das intimidades às fatuidades de cada um

À autora acho-a descomedida, (cada um tem o seu registo e inventa o seu avatar da escrita como bem entender; não estou aqui a julgar quem está por trás dos textos, que não conheço de lado nenhum, mas sim o mote da escrita, a única coisa sobre a qual me é legítimo pronunciar), mas nunca resisti a manter-me espiolhando o que escreve, pois no meio desse desaforo todo vão brotando coisas com que concordo absolutamente, como esta!


acedia

a palavra é incomum, mas o seu significado (que aqui o JPT nos revela) é nos, infelizmente, demasiado comum.

além disso há o texto. um pequeno regalo.


Roma

Depois do almoço regresso ao hotel para matar as últimas horas. Em geral gosto de me lançar desvairadamente a calcorrear ruas e becos. Também aqui o fiz. São precisos mil dias para visitar Roma, dizem e eu, no cômputo geral, não terei mais de dez. Mas agora fico por aqui, a deixar o tempo aproximar o avião que me há-de levar.

Há cidades que não devem ser visitadas a sós.

 


o homem por metade

Tenho dois filhos apenas numa metade de mim. Na outra metade insisto julgar que lhes vou abrigando o futuro. E entretanto eles vão crescendo, eles já cresceram, sem tempo meu, tão ocupado a construir-lhes uma cabana na copa das árvores onde agora já nem têm idade para brincar. Tanto zelo. Tanto atraso. Tanto destino que vou perdendo nesta ilusão de lhes querer ir amaciando futuros.


… a chaleira já está cheia e o lume aceso

Este escrito sobre nós tem 69 anos:

“Pesa-nos a autoridade, atrofia-nos a disciplina, seduz-nos o hipercriticismo por motivos fúteis, parece-nos salutar entretenimento descartar homens e destruir governos.”

É-me inquietante reconhecer a sua actualidade, mas mais ainda concordar com o seu autor*, não por ter sido quem foi, mas pelo estado de contingência a que os juízos de então nos conduziram .

* que, para não induzir juízos prévios, oculto no separador debaixo

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depois de tanto (…),

como cheguei eu até aqui,

a este sítio onde não sei para onde vou?


da escuta

Nós, portugueses, não sabemos escutar. Em geral, quando argumentam, debatem ou apõem ideias, as pessoas não se olham nos olhos e por isso não escutam atitudes, não atentam às pausas e por isso não se apercebem dos ênfases e de caminho ignoram tudo aquilo para que não estiverem preparadas para escutar. Isto quer dizer que do que os outros dizem extraem apenas a parte do seu discurso, que por isso são incapazes de enriquecer e alargar o seu objecto de conversa, porque não estão susceptíveis a acrescentar o que quer que seja aos aspectos que trazem de si para ela. Depois debruçam-se sobre esses, interpõem razões num processo de argumentação que apenas pretende fazer retorno das suas razões, que apenas projectam nos outros para se fazerem sentir mais confiantes das suas opiniões prévias.

Em Portugal o processo de comunicação não serve para ampliar hipóteses e para melhorar ideias, é apenas uma guerrilha de palavras em que cada um tenta levar de vencida aquilo que sobre o assunto acha, deixando de fora o que de novo o outro possa acrescentar. O que deveria ser o mais promissor exercício de construção, ao qual dedicamos a maior parte do nosso tempo, afinal, nada mais é que um estéril momento de validação do que já achamos, ou seja, um espaço a dois que cada um habita sozinho. Porque nós portugueses não escutamos e pouco nos interessa o que os outros possam achar sobre coisas que nem pensámos ou às quais não damos importância. Isso quer dizer que passamos o dia a desperdiçar tempo e oportunidades, a desperdiçar aliados, enquanto robustecemos as nossas ideias até que estas se tornem impenetráveis – com isso julgando-as irrebatíveis – e a plantar clivagens que vamos atenuando com um sempre eterno: “mas sobre isso já nós tínhamos conversado”.

Nós portugueses não sabemos escutar. Quase sempre porque estamos demasiado ocupados a reclamar com alguém que não nos escuta.


subvivência ao almoço

Favas mirradas do tamanho de ervilhas! Até o clima se conjura para a pequenez que nos vai cercando.

Resta-nos a ilusão, essa ancestral crença de que melhores tempos virão. O futuro será sempre a incógnita que manusearemos para ir adiando a fenecimento do presente.


das notas soltas por compor

Há em todos nós uma pauta musical sobre a qual vamos suspendendo, por cada uma das suas cinco linhas, as nossas colcheias, semi-breves e claves de sol. Com cada uma dessas notas grafamos um momento, uma decisão, quem sabe até uma vitória importante que ousamos assinalar com a entrada vibrante de um clarinete. Ou talvez não.

As batidas e andamentos, qualquer métrica musical, são coisas para que raramente temos tempo. E a essa pauta carregamo-la tão desmazeladamente, tão sem ritmo e arte, que aquilo que deveria resultar na sinfonia da nossa vida - uma mesmo que breve composição das notas que fomos trauteando - sem compasso que as enquadre, sem andamento que lhes traga temperamento, sem adágios nem vivaces, resultará afinal numa tumultuosa e descompassada cacofonia.

As coisas, (inclusas as que mais nos orgulhamos), nada valem, só por si. Tal como as notas musicais, têm de ser aninhadas e entrelaçadas com esmero e pulsação, quando as queremos guardar em nós. De outro modo, tornam-se inaudíveis. E deixam de ser nossas.


a escrita escavada

Quase todos os poucos blogs que lia estão inactivos
Quase todos os livros que quero ler se amontoam
Quase todos os jornais que compro nem os abro
Quase todos os mails que rabisco retrocedem no envio
Quase todas as coisas que tinha para escrever se tornaram veladas
Quase todas as conversas que arrisco as interrompo
Até às hesitações as escondo e lhes tiro as vírgulas

Quase tudo em mim é já só eco de mim
O mundo mirrou até às fronteiras do que sou
Que fastio este, que território minúsculo
Onde nem se pode gritar
Com medo que nos caia a pele


do nem querer ser não ser

Mesmo assim, meio torto e velho, nem sou feio – mas não esse tão belo. E há qualidades em mim, que as há, mas tantas debilidades juntas também, nesse caldo do que sou, que – não, não há forma de me depurar numa qualquer espécie de criatura perfeita.

É certo que poderia tentar. Açaimava alguns defeitos e aos poucos transmudava-me para uma alma de pronto-a-vestir, coisa de vinco irrepreensível e humores afáveis.

Sim, provavelmente alcançaria ser mais belo e melhor, quem sabe até sem estas horriveis dores lombares que tanto me afligem. Mas, (e sempre este defeito, apenas mais um, de me interrogar com coisas de menor importância), com que morfina amansaria a dignidade deste aqui, deste que sou?


das imprevidentes artes da culinária

Pode-se chegar a uma casa grande e não encontrar ninguém. Há a música, uma garrafa de vinho que ficará por meio, há a escrita, o que for, há tanta coisa com que podemos brindar a nossa solidão. Mas o que eu nunca conseguirei superar é ter de comer a minha feijoada a sós.


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