Monthly Archives: Janeiro 2011

Acabem com os cortes no ordenado Já

Levar os poderes públicos a acabar com os cortes nos ordenados dos Portugueses e a substituirem-nos por medidas constitucionais de contenção de despesas públicas

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a têmpera (*)

Chega de mansinho e são tantas as vezes que já nem dou por ele. Antes disso levanto-me, volto a sentar-me, levanto-me de novo, agarro as chaves para sair para lado nenhum e retrocedo e volto a sentar-me, e nem assim, com este desassossego de vontades, o consigo espantar. Pouco depois, inestanca-velmente, a calma faz-se alarve. Num ápice vejo-me desguarnecido da minha gente que se dispersa pelas maiores distâncias que conseguem interpor de mim, que depois – irão constatar isso mesmo por entre olhares cúmplices entre si – vêm os vitupérios, que ora bolas, voltou, as veias inchadas de rebentar fúrias, a pele tingida de vermelho enrouquecido. E explodem estrídulos, e voam desrazões com que persigo desenfreado cada justificação que se me atrevam a dar, que não é de palavras que o mundo agora se constrói, é de sangue, é de frémitos, é da possessão irrefreável da cólera.

Depois tudo passa. Aos poucos o pó do silêncio começa a assentar e eles percebem que já podem voltar. Um após outro regressam às suas lides, que por ali se faz o jantar, aqui vê-se o fim de um programa juvenil e lá na sala de jantar volta a abrir-se o livro de estudo que havia caído no chão. Ninguém se preocupa em levantar uma interrogação, nem mesmo espreguiçar um comentário. Tudo volta ao que sempre foi, como se nunca tivesse acontecido. Na sala, junto à lareira, volta a recostar-se este meu corpo agora anémico, procurando aconchego em gestos lentos e escorregados, cansado num temperamento ressacado. Assim há-de permanecer, calmo, indolente, mais tarde até jovial.

Dias e dias passarão por ele, sossegando as carnes e amolecendo o espírito e a família seguirá a ordem dos tempos com normalidade, usando desta trégua até ao último minuto. Esse que depois virá, outra vez, sempre como da última vez, súbito e eu voltando a ser possuído dessa verve atroz e a vestir aquela pele traiçoeira que ainda agora se via vazada de tumulto. E morro eu assim tantas vezes nos meus afectos e tantas são, ainda assim, as vezes em que eles me sobrevivem, de novo, sempre mais uma vez, uma vez mais.

(*) Têmpera – Processo de aquecimento até à temperatura de austenização , seguido de um resfriamento brusco, normalmente em água.


releases

Andei outra vez a escarafunchar o blog. Hoje parei aqui, e acrescentei-lhe um rodapé.


e já que, mais uma vez, ele aí vem

 

O fim-de-semana

Uma ilha rodeada de tempo por todos os lados

         Onde dá à praia o náufrago dos dias inúteis”

Vasco Barreto in “A Memória Inventada” (*)

 

(*)    Sobre o “A Memória Inventada” nunca me cansarei referências reco-mendadas, pois para mim – e mesmo alguns anos após o seu encerramento – continua a ser um dos melhores blogues de sempre. Acresce como curiosidade, (para aqueles que aqui chegam trazidos por afinidades com a minha juventude) que o seu autor, o Vasco Barreto, é um olivalense de gema. Isso traz-nos a sorte de podermos ainda encontrar nos registos do blogue verdadeiras pérolas sobre as tardes de futebolada … no maracangalha, por exemplo. Basta que sigam a série de post’s que a isso diz respeito e que dá pelo nome de A Bola no Olival. Para os mais neófitos nestas coisas dos blogues recordo que, cronologicamente, um blogue se lê debaixo para cima e assim, se quiserem (devem) seguir a ordem natural dos episódios futebolísticos, deverão partir do primeiro post, no fundo do blogue. Deliciem-se (sei que ainda é muito para ler mas recordo que estamos quase a dar à praia daquela “ilha rodeada de tempo por todos os lados”, e melhor sítio não há para estas leituras).


propósitos e intenções, só enquanto o acaso dorme

Era um homem sisudo, metido consigo mesmo e pouco dado a grandes estertores públicos. Apesar disso – e mesmo que nem fazendo ideia das suas poupadas mas ainda assim elogiadas capacidades na escrita – resolveu um dia, já para mais de 6 anos, criar um blogue.

Desde então escreveu e escrevinhou, coleccionou e arquivou, rebateu e contradisse uma imensidão de textos seus, para mais de dois milhares. E foi tal a genica dessas elucubrações que se esse aparo com que enchia o espaço virtual tivesse espessura de tinta caligráfica certamente lhe daria para atestar páginas suficientes de um livro, este de dimensão até bastante honrosa. Mas nunca o fez, nem pretendeu fazer, pois que esta, dizia e repetia, nunca fora a sua intenção. A razão de manter um blogue encontrava-se subjugada a um único intuito e todas as exaltações por onde a sua escrita passou, afinal, tão só pretendiam fazer cumprir o mesmo:   que ela um dia o comentasse!

Passaram-se anos e os seus textos, ora mais empolgados ora mais desinteressados, conforme as marés da alma, continuaram a escrever-se quase sozinhos, escondendo sempre a secreta expectativa de que um dia, mesmo que remotamente, pudesse um vento do acaso trazer a uma das suas caixas de comentários uma, e ainda que breve, palavra dela. Contudo, nada, nunca. E os textos continuaram a escrever-se e o blogue, ainda que quase moribundo, continuou a desenrolar-se no éter da sua expectante idealidade e ele, já quase deslembrado do intuito inicial, continuou a cacarejar, ainda que cada vez mais sem nexo e espaçadamente.

Até que um dia, quase por mero acaso, acabou por esbarrar, finalmente, num comentário dela! Tudo assim se cumpriria, que consagração maior para a razão de tudo aquilo não haveria já de lhe calhar mais. Mas não, não quisera o destino premiar-lhe a diligência daquele propósito e ao invés, acabava assim por troçar dessa sua insolação da alma. Porque essas singelas palavras que tanto ansiara colher no seu blogue, afinal, foram por ele encontradas noutro, e por isso fazendo-se de outro o comentário que ela deixara. E nada mais lhe restou então, naquele dia – ainda que por defunção dos seus propósitos – que dar o blogue por cumprido e dele resguardar a sua chave.


os mortos e os fósforos

Algures em baixo meti um texto do Pedro Alvim de que gosto particularmente, diria, repetidamente, pois várias são as vezes em que ao longo dos anos o tenho saboreado. Conheço muito pouco dele. Sei que era poeta e jornalista no Diário de Lisboa na década de 60 e que já faleceu há uns anos. Também das suas obras sei quase nada, mas do que conheço gosto muito. Trago para aqui mais esta, uma crónica que muitos consideraram na altura ser das melhores coisas que se escreveram sobre as trágicas cheias de Novembro de 1967.  Para nossa delícia, apesar do tema.

Os mortos e os fósforos

o inverno de Trondhein

Ficam os lugares para um dia lhe juntar as notas que tomei sobre este povo que acho tão extraordinário.


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