Monthly Archives: Outubro 2011

a ‘fossilidade’

Neste exacto momento estou sentado à janela de um quarto, em Copenhaga, a preparar o segundo dia do meeting que aqui me trouxe. Estou por isso longíssimo deste espaço lúdico que há tantos anos já, em vetustez, vai sobrevivendo. E estou distante também do tempo e da dedicação que outrora lhe emprestava.  E tão alheado ando da existência deste blog que só assim se legitima a surpresa com que recebo um mail de uma leitora (que sempre o tratou com denotada e até excessiva simpatia),  e que nele me recorda e felicita com uns : “Parabéns pelo 7º aniversário daquele que nunca foi apenas mais um“.

Ainda encarapinhado no espanto da efeméride cá da casa acabo por me ir dando a reconhecer que é de facto uma desusada idade para este gaveto de palavras, que não fora o mote de assim se ir dando por arquivado, a pouco mais se poderia entregar em propósito. Depois, quase carinhosamente, lá lhe vou notando os sintomas da artrose, o silêncio cansado, indiferente, e aqui e ali um balbuciar das mesmas coisas de sempre, e já mais nada que não apenas algum passado, cada vez mais toscamente retratado. Fico a hesitar se escreva algo, esse algo mais das coisas de sempre para que já não me sinto motivado, pois que afinal o momento não deixa de celebrar esta orgia de palavras que durante tantos anos brotou daqui.

E enquanto me disputo nisto vou-me deixando navegar para o seu antigamente, até chegar à sua infância, exactamente ao primeiro dia, há sete anos atrás, e aí mergulhando no nascituro texto que pela primeira vez aqui deixei, por entre nervosos arrepios.  Reli-o. Tanta inocência e tanta presunção. Mas afinal a mesma que me trouxe até aqui, que me traz agora aqui. Mas não é isso, nesse já distante texto, que me surpreende, mas sim as palavras com que ele se prenuncia. Pois ao contrário do que seria suposto ser a sua declamação de nascença, é afinal da sua morte distante que nos fala.

Ora leiam-no e se conseguirem abstrair-se do seu tão cândido estilo poético e se entregarem a interpretar-lhe os significados, provavelmente considerarão, como eu, o quão estranho (até monstruoso) é ler algo que se inaugura, a declamar a morte perpétua, de forma tão exacta, que sete anos depois, agora, o veste.

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