A p e n a s + 1

até breve

… fui aos poucos descobrindo que, se as palavras nos contam, também sobre nós mentem. Que, se as palavras nos serenam, também desassossegam. Que, se as palavras nos impelem para ainda mais dentro de nós, assim mesmo também nos podem asfixiar. Que, se as palavras nos podem estimular, afinal, também conseguem enfastiar-nos profundamente …

 

… e mentem, mentem tão abusadamente que ao invés de as fazermos contar de nós, somos nós que nos fazemos contos delas. E assim, aos poucos, que este é um processo lento, osmótico, quase imperceptível, são elas que começam a fazer presumir que afinal nós, esses que as escrevem, somos já mera caneta nas mãos desse personagem que moldam de nós. E tornam-se carnívoras nessa invenção de nós que estraçalham e disformam sem pejo no instante seguinte, como se assim, corrompendo as nossas verdades, pudessem ser para além de nós.

 

E disso, de me ver assim menos que as palavras, amedrontado, hei-de fugir sempre, saltitando recomeços, uma e outra vez, tantas quantas forem necessárias para apagar indícios do que sei que não sou, e do que quero crer não ser apenas.