Também eu, como tu, senti de forma irreparável a perda do meu pai. Como tu, presumo, também a minha vida deixou de ser a de sempre para passar a ser outra, a minha vida sem ele. E também eu, como tu, depois de o ver partir, voltei a perder um grande amigo, por uma e outra vez e por mais outras tantas que já não quis contar. E mais uma vez a minha vida voltou a não mais ser a mesma. A vida que nos vai restando vai ficando esburacada deles. Não das suas memórias, mas das suas presenças, como se só agora percebêssemos que - sem um ocasional convite para jantar, um conselho num entre-conversas, uma gargalhada arrastada ou um súbito silêncio desses que não nos trazem incómodo - nos arriscamos a peregrinar mais dentro de nós, sem sentido e direcção. Sabes quando mais os sinto? Quando algo de bom me acontece, quando algo de bom eu faço e sem poder ver neles o orgulho de mim. Sim, no fundo sentir a perda deles é este mero acto de egoísmo vaidoso, esse de sabermos que aquilo que somos e as façanhas que juntamos já não nos sabem tão bem nem nos fazem parecer tão grandes sem os seus olhos brilhantes a falarem de nós.
Depois resignamo-nos a viver assim e aos poucos substituímo-los dentro de nós. Não as suas memórias, nem as suas vozes, nem esses laivos dos seus gestos que nos aparecem a partir de breves coincidências, mas esse ver-nos no que neles gostávamos de ver de nós, essa outra forma de nos amarmos a nós próprios, que antes, com eles, nunca tínhamos precisado. Cresce-se assim? É crescer isto? Envelhecer? Não sei. Nada sei sobre este ficar privado de alguém, porque cada vez que isso me acontece sinto-o como da primeira vez. Umas superam-se melhor, as outras obrigam-nos a ser mais fortes, mas nenhuma nos prepara para a que vier a seguir.
Não sei escrever nada disto, deste tudo que esse nada tanto significa. Sei que comigo é assim, como creio que contigo também o é, como em todos será. E sei também, sinto-o no meio desta tanta ausência, que mais do que as palavras que não me conseguem explicar, há uma espécie de conforto por entrever-te aí, lá na distância da tua mágoa que assim partilhada parece mais curta. No fundo nem importa que tenhamos de explicar essas ausências, mas sim que nos saibamos ainda à distância um do outro. Importa sim que ainda possamos estar… mesmo que agora já sejas um deles.
Pois, agora fazes também parte de mim. Ainda ontem falavamos sobre este lugar, em conversa corrida, e tu levavas-nos avante sem vírgulas nem hesitações, enquanto eu te tentava seguir e compreender. Agora, quem sabe, ouso pensar que estavas apenas a arrumar um espaço neste futuro a que já não pertences, um sítio em mim onde pudesses pernoitar, algures neste meio século de mim que agora nos irá juntar. Sei agora, vou sabendo, que o envelhecimento não advem dos anos que passam por nós. Ninguem se cansa de envelhecer, o que vamos é andando mais afadigados com aqueles que vamos carregando dentro de nós. Mas acomoda-te algures aí, aqui, perto dos outros, que eu ainda vou continuar por cá mais um pouco.
Aquele abraço