o muro não caiu, o muro não cairá

Em tempos deixei registo de um episódio de infância num blogue colectivo que partilhava esse tipo de nostalgias amealhadas nos Olivais. Logo saltaram a terreiro amigos mais incrédulos, querendo desmantelar-me as memórias que ali averbei: que tão pouco o muro, o adamastor dessas recordações, que nem tal edificação alguma vez existira.

Pois aqui deixo prova video – ao minuto 11:29, no prédio em primeiro plano, do seu lado direito, luminosamente branco e enorme, como enorme foi a minha façanha, eis o dito muro – essa empena existia, existe e existirá sempre, mesmo para além da história a que quiseram estorvar a verdade.

Que vos sirva de lição, que nunca mais atentem contra as recordações de uma criança sobrevividas à exaustão do tempo. Posso perder o tino do que fiz ontem ou não lembrar do que amanhã me compromete, mas no meu vasilhame da infância ninguém toca.


Jorge de Sena e de um encontro que fica marcado logo ao virar do primeiro parágrafo

Nota para tempos vindouros, onde a minha cada vez mais persistente amnésia (também) literária me agravará a escolha da leitura, esse saboroso mergulhar no mundo inventado dos outros que me é já tão raro e que, como tal, menos poderá consentir segundas oportunidades.

Desconheço como foi possível cruzar-me com o Jorge de Sena sem que pelo menos tenha guardado na memória este arrebatamento que agora sinto. Desconheço (ou deslembro-me) da maior parte da sua obra e sei que me atravesso (assim me dizem) numa das suas maiores realizações, mas sei também que há um rasto deixado na obra dos escritores de eleição que torna indelével e inexpugnável a qualidade da sua escrita. Não há acasos no que é sublime e por isso sei que não cometo o erro de um juízo arriscado.

Qualquer trecho, e poderia escolher qualquer um ao acaso, é tão completamente decantado dos fáceis ornamentos, tão cuidadosamente esculpido com palavras que, depois de lido, entranha-nos a sensação de nunca na literatura poder haver outra forma de escrever o que ali nos é trazido e induzido. Não tenho arte nem mérito para as pomposas elucubrações literárias, apenas sei o que sinto quando tenho a sorte de cruzar o génio literário, e por isso não me atrevo sequer a deitar à sorte um parágrafo, de uma qualquer página, dos Sinais de Fogo, acometendo-me ao pecado de o extrair da ‘terra’ onde o autor o semeou, mas recomendo a quem não conheça esta obra que o faça.

E desmascaro-me. Para que quereria eu registar algo que me é tão marcante se não para aos outros o fazer saber? Terei as minhas razões, é certo. Há momentos sublimes na literatura em que lamento não poder, nesse mesmo instante em que desfruto do que me contam, partilhá-lo com mais alguém. Mas porque não, num homem, se suficientemente vaidoso, ser-lhe permitido achar que, trazendo outros, encaminhando-os pelos caminhos da escrita que já cruzou e nisso sabendo que neles se derramam os mesmos sentimentos, que assim, de alguma forma, se encontrarão os dois? Como dois companheiros que se deitam debaixo da copa da mesma árvore, ainda que em modo diferido, com largos anos de distância, mas degustando da mesma ilusão. Se assim é, que importa a distância ou o tempo, se assim é, tudo é, e eu cá estarei.

Mas onde ia eu? Ah, Jorge de Sena. Haverá sempre espaço na minha estante dos predilectos para mais um. E este vai mesmo para aqui, entre o Eça e o Alexandre Herculano. Para quando um dia te apetecer … Diogo.


aos 50 já se sente na pele o desperdício do que não quisemos ser

Por isso, aos 50,  a tudo nos devemos o direito de nos permitir. Assim diz Saramago nas Suas Palavras:

Não mudaremos a vida se não mudamos de vida.

                                              Há que perder a paciência.”


da escrita cansada

A minha letra deixou de ser jovem. A maior parte da minha vida a desejar não ter aqueles arrebites infantis na ortografia e agora, olhando esta escrita escorrida, quase indecifrável, não consigo deixar de achar que se trata de uma linha esgarçada de cicatrizes. As madurezas da vida, coisas exaustas de se verem contadas, outras certamente por contar, o que for, de qualquer modo sei que por ali não vem mais o que me surpreenda. Há uma altura na vida em que deixamos de escrever o que imaginamos, para passarmos a contar o que nos aconteceu. De súbito, passamos de imaginistas a relatores. Não é mau, é apenas o que é. Mas é insuficiente para quem se habituou a viver soprando balões de imaginação.


Lousa,

Lousa: João, eu, Ana Teresa e Andreia

Lousa: João, eu, Ana Teresa e Andreia

Nessa altura acreditava que o mundo era pouco mais do que aquilo que ficava para além dos limites interditos do abrunhal da Lousa, que as pessoas se avizinhavam de forma natural e simples como quando me juntava para uma foto com os meus irmãos e que o desconforto era pouco mais que aquela ligeira brisa fresca trazida da serra que abafávamos ao vestir uma camisola mais grossa.

Depois o mundo tornou-se mais complexo, encheu-se de gente, nem todos gente, tudo se tornou incomensurável e indecifrável e o desconforto passou a ser algo que por vezes ia para além da epiderme e que não se resolvia com um agasalho. O fim da Lousa, quando por fim nela repousaram as memórias das (intermináveis) férias grandes da minha infância, coincidiu com tudo isso, uma cruel puberdade que nos foi abrindo o mundo, e onde as fotografias deixaram de ser capturadas a preto-e-branco por entre um intervalo da brincadeira.

Um local pode ser isso, o mundo antes de ser o que depois foi, hoje igual a tantos outros mas, ali, eternamente aprisionado na ilusão da nossa infância. Um local pode ser uma parte da nossa idade. Pode. É-o. Que somos nós se não isso, uma mistura ininteligível de partículas dos locais onde já fomos.


quando as praxes académicas não eram provas de acesso para os ‘fuzileiros’

Cada um dos três anfiteatros do Técnico, no pavilhão central, são salas austeras, carregadas com a patine das madeiras escuras envelhecidas e um palco a toda a largura onde o douto professor, dessa posição central, dissertará nas suas digressões matemáticas durante uma intensa hora de palestra. O edifício espartano do estado novo que as aquartela ajuda ainda mais à interiorização de um sentimento de reverência nos atemorizados caloiros, pouco preparados para lidar com espaços tão impregnados do simbolismo do saber, de um estatuto académico que ainda não tomam por seu, mas sobretudo carregando um humilde temor pelos anos e anos de estudo árduo que se avizinham.

Cerca de duas centenas de alunos, à hora exacta, ainda desconhecidos uns dos outros, não disfarçando o orgulho que trocam entre olhares, aguardam num silêncio quase surpreendente. Subitamente bate a porta, enorme, de madeiras maciças, com um estrondo que os pobres ferrolhos não conseguem atenuar. O professor, um indivíduo magro, nada vetusto, sem uma batina sequer e com gestos acanhados, avança para o palanque. Corre por instantes um incontido sussurro de espanto. Sem uma pausa sequer, rasga-se um rugido guinchado que inunda o anfiteatro; dois quadros enormes, ligados por arcaicos sistemas de roldanas, trocam-se num movimento vertical. O professor, sem uma palavra de acolhimento, vira-lhes as costas e numa azáfama solitária começa a escrevinhar rocambolescas equações diferenciais pelo enorme território de ardósia. Meia-hora depois, não disfarçando um pequeno arquejar de tédio, detém-se. Atrás dele espirais de giz cruzam em todos os sentidos um quadro gigantesco com mais de 8 metros de comprido.

“Quero acreditar que vós, os venturosos que aqui chegaram, todos conhecerão os lagrangeanos.” Não o dizia interrogativamente, aliás, não mostrava qualquer intenção de aquilatar a base de conhecimentos daquela assembleia de neófitos aprendizes. Era apenas o seu modo de resumir as centenas de equações, algumas das quais atravessando várias linhas do quadro, que nós, pobres calouros, ainda fazíamos por passar a limpo para os nossos cadernos até aí imaculados. Aguardou alguns segundos. Nada se ouviu da assembleia. Um silêncio profundo que ele aguardou com indiferença, para acabar por quebrar num lamento sussurrado, ainda que suficientemente audível, com um resignado e triste “cada vez me chegam piores”. Depois, alegando qualquer coisa como não poder pôr em causa o extenso e indispensável programa curricular para andar agora a fazer revisões de matéria que um aspirante a engenheiro já deveria acomodar na sua sólida bagagem de estudante, empurrou para cima, num movimento brusco e insuspeitavelmente enérgico, o pesado quadro que andara a escrevinhar. Novo estrondo, como que a dar o mote para virarmos mais uma página. Num ápice, o outro quadro enorme , num descer meio bamboleado, trocava-se e substituia o que antes estava por baixo.

A segunda metade da aula passou-se mais uma vez em silêncio. O Professor de costas, anotando, linha após linha, um rol interminável de bibliografia. Laboriosamente escrevia, de cor, o título da obra – na maior parte das vezes assustadoramente ininteligível – e o seu autor, recomendando, conforme se dava o caso, as edições e os anos mais aconselháveis. As mãos doíam-nos de tanto escrevinhar, a tinta saia-nos das canetas escorregadas em suor e os cadernos que aprontáramos para o semestre levavam já páginas e páginas lavradas de coisas atemorizantes. Concluído o rol, virou-se com gestos pausados e indiferentes para nós e pela primeira vez nos encarou, se é que o facto de simplesmente nos fitar de forma abstracta e enfastiada pode levar a este excesso de linguagem. Recomendava-nos que tomássemos conhecimento desta bibliografia, pois que sendo certo que não era matéria que integrasse o programa que viria a tratar nesta cadeira, não a recomendaria como estranha aos seus discentes, pelo menos para aqueles que pelo menos aspiravam poder acompanhar as suas aulas desde o início. E isto porque, o que ali fizera o favor de nos sugerir, era o que afinal qualquer candidato a licenciado àquela prestigiosa casa do saber, deveria trazer já no seu bagagem de conhecimento. No fim saiu, ao toque da campainha, com o mesmo rigor cronométrico com que entrara. Nem um olhar, nem uma hesitação, a aula havia terminado.

Só na semana seguinte, quando ainda mais minúsculos e atemorizados nos voltámos a sentar naquele anfiteatro, conhecemos o nosso verdadeiro professor. Esta foi a minha praxe. Não doeu, não me humilhou e ainda hoje a trago nas minhas memórias, tão bem ela representou os árduos anos e as personagens docentes com que haveria de privar na minha vida académica.


da inveja

 

eu se fosse poeta queria ser o José Gomes Ferreira.

é preciso um talento especial para ser capaz de dizer coisas lindas sem que pareçam um naperon de palavras

 


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