das coisas da natureza que a natureza do homem não percebe

Os vícios dos tempos que correm empurram-nos facilmente para gritar culpas ao homem do lado, seja ele o vizinho ou o presidente da câmara de Lisboa. Que as terão certamente, culpa disto ou daquilo, em parte ou no todo. Mas esse mote de acusação, remete-nos sempre para uma culpa coetânea, um acontecimento presente, uma perda de profundidade crítica. Servirá para discutir e acusar a política certamente, essa política mesquinha dos dias que correm que apenas se debruça sobre o que corre nos dias.

Mas no caso das feridas que a natureza nos mostra, quando ela uma e outra vez rasga vontades pela terra adentro, choca-me ver-nos entretidos nesta dança do costume, tão ensurdecidos pelo barulho destes vozeares que nem nos detemos sequer a auscultá-la, com a distância e a reverência que ela nos merece, esse berço de cada um de nós, do nosso bairro, da nossa cidade, mas também do nosso mundo, e do de todos os nossos antepassados que por cá passaram e de mais aqueles que queiramos nós ainda nele hão-de nascer. Não sermos capazes de compreender e respeitar a natureza, entretidos nesta nossa arroganciazinha de ditar sermões políticos e outros ditames, daqui desta nossa caixinha minúscula de tempo onde cabe a nossa vida, faz-nos tão insignificantes e incompetentes quanto a proporção do tempo geológico tem sobre a nossa efémera condição mortal.

E posto isto, deixo aqui uma foto:

marquês

Sabeis o que retrata? Exactamente, o Marquês de Pombal e, por trás, a zona que virá a ser o Parque Eduardo VII. Agora notem, há um lago, um lago tão grande que até barcos à vela nele aportavam. Isto era assim nos anos 30 (?) do século passado, algo que certamente os nossos avós nos poderiam contar. Para onde foi essa água? Não é preciso ser um especialista em hidrografia para perceber que a Av. da Liberdade já foi leito de um rio que corria entre duas colinas e que certamente desaguaria no Terreiro do Paço, e que o mesmo se passaria na Av. Ceuta que tinha em Alcântara o seu desaguar. Claro que a natureza terá mudado de vontade aqui e ali mas o resto fomos nós a mudar-lhe a vontade. Lembro-me do meu pai contar que na Av. da Liberdade haviam prédios com bombas na cave a bombear continuamente. A água que não vemos hoje, a água que retirámos, envergonhada de ser impedida na sua natureza, escondeu-se, debaixo de terra. E o que fizemos nós, agora que já podíamos construir os nossos caixotes de cimento sobre os leitos que lhe conquistámos. Criámos diques subterrâneos. As entranhas dos edifícios com que rasgámos terra adentro, as cofragens dos parques de estacionamento subterrâneos, a impermeabilização dos solos com camadas sobre camadas de alcatrão e cimento, lá fomos assim erigindo obreiramente muralhas debaixo da terra, para que nem aí a água se fizesse livre. Mas a água que de algum lado virá para algum lado terá de ir, pois essa é a lei da natureza que aparentemente nos achamos capazes de contrariar.

Quando vejo o tipo de reacções a estas recentes inundações extenuarem-se nas habituais acusações sobre a obra que não foi feita ou que foi mal feita é como se estivesse a olhar de cima para uma manifestação de formigas afadigadas a discutirem trilhos, enquanto um tronco de embondeiro, indiferente, lhes está prestes a cair em cima, tão distantes estamos já desta terra que nos acolhe. Lembro-me que há uns meses, na TV, eram então as trágicas reportagens sobre a costa que o maldito mar levara, e em directo, enquanto se viam ao fundo camiões a despejarem milhares e milhares de euros de areia nas praias, era entrevistado em primeiro plano um pescador que lá ia dizendo que aquilo era gente que não percebia do mar, pois que “o que o mar quer o mar leva e traz”. Mas não me pareceu que o entrevistador estivesse sequer atento às suas palavras simples, ele ali como um ornamento exótico do plano de fundo onde os ridículos camiões espojavam os seus baldes de terra, obstinados em julgar que a natureza é coisa que também se pode ‘arranjar’, enquanto o mar, compadecido, do longe do horizonte, sorria.


de quem eu digo que sou

Somos feitos de fragmentos que disparam em todas as direcções, pequenos estilhaços do nosso comportamento, ainda que depois teimemos em os alisar numa agradável ilusão de personalidade. De nós partem muitas latitudes mas, como sempre, teimamos em achar que caminhamos numa única (e honesta) direcção. Não há em nós o bem ou o mal – há o bem e o mal. O resto somos nós a fingir-nos de nós.

É por isso que nos é mais fácil achar sobre os outros, porque deles apenas reunimos os fragmentos do que são, olhando-os interrompidamente, sem essa ilusão virtuosa que armamos dentro de nós para não nos sentirmos insustentavelmente disformes. Neles julgamos comportamentos, em nós justificamos caracteres. É desigual.

Há quase 10 anos ensaiei exactamente isso, pintar-me com fragmentos muito antigos, da quase infância. Pequenos episódios avulsos entre a honra e a vergonha. Experimentei-o aqui:

#1

Repartíamos o orgulho de termos tirado a melhor nota no exame nacional. Nada mais nos unia. Ele deslocado do Douro interior e em vias de voltar para ajudar o pai nas vindimas, eu apenas num intervalo da vida aburguesada da cidade. Estendia a oportunidade, sugerindo que ainda assim se demoraria mais dois dias pela capital, que mal conhecia e que bem podíamos … quando me pediu o telefone pensei que não tinha nenhum sentido que nos viéssemos a encontrar, mas não lho disse. Nem o incómodo de lhe dizer isso, com a sinceridade possível, lhe concedi. Dei-lhe o primeiro número que me veio à cabeça.

#2

Na frente corríamos todos que nem loucos. Quando o vi atrasar-se, com um corpinho ainda mais miúdo que o meu e começar a ser envolvido por aquela multidão furiosa estaquei o passo e fiz-me ao seu lado. Ainda alteei a voz enquanto o escondia por trás das minhas costas … depois levei uma paulada na cabeça e passei a gozar da fama dessa ousadia.

#3

Por duas vezes me perguntou se aquela revista ordinária que estava caída no quintal era minha. Por duas vezes lhe disse que não. E avançava que tal descuido e com irmãs mais novas por ali sempre a brincar … mas eu mantinha que não. Sabia as páginas quase de cor. Nunca me ocorrera que pudesse rebolar do telhado para onde a tinha atirado. Por duas vezes me perguntou e por duas vezes o neguei. Neguei-me. A fúria da minha sexualidade adolescente tornou-se então uma prática obscura a que eu me condenei.

#4

Escutava no quarto ao lado o zurzir das chineladas. Ainda me corriam as lágrimas da biqueirada que ele me enfiara nas costas. Tudo começara como sempre, ele a fazer-se de irmão mais velho e eu a negar-lhe o estatuto. Ouvia-o agora em choros aflitos, ali ao lado e ainda me ocorreu intervir, dizer que a culpa também era minha. Em vez disso deixei-me ficar, consolado, com um sorriso traidor.

#5

Quando jovem tive um barco à vela. Aparelhei-o e desaparelhei-o vezes sem conta. Numas ainda zarpei, noutras fiquei a olhar o mar e fingi ter perdido a palamenta.

Vermo-nos em pequenos fotogramas, sem os alisar e retocar, é um exercício duro. O mesmo exercício que praticamos (destinamos) tantas vezes aos outros.


do outono e dos arrepios da vida

Um destes dias volto a afrontar a caneta, mesmo que dela nada se queira brotar. Emudecer é um aparente sentimento outonal, uma meia estação, um estado gracioso entre coisa nenhuma onde apenas nos sentimos bem. Mas as folhas não se suspendem na eternidade ao cair, o céu não se traça pelo ano inteiro com abertas de sol enfeitadas com arco-íris, os pássaros não chilreiam melodias no inverno. Assim também nós não calamos para sempre, porque nunca, nada, teremos para dizer. Esse nada-fazer nada-mudar é um estado transitivo que se pode transformar num ardiloso lugar que nos aprisionará docemente numa interminável permanência. Entretanto inexistimos, de braços gonzos e sorriso indolente, num sempre que nos amarra vontades.

Ai a vontade, essa puta preguiçosa, como se nos pudesse fazer saciar apenas no desfrute do prazer. Como se algo a pudesse qualificar que não apenas a cósmica razão de nos fazer sentir vivos, seja isso bom ou mau, ou que doa. Não há prazer na genuína vontade, mas apenas a vontade de ser homem. Poderia ser sempre assim, nessa tranquilidade de ouvir passarinhos, porque o outono (das emoções) é obscenamente jovial, é ser sem ter de ser, é o deleite sem que nada por ele tenhamos de remunerar, como se, o sentirmo-nos bem, enquanto estado de alma ascendendo à eternidade, fosse algo que quiséssemos habitar sem contraposto, e sem carne. E tantas vezes, tantos de nós, fingimos nele a nossa longevidade sem dele nos tentarmos a sair, assim, desistidos, levando-nos a habitar um outono bucólico como se um intervalo de coisa nenhuma, sem nós, sem nada, sem coisa alguma que nos importe ou incomode.

Que venha o inverno, e o verão, e todas as estações que dentro de nós trazem a exaltação, o desconforto, o desafio e a superação, essa complexa amálgama de humanidade que nos grita que risquemos, com arrepios de vida, na cal branca, “eu passei por aqui … mas já cá não estou”.

(nota-se muito que tenho andado a estucar paredes?)


Caramba,

há 4 anos já era velho !

E pior ainda, já exercitava esta mania requebrada de andar a bajular-me de que essa condição vetusta me trazia a melhor parte.

Porque raio não envelheço … calado.


(des)legados

Reavivo um apontamento que não cheguei a publicar e que aqui teria guardado poucos dias antes da minha avó partir – nunca chegou a fazer 102 anos – e acrescento-o com um novo parágrafo, neste tempo já tão para além da sua morte.

Quase 102 anos e sempre a vir ao de cima, com aquele fulgor de sobrevivência que é o instinto admirável dos centenários. Mas desta vez o ânimo que lhe vem das palavras já não corresponde ao que lhe vemos no corpo. Não era suposto que assim fosse, nunca foi assim. Ainda hoje, já adulto, continuava a acreditar que ela tinha a capacidade extraordinária de determinar a sua própria mortalidade, de enganar com o seu sorriso macio a própria condição efémera do corpo. Mas desta vez não, está mesmo indo, serena, terna, consciente, feliz, rainha da vida. Não há dor, mas há qualquer coisa da minha infância que me percorre de espanto: afinal, se ela parte, afinal também se morre. Há qualquer coisa que sobrava da minha infância que se tornou de repente uma mágoa inverosímel: afinal, se também ela parte, afinal também se morre. Afinal.

Tem de haver um sentido para um sentido que nunca antecipei. Será tudo isto uma espécie de caixa de almas com lotação limitada? Para onde vão aqueles que partem, de onde vêm aqueles que chegam? Pode haver nisto, nesta torrente de gente, também aqui a dimensão do infinito, ou estará a minha avó, nesse seu ir tão avelado, apenas a deixar-me uma vaga, um lugar que me vai cedendo nesse espaço avançado da vida para onde a idade insiste em levar-me? Será isso, será isto, ela a libertar o seu lugar para eu, pouco-a-pouco, poder eu ir desembrulhando o que me oferece, e assim me ir desembrulhando, agora eu, correndo sobre este fio do tempo que é a vida que me falta?

Escrevinhei em tempos no voar do facebook que “na minha família os homens morrem cedo e as mulheres eternizam-se“. Fados diferentes esses que neles os fazia ávidos para se cumprirem no que lhes faltava e  a elas darem-se ternas nessa pequena eternidade que lhes bastava. Nesta pele que sinto por dentro tenho escrito o destino dos homens da minha família. Mas não herdei do homem de quem nasci a força de fazer gigante o tempo de que disponho, que é assim que o recordo, fincado com os dois pés em tudo o que fazia da vida, engrossando-a, enquanto  ela, em cada dia, cada segundo, por ele avançava tão rápido.

Por isso, um dia, partirei sem nunca ter usado esse lugar da longa e terna velhice que a minha avó me deixou, e sem nunca ter aprendido com o meu pai que à vida que tem pressa se devem pedir contas todos os dias. Um dia, simplesmente, irei. Mas incompletamente.


paris texas

Há filmes que são indiscerníveis da sua banda sonora. Que me lembre (e este ainda recordá-los selectivamente é o destaque que os diferenciará), foram três ou quatro, todos mais lá para o lado da minha juventude. De todos comprei o album com a banda sonora, eu que era pouco dado a gastar dinheiro em vinilos.

Ouvi-o obsessivamente durante anos, a sós. Era o meu album de exercitação para alcançar aqueles momentos melancólicos que por razões que desconheço gostava de cultivar no final da minha adolescência. E tantas foram as vezes que acabei por estabelecer que no Paris Texas é a música que vemos e que o filme apenas existe para ajudar a olhá-la. Era uma música com carne, com vida, com feridas, tão fácil de tomar para nós que qualquer imagem (cinematográfica) que se lhe associasse, por mais extraordinária que fosse (e era), era apenas ornamental.

Vem isto a propósito da morte, ontem, de Harry Dean Stanton, o actor do filme, ou melhor, o figurante principal da sua melodia. Já o Ry Cooder, imortal, ainda por cá anda, tal como a nostalgia dos seus acordes permanece cavada em mim.

Post-Scriptum de 15 de Julho: No ‘recato’ do facebook chama-me a atenção o meu amigo Duarte para a indesculpável omissão à Nastassja Kinski. Aproveito para esclarecer que não só não está omissa como sobre ela recai o meu arquejo final do texto, onde, de modo recatado, suspiro pela … “nostalgia dos seus acordes”


do onanismo da auto-citação

O silêncio, a ausência, a saudade, tudo o que vive calado, parece sempre maior quando olhamos demasiado para ele.


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