já vão 53 dias … e a contar

E quando acho que não dá para mais, faço uma viagem a 2006, onde assentava num outro diário um carpir mais desfraldado, mais lancinante e desavergonhado. E quem diria que as suas leituras ainda me iriam ser tão uteis. Pois se aquele desgraçado sobreviveu, este, que hoje se faz o mesmo, a pisar as mesmas veredas da vontade, também o conseguirá. Por ‘esta’ altura, gemia então assim:

Cada hora é mais uma braçada cansada, lançada a custo, e cada dia o princípio de um plano inclinado que tenho repetidamente de subir. Combato uma ansiedade que nunca julguei poder existir. É uma guerra sem inimigos e cujos golpes se desferem dentro de mim. Uma contenda que se trava num território que julgava conhecer e do qual tiraria vantagem, mas que afinal está armadilhado. Aos poucos fui me refugiando no meu corpo, do meu corpo. Combato já só na metade que ainda sobrevive, a parte do meu corpo que agora irei habitar, a que resta e à qual me agarro desesperadamente. Mas, de inconcebível, é o meu próprio corpo que(m) me quer abater. E não é um espectáculo bonito de se ver …


Bruxelas

Nunca gostei de Bruxelas. É uma cidade amuada, sem tempo para as pessoas, justamente porque as pessoas não têm tempo para ela. Ou nela transita gente imersa num tempo ocioso, a fazer horas para um destino seguinte, gente num intervalo de espera curto demais para se dispor a conhecer a cidade numa etapa de passagem, ou então somos abalroados por uma mole de pessoas cinzentas em passo de guerra, afogueada para chegar a algum local cronométrico, que fará de importante e urgente a etapa seguinte para a qual, nos seus ares engravatados, se acharão de novo ansiosos e atrasados. Bruxelas é uma cidade forrada de pessoas que ali passam em trânsito e de outros, seus habitantes, que vivem apressados demais poder compreender as suas pausas - é uma cidade desabitada. Até a chuva é assim, nem trovoada nem tempo que se deixe seco por mais de duas horas. De lá, no espólio fotográfico, trago sempre as mesmas imagens, a Grand Place, essa ilusão do que foi, quando ainda era cidade.

Fotografia tirada num inevitável dia de chuva em Bruxelas - 2013

Fotografia tirada num inevitável dia de chuva em Bruxelas – 2013


Budapeste

O dia da partida ainda me deixou desentorpecer as pernas na parte da manhã. Apontei ao parque da cidade. Também aí, ainda que esparsas, as construções arquitectónicas não deixavam de surpreender. Esse foi o caso dos banhos públicos onde acabei por esbarrar. O frio (pouco mais que zero graus) e a curiosidade bastaram para me fazer entrar edifício adentro. Logo ali, pelas janelas altas do átrio de entrada, revelou-se-me então esta fabulosa imagem. O vapor levantando-se da água a 30ºC, emoldurado pelo belíssimo edifício de princípio de século, criava este maravilhoso ambiente diáfano, como se subitamente o mundo se tivesse transformado numa tela renascentista.

Banhos Públicos de Budapeste, Março de 2013 (fotografia não retocada)


adágios

O desalento não advém da perda da esperança,

mas sim do cansaço de ansiar por ela.


Da verdade alijada – Marinho Pinto

Chamem-lhe o que quiserem, populista, egocêntrico, desbragado. Para mim esse foi o tom mais eficaz para as suas palavras melhor ressoarem. O acomodado telespectador já só se ajeita na cadeira quando cheira a espectáculo e até nisso o seu som e tom categóricos são arma bem calibrada.

Falo do bastonário da ordem dos advogados. Desde o primeiro dia em que o ouvi que fui concordando em quase tudo o que dizia e sobretudo fui louvando a verdade, a frontalidade e a coragem das suas palavras, por mais que à minha volta se fosse escarnecendo sobre o seu exótico tom desbocado.

Nesta última quarta-feira desferiu um discurso (e digo bem, desferiu), na entrada do ano judicial em que cessará funções, com todas as vírgulas, fazendo jus à missão e à postura que escolheu para assumir esse cargo. Raras são as vezes que trago algo ‘de fora’ para aqui, no intuito de o registar para a posteridade. Faço-o hoje. Também em jeito de louvor a um homem sem ambiguidades e que usou sempre as palavras na forma crua e simples que veste a verdade. Deixo este impressionante discurso, do qual tive conhecimento através do Pedro Rolo Duarte. Presumo que muita gente neste país irá respirar de alívio quando o vir partir de vez. Até lá vão ter de o continuar a aturar, na forma desassombrada de sempre. Bravo Marinho Pinto!

Porque as ligações na net são caducas, transcrevo-o para a ‘eternidade’ deste blog, na íntegra. É longo, mas insisto que o leiam ou, se com pressa, que passem os olhos pela sua parte final, que destaco no texto que segue: Continue reading


das voltas da vida

Um após outro, ouço-os partir. Ontem um amigo, agora até família. Estes abalos para terras alheias a ganharem uma frequência cada vez mais inusitada e eu a deixar-me ficar, de sorriso desarrumado, confuso nisso de me ver sem eles mas ao mesmo tempo de os saber de novo com destino, a gizar equações.

Não deveria ter de ser assim. Por mais que já tenhamos vincado estas dobras da vida, nunca haveremos de estar preparados para as partidas, assim súbitas, a esburacar em nós lugares vazados. Era bom que não tivesse de ser assim, mas ainda bem que pode ser assim. Ver alguém partir para lugares estranhos, a lançar recomeços, não devia acontecer, mas ainda bem que neles há força para isso poder acontecer. Sei que irão na demanda de novas oportunidades, as que aqui lhes vão faltando. E também acho que sei, mesmo sem ter sentido esse arrepio nos meus ossos, o quanto essa atroz opção, ainda assim, é tão indispensável para o renascer de uma vida que por uma sorte macabra se foi esboroando até à desesperança.

Nos tempos que correm, no meio de tanta coisa que não nos devia estar a acontecer, esta é talvez das que mais mexe comigo. Por um lado a sentir-lhes a ilusão, o vigor e a coragem de os ver agarrar o destino pelos cornos, por outro lado, eu, carpindo desalentos, a ficar, a deixar-me ficar, a fazer parte deste país que os desdenha.

Hoje li uma citação num facebook amigo que dizia assim:

De um ponto de vista social, a emigração portuguesa constitui a manifestação de uma forma de escravatura que subsiste ainda hoje. De um ponto de vista ético, a emigração portuguesa significa a negação constante do direito mais elementar da pessoa: o direito à vida no próprio país. De um ponto de vista político, a emigração portuguesa supõe a renúncia à revolta

 José Rentes de Carvalho, in Portugal, a flor e a foice – Novembro’75

É tão absurdamente verdade isto!

Aos meus amigos que vejo partir, desejo-lhes melhor sorte do que esta minha, a da “renúncia à revolta”. E eles que me desculpem por isso


da idade e de mais alguém que se junta em mim

Também eu, como tu, senti de forma irreparável a perda do meu pai. Como tu, presumo, também a minha vida deixou de ser a de sempre para passar a ser outra, a minha vida sem ele. E também eu, como tu, depois de o ver partir, voltei a perder um grande amigo, por uma e outra vez e por mais outras tantas que já não quis contar. E mais uma vez a minha vida voltou a não mais ser a mesma. A vida que nos vai restando vai ficando esburacada deles. Não das suas memórias, mas das suas presenças, como se só agora percebêssemos que - sem um ocasional convite para jantar, um conselho num entre-conversas, uma gargalhada arrastada ou um súbito silêncio desses que não nos trazem incómodo - nos arriscamos a peregrinar mais dentro de nós, sem sentido e direcção. Sabes quando mais os sinto? Quando algo de bom me acontece, quando algo de bom eu faço e sem poder ver neles o orgulho de mim. Sim, no fundo sentir a perda deles é este mero acto de egoísmo vaidoso, esse de sabermos que aquilo que somos e as façanhas que juntamos já não nos sabem tão bem nem nos fazem parecer tão grandes sem os seus olhos brilhantes a falarem de nós.

Depois resignamo-nos a viver assim e aos poucos substituímo-los dentro de nós. Não as suas memórias, nem as suas vozes, nem esses laivos dos seus gestos que nos aparecem a partir de breves coincidências, mas esse ver-nos no que neles gostávamos de ver de nós, essa outra forma de nos amarmos a nós próprios, que antes, com eles, nunca tínhamos precisado. Cresce-se assim? É crescer isto? Envelhecer? Não sei. Nada sei sobre este ficar privado de alguém, porque cada vez que isso me acontece sinto-o como da primeira vez. Umas superam-se melhor, as outras obrigam-nos a ser mais fortes, mas nenhuma nos prepara para a que vier a seguir.

Não sei escrever nada disto, deste tudo que esse nada tanto significa. Sei que comigo é assim, como creio que contigo também o é, como em todos será. E sei também, sinto-o no meio desta tanta ausência, que mais do que as palavras que não me conseguem explicar, há uma espécie de conforto por entrever-te aí, lá na distância da tua mágoa que assim partilhada parece mais curta. No fundo nem importa que tenhamos de explicar essas ausências, mas sim que nos saibamos ainda à distância um do outro. Importa sim que ainda possamos estar… mesmo que agora já sejas um deles.

Pois, agora fazes também parte de mim. Ainda ontem falavamos sobre este lugar, em conversa corrida, e tu levavas-nos avante sem vírgulas nem hesitações, enquanto eu te tentava seguir e compreender. Agora, quem sabe, ouso pensar que estavas apenas a arrumar um espaço neste futuro a que já não pertences, um sítio em mim onde pudesses pernoitar, algures neste meio século de mim que agora nos irá juntar. Sei agora, vou sabendo, que o envelhecimento não advem dos anos que passam por nós. Ninguem se cansa de envelhecer, o que vamos é andando mais afadigados com aqueles que vamos carregando dentro de nós. Mas acomoda-te algures aí, aqui, perto dos outros, que eu ainda vou continuar por cá mais um pouco.

Aquele abraço


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