Monthly Archives: Maio 2011

a besta

Comeu-me as letras primeiro, depois a vontade, a fome, o sono e por fim até já só o estar

… e deixou-me apenas este rasto de fúria que para nada me serve.


e já faltou mais!

no mar não está o chegar, mas o ir

… e vivem tristes os homens que não podem por ele partir.


rebobinado

 

As bobines espojavam-se pelo chão desarrumadamente e de dentro de algumas, semiabertas, derramavam-se em despenteio as películas filiformes. Olhava à sua volta ainda com a nova fita nas mãos e desalentado conferia uma e outra vez as datas, personagens e locais gravados nas tampas arredondadas de zinco, procurando-lhes lugar naquele enorme mar de histórias sem ordem que cobria todo o estúdio. Anos e anos transformados em desgrenhados cabelos de celulóide. Pontas de filme a mais para que um dia as ousasse juntar.

Todos os dias trazia um novo sketch cheio de personagens e argumentos que para ali atirava, sem mais uma vez se ver capaz de dar sentido à longa-metragem que há 48 anos tentava montar.

originalmente publicado (em 2005), aqui


são belas as palavras quando clamam pela verdade

ontem um grupo de cidadãos espanhois juntou-se na Puerta del Sol e redigiu este belo manifesto, do qual trago um pequeno excerto:

El  descrédito  de  la  política  ha  traído  consigo  un  secuestro de  las  palabras por   parte  de  quienes  detentan  el  poder. Debemos  recuperar  las  palabras,   resignificarlas  para  que  no se  manipule  con  el  lenguaje  con  la  finalidad  de  dejar   indefensa  a  la  ciudadanía  e  incapaz  de  una  acción cohesionada.


Uma tartaruga no tecto, outra debaixo do chão

Se alguma vantagem há nisto de levar a crónicas acontecimentos esparsos e irrelevantes do correr da minha vida será certamente a de mais tarde os poder re(a)ver, garantindo por isso que estes não correrão o risco, como tantas outras coisas passadas, de serem submergidos no difuso desta fraca memória que me vai empedrando.

Já se passaram quase 7 anos (acabo de registar que há quase 7 anos que emito estas coisas-de-coisa-nenhuma) sobre estes relatos na altura escritos em tempo real, de uma batalha entre dois admiráveis tipos de animais de sangue frio – as tartarugas … e eu.

Trago-os de novo para aqui por duas razões: a primeira porque quem me é próximo já os tem ouvido contar, embora em versão menos cuidada e assim poderá entender melhor o valor da minha façanha, a segunda porque neles se inscreve um genuíno e devido orgulho de caçador que, sem modéstia, pelo sangue-frio e o sagaz discernimento que empenhei nos incidentes, acabo por reconhecer em  mim.

Aviso ao leitor menos prevenido: são quatro episódios novelísticos demasiado longos – para o tempo que normalmente dispensamos à leitura on-line – de uma epopeia doméstica de valor duvidoso.

Índice (clicar até onde for a v. paciência)

1- quando os bichos me arranhavam os serões com arrepios riscados no tecto da sala

2- enquanto um outro me esgatanhava a paciência debaixo do chão da casa de banho

3- mas eis que a vitória surge, ou melhor, emerge, de um chão de madeira transformado em oceano

4- enquanto lá em cima, no sótão, se demonstra para que servem, quando devidamente manejadas, umas pinças da salada


a minha hermenêutica, ou qualquer coisa assim

A escrita faz-me bem.
Faz-me sentir mais tranquilo e resolvido .

O prozac também,
mas ataca-me muito o fígado.


para ti, com toda a minha força

Durante toda a vida desabotoei amizades. Eu que tão custosamente as junto em mim, incauta e irreflectidamente as deixei partir. E às amizades deve querer-se que elas aconteçam, e não que elas ‘desaconteçam’.

Uns deixei simplesmente que partissem, como navios na bruma, sem que nada fizesse contra isso. Indolente, deixei que as miudezas do dia-a-dia, os novos compromissos, as gravatas que passei a vestir, a minha pele de homem adulto, se esquecessem de os trazer comigo, se esquecessem também eles de mim. Alguns revejo incidentalmente e por lá ficam sempre promessas de um almoço, de um telefonema que não chegará a acontecer, porque as verdadeiras amizades, essas, não se retomam assim.

Outros, perdi-os mais violentamente e definitivamente. Assim me deixaram numa outra vida, uma vida sem eles, que tanto estranhei, em que me estranhei, mas a que me fui habituando de novo. Que fado este que os fez partir assim, como se me impusesse a espaços ter de recomeçar-me de novo, outra vez sozinho.

E poucas foram as verdadeiras amizades que juntei como homem adulto. Posso facilmente contar uma boa mão cheia delas, mas não tantas quanto aquelas que deixei desaparecer. Não deixa de ser estranho que um homem, à medida que vai crescendo, que vai conhecendo mais gente, acabe por ter menos amigos.

Ou não será tão estranho assim. A amizade que mantenho com eles já não é a mesma. Há um cultivo de anos e anos que a transcende, que lhe dá uma identidade própria, para além de mim  e essa é uma parte que implicitamente partilhamos. E cruza-se nisso tanta coisa, tanta coisa indizível, que já não podemos provavelmente falar de nós e deles, mas de nós neles, deles em nós.

E isso ocupa um enorme espaço.

Se calhar os amigos que deixámos de ter foram apenas o espaço que precisávamos ocupar hoje com os amigos que afinal mantemos. E provavelmente os amigos que ainda hoje temos já não são quem procurávamos quando precisávamos de ajuda.

São os que procuramos quando precisamos de nós.


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