Monthly Archives: Outubro 2012

da escrita implausível

O que mais devemos temer quando nos deixamos revelar nas palavras não são os significados que nelas deixamos, mas sim a razão que os outros fazem sobre as palavras que nunca escrevemos. Não é o que afirmamos que aos outros importa, mas sim o que calamos. Porque a leitura será sempre apenas um território de partida para a imagética de cada um e é lá, para além do concreto das palavras, que se formam os significados. E o mais inquietante disso é saber que em alguém, numa qualquer razão alheia, estamos a ser transformados numa fraude, sem possibilidade de o desdizermos.

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com fateixas no partir

Um dia vou partir. Mas partir mesmo, partir, apenas, ímpeto e gesto sem essas coisas do destino e da hora marcada. Largo-me sem me interrogar para onde vou nem quando irei chegar. O que verdadeiramente importa nas viagens, aquelas que deveras nos levam, é justamente esse primeiro passo, aquele que quase nunca se dá … porque num instante antes, abdicados, nos cedemos a perguntar, ‘mas para onde?’. E lá está, o inevitável lugar que se quer bem determinado, o horror de nos darmos em perdidos rodopiando sem mira nem nexo em cima de terra nenhuma. Ninguém parte verdadeiramente, ninguém o faz com liberdade, quando ainda no partir leva consigo esse irrefreável querer saber do chegar. E somos tantos, tanta gente a vagabundear mundo sem nunca sair de si.


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