(des)legados

Reavivo um apontamento que aqui teria guardado poucos dias antes da minha avó partir – nunca chegou a fazer 102 anos - e acrescento-o com um novo parágrafo, neste tempo já tão para além da sua morte.

Quase 102 anos e sempre a vir ao de cima, com aquele fulgor de sobrevivência que é o instinto admirável dos centenários. Mas desta vez o ânimo que lhe vem das palavras já não corresponde ao que lhe vemos no corpo. Não era suposto que assim fosse, nunca foi assim. Ainda hoje, já adulto, continuava a acreditar que ela tinha a capacidade extraordinária de determinar a sua própria mortalidade, de enganar com o seu sorriso macio a própria condição efémera do corpo. Mas desta vez não, está mesmo indo, serena, terna, consciente, feliz, rainha da vida. Não há dor, mas há qualquer coisa da minha infância que me percorre de espanto: afinal, se ela parte, afinal também se morre. Há qualquer coisa que sobrava da minha infância que se tornou de repente uma mágoa inverosímel: afinal, se também ela parte, afinal também se morre. Afinal.

Tem de haver um sentido para um sentido que nunca antecipei. Será tudo isto uma espécie de caixa de almas de lotação limitada? Para onde vão aqueles que partem, de onde vêm aqueles que chegam? Pode haver nisto, neste passar de gente, também aqu,i a dimensão do infinito, ou estará a minha avó, nesse seu ir tão avelado, apenas a deixar-me uma vaga, um lugar que vai deixando para mim nesse espaço avançado da vida para onde a idade insiste em levar-me? Será isso, será isto, ela a ceder-me o lugar para, pouco-a-pouco, poder eu ir desembrulhando o que me oferece, e assim me ir desembrulhando agora eu no seu lugar, fazendo continuar a correr este fio do tempo?

Escrevinhei em tempos no voar do facebook que “na minha família os homens morrem cedo e as mulheres eternizam-se“. Fados diferentes esses que neles os fazia ávidos por se cumprirem no que lhes faltava e  a elas darem-se ternas nessa pequena eternidade que lhes bastava. Nesta pele que sinto por dentro tenho escrito o destino dos homens da minha família. Mas não herdei do homem de quem nasci a força de fazer gigante o tempo de que disponho, que era assim, fincado com os dois pés em tudo o que fazia da vida, engrossando-a, enquanto  ela, em cada dia, cada segundo, por ele avançava tão rápido.

Por isso, um dia, partirei sem nunca ter usado esse lugar da longa e terna velhice que a minha avó me deixou, e sem nunca ter aprendido com o meu pai que à vida que tem pressa se devem pedir contas todos os dias. Um dia, simplesmente, irei. Mas incompletamente.


paris texas

Há filmes que são indiscerníveis da sua banda sonora. Que me lembre (e este ainda recordá-los selectivamente é o destaque que os diferenciará), foram três ou quatro, todos mais lá para o lado da minha juventude. De todos comprei o album com a banda sonora, eu que era pouco dado a gastar dinheiro em vinilos.

Ouvi-o obsessivamente durante anos, a sós. Era o meu album de exercitação para alcançar aqueles momentos melancólicos que por razões que desconheço gostava de cultivar no final da minha adolescência. E tantas foram as vezes que acabei por estabelecer que no Paris Texas é a música que vemos e que o filme apenas existe para ajudar a olhá-la. Era uma música com carne, com vida, com feridas, tão fácil de tomar para nós que qualquer imagem (cinematográfica) que se lhe associasse, por mais extraordinária que fosse (e era), era apenas ornamental.

Vem isto a propósito da morte, ontem, de Harry Dean Stanton, o actor do filme, ou melhor, o figurante principal da sua melodia. Já o Ry Cooder, imortal, ainda por cá anda, tal como a nostalgia dos seus acordes permanece cavada em mim.


do onanismo da auto-citação

O silêncio, a ausência, a saudade, tudo o que vive calado, parece sempre maior quando olhamos demasiado para ele.


da mais trágica viagem marítima

Em boa hora deveria em mim ter acudido a suspeita, logo ali naquela primeira perna da viagem, de que nada de auspicioso nos havia sido confiado. Ainda a terra se lobrigava a estibordo e já se alevantava uma estridulosa lua redonda, prenha de luz de arranhar pálpebras, a impedir-me qualquer fugaz cochilar na escala que em sorte me calhara nessa primeira noite do marear. Como se agora, a natureza, só porque no mar nos acontece mais infinita, se arguisse do direito de reclamar dos prometimentos da boa segurança e demais propósitos da marinhagem. Pois assim nos lançámos, zarpando noite adentro, de olhos escorados por esse tão candente dejecto cósmico que, se por ali se lançava orbitado, mais não terá sido que com o propósito de nos contrariar um confortante dormitar ainda que por mais leve que fosse. Entretanto Lisboa ficou penumbra no jusante da luz e do vento e depois desapareceu, mais tarde foi a costa de Sesimbra quem se fez fio e já a Sines não a tocámos. Enquanto mergulhávamos no mar que levávamos por avante, a coberto desse luzir nocturno de amornar corpos e roubar almas, ai soubéssemos nós aí as agruras que este destino nos cozinhava e esta travessia nem riscada no mapa haveria ter sido ensaiada.

 largo sines

 

 

Gibraltar nunca deve ser contado. Não há homem com pejo de vergonha que não eleja ficar calado a confessar os açoites e tremores que aquele infundíbulo de terra escarpada nos inflige. Empurram-se ao vento e ao mar por aquele funil afora até não se cumprir no mundo mais que espuma e medo, que não há barco que não vire barcaça nem homem que não se amofine, que tal é o mar que se agiganta que o céu nos foge e a honra assim o segue pelas pernas abaixo. Passemos pois adiante, que outras escarpas mais decorosas se arranjarão para contar. Dobrávamos então o cabo das gatas, aprestando-nos para tomar dois dias de largo e brada da proa quem por lá aprumava cabos: que eram imensas as bestas marinhas que dali avistava, monstraria de mares nem contados, ilustrava ele em convulsões de terror. Pois pouco durou a zombaria com que escarnecíamos de tal fraquejo e se no riso se trazia alguma humidade logo ali na garganta se nos secou. Uma dezena, arriscava um, que não, que logo no través se contavam mais e mais, um grupo tão vasto que as suas barbatanas corcovadas mais pareciam o horizonte serpenteado da terra que deixáramos pela popa. Baleias. Aterrados tirámos vela na tentativa de amaciar o movimento, debalde, que ali se encurvava aquela multidão informe, qual exército que se aprestava agora a aproar a esta nossa frágil embarcação. Uma hora assim andámos torneados pela matilha, ou manada ou que quiserdes chamar a tão aterrador magote de cetáceos. Quando por fim, inusitadamente, nos deixaram partir sem que sequer tivessem ensaiado virar a barca, nem tão por menos abalroa-la, eramos uma tripulação taciturna, pois que não havia modo nem palavra que servisse à gente que ainda guardava em si o espanto de lhe ver concedida uma segunda existência e da vergonha do medo, de tão partilhada, decidimos calá-la entre nós e para todo o sempre.

baleotes1

 

 

baleotes2

 

Que por pior que nos seja vivido ou contado sabe um marinheiro que nunca deve cogitar que “para mais que isso já não haverá que temer”. A meio do segundo dia da travessia navegava este vosso desditoso narrador no turno que lhe cabia. Pela ré o breu da noite num azul tão escuro que o mar não se desligava do céu, enquanto pela proa um ténue encarniçamento dobrava a linha do horizonte. Subitamente a noite calou-se, o vento sumiu e um pasmo sinistro acercou-se da embarcação. Um esquisito céu, pela minha frente, começou a retorcer-se de tal modo que enquanto me fixava para me fazer acreditar de tal prodígio já ele se tinha revirado de noite em dia. E não fora o que então proveio e por ali me teria ficado estacado até que algum dos outros me encontrasse com esse dispor embalsamado. Mas o mais extraordinário haveria de advir. Primeiro um clarão enorme, depois uma linha de fogo rasgando-se, por fim, ronceiramente, uma enorme bola de fogo que emerge do fundo da terra, aonde o mar já não chega, que o digo eu por saúde destes olhos que a emborcaram, e o inferno, que outra coisa mais não teria esclarecimento, tomou conta do mundo. Nesse pasmar, o mar falecido, quieto, eterno e sobre ele a nossa embarcação em tumba transfigurada, enquanto um fogo infernal se engrandecia pelo céu afora, enquanto um mar de azeite lançava os seus braços de brilho tépido num vagar venenoso com que se fazia prestes a envolver-nos. Não sei precisar quanto tempo depois acudiu ao poço a restante tripulação, mas então o mundo voltara a ser aquele para o qual um dia houvéramos nascido. Não se contam monstros que não tenham corpo nem garras, nem se fala de infernos a quem nunca os contemplou e fiz-me sensato ao aceitar deles o juízo de ter cedido ao aconchego da alvorada e nisso me ter trazido a devaneios negligentes, pois que para ali havia sido designado não para outra coisa que não cuidar do nosso destino.

cabo das gatas

 

E tanto mar, tanta privação para aqui me concluir, a esta terra onde vim dar. Daqui nada vejo, que não há praia que se lance assim em pó tão alvo, nem mar com humor tão desmaiado que nem a mais ligeira correnteza ou vaga o baldeia. E se alguém ousar fazer-me acreditar que há na face da terra azul como este ou água tão cálida que nele nos termos ou dela sair não nos traz distinção, dir-lhe-ei apenas que volte por onde vim, que naufrague a alma no inferno da madrugada, que implore pela vida àquelas alimárias marinhas que peneiraram famintas ao nosso redor, que alcance as escarpas colossais que confundem o mar com o céu e quem de lá ainda assim saia com duração pois que tente ao corpo que certamente trará esfarrapado fazê-lo sobreviver ao luar da noite a riscar arrepios de sono nas pálpebras de quem carrega a aziaga sorte de tomar o destino da embarcação.

 formentera

 

Com bom conselho pois vos deixo então: ide por terra que para isso nos deram locomoção, arriscai pelo ar se a tanto vos levar a imaginação, mas a menos que arrisqueis mergulhar eternamente na demência ou pretendais cessar a vossa própria existência, não vos aventureis nunca por esse tenebroso mundo, que mais agigantado que o mar só o céu que lhe dá tecto e a amizade que se cose entre os homens com que por ele trilhamos. Sobra-me mar e ficam-me sempre aqueles com quem sobre ele padeci, que do resto nada mais valoroso haverá para contar.


delírios da pré-alvorada

grécia 2009Partir, mas partir a desimaginar portos, ancoradouros e tudo o que nos faça chegar, ir apenas, zarpar, vagabundear no sopro do vento, deitar borda fora a vontade, os horários e os planos no passar de uma vaga qualquer, adormecer no fio do horizonte e acordar com o rugir dos cabos, desinteressado do que virá a seguir, simplesmente partir, nem ir nem ficar, sem que importe seja verdade ou mentira, improvável, impossível ou inadmissível, largar todos esses ‘in’s engravatados na esteira revolta desse caminho de abrir mar, que só aí, verdadeiramente, quando o mundo nos engole e o tempo é uma distância adormecida e tudo o resto que era antes tão importante morre agora submerso na imensidão calada do mar, só aí encontramos a janela que nos deixa espreitar para dentro de nós.


o muro não caiu, o muro não cairá

Em tempos deixei registo de um episódio de infância num blogue colectivo que partilhava esse tipo de nostalgias amealhadas nos Olivais. Logo saltaram a terreiro amigos mais incrédulos, querendo desmantelar-me as memórias que ali averbei: que tão pouco o muro, o adamastor dessas recordações, que nem tal edificação alguma vez existira.

Pois aqui deixo prova video – ao minuto 11:29, no prédio em primeiro plano, do seu lado direito, luminosamente branco e enorme, como enorme foi a minha façanha, eis o dito muro – essa empena existia, existe e existirá sempre, mesmo para além da história a que quiseram estorvar a verdade.

Que vos sirva de lição, que nunca mais atentem contra as recordações de uma criança sobrevividas à exaustão do tempo. Posso perder o tino do que fiz ontem ou não lembrar do que amanhã me compromete, mas no meu vasilhame da infância ninguém toca.


Jorge de Sena e de um encontro que fica marcado logo ao virar do primeiro parágrafo

Nota para tempos vindouros, onde a minha cada vez mais persistente amnésia (também) literária me agravará a escolha da leitura, esse saboroso mergulhar no mundo inventado dos outros que me é já tão raro e que, como tal, menos poderá consentir segundas oportunidades.

Desconheço como foi possível cruzar-me com o Jorge de Sena sem que pelo menos tenha guardado na memória este arrebatamento que agora sinto. Desconheço (ou deslembro-me) da maior parte da sua obra e sei que me atravesso (assim me dizem) numa das suas maiores realizações, mas sei também que há um rasto deixado na obra dos escritores de eleição que torna indelével e inexpugnável a qualidade da sua escrita. Não há acasos no que é sublime e por isso sei que não cometo o erro de um juízo arriscado.

Qualquer trecho, e poderia escolher qualquer um ao acaso, é tão completamente decantado dos fáceis ornamentos, tão cuidadosamente esculpido com palavras que, depois de lido, entranha-nos a sensação de nunca na literatura poder haver outra forma de escrever o que ali nos é trazido e induzido. Não tenho arte nem mérito para as pomposas elucubrações literárias, apenas sei o que sinto quando tenho a sorte de cruzar o génio literário, e por isso não me atrevo sequer a deitar à sorte um parágrafo, de uma qualquer página, dos Sinais de Fogo, acometendo-me ao pecado de o extrair da ‘terra’ onde o autor o semeou, mas recomendo a quem não conheça esta obra que o faça.

E desmascaro-me. Para que quereria eu registar algo que me é tão marcante se não para aos outros o fazer saber? Terei as minhas razões, é certo. Há momentos sublimes na literatura em que lamento não poder, nesse mesmo instante em que desfruto do que me contam, partilhá-lo com mais alguém. Mas porque não, num homem, se suficientemente vaidoso, ser-lhe permitido achar que, trazendo outros, encaminhando-os pelos caminhos da escrita que já cruzou e nisso sabendo que neles se derramam os mesmos sentimentos, que assim, de alguma forma, se encontrarão os dois? Como dois companheiros que se deitam debaixo da copa da mesma árvore, ainda que em modo diferido, com largos anos de distância, mas degustando da mesma ilusão. Se assim é, que importa a distância ou o tempo, se assim é, tudo é, e eu cá estarei.

Mas onde ia eu? Ah, Jorge de Sena. Haverá sempre espaço na minha estante dos predilectos para mais um. E este vai mesmo para aqui, entre o Eça e o Alexandre Herculano. Para quando um dia te apetecer … Diogo.


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