parecia ser um santuário da família. Os dois sorriram, concordaram e cada um à sua vez se despediu para a deita que a noite anterior tinha sido longa.

Nota do Autor: Esta história é ficcionada; Já não há medronho como aquele, nem nunca existirá alpendre que assim se vire ao mundo. Além disso ainda se admite que dois amigos se possam compreender o suficiente para usarem de meias palavras mesmo que para arquitectarem maliciosos estratagemas, mas é evidente que com quase 50 anos e bem formados nunca se meteriam em vilanagens e a saltar cercas.


o dia em que me roubei à minha mãe

Ontem passaram-se 11 dias desde aquela sexta-feira onde bebericava um vodka enquanto abria o envelope da TAC. E 10 dias se passaram depois da conversa em que, pausadamente, como quem conta uma narrativa,  falei primeiro com a Ana e depois com o Francisco e o Diogo. Senti-me forte por ver-lhes reacções tão serenas. Havia alguma falsa objectividade quando me assinalavam que o diagnóstico ainda não estava confirmado e que por enquanto eram opiniões médicas, porque era evidente que se escondia aí um sentimento de negação, mas ainda assim não deixavam de ter razão e eu dei-me por arrependido por não deixar correr esta história guardada dentro de mim por mais uns dias. Mas o que é certo é que a razão não sustenta o ímpeto das emoções e eles portaram-se como eu precisava.

Só que ontem as notícias eram mais confirmadas. Vários exames depois reforçavam as primeiras suspeitas, e estas a serem sustentadas na opinião de um fórum de especialistas, doutores da pneumologia à oncologia, a ciência a querer trazer-me à evidência, ainda sem convicções absolutas, que enfim, haverá ainda esta e aquela possibilidade. O medo do erro ou uma forma piedosa de fazer a verdade entrar lentamente na nossa vida?

Desde ontem já não senti que houvesse razão para o evitar mais. Melhor fazê-lo agora que arriscar que outros o fizessem por mim. E por isso ontem tive a conversa mais difícil da minha vida. Depois deste, outros dias virão, difíceis, muito difíceis, sei-o. Mas nenhum mais difícil que ontem. Nenhum como o de ontem, quando a fitei enquanto as palavras já treinadas me iam saindo da boca. No mundo infinito da natureza humana nenhum dia será mais difícil que esse, o de lhe ver um filho a morrer-se-lhe nos seus olhos.

30 Março

PS: Este post foi escrito na altura aqui datada e só agora publicado para ficar (propositadamente) nos meandros do blog. ( Como este muitos outros, durante 6 meses, foram escritos, talvez como processo de catarse, ficando a sua leitura em privado, só para mim). É pouco provável por isso que seja lido por alguém. Mas se isso acontecer quero que saiba que … passei de facto pela trajectória da morte mas quis o destino que a medicina se enganasse. Em resumo, continuo a ser habitáculo de imensas estrelinhas luminescentes, mas o que quer que isso seja já não aparente ser neoplásico e o que quer que isso seja não me vai deitar abaixo assim tão facilmente. Siga a carroça


km72

Há homens onde o descanso que lhes seria devido faria neles crescer a angústia da quietação até um dia se tornar insuportável. Por isso, hoje sei-o, um dia morreu. Tenho tanta certeza disso que quase o ouço dizer nas conversas cigarreadas, lá por onde andar:  “Sei que um dia eles perceberão que era assim que teria de ser. Não foi cedo. Foi dando mais tempo para um dia perceberem que já não precisarão de mim.”


25 anos a apanhar bolas e ainda não sei jogar futebol

É idiota ainda me surpreender quando a ouço dizer nos momentos mais inesperados que vai arranjar as unhas. Se eu, em stress, saio porta fora para ir beber uma cerveja, nem que seja na tasca ao lado. porque não haverá quem possa nessas circunstâncias decidir arranjar as unhas.

Quando chegar vou convidá-la para uma cerveja … até porque a alternativa contrária não é muito apetecível.


bloco de notas

Amanhã vou fazer contas à vida … e já vai atrasado!
Tenho talões de memórias espalhados por todo o lado e acertos a fazer com tanta gente …

comunicado editorial

Por motivos de força maior, ainda que temporários, informamos que este blog  passará a comunicar só para dentro.

Assim, a estimada audiência poderá notar um certo silêncio que mais não é que devido à inibição de leitura, ainda que aqui e ali, esparsamente, possam brotar as profilácticas leviandades do costume.

Por este transtorno pedimos desculpa ao perseverante visitante deste espaço.


ora se não era para ser igual que o tivesse dito …

A prateleira da casa de banho do Algarve lascou-se na zona de um dos suportes.

Preguiçoso para o resolver então, trago a travessa de vidro comigo para Lisboa. Tenho um vidraceiro mesmo por baixo de casa.

Uns dias mais tarde entrego-a ao Diogo e peço-lhe que vá até eles e peça uma nova com as mesmas medidas.

À noite, quando chego, pergunto-lhe por ela. “Está aqui” diz ele com ar de dever cumprido. E eu, que não, que “Essa foi a que te dei”. E ele a avançar, desmentindo-me orgulhosamente: “Parece não é?! ficou tão bem que nem se nota a diferença”. E perante a minha incredibilidade vai buscar a outra, a lascada.

De facto tinha sido um belo trabalho. O entalhe no vidro estava tão bem feito que quase não se percebia qual estava quebrada e qual ele tinha mandado fazer exactamente com a mesma parte estilhaçada… fiquei com duas prateleiras estragadas, mas uma delas estava perfeita.

E aprendi que da próxima vez, quando pedir alguma coisa, é melhor não ter pressa em sair de casa e ser mais claro (ou menos claro) nas minhas instruções.

[mais uma para juntar ao álbum de família]


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