Monthly Archives: Março 2010

há mais no facebook para além

dos youtubes, dos flickr e dos estados de alma poéticos …

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Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir! Sinta quem lê!

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«Isto», por Fernando Pessoa
 
 
(obrigado Kika! bem (re)pescado)

ladrões de mergulhos

 memórias dos olivais

(lembras-te João?)


repentes vérmicos

 

Chega de mansinho. São tantas as vezes que já nem dou por ele. Antes disso levanto-me, volto a sentar-me, levanto-me de novo, agarro nas chaves para sair para lado nenhum e retrocedo, e volto a sentar-me, e nem assim, com este desassossego de vontades, o consigo encarcerar. Depois, já irreparavelmente, a calma faz-se alarve. Num ápice vejo-me desguarnecido da minha gente que se dispersa pelas maiores distâncias que conseguem interpor de mim, que depois – irão constatar isso mesmo por entre olhares cúmplices entre si – vêm os vitupérios, que ora bolas, voltou, e as veias inchadas de rebentar fúrias, a pele tingida de vermelho enrouquecido. E rebentam estrídulos, e voam desrazões com que persigo desenfreado cada justificação que se me atrevam a dar, que não é de palavras que o mundo aqui se constrói, é de sangue, é de frémitos, é da possessão irrefreável da cólera. Depois tudo passa. Aos poucos o pó do silêncio começa a assentar e eles percebem que já podem voltar. Um após outro regressam às suas lides, que por ali se faz o jantar, aqui vê-se o fim de um programa juvenil e lá ao fundo na mesa de jantar volta-se a abrir o livro de estudo que havia caído no chão. Ninguém se preocupa em levantar uma interrogação, nem mesmo espreguiçar um comentário. Tudo volta ao que sempre foi, como se nunca tivesse acontecido.

Na sala, junto há lareira, volta a recostar-se este meu corpo agora anémico e desgrenhado, procurando aconchego em gestos lentos e escorregados, cansados num temperamento ressacado. Assim há-de permanecer agora, calmo, indolente, até (mais tarde) jovial. Dias e dias passarão por ele, sossegando as carnes e amolecendo o espírito e a família seguirá a ordem dos tempos com normalidade, usando desta trégua até ao último minuto. Esse que depois virá, outra vez, sempre como da última vez, de rompante e eu voltar a ser possuído dessa verve satânica e ver-me vestir aquela pele traiçoeira que ainda agora se via vazada de tumulto. E suicido-me assim tantas vezes nos meus afectos e tantas são, ainda assim, as vezes em que Eles me sobrevivem, de novo, (já quase inexplicavelmente), sempre mais uma vez, uma vez mais.


dos sinais de inteligência

 

«Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica. Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo própria. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.»

 

F. Pessoa – numa “crónica do tempo que passa”, de 1915


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