(quase) como os heróis da tv

Ontem, já tarde, combatia o sono perante um filme épico passado no deserto. Preenchia-se de belíssimos episódios de guerra através dos quais se ia destapando um personagem que num percalço de fraqueza tinha acabado por tomar uma opção cobarde. O argumento desenrolava-se então, a partir daí, nessa receita de ir arrolando um sem-número de actos virtuosos, à custa dos quais, o nosso herói, à laia de remição, ia tentando apaziguar essa memória que o perseguia.
Poucos pormenores retenho do filme mas ficou-me a cogitação da altura na qual concluía que, quase sempre, quase todos nós, funcionamos ao contrário desse herói da tv: que a nós nos basta um acto de coragem uma vez na vida para passarmos o resto dela persistindo em pequenos gestos sub-reptícios de cobardia, como se, desleixados, desde então sobre nós já nos achássemos bastante.
Mas convenhamos, acrescento agora, que ser herói é também isso, não o ser, nem o querer parecer, que ser herói pode também ser só essa capacidade decadente de aceitar ir sobrevivendo perante os outros.
comptine d’un autre été
Está um dia de derreter preguiças. Yann Tiersen parece-me escolha suficientemente dormente:
de morrer lambido pela Primavera
O sol empanturrando-me as pálpebras. Depois a moleza da imprudente refeição a fazer agora com que se escorreguem abrandecidas as mãos sobre a cava do volante. E as linhas rectas da estrada engolindo horizontes pasmados, toque-toque, em ritmos entorpecidos a zunirem, traiçoeiros, os ruídos do sono. E assim sigo rolando, algures pelo meio da primavera, enrolando, que a vida aqui já quase me leva em estrofe onírica. Raia esculpido de alfinetes este sol empinado e bem sei que a semeada de anteontem agradece de lá do pátio, que por lá se empinam agora os viçosos caules nessas vigorosas alavancas de luz e que outros mais velhos sobrevividos do inverno avivam e agitam os tons vivaces da nova adolescência. Mas isso são razões do lazer, do além-dever, do mundo e do prazer, da natureza sossegada onde brinco e das minudências do fim do dia.
E teimo em lançar-me por este sol que lá desejo e até aqui se amanhã, mas não hoje de fronhas fulgentes para mim, que hoje tenho de seguir rolando, mesmo que ele assim, com lâminas de luz atravessadas na garganta deste desgastado náutilo da estrada. Que já prestes estive morrendo, naquela curva de ainda agora, e depois ali que ai quase me desaguava naquela luz. E os rails riscando-se a toda a mecha e continuo eu, esgueirando-me por entre eles, ainda sobrevivente, de volante na mão, as pálpebras, amolecidas, fingindo parar a velocidade e desafiando a primavera.
Abril de 2006
Bergamo – la città alta
Desta última viagem por Itália volto mais convencido que nunca que Milão é a cidade das mulheres mais belas do Mundo. Mas apesar da sua monumentalidade – que também de pedra e cimento a tem – há qualquer coisa nela que me enfada depois de um ou dois dias de trajectos galgados ao acaso. Há um trote consumista que gira incansavelmente à volta da incontornável “Duomo” e do seu sopé de lojas, uma espécie de exaltação turística, que me irrita. Não saberei explicar melhor, mas Milão, sendo essa capital das mulheres bonitas e território de tão extraordinárias edificações históricas, e apesar disso, nada me diz.
Por isso, a meio do terceiro dia e já dispensado da missão que ali me levou, decidi lançar-me na Lombardia: escolhi Bergamo, de poucas referências para mim, quase ao acaso. Que maravilha! O contraste da sua tranquilidade quase campestre com o bulício daquela metrópole de onde fugira, os matizes quentes das suas construções a reclamar de vida e sentimentalidade contra os frígidos e apressados cinzentos milaneses, tudo ali sussurra uma natureza doce e alegre. Depois, ao fundo, eleva-se sobre uma enorme colina a sua Città Alta, de tons ocres, numa orografia de tal forma sedutora, assim alçada tão acima do horizonte plano do resto da cidade, que se insinua num chamamento irresistível mesmo para um turista tão acidental quanto eu.

Foi ali, finalmente, que desta vez pude voltar a vestir a pele de ‘viajante’, daquele que se mistura com o silêncio do mundo e se dá ao tempo sem pressa, sem querer saber de si, para se deixar mergulhar naquela calmitude rara, quase geológica, com que se deita a observar o seu redor. Há no monumental algo a que nos devemos deixar entregar para melhor o compreender, como se um braço invisível de tempo cósmico nos fosse rodeando e nos fosse amansando da pressa, serenamente, ali levando-nos a pairar, como mera partícula de gente, no admirar das obras que também o Homem, por vezes, faz concorrer com a natureza.
As mulheres de Milão são as mais bonitas do mundo, creio que já o terei afirmado, mas foi em Bergamo que me senti embolsar desta viagem. Que os sítios são como as pessoas – não basta que sejam belos, é preciso que nos façam sentir belos.

5 anos de emissão
É muita palavra junta, é muita alarvidade gritada, são muitas janelas escancaradas e demasiado tempo para tanto desmazelo do ego e contudo, ainda que neste espaço já quase moribundo, vou insistindo nesta rotina de me contradizer.
Pois que sirva este momento para deixar mais umas:
O mensageiro
Foi-se me a carne. Resumo-me a uma banca de escrita onde faço assentar as minhas ossadas depuradas da atrapalhação das emoções. Cresce-me o espírito e arriba-se a escrita, cuidada e asséptica, quase aritmética – a caneta volteia nas minhas falanges com uma habilidade treinada. E escrevinho coisas que vão já para além de mim, das minhas hesitações. Aperfeiçoo-as. Aperfeiçoo-me, quase até ao impossível que a escrita permite. E contudo, descarnadas, descarnado, já não há quem escute.
interrogações vocacionais
Precisava obter informação sobre:
- hipótese de estágios/voluntariado no Zoo de Lisboa para jovem de 16 anos
- escola de teatro/representação para um de 13 , preferencialmente no lado oriental de Lisboa
As informações relevantes serão remuneradas por futuro livre-trânsito no Oceanário de Lisboa durante um ano e um bilhete de camarote para estação no S. Carlos no ano de 2019



